Desenhando Futuros
26 Capitulo 26
Notas iniciais
Dormir não lhe tinha assistido de nenhuma maneira. Tinha muito sono quando chegou a casa e se deitou, mas os pensamentos não a deixaram descansar. Aquela segunda feira ia ser a pior em muitos dias.
Amanheceu e ligou para a empresa a dizer que não ia naquele dia. Desculpou-se consigo mesma de que ainda tinha muitas coisas para arrumar das mudanças. Tomou um banho quente e vestiu um fato de treino confortável para desencaixotar o resto das coisas que tinha para arrumar. Tinha sido um exercício muito produtivo inclusive para a sua mente que estava um autêntico caos.
Pelas quarto da tarde deu por ela sentada no chão da sala, encostada no sofá em cima da carpete a olhar fixamente para a mesinha de centro de sala que já brilhava. Tinha acabado de arrumar tudo e de limpar. Pela cabeça passaram-lhe imensas coisas, mas a principal foi a conversa que teve com o pai no dia anterior. Russell tinha-lhe dito directamente que aceitaria Rachel se ela fosse a sua escolha. Quinn não sabia lidar com isso, mas sabia menos lidar com a sua capacidade de controlar a felicidade que lhe invadia o corpo depois daquela conversa. O dia anterior tinha sido definitivo na sua vida, e ela não pretendia continuar a sofrer por isso.
Pegou no telemóvel, a medo, e ligou a Rachel. Precisava de ter uma conversa muito séria com ela, e sabia que seria naquele dia ou nunca. Agora ainda tinha a coragem misturada com o entusiasmo e a felicidade, mas se a realidade e o facto de ter de lidar com a sociedade lhe passasse pela cabeça naquela altura, perdia a confiança para o fazer.
— Quinn? — perguntou Rachel surpreendida mas com muita calma. — Está tudo bem?
— Imagino que te surpreenda o meu telefonema.
— Confesso que não estava à espera, mas sabes que me deixa feliz que me ligues.
— Nos últimos tempos não pareceu. — disse a loira quase num sussurro.
— Nos últimos tempos eu precisei de aprender a viver sem te ter na minha vida todos os dias.
— Estou a ligar para te convidar para vires jantar comigo hoje, na minha casa nova. — disse ela sem respirar. Rachel sentiu o coração disparar e fechou os olhos com força. Respirou fundo e Quinn ouviu do outro lado.
— É um jantar de grupo? Porque se te sou muito honesta prefiro não ir nesse caso. Acho que o de ontem chegou para as próximas semanas. — A loira riu-se com carinho, e Rachel percebeu que aquele riso era demasiado confiante para ser da Quinn do dia anterior.
— É um jantar de amigas. Tu e eu. Quero muito conversar contigo definitivamente sobre isto. — disse ela com a mesma confiança do riso e Rachel sorriu com alguma esperança.
— Sobre isto? — perguntou a estilista sem vergonha.
— Sim, sobre tudo o que está a acontecer na minha vida. E quero muito que vejas a casa que a senhora que me recomendaste me arranjou. Acho que vais gostar.
— Tenho a certeza que sim. A que horas me queres aí?
— Oito? — perguntou a designer com um sorriso rasgado.
— Combinado.
— Mando-te a localização por mensagem.
— Certo. Obrigada pelo convite, e até logo. — disse Rachel também a sorrir.
—x-
A confiança era aparente, porque o corpo de Quinn parecia gelatina quando ouviu a campainha tocar. Toda ela tremia e estava nervosa, e toda a coragem que tinha ganho com o exercício físico das arrumações, tinha ficado lá nas quatro da tarde naquele telefonema.
Abriu a porta e Rachel trazia uma garrafa de vinho na mão acompanhada de um sorriso carinhoso que iluminou a noite de Quinn. Ela não sabia como cumprimentá-la mas, como sempre, Rachel salvou o momento dando-lhe um pequeno abraço e um beijo na cara. Quinn sentiu o famoso arrepio na espinha, mas desta vez sorriu com ele.
— Obrigada por teres vindo.
— Obrigada pelo convite.
Quinn mostrou-lhe a casa, todos os pormenores dela e explicou-lhe algumas ideias que ainda ia pôr em prática.
— Gosto muito. Adoro a localização, e além disso é muito ampla e luminosa. Parabéns Quinn. — disse ela com um sorriso carinhoso.
— Obrigada. Realmente não sei se tinha acontecido assim se não fosses tu. — Rachel percebeu que ela não se referia só ao contacto da agente imobiliária, mas só acenou com a cabeça em concordância. — Encomendei Sushi, chegou 10 minutos antes de ti, e se não te importares vamos comer na mesa de centro da sala.
— Adoro pufs. Adoro sentar-me nessas coisas. — disse a morena divertida.
Sentaram-se nos dois pufs, um em frente ao outro no centro da sala, e começaram a jantar. Rachel estava à espera de saber o que queria dizer Quinn, mas ela perdeu a coragem e não dizia nada.
— Então? — pergunta Rachel impaciente mas com um sorriso.
— Então o quê? — responde Quinn simpática.
— Não me digas que me convidaste para jantar para me convidar para tua madrinha de casamento com o George. — disse Rachel provocativa mas divertida. Quinn riu-se e respondeu com a maior naturalidade do mundo.
— Como sabes? Mas pela tua reacção não vai ser difícil de te convencer a aceitar. — Rachel perde o sorriso de maneira automática e Quinn solta uma divertida gargalhada. — Mereceste por detestável. — respondeu a designer fazendo Rachel revirar os olhos e depois fixar o olhar nela.
— Esse papel é teu, não meu. — responde Rachel com a mesma intensidade no olhar. Contrariamente ao que ela esperava, Quinn susteve-o e ficou a olhar para ela da mesma maneira. A estilista não conseguiu decifrá-lo, mas Quinn decidiu dizer o que lhe passava pela cabeça naquele momento, sem medos nem pavores.
— É inacreditável como tu tens o poder de cativar as pessoas. Elas rendem-se a essa tua postura. Ainda me hás-de explicar como conseguiste conquistar o meu pai?! — disse a loira num tom de voz relativamente baixo mas perceptível. Rachel sorri e sem nenhum descaramento responde-lhe.
— Realmente preferia conquistar a filha. — Quinn baixa a cabeça imediatamente e começa a brincar com as unhas, mas um pequeno sorriso lhe nasce nos lábios. Rachel não chega a perceber esse sorriso. — Já me calei. Vou ficar quieta porque não quero ver uma cena igual à daquele dia.
— Traumatizou-e não foi?! — perguntou a loira agora com um sorriso triste. — Eu percebo que foi uma cena absolutamente infantil e ridícula. Aliás, depois disso tu não voltaste a procurar-me mais, e eu percebi perfeitamente. — Rachel franziu a testa, mas antes de poder dizer alguma coisa ela continuou. — Só que realmente Rachel, eu acho que devias ver a coisa como um momento de fragilidade meu. Muito pouca gente me viu chorar na vida.
— Desculpa Quinn, acho que estás confusa. — disse ela em modo de esclarecimento. — Primeiro aquilo que eu vi não foi um momento infantil nem ridículo. Ridículo é que tu o chames assim. E não me afastei de ti por isso, afastei-me porque achei que te estava a fazer mal, e no final ia acabar por me fazer mal a mim. E segundo, mas não menos importante, não vi momento de fragilidade nenhum ali, vi sim um momento de descompressão e senti-me responsável pelo teu mal estar. — disse a morena com toda a honestidade que lhe cabia.
— Não quero que te sint... — mas Rachel interrompe.
— Eu é que não quero que tu te sintas na obrigação de calar seja o que for, e por isso prefiro dar-te espaço. — Quinn sentiu outro frio na barriga, mas agora de medo. Ela não queria que Rachel se afastasse de novo. Naquele momento ela queria Rachel o mais próxima quanto possível, e tinha de desenterrar a coragem das quatro da tarde rapidamente ou aquele frio na barriga transformava-se em facada profunda. A sua consciência já estava a fazer pressão nesse sentido.
— Tens razão quando dizes que o George não devia ser perdido nem achado nesta história. Eu sei que o estou a prejudicar. — diz Quinn mudando o rumo à conversa.
— Essa é a função dele na tua vida. — responde Rachel tranquila.
— Isso é um bocadinho frio vindo de ti. — acrescenta Quinn com um sorriso.
— As pessoas passam sempre na nossa vida com uma função Quinn. A do George é a de te fazer perceber o que queres realmente. Ou então é o erro da tua vida. — diz Rachel com calma. Quinn fixa o olhar nela sem medo e não o retira, Rachel devolve-o e sustém-no. Não eram preciso palavras, mas Quinn moveu os lábios num sussurro.
— Tenho medo. — e Rachel inspirou com força ainda com os olhares conectados e no mesmo tom respondeu.
— Eu sei meu amor. — Quinn prendeu a respiração e continuou a olhar para ela por mais três segundos, até que todos os músculos do seu corpo estavam a perder as forças e a sua mente obrigou-a a lutar contra eles.
— Desculpa. — diz a loira de repente enquanto se levanta com alguma pressa. — Vou à cozinha buscar água. — e rodeia a mesa em direcção à cozinha quando ouve Rachel chamá-la enquanto se levanta. A designer pára de costas para a morena e sente que ela está relativamente perto dela.
— Por favor, trás em copo e não nos olhos. — diz Rachel com amor enquanto lhe agarra na mão com carinho. Quinn fecha os olhos com força e são quatro da tarde de novo. Mas as quatro da tarde bateram com fogos de artificio como banda sonora, e não foram borboletas, foi toda a vida selvagem que se instalou na barriga de ambas quando Quinn ganhou de coragem e de repente se virou para Rachel e a beijou.
Não foi um beijo desesperado, foi casto e com amor, mas Quinn perdeu-se no momento em que sentiu os braços de Rachel rodeá-la e apertá-la contra ela. A estilista apertou-a com força enquanto inspirava, como se a tivesse a respirar, como se a tivesse a prender e não a largasse mais. Ela terminou por deixar cair uma lágrima, que se misturou naquele beijo e fez Rachel deslizar as mãos até à nuca de Quinn e encostar a testa dela à sua separando por poucos milímetros as bocas. Quinn não conseguiu abrir os olhos, mas Rachel não conseguiu não olhar para ela com um amor profundo. Quando a segunda lágrima ia escorrer na cara de Quinn, Rachel agarrou-a com os seus lábios e deixou um beijo na maçã do rosto dela, voltando de imediato à posição anterior. Estiveram assim um bocadinho, até Quinn abrir os olhos com medo. E Rachel sem ele, voltou a deixar um beijo nos lábios dela. Mas este foi molhado, e foi aquele que marcou a sucessão de vários a partir dali.
Quinn estava a descobrir um mundo inexplorado, e Rachel tinha a certeza que não existia mais ninguém no mundo com quem quisesse partilhar aquele sentimento. Primeiro os beijos foram com amor e dor, depois tornaram-se apaixonados, e já a caminho do quarto, quando Quinn sente a sua língua roçar na da morena, tornaram-se molhados e desesperados. O percurso até à cama tinha sido mais lento do que o esperado depois de tanto tempo a aguentar aquela sensação de impotência, mas quando ambas perceberam que tinham a cama a poucos centímetros, pararam de se beijar e olharam uma para a outra com paixão. Rachel não podia avançar antes de ver o olhar de Quinn, e percebeu naquele momento que era desesperado. Desesperos levam a arrependimentos, e esse era o risco que a morena jamais quereria correr nesta situação. Decidiu usar o seu charme para perceber como seguir dali para a frente. Com um sorriso sarcástico mas cheio de amor, e com o tom correcto de despreocupação e diversão, disse o primeiro que lhe veio à cabeça.
— Admite! Estavas à espera de ter um apartamento só teu para me levares para a cama. — Embora soubesse que era um risco, esse risco só durou um segundo. Quando Quinn processou o que ela tinha dito e em que tom, entoou uma gargalhada e respondeu com a mesma postura.
— Foste tu que disseste que eu tinha de ter um apartamento só meu para poder controlar a minha vida. — Rachel revirou os olhos na brincadeira e ia responder mas não conseguiu. Quinn encostou os lábios nos dela e sussurrou com um sorriso: — Podes ir embora se quiseres. — Rachel beijou-a de novo e sem se separar dela, no mesmo volume de sussurro e com os lábios nos dela respondeu-lhe.
— Nunca.
Caíram por terra todos os preconceitos que Quinn podia ter mal resolvidos quando sentiu os lábios de Rachel percorrer o seu corpo. Aquela mulher tinha um efeito nela que a apavorava, mas também os seus medos ficaram à porta do quarto. Na sua cabeça até podia ser um erro, mas aquele erro ela queria cometer sem culpas. Rachel por sua vez, sentiu o coração sair pela boca cada vez que sentia as mãos de Quinn tocar-lhe. Beijá-la era um prazer que lhe tinha sido proibido por demasiado tempo e não pretendia de nenhuma maneira passar mais nenhum dia da sua vida sem o sentir. Ia ser difícil, era consciente disso, e caiu-lhe uma lágrima com pensar que no dia seguinte Quinn se podia arrepender daquilo, mas ao mesmo tempo, nasceu-lhe uma força interior que lhe tinha morrido há poucas semanas para lutar por ela contra todas os destinos.
No raio de 100km à volta daquele quarto, não seria possível existir alguém que no dia seguinte tivesse pouca sorte. A explosão de amor foi tanta que abriu uma cratera terrestre que o sustentou de raiz.
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