Desencontro
1 Sobre desencontros
Notas iniciais
Lembrando que essa fic não tem nada a ver com a história de formação do Gazette. Qualquer semelhança é mera coincidência!
Desencontros
1998
- Suzuki-senpai, o que eu queria dizer é... é que... – Eu encarava nervosamente o loiro diante de mim com o estômago revirando, sem saber se o que eu estava prestes a dizer era sensato ou certo. Não sabia qual seria sua reação, eu nem mesmo o conhecia tão bem assim. O que eu sabia sobre ele era que ele era um amigo de Uruha e que era, decididamente, o homem mais lindo que eu já vira. E que eu estava irremediavelmente apaixonado por ele havia pelo menos seis meses. – É que eu acho que estou gostando de você...
Meus olhos encaravam intensamente os deles, desejando que ele esboçasse qualquer reação por ali. Não aconteceu, não chegou nem perto disso. Seu rosto continuava rígido e impassível, ele não parecia prestes a me dizer ou fazer qualquer coisa, apenas me encarava de volta com uma frieza e indiferença que me fizeram pensar que eu havia feito a maior besteira de toda a minha vida.
O que não era mentira.
- Veja... Uhn... Ruki? – Ele começou, meio incerto, e meu peito se apertou. Ele mal sabia meu nome, como podia retribuir meus sentimentos? Eu devia ter pensado nisso. Devia ter me aproximado primeiro, qualquer coisa assim. O que eu tinha na cabeça? Por que eu precisava ser tão impulsivo? Não era como se ele fosse sair correndo caso eu não me confessasse com urgência. Burro, burro, burro... – No momento, eu... Uhn. Bem... – ele parecia bem desconfortável, mas, mesmo assim, inabalável. Sua face não se alterava. – Eu não gosto de você – ele disse depressa, e logo acrescentou: — Dessa maneira.
Eu não preciso relatar com detalhes o drama adolescente que se seguiu, eu acho. Não demorou dois segundos inteiros e eu irrompi em lágrimas desesperadas e antes que a mão que ele estendeu para me tocar me alcançasse, eu saí correndo como louco para fora da sala de aula vazia em que estávamos em direção a um banheiro vazio.
Sabe, quando se tem dezesseis anos você acha que aquele é o fim do mundo, que o fato de o cara que você supostamente ama não te amar de volta é motivo para desistir de viver e você acha que não há razão para acordar de manhã. O sentimento é realmente absurdo, e não é implicância dos mais velhos quando dizem que nessa idade tudo parece mais acentuado – principalmente a dor. Eu chorei mais e por mais tempo do que provavelmente faria se tivesse mais idade, passei meses quase em depressão, pensando em Akira como se ele tivesse morrido apenas porque ele não gostava de mim.
Naquele tempo eu achava que nada poderia ser pior que a rejeição.
Mas, claro, eu estava enganado.
2001
Nossa banda estava começando, tínhamos apenas algumas semanas de ensaio. Eu, já com meus dezenove anos, me tornara vocalista a convite de Kouyou, que passou séculos me ligando desesperadamente dizendo que eu era o único que podia ocupar o cargo. Bem, eu não queria dividir o mesmo espaço que Akira novamente, mas achei que estava sendo idiota. Já três anos eram passados e, apesar de um sentimentozinho teimoso ainda habitar meu coração rejeitado, eu não era mais um adolescente loucamente apaixonado e pronto para cometer uma loucura.
Acho que Kouyou nunca soube do ocorrido. Eu, pelo menos, nunca contei, nem mesmo havia lhe dito que gostava de Akira. Este, por sua vez, apesar de muito amigo do mais alto, me parecia tão reservado que era até esquisito imaginá-lo comentando coisas de sua vida pessoal com outras pessoas. Desse modo, acho que ninguém nunca soube do que se passou naquele fatídico dia na sala de música do colégio, após a última aula.
Eu e Akira claramente nos evitávamos nos corredores, no entanto. Não que antes nos falássemos com freqüência, nada disso, mas também não evitávamos a todo custo até mesmo trocar um olhar. Mas ninguém pareceu perceber, pelo menos nada foi comentado comigo, e eu achei melhor assim. Aquele foi o último ano dele e de Kouyou no colégio e, depois daquele, eu não mais o havia visto, à exceção das poucas vezes que eu saía com Kouyou e ele o encontrava na rua.
Por muito tempo Kou vinha falando em montar uma banda com Akira, e eu, claro, nunca me manifestei a respeito. Eu não sabia tocar nenhum instrumento nem queria entrar numa banda com o loiro. Mas logo os dois conseguiram recrutar um baterista, o Yune, e só faltava o vocalista – era pedir demais ambicionar por um banda com músicas complexas o bastante para duas guitarras.
Eu cometi a burrada de ir a um Karaokê com o Kouyou e, claro, depois de me embebedar um pouco, fui inventar de cantar. Ele quase me arrancou do palco, gritando comigo que esse tempo todo eu estava lá e nunca havia dito a ele que podia cantar.
Bem, e foi isso que levou àquele segundo dia fatídico.
Já estávamos ensaiando juntos havia duas ou três semanas e estávamos todos satisfeitos com o progresso que fazíamos. Era uma quarta-feira, eu lembro bem, na casa do Yune, quando estávamos todos esperando por Akira para começar a ensaiar. Eis que ele entra no porão de mãos dadas com alguém, um homem. O rapaz era mais baixo que ele, tinha cabelos negros e olhos de mesma cor. O rosto era infantil, ele era até muito bonito, mas, é claro, eu não admiti isso naquele momento. Eu estava me mordendo de ciúmes.
- Pessoal, esse é o Yuuki. Algum problema se ele assistir ao ensaio?
Claro que eu queria colocar mil empecilhos para ele estar ali, começando por ele estar roubando o meu homem, mas obviamente não o fiz. Todos manifestaram respostas positivas e sorridentes, e o rapaz, um pouco menos tímido, foi sentar-se num sofá enquanto nós nos preparávamos para ensaiar.
A mãe de Yune apareceu algumas horas depois com uma bandeja de lanche, dizendo que deveríamos dar um tempo. Obviamente todos concordaram e foram se acomodando pela sala com um pedaço de bolo, e Akira sentou ao lado do garoto.
Ele passou um braço sobre os ombros dele, sussurrou algo no seu ouvido, que o fez rir, e depois beijou sua têmpora. Meu estômago afundou e o bolo em minhas mãos pareceu tão menos apetitoso que quase senti vontade de jogá-lo fora. Mas então veio a pior parte. O rapaz virou a cabeça em direção a Akira e, discretamente, roubou-lhe um selinho rápido.
Depois disso eu não poderia suportar nem mais um segundo ali, olhando para eles e sabendo o que se passava. Eu me levantei imediatamente e, dizendo uma desculpa esfarrapada para os outros, saí correndo pelos degraus em direção à porta, querendo sair dali antes que as lágrimas teimosas começassem a rolar pelo meu rosto.
E eu jurei que aquela era a última vez que eu chorava por ele.
2002
O nosso primeiro show havia acabado de terminar e eu estava absolutamente eufórico, sem nem conseguir respirar direito. Havíamos tocado quinze músicas para um grupo de não mais que quinhentas pessoas num pequeno festival de bandas, mas a sensação havia sido maravilhosa e, além disso, eu realmente achava que eles haviam gostado de nós.
Afoito e respirando irregularmente, fui o último a entrar no pequeno camarim ao qual tínhamos direito por mais alguns minutos. Todos dividíamos sorrisos gêmeos e excitados, comentando animadamente sobre o show. Eu estava sentado perto de Reita – nome artístico que Akira havia adotado, como todos nós – com quem eu havia desenvolvido um bom relacionamento durante o último ano. Entretanto, ele andava meio estranho comigo havia alguns meses meses, o que me deixava meio preocupado.
- Ruki! – Eu levantei os olhos e vi Aoi na porta. Logo um sorriso grande brotou em minha face e eu corri em direção a ele, me pendurando em seu pescoço. Aoi era meu namorado havia três meses e meio, e era guitarrista de outra banda que se apresentaria naquela noite. – Você esteve ótimo, amor, eu quase me esgoelei de gritar, você me viu lá embaixo?
- É claro, você estava na primeira fila – eu respondi com uma risadinha, descendo do seu colo e deixando que ele me beijasse os lábios por um momento. – Você gostou mesmo, não acha que fomos péssimos?
- Péssimos? Vocês foram incríveis! Olha, estou até com vergonha de me apresentar depois de vocês! – Um sorriso lindo tomou conta do seu rosto e eu o abracei com força, agradecido.
- Ora, eu tenho certeza que você vai ser o melhor guitarrista da noite. Sem ofensas, Uruha! – Gritei, rindo, por cima do ombro, e o loiro fingiu me lançar um olhar feio antes de sorrir.
- Uhum, certo – ele disse como se não acreditasse no que eu estava dizendo. – De qualquer forma, como futuro melhor guitarrista da noite, mereço que você vá dormir comigo hoje, não? Meu apartamento solitário clama por você! – Ele falou dramaticamente, e eu juntei nossos lábios.
- Oh, eu não posso permitir que meu namorado fique sozinho em sua noite de glória, não é verdade? – Eu disse também com muito drama, antes de me aproximar do ouvido dele. – Vamos comemorar a noite toda.
Yuu ia responder à provocação quando todos ouvimos a porta do camarim bater com força e olhamos assustados para ela. Akira não estava mais lá, nem o seu baixo, e todos nós nos encarávamos com alguma confusão.
- O que deu nele?
2003
Estávamos passando por um momento de grandes reviravoltas na banda. Nós finalmente decidimos que precisávamos de outro guitarrista e de um baterista novo – Yune decidira que voltaria a estudar. Quanto ao guitarrista, não tivemos muito trabalho: Aoi, ainda meu namorado, era sem dúvidas a melhor opção. A banda dele havia acabado tinha algum tempo, ele era um ótimo músico e conhecia nosso estilo. Além, é claro, de se dar bem com todos nós – não tanto com Reita.
O baixista, aliás, era bastante hostil com o guitarrista moreno, às vezes. Sempre fora, mas depois que o moreno entrou na banda pareceu piorar. Aoi garantia que não tinha nada contra o loiro, mas a recíproca não era verdadeira, pois Reita decididamente tinha algo contra ele e não fazia questão de disfarçar. Meu relacionamento com o baixista se distanciou um pouco por causa disso, por sinal. Eu não gostava do modo como ele tratava meu namorado e muitas vezes entrávamos em discussões acaloradas, como aconteceu na última noite de ensaio com Yune, quando só nós dois e o baterista já estávamos no porão.
- Você age como se Aoi fosse uma pessoa odiosa ou como se ele tivesse feito algo de mal a você, quando isso não é verdade! Você não deu nenhuma chance a ele, nenhuma chance de conhecê-lo, e já saiu fazendo julgamentos e tratando-o mal! Como quer que eu não me meta nisso? Ele é meu namorado, membro da banda, e você o trata como cachorro!
- Eu o trato como ele merece e já disse que você não deve se meter nisso, Taka, por favor! Minhas desavenças com ele não têm nada a ver com você, e eu não quero discutir contigo, você sabe que eu gosto muito de você e...
- Então comece a tratar meu namorado um pouco melhor, porque desse jeito eu é que vou começar a me irritar com você e vai ser impossível mantermos uma amizade assim!
- Eu vou tratá-lo como achar que devo! E vou ficar realmente desapontado se você deixar de falar comigo por causa de um namorado! Nos conhecemos desde o colégio e você o conhece há quanto tempo? Um ano?
- Ah, eu não me lembro de você me dar tanto valor assim no colégio, Reita! Na verdade, eu me lembro bem do contrário, não é? – Eu retruquei, exaltado, meu coração batendo rápido ao me lembrar daquele dia horrível. Ele pareceu também se abalar com a menção daquilo. Havia um pacto mudo entre nós sobre nunca falarmos sobre o episódio. Vinha sendo assim desde que nos reencontráramos dois anos antes.
- Eu sei, e eu me arrependo por isso, Taka. Não sabe o quanto – Ele disse levemente mais baixo, antes de retomar o tom de discussão. – Mas o que eu sinto por você não se estende ao seu namorado, então...
A discussão seguiu por mais quinze minutos, quando Uruha chegou e nos fez parar. Reita tinha um olhar mortalmente ofendido no rosto, pelas coisas que eu havia lhe dito sobre o fato de Aoi ser mais importante para mim do que ele, e que portanto ele deveria parar de implicar.
Claro que aquilo não era verdade. Eu amava Aoi, de verdade, mas o sentimento estúpido que eu tinha por Reita continuava lá, como sempre. Parecia simplesmente que ele era o homem que eu amaria pelo resto da vida, independente de qualquer coisa. E me doía imensamente ver como estávamos afundando em nossas discussões.
2005
Parecia absolutamente absurdo o que havia acontecido nos últimos dois anos. A banda saiu praticamente do completo anonimato para a fama nacional num piscar de olhos e aquilo deixara a todos nós ao mesmo tempo eufóricos e atordoados.
Conseguimos o novo baterista pouco tempo depois do último ensaio com Yune, seu nome era Uke Yutaka, Kai. Uruha e Reita, para a surpresa de todos nós, começaram a namorar poucos meses depois daquilo e, menos que duas semanas depois, eu e Aoi terminamos pacificamente, decidindo que não havia mais amor entre nós.
A banda prosseguiu sem maiores problemas dali, Aoi e Reita pareciam até se dar um pouco melhor e, agora que eu estava solteiro novamente, voltei a me deprimir em ver Reita com outra pessoa e imaginando que nunca iria tê-lo. Meu coração batia despedaçado quando eu via as trocas de carinho entre ele e Uruha que, por serem amigos havia tanto tempo, compartilhavam de uma intimidade invejável.
Não foi surpresa quando, em 2004, os dois anunciaram que iriam morar juntos. Foi justamente quando começamos a fazer sucesso, então achei por bem me afundar no trabalho, na composição de letras e no que mais pudesse me distrair. Naquele ano eu tive uns três namorados, cada um não durava mais que dois ou três meses. Eu não conseguia sentir mais nada que atração ou desejo sexual por ninguém, só tinha olhos para Reita. Acho que me desesperou um pouco vê-lo morando com outra pessoa porque isso, basicamente, queria dizer que eu não tinha mais chance nenhuma. Que ele encontrara a pessoa certa, e ela não era eu.
Como quem não quer nada, eu perguntara a Uruha como, depois de tantos anos, ele e Reita foram se descobrir apaixonados. Ele pareceu bem sóbrio ao me dar a resposta, não soou como um idiota perdido de amor. Parecia muito maduro.
“Bem, eu sempre tive uma certa atração por Reita, e ele por mim. Mas nós sempre evitamos isso em nome de nossa amizade, tínhamos medo de ficarmos juntos e, depois, não ser a mesma coisa. Acho que só por isso não ficamos antes. Em 2003 o Akira estava passando por uma fase muito difícil, não sei por que, então nós saíamos muito juntos para beber, você sabe que eu não recuso um drink. E, bem, numa dessas acabamos acordando na mesma cama, e não foi como pensamos que seria, constrangedor. Foi até engraçado. Nós ficamos tão confortáveis que começou a acontecer com mais freqüência, até que decidimos oficializar a relação.”
Então, eu concluí, eles não se amavam. Mas Uruha riu gostosamente, sacudindo a cabeça depressa.
“É claro que nos amamos, baixinho, por que outro motivo eu aceitaria aturar o mau-humor matinal daquela criatura?”
Era tudo de que eu precisava saber e mais do que eu precisava ouvir para passar duas semanas seguidas me entupindo de chocolate. O fato era que eu já não chorava, como havia prometido. Parecia-me idiota fazer aquilo, e eu não tinha essa vontade. Meu amor por Reita parecia caso perdido e não parecia restar nada se não observar sua vida maravilhosa com outro homem, enquanto me roia de ciúmes por dentro.
Eu me perguntava se seria capaz de sentimentos como aquele que eu tinha por ele por outra pessoa. Parecia uma idéia absurda, visto que tantos anos tinham passado e nada havia mudado dentro de mim. Decidi acreditar que a culpa era dos outros, não minha. Se eu não conseguia me apaixonar por ninguém, a culpa era dos incompetentes que não conseguiam me despertar sentimentos.
- Nee, Ru, situação muito complicada essa sua – a voz meiga e suave de Kai invadiu meus ouvidos, enquanto ele acariciava meu cabelo. Yutaka se mostrara uma pessoa incrível desde que havia entrado na banda e logo ficamos muito amigos. Ele me pareceu a pessoa ideal para contar todo aquele drama que já estava me matando, e agora eu estava no colo dele, remoendo todos os acontecimentos em relação àquilo desde 1998. Sete anos. – Eu queria muito poder te ajudar, queria mesmo, para ver você mais felizinho.
- Arigato, Kai, mas acho que ninguém pode me ajudar. Acho que preciso mesmo é esquecê-lo, porque isso já está ficando mais que ridículo, isso sim – respondi, cobrindo o rosto com uma almofada, e seus dedos pousaram sobre meu cabelo.
- É, Ru, talvez seja o melhor. Acho que não é saudável você ficar se prendendo a ele dessa forma. E aquele rapaz? Asami-san? Vocês estavam saindo, não é?
- É... É, estamos. Acho que... Posso dar uma chance a ele, parece tão apaixonado. Queria poder me apaixonar de volta. Droga... – Murmurei, irritado, escorrendo do colo de Kai.
2008
Os últimos anos haviam sido bem conturbados. Em 2005 eu comecei a namorar Asami Shuurei, um homem mais velho e maduro que se dissera apaixonado por mim. Ele era diferente de todos nós, muito centrado e contido, mas parecia adorar meu jeito meio infantil e espalhafatoso e, em 2006, me convidou para morar com ele. Eu aceitei, pois havia decidido terminantemente esquecer Akira, e ele parecia a melhor válvula de escape possível. Carinhoso, romântico e paciente, eu provavelmente não encontraria outra pessoa que me agüentasse.
Em 2007, Reita e Uruha entraram numa verdadeira e interminável crise conjugal, que começou no início do ano e só terminou em Setembro, quando os dois se separaram. O abalo que aquilo causou fez o rendimento da banda cair, mas ninguém estava reclamando. Os dois mal se falavam e, apenas em dezembro daquele ano, fizeram as pazes entre lágrimas e pedidos de desculpas.
2008 começou um pouco mais tranqüilo. Kai começara a namorar Myavi, um cara que ele conheceu na PSC. Meio maluquinho, ele, mas definitivamente uma boa pessoa que logo ganhou minha amizade e minha afeição.
Em Junho, Shuurei decidiu terminar comigo. Eu não o culpava. Ele me acusou de não estar verdadeiramente com ele em momento nenhum, disse que havia notado aquilo no começo, mas acreditava que podia me mudar, que podia me fazer apaixonar-me por ele, mas não conseguiu. Além disso, eu vivia viajando em turnês e, quando não, ficava trabalhando duro em ensaios e novos CDs, quase nunca tínhamos tempo juntos, uma vez que seu trabalho também era bastante puxado como empresário.
Ele se mudou do nosso apartamento, mas não houve uma briga feia entre nós. Ele saiu magoado comigo e eu me odiava profundamente por isso, detestava o fato de ter magoado um homem tão maravilhoso e atencioso como ele. Ele merecia alguém muito melhor que eu. E eu desejava, profundamente, que ele o encontrasse.
Em Setembro, algo estranho aconteceu, e eu cheguei à conclusão de que Kouyou era uma verdadeira caixinha de surpresas. Ele e Aoi anunciaram namoro, deixando a todos felizes, mas embasbacados. Reita e eu, até aquele momento, desde que ele anunciara o casamento com o Uru anos antes, mantínhamos um relacionamento bem formal, nada mais que isso. Acho que nos sentíamos desconfortáveis na presença um do outro. Eu, por amá-lo; e ele, eu deduzi, provavelmente porque ainda sabia disso.
Porém, tudo mudou exatamente naquela sexta-feira chuvosa em que Aoi e Uruha falaram do namoro.
O ensaio havia acabado e eu estava exausto, querendo ir para casa dormir com aquele barulho de chuva do lado de fora do apartamento. Eu desci pelas escadas, já que estávamos apenas no segundo andar, e fiquei embaixo da cobertura da PSC, olhando tristemente para fora. Logo naquele dia eu havia ido de carona com Kai, mas não queria incomodá-lo, pois era sexta e ele provavelmente sairia com Myavi.
Decidi pegar um táxi, mas, antes que saísse para a rua, senti uma mão segurando meu braço e me virei para encontrar Reita como o mesmo ar sério de sempre, me impedindo de ir.
- Quer uma carona? Kai disse que está sem carro.
- Ah... É, mas não precisa se preocupar, eu pego um táxi...
- Não, não precisa. Vamos, eu te levo em casa, não vou fazer nada mesmo – e, antes que eu pudesse retrucar, ele estava me arrastando em direção ao estacionamento da PSC, procurando pelo seu carro.
A viagem de volta foi constrangedoramente silenciosa. Nenhum de nós parecia ter nada a dizer e só ouvíamos o som do carro e o da chuva lá fora. Por sorte, minha casa não era longe e, vinte minutos depois, eu já estava em frente ao meu prédio, aliviado.
- Bem, muito obrigado, Reita. Acho que nos vemos segun... – Antes que eu pudesse terminar a frase, porém, a coisa mais extraordinária que eu podia esperar aconteceu.
Ele me beijou.
Por um momento eu achei que tinha imaginado aquilo, mas não: seus lábios estavam mesmo sobre os meus, quentes e macios, pressionando-os com um desespero que eu não compreendi. Seus dedos de ambas as mãos havia se emaranhado em meu cabelo e ele puxava meu rosto contra o seu, como se temesse que eu fosse me afastar.
Até parece que eu o faria.
Minhas mãos procuraram pelo seu corpo, qualquer parte, qualquer pedaço seu que eu pudesse tocar e me apoiar. Eu encontrei seus ombros e, embora o cinto de segurança do carro me impedisse de me aproximar muito, eu o abracei da melhor maneira que pude.
Sua língua invadiu minha boca naquele instante, quando ele percebeu que eu não faria esforço nenhum para me afastar daquele contato, e eu suspirei de prazer quando me dei conta do que estava acontecendo, o que eu esperava havia dez anos.
Meus olhos marejaram quando eu pensei naquilo, mas não deixei que as lágrimas rolassem, não podia desperdiçar aquele momento com isso, podia ser a primeira e última vez, então me obriguei a aproveitar e amar cada segundo.
Quando finalmente nos afastamos, sem fôlego, ele me olhou nos olhos com o mesmo desespero de outrora e começou a vomitar palavras.
- Isso foi para não correr o risco de ninguém mais te tirar de mim, nem vice-versa – ele informou, sem desviar o olhar. – Durante todos esses malditos anos houve alguém em nosso caminho, parecia que estávamos brincando de gato e rato. Sempre que eu pensava em me declarar, você aparecia com alguém. Então desistia e encontrava outra pessoa, e você voltava a ficar só. E quando eu estava só, era você que tinha outra pessoa. Eu queria ter feito isso muito antes.
- E-eu... Eu achei que... Não gostasse de mim e... er... – Eu estava literalmente sem fala, não sabia o que e como dizer, não sabia se queria. Minha cabeça estava girando e doendo, eu estava confuso, atordoado, meu coração palpitava e eu não sabia direito o que fazer.
- No colégio... Você... Você me deixou nervoso... Eu não o conhecia. E só depois eu fui reparar em você, mas já era tarde e nós nos afastamos por anos. Quando nos reencontramos, achei que já não gostasse de mim, talvez até odiasse, por isso arranjei outra pessoa. Mas quando vi que você parecia enciumado, pensei em ir atrás de você, mas então você começou a namorar o idiota do Aoi – ele bufou rapidamente nesse momento, o que me deu vontade de rir, mas não pude. – E depois eu comecei a namorar o Uruha, e você teve todos aqueles namorados, depois o Shuurei, enfim... Eu não sei mais o que você sente por mim, mas eu amo você. Queria ter dito antes, mas, bem, é isso. Estou dizendo agora – ele enfim passou a respirar normalmente, e eu passei os dedos pelos cabelos, chocado com aquela declaração. Merda, eu esperara tanto, tanto por aquilo...
- Reita eu... Eu... É que... – eu quase perdi a fala, mas aquele definitivamente não era o momento para aquilo. Eu me aproximei do seu rosto, toquei-o, e observei a reação que eu esperara dez anos atrás. Ele estremeceu. – Eu nunca deixei de amar você.
\"A sua lembrança me dói tanto
Eu canto pra ver
Se espanto esse mal
Mas só sei dizer
Um verso banal
Fala em você
Canta você
É sempre igual
Sobrou desse nosso desencontro
Um conto de amor
Sem ponto final
Retrato sem cor
Jogado aos meus pés
E saudades fúteis
Saudades frágeis
Meros papéis
Não sei se você ainda é a mesma
Ou se cortou os cabelos
Rasgou o que é meu
Se ainda tem saudades
E sofre como eu
Ou tudo já passou
Já tem um novo amor
Já me esqueceu\"
Desencontro — Chico Buarque.
Notas finais
Olha, Báh, a fic é bem doentinha, mas é de coração. OPKDAKODA ._. Te amo, mainha. (L)
E quanto aos outros, digo o mesmo: é doentinha, mas é de coração '-'
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