Desejos libertos
42 O visconde
Notas iniciais
A imponente porta branca da mansão do visconde permanecia fechada, mesmo com a segunda sequência de batidas que Sebastian aplicava no trinco de bronze preso à boca do leão também do mesmo material. Eu estava parado ao lado do mordomo, aguardando ser atendido, precisava falar com o visconde, ver se conseguia descobrir algo sobre esses festas estranhas e qual era o motivo das mortes cada vez mais esquisitas.
Os bailes continuavam, e provavelmente mais pessoas continuavam adoecendo. Aliás, isso era algo que me intrigava, onde estavam esses doentes? Haviam sumido? A causa desapareceu como por encanto sem que nós conseguíssemos descobri-la? Eram muitas as perguntas e poucas as respostas.
Bati, impaciente, a ponta da minha bengala no chão de ladrilho vermelho e então ouvimos passos do outro lado da porta. Logo uma criada, vestida com o costumeiro uniforme em branco e preto atendia a porta. Sebastian se adiantou.
_Bom dia, senhorita. Meu amo, o conde Phantomhive, solicita falar alguns minutos com o visconde — deu um pequeno sorriso que fez as bochechas da moça de uns vinte anos corar.
Bati minha bengala com mais força no chão, num aviso claro de que se ele tentasse “tirá-la do meu caminho” como fez com a enfermeira, ela iria parar bem fincada naquele pé demoníaco.
Sebastian fechou o sorriso e eu abri o meu, de leve e disfarçado. Olhei para a criada.
_Oh… sinto muito. Por que não avisaram antes que viriam? O visconde não se encontra no momento.
Sebastian olhou para baixo, diretamente para mim e eu fechei a expressão. Ele havia comentado que o melhor seria marcar uma reunião, mas eu queria que parecesse uma visita informal, apenas um jovem atrás de alguém mais velho que conhecesse as atrações da cidade. Respirei fundo, sem muita paciência para dar o braço à torcer de que ele tinha razão.
_Sabe onde podemos encontrá-lo? — perguntei.
_Bem… nesse momento ele deve estar no Clube Masculino.
Suspirei, lá não era exatamente um local agradável para ir, mas também não era um lugar indecente.
Na verdade, era um clube para os ricos de Londres gastar as suas tardes ociosamente ao invés de trabalhar. Lá podiam jogar cartas, dados, xadrez ou sinuca enquanto bebiam whisky e fumavam charutos. Era voltado mais para os senhores casados, tanto que me surpreendi um pouco por saber que o visconde estava frequentando o clube masculino, se bem que, ele deveria estar fazendo isso em busca de contatos, manter as aparências sempre foi uma preocupação grande entre os nobres e ter boas relações com gente importante era um dos requisitos para a manutenção do status.
_Agradeço a informação. — Sebastian acenou levemente com a cabeça — Será que poderíamos ma...
_ Isso não será necessário — interrompi Sebastian, acenando num agradecimento para a criada e então girando nos calcanhares, descendo os três degraus da pequena varanda de entrada.
Sebastian me acompanhou na descida.
_Não vai querer vê-lo, bocchan? — perguntou levemente curioso.
_Vou. Nós vamos ao clube — falei indo em direção à carruagem.
Ouvi Sebastian rir baixo e fechei a expressão. Ele não disse nada e eu também não, me limitando a segurar a mão enluvada, imaculadamente branca, para subir na carruagem e me sentar no estofado de couro vinho.
Minutos depois chegamos no Clube Masculino Para Lordes Ingleses. Sebastian parou a carruagem na frente e eu afastei a cortina da janela e dei uma olhada. Não parecia grande coisa, mas via-se as linhas clássicas do prédio em tons claros, mostrando que aquele local era destinado aos ricos. Não se era por conta da arquitetura da construção ou algo na atmosfera do local, mas aquele ambiente era para os endinheirados, e isso era claro à todos, tanto que algumas pessoas mais humildes atravessavam a rua para não passar em frente ao clube.
Sebastian abriu a porta e estendeu a mão.
_Tem certeza? Esses clubes são para homens mais velhos.
_E qual o problema? Está escrito que é um clube para lordes, não para velhos. Sou um lorde então eles não podem negar a minha entrada.
_Sim, mas você não é nem adulto ainda. Não irei me admirar se passar por situações constrangedoras — falou escondendo o risinho atrás dos dedos.
_Tch — lancei um olhar de desprezo e caminhei pelo passeio pavimentado, ladeado por ciprestes podados em lanças até a entrada do clube onde fui recepcionado por um jovem uniformizado, pela casa, se via que não pertencia à classe pobre, devia ser algum filho de um desses nobres menores, algum burguês.
_Seja bem-vindo, posso ajudar? — sorriu prestativo para mim, Sebastian se mantinha nas minhas costas, solícito.
_Vim conhecer o clube e aproveitar para falar com o Visconde de Druitt — ergui meus olhos para o rapaz loiro de sardas no nariz e maçãs do rosto e cabelo bem cortado.
_Claro, nosso clube é o mais famoso de Londres, prestigiado pelas melhores famílias. Os senhores da corte e os homens mais influentes desta cidade frequentam nossas atividades recreativas.
Rolei meus olhos nas órbitas, nem um pouco paciente para ficar ouvindo ele fazer propaganda de um clube para ricos desocupados.
_Sim sim — abanei a mão — Me diga onde ficam os salões de cartas, o Visconde deve estar lá.
O rapaz se postou na minha frente, impedindo o caminho, de uma maneira elegante, porém clara.
_Não seria melhor o senhor esperar por aqui. Temos um charmoso café na área externa, pode saborear o delicioso chocolate quente, é da marca Funtom, enquanto espera o Visconde sair.
Franzi o cenho e encarei o rapaz.
_Por que está me impedindo de entrar? O que vocês escondem aí nesses salões?
O rapaz gaguejou um pouco e um suave tom rosado tomou conta das faces.
_Não é nada, apenas acredito que vai achar tedioso os jogos daqui. São para senhores, além de que são para nobres — falou essa última parte bem mais baixo, como se não estivesse seguro se deveria ou não pronunciá-la.
Senti minhas faces corarem, de raiva e vergonha.
_Acha que não sou um nobre?
_Ah sim, tenho certeza que é — falou meio reticente.
“Cara impertinente” — pensei
_Acha que sou novo demais para ser um lorde? Já ouviu falar dos Phantomhive? — falei, baixo e mordaz, vendo a expressão do rapaz mudar um pouco. Claro, que ele havia ouvido falar dos Phantomhive.
Sorri de modo afiado.
_Sou tão nobre quanto esses velhos decrépitos e esses jovens gananciosos e preguiçosos que estão aí.- fiz sinal com a cabeça indicando o interior do clube — Mas se não acredita, aqui está a prova. — mostrei meu anel com a gema azul e o brasão da família, no dedo polegar.
O rapaz ficou lívido, depois vermelho pelo erro cometido.
_M-me d-desculpe, senhor Phantomhive. Claro que pode usufruir dos nossos jogos. Espero que se entretenha.
Sorri para ele, não um sorriso bondoso, mas mesmo assim, um sorriso.
_Claro. Nada me agrada mais do que um jogo de inteligência — pisquei um olho e o rapaz voltou a enrubescer, Sebastian bateu os dedos no tampo de mármore rose, olhei para ele de canto de olho e seus olhos estavam num tom mais avermelhados do que de costume.
“Será ciúme?” — pensei divertido, rindo internamente, mas não aguardei mais, entrei de vez no grande hall todo revestido de mármore e frisos dourados, no meio do hall havia uma mesa de madeira de lei e um grande jarro onde estavam dispostos lírios brancos. Em frente havia uma escada que levava ao piso superior e tanto à direita quanto à esquerda, abriam-se salões.
Virei para trás à tempo de ver o Sebastian encarando um recepcionista amedrontado.
_Aconselho-o a manter segredo sobre a vinda do senhor Phantomhive à este clube — murmurou ferino.
_C-claro, senhor — gaguejou o loiro.
_Sebastian! — chamei-o, ganhando sua atenção, então olhei para o rapaz — Sabe onde posso encontrar o visconde, ou terei que ir de salão em salão?
_Claro que não senhor — falou se recompondo, puxando as pontas do seu casaco — Provavelmente, ele está no salão verde. É só seguir no corredor à direita até o fim.
Acenei com a cabeça em agradecimento e tomei o caminho indicado. Meus sapatos faziam ecos juntamente com os do Sebastian no chão de pedra. Antes que eu pudesse entrar no salão, Sebastian me puxou pelo ombro e me encostou na parede ao lado da porta, de modo que ninguém dentro da sala nos visse.
_Não acha melhor, me dizer o que pretende? Como vou protegê-lo se não me põe à par dos planos? — falou baixo, me encarando sério.
Ergui meus olhos para ele.
_Não é nada de extraordinário, Sebastian. Apenas irei me aproximar, ou melhor, irei fazê-lo se aproximar de mim e tentar conseguir um convite para o próximo baile que ele der.
Sebastian parou um pouco, como se estivesse pensando.
_Eu poderia conseguir um desses. Precisaria apenas investigar um pouco e descobrir onde ele guarda os convites.
_Isso se for ele mesmo a entregar, não é? Porque pode muito bem ser algum outro nobre, lembre-se que às vezes os bailes são em casas diferentes — falei baixo, receoso que alguém nos ouvisse.
_Não me agrada o fato de você se aproximar desse visconde. Haja visto o que quase aconteceu com você naquele baile.
Estremeci, é claro que eu lembrava vividamente da vergonha de ter que me vestir de mulher e ainda por cima aguentar o assédio desse loiro abusado para cima de mim.
_Dessa vez será diferente, eu não me vestirei de mulher e ele nem vai se lembrar de mim.
_ Não sei se faz alguma diferença a roupa que o senhor vista. Acredito que ele não se importará se for homem ou mulher, ainda mais com esses seus traços delicados e esses cílios longos...aaf — Sebastian tossiu um pouco com o soco que eu dei no estômago dele, obviamente foi um golpe de sorte eu tê-lo pego desavisado, do contrário meu soco seria como cócegas nele.
_Tá me chamando de afeminado? — perguntei ofendido.
_Bem… — ele meneou a cabeça.
_Ahhh, chega. Vamos logo lidar com isso — falei e entrei no salão. Tem certas respostas que é melhor a gente nem saber.
O salão era amplo e dessa vez as cores predominantes eram o um creme muito claro, dourado e branco, quase me senti de volta ao palácio da rainha, cujas cores também eram branco e dourado.
Havia algumas mesas de pôquer e três de sinuca, estas mais próximas da parede da janela, os suportes fixados na parede exibiam as fileiras de tacos como se fossem lanças; nas mesas, cujo tampo era revestido por feltro verde escuro, estavam dispostas as bolas de sinuca em triângulos perfeitos. Estavam todas desocupadas, exceto por uma das mesas de pôker onde quatro homens conversavam baixo, em tom de confidência, porém via-se o tom animado das vozes. Três deles com roupas escuras e sóbrias, claramente mais velhos, se inclinavam sobre a mesa, em direção ao mais jovem. Poderia-se dizer que o loiro ali presente, que óbvio, era o visconde de Druitt, estava na cabeceira da mesa, porém esta era redonda. O que não mudava o fato de que ele dominava a conversa e era o centro das atenções dos senhores.
Entrei em silêncio e me sentei numa das mesas, relativamente próxima à do visconde, peguei um baralho e comecei a embaralhar as cartas montando um solitário, lancei um olhar de cabeça baixa para o loiro na outra mesa, a isca tinha sido mordida, ele me olhava fixamente, ignorando o que os outros três homens falavam animados para ele.
Não sorri nem nada, apenas abaixei meus olhos e continuei a distribuir as cartas na mesa; Sebastian se mantinha nas minhas costas, alguns passos afastados, em alerta.
_Meus senhores, como pudemos ser tão displicentes, olhem só — falou o visconde numa voz mais alta, obviamente para que eu pudesse escutar da minha mesa — Temos um novo companheiro no clube e nem nos demos conta — o loiro sorriu e juntou os dedos.
Ergui o meu rosto, fazendo uma expressão falsamente surpresa e tímida. O visconde levantou-se, afastando a cadeira de espaldar alto e ricamente estofada em veludo verde muito escuro, fazendo os pés do móvel arranhar minimamente o mármore.
_Quem é o rapazinho tão lindo? — perguntou vindo em minha direção.
_Sou o conde Phantomhive — tentei uma expressão animada e um pequeno sorriso, ocultei meu primeiro nome de propósito. Me levantei, afastando um pouco a cadeira.
_É um prazer, conde. Sou o visconde de Druitt — ele arqueou uma sobrancelha e estendeu a mão para mim.
_ O prazer é meu, visconde. Faz tempo que queria conhecê-lo — apertei a mão dele, notando que ele também não havia dito seu primeiro nome.
_Verdade? — sorriu, apertando mais meus dedos — E qual seria o motivo?
Abaixei os olhos, fingindo timidez. Não que eu não a tivesse, mas tudo aquilo era um fingimento.
Puxei minha mão, mantendo-a com os dedos encolhidos junto ao peito.
_Ah… é que sua fama é grande. Fiquei sabendo que é muito popular e que sabe exatamente como se divertir em Londres.
O sorriso do loiro aumentou mais.
_Sim, pequeno passarinho. Isso é uma verdade.
Corei de verdade ao ouvir como ele me chamou, mas por outro motivo: raiva. Raiva essa que eu engoli, mais um sacrifício necessário.Me lembrava muito bem de que ele me chamava de pintaroxo naquele baile, desejei ardentemente que isso não se repetisse.
_Ora… não me chame assim, visconde… — abaixei o olhos alguns segundos e voltei a encarar o visconde — Você poderia me indicar quais bailes são os melhores?
Fiz uma expressão interessada e inocente.
_Claro, claro — respondeu e sentou-se na cadeira ao meu lado, ignorando os homens da outra mesa. Me sentei também e, se não me engano, pude sentir a aura pesada do mordomo atrás de mim — Existem os bailes do clube de campo e os da madame Rottembery.
Eu conhecia esses bailes, todos os anos recebia os convites para eles. Eram bailes inocentes, que se iniciavam de manhã ou na metade da tarde e terminavam cedo da noite. Normalmente eram frequentados por toda a família.
_Mas esses bailes são praticamente para crianças — dei um pequeno sorriso meio de lado — Eu estou em busca de algo mais divertido.
Ele sorriu mais, porém logo disfarçou o sorriso com a mão enluvada em branco. O visconde de Druitt sempre usava branco.
_Tem o baile do senhor Stadt. Se você não recebeu o convite, talvez eu possa arranjar para você — falou olhando para mim.
Ergui meus olhos para trás, encarando o Sebastian numa indagação muda ao que ele assentiu que eu tinha recebido o tal convite.
_Sim, eu recebi sim, mas é que eu ouvi falar que as festas dele são meio chatas — comentei.
O visconde torceu os lábios, numa atitude pensativa.
_Hum… deixe-me ver…
Suspirei.
_ Ouvi falar que os melhores bailes são os seus… — ergui meus olhos para o loiro como quem não quer nada.
Ficou alguns segundos em silêncio.
_Mas os meus bailes são mais adultos… fico pensando se você não é jovem demais para eles — respondeu mordaz.
Franzi o cenho.
_Acaso está achando que sou criança? — falei sério.
_Oh não… mas parece jovem demais para certos jogos — deu um sorriso de lado.
Me inclinei para o lado do visconde, como em tom confidência. Percebi que Sebastian havia dado um passo à frente, se aproximando de nós, mas parou.
_Mas eu adoro jogos adultos — falei com a voz maliciosa, colocando a mão em concha, perto da boca.
_Com as mais sinceras desculpas, conde. Já aviso que seu criado não poderia entrar no baile. Fora isso, você é pequeno demais... acredito que não conseguirá achar companheiras interessadas, pois nossos jogos são no mínimo em dupla — o sorriso malicioso se abriu mais e uma pequena risada baixa se fez ouvir.
_Isso é um absurdo, visconde. Está menosprezando a minha capacidade? Sou um ótimo jogador e tenho certeza que não haverá reclamações sobre as minhas jogadas. — falei numa pose arrogante.
Ambos sabíamos que tipo de jogos eram aqueles, e essa conversa cifrada apenas dava um tom ainda maior de coisa proibida.
_Não sei… — ele ponderou com a mão no queixo — Nossas jogadoras são mulheres feitas…
_Ótimo. Tenho preferência em jogar com elas — falei rápido, cortando o que ele ia dizer, nem fiquei vermelho pela mentira.
_Sério mesmo? Tem certeza? — a voz do visconde saiu um pouco mais alta, num tom obviamente de descrença.
_É óbvio que tenho certeza. Por que? — falei ofendido — Jogo apenas com damas!
Ouvi Sebastian tossir atrás de mim e tive vontade de estapear o demônio, mas apenas o ignorei.
_Por nada. Mas é que … — o visconde parou o que estava dizendo e me encarou, olhando nos meus olhos.
Gelei e virei meu rosto para o lado, quebrando o contato visual, porém ele segurou meu queixo e o virou para ele novamente, me encarando. Pela visão periférica, vi Sebastian dar mais um passo e parar, aparentemente indeciso se deveria interromper ou não.
_Esses olhos… nós já não nos conhecemos, pequeno pintaroxo?
Congelei no lugar.
_Claro que não, visconde. Eu quase nunca venho à Londres e nunca havia o visto. — puxei meu rosto da mão que me segurava pelo queixo, escondendo sob uma capa de falsa calma o medo de que ele me reconhecesse do baile em que me vesti de mulher.
Então ele segurou minha mão, ainda me encarando.
_Você me parece familiar… mas é claro que é engano meu, a pessoa em questão era uma linda dama que eu conheci, com intensos olhos azuis e longos cabelos. Aaahhh… ela era tão linda e tão pronta à tudo… — comentou sonhador e pervertido.
Estremeci e tirei a minha mão da dele, fazendo força para não virar o tapa no rosto daquele tarado.
_Com certeza não sou eu — falei rápido.
_Claro que não — deu um risinho baixo e me encarou com olhos brilhantes de malícia, passando a ponta da língua rosada pelo lábio inferior — Se bem que, pensando bem, você tem uma beleza muito incomum, pequeno pintaroxo. Talvez se desse melhor numa outra posição de jogo.
“Idiota tarado dos infernos” — pensei dando um sorriso que eu desejei profundamente, não mostrasse o que eu realmente sentia por ele.
_Não sei do que está falando, visconde.
_Posso te mostrar a que me refiro, lindo passarinho. — sorriu e voltou a segurar a minha mão, passando o polegar pelo dorso da minha mão.
_Isso não é necessário, gosto de jogar numa posição apenas — falei tentando me referir que eu apenas “jogaria” com mulheres, mas o súbito acesso de tosse do Sebastian fez meu sangue ferver e eu olhei de relance para ele, fuzilando-o com os olhos.
_Ora… isso é uma pena — fez uma expressão lamentosa — Se eu encontrasse aquela adorável dama que se parece tanto com você…
_Isso realmente é triste, talvez ela pudesse ser a uma parceira no jogo — menti descaradamente.
_Não sei se seria uma boa ideia você jogar conosco, pequeno rouxinol. Já que está firme nessa posição. Tenho convidados que adorariam jogar com um lindo passarinho como você, inclusive eu.
Fiquei em silêncio, minha mão ainda na dele. Mil coisas passavam pela minha mente: maneiras de escapar do assédio dele, maneiras de conseguir o convite para o baile… eu tinha que ir nesse maldito evento.
Então, sem pensar direito, apertei os dedos do visconde nos meus e sorri, inclinando um pouco a cabeça para o lado.
_Não é o tipo de jogo que eu aprecio, mas talvez eu possa mudar de opinião, se o visconde me mostrar como se joga entre dois homens — falei, ficando completamente vermelho e me odiando por estar fazendo isso, na verdade, nem acreditava que tinha feito tal coisa.
O semblante do visconde se iluminou, sorriu mordaz para mim.
_Isso seria ótimo. Tenho uma proposta então. Como é iniciante, me proponho a treiná-lo nas regras do jogo para quando tivermos o baile, você já saiba como se joga. Podemos subir, temos uma sala reservada no segundo andar onde podemos jogar com calma — ele se levantou, puxando-me pela mão. Fiquei de pé, aterrorizado pelo caminho que as coisas estavam indo.
Dei um passo adiante, fingindo que iria acompanhá-lo, mas pensando desesperadamente numa saída que ainda me valesse o convite, parei ao sentir uma mão segurando meu ombro, olhei para trás e vi Sebastian com cara de pouquíssimos amigos.
O visconde também olhou para Sebastian, estranhando a atitude possessiva do servo.
_Perdoe-me, mestre. Mas acabou de me ocorrer que senhorita Lucy está vindo. Chegará hoje. — Sebastian falou no seu tom calmo e polido, retirando a mão do meu ombro.
_Lucy ? — perguntei sem entender nada.
_Quem é Lucy? — o loiro perguntou, interessado.
Sebastian ficou sério, se dirigindo ao visconde.
_Lucy é a prima do conde, ela também é uma nobre, obviamente, porém mora no interior, essa é a primeira vez que virá à Londres — então Sebastian deu um sorrisinho e inclinou levemente a cabeça para a esquerda — Todos comentam como a senhorita Lucy é parecida com o jovem amo. É impressionante, poderiam ser gêmeos! — comentou como quem não quer nada.
O visconde de Druitt abriu um largo sorriso.
_Ela tem os mesmo olhos azuis? — perguntou, me ignorando por hora, e eu aproveitei para libertar minha mão do aperto e dar alguns passos me afastando.
_Sim, o mesmo tom de olhos e cabelos — concordou Sebastian.
_Ohhh, mas isso é fantástico. Como a mãe natureza é generosa em produzir lindos passarinhos. Quero vê-la! Pode vir acompanhando sua prima no baile, meu querido pintaroxo.
_Cl-claro, visconde. Será um prazer! — respondi sorrindo e colocando minha cabeça para pensar em como arranjar um jeito de vir ao baile sozinho.
_Então vamos logo lá para cima, essa notícia até me deixou mais animado ainda em jogar com você — ele tentou capturar minha mão novamente e eu recuei um passo, tirando-a do seu alcance.
_Devo lembrar ao jovem amo que a senhorita Lucy está para chegar de viagem e que se ela não encontrar ninguém em casa, terá que ir embora — me socorreu Sebastian e eu respirei aliviado.
_Sim, havia me esquecido disso. Infelizmente, visconde, terei que declinar do seu convite. Mas deixe estar, no dia do baile será ainda melhor, pois que a vontade só irá aumentar até lá — falei e percebi que Sebastian me lançou um olhar torto, o qual eu ignorei. Agora não era hora de ciúme, tínhamos que desempenhar nossos papéis.
_Bem, não era bem o que eu queria, mas me conformo, na certeza de que dois passarinhos cantarão mais e melhor do que um — falou o visconde, fechando os olhos momentaneamente e sorrindo.
_Pode contar com isso — assegurei e ajeitei minha cartola na cabeça — Com licença visconde, foi um prazer conhecê-lo.
Me virei para ir em direção à porta.
_Estarei lhe aguardando no baile — falou e então eu me lembrei de algo terrível. Se o visconde mandasse o convite para a minha residência, quem a receberia seria o Soma, e então tudo seria em vão. Por outro lado, se eu dissesse que estava hospedado no palácio, nunca receberia o convite. O visconde não iria se arriscar a tanto.
Parei no meio do salão e olhei para ele.
_Eu poderia já levar o convite em mãos. Lucy ficaria muito feliz com a surpresa — falei modulando a voz para que ficasse mais sensual.
_Oh… mesmo? — perguntou com a voz melosa.
_Ah sim, ela ficaria ainda mais animada para vir.
Sorri ao ver o visconde se virar e ir até a mesa em que estava com os outros três, que neste momento confabulavam baixinho entre si, no mínimo falando todo tipo de coisas sujas. Ele pegou um envelope no bolso e então pegou uma pena, escrevendo no verso do envelope algo.
Veio até mim e me entregou, peguei-o e o guardei dentro do casaco.
_Até mais, visconde — me virei de costas novamente, Sebastian me acompanhando de perto.
_Até, pequeno. Mal posso esperar para ouvi-lo cantar.
Olhei por cima do ombro e sorri, meu melhor sorriso.
_Ah sim, eu irei cantar para você, visconde — falei e tratei de sair dali o mais rápido possível.
***
A volta para o palácio havia sido tensa, com um silêncio que permaneceu por toda a tarde. Assim que chegamos, fui direto falar com a rainha, colocá-la à parte do andamento da investigação.
Quando finalmente saí do gabinete real, já era hora do jantar. Comi sozinho, com o Sebastian atrás de mim, se movendo apenas para me servir os pratos.
Estávamos no quarto do palácio, estava sentado na poltrona enquanto Sebastian arrumava minhas roupas de dormir.
_Você está muito calado — comentei.
_Impressão sua.
Respirei fundo, eu o conhecia tempo demais para me enganar.
_Não pense que eu sou burro. Diga logo o que é.
_Não é nada! — Sebastian se mantinha de costas, desdobrando um camisão meu e o desabotoando.
_Fale logo, Sebastian. Eu sei que há algo.
Ele se virou para mim.
_Vai cantar para o visconde, bocchan? — seus olhos estavam levemente menos castanhos e mais vermelhos.
Ri alto
_Éééé… pode ser — brinquei.
Vi a expressão do Sebastian se fechar e, se não me engano, um pouco de uma névoa escura rodopiou em torno dele
Foi a última coisa que eu vi antes de ser agarrado e jogado na cama.
_Você só pode cantar para mim, bocchan. Apenas para mim! — sentenciou, me encarando com os olhos rubros, as presas mais pontiagudas aparecendo entre os lábios abertos.
Semi cerrei os olhos e meu corpo se contraiu na lembrança de como é gostoso sentir essas presas arranharem minha pele e me morderem, me deixando marcado.
_Sebastian… pare com isso… — tentei parecer bravo quando ele se postou de quatro sobre mim.
_Diga que seus gemidos serão apenas meus, bocchan. — Sebastian se inclinou para mim e mordiscou meu lábio inferior, sugando-o.
Gemi em resposta, entreabrindo meus lábios e tomando os dele num beijo que ganhava intensidade rapidamente. Senti as mãos dele começarem a tirar a minha roupa, abrindo os botões rapidamente, ofeguei e ergui meu quadril, roçando no dele, provocando-o ao pressionar nossas ereções.
_Diga! — murmurou em tom autoritário.
Sorri zombeteiro.
_Não!
_Bocchan… não me provoque! — ganhei uma mordida no queixo e logo a boca do Sebastian estava ocupada marcando meu pescoço, inclinei a cabeça para o lado, dando todo o espaço para ele, me contorcendo quando levava uma mordida um pouco mais forte.
_Aaah… Sebastian… eu quero… — murmurei, apertando as costas da camisa branca dele.
_Diga o que eu quero ouvir, bocchan! — sussurrou contra a minha pele, me fazendo arrepiar e logo depois gemer manhoso pelo chupão dado no pescoço.
_Eu sou seu, Sebastian. Comple...aaah..tamente seu… — gemi alto e puxei um pouco o cabelo dele.
Eu estava quente, na verdade, pegando fogo. Ambos estávamos. E o desejo era tão grande que eu não tinha me dado conta de onde estávamos. Até que ouvi alguém bater na porta.
Paralisei, as mãos ainda agarrando a camisa do mordomo, as pernas abertas com ele entre elas. Nos encaramos, ambos nos dando conta do perigo.
Bateram novamente.
_Senhor? — ouvi uma voz masculina do outro lado.
Empurrei Sebastian e tentei me recompor, mas em segundos ele estava impecável e abria a porta do quarto.
_Pois não? — perguntou calmo para um dos guardas.
_Ouvi uns ruídos e fiquei preocupado, está tudo bem com o senhor conde? — o homem perguntou, tentando olhar por cima do ombro do Sebastian, mas ele se moveu, bloqueando a visão.
_Sim, obviamente está. Meu senhor está se preparando para dormir.
_Mas e os barulhos? Parecia… parecia … — ouvi o homem falar, mas de cima da cama, não dava para vê-lo já que Sebastian estava na frente.
_Não sei do que está falando. Agradeço a atenção. Com licença. — Sebastian fechou a porta do quarto na cara do soldado, então olhou para mim.
O encarei e só então percebi que estava até o momento prendendo a respiração.
_Foi por pouco — comentei respirando fundo.
Sebastian se aproximou de mim, subiu na cama e capturou a minha perna, tirando o sapato e a meia e então beijando-a, trilhando caminho acima.
_Não, Sebastian. Não podemos — murmurei, em tom de bronca.
_Podemos ser silenciosos — murmurou de volta e mordiscou o início da minha coxa. Me inclinei para trás, sustentando meu peso nos braços.
_Não… — murmurei e ele subiu mais, serpenteando a língua na minha pele, puxando minha calça para baixo.
O perigo estalou na minha mente e eu dei um mini chute, escapando das garras desse demônio irresistível.
_Falei que não. Temos coisas mais importantes para fazer.
Sebastian se sentou, aparentemente me obedecendo.
_ O que, por exemplo?
_Como irei no baile com a inexistente Lucy?
Sebastian riu.
_Mas ela existe.
_Como assim? Está doido?
_Bocchan, você será a Lucy. Assim eu posso ir também.
Saí do alcance dele.
_Eu não irei me vestir de mulher, sem chance disso acontecer.
_Bocchan, pense bem. Você se veste de Lucy e assim, eu poderei ir te acompanhando, com a desculpa de que o conde não pôde ir por qualquer motivo.
_Você é infame, Sebastian — o acusei.
_Infame!? Mas eu o livrei do assédio do visconde e ainda arranjei um jeito de acompanhá-lo.
_Você queria me ver vestido de mulher! Diga a verdade se você não conseguiria pensar em outra alternativa para esse maldito baile?
Sebastian riu, voltando a deixar as presas aumentarem, engatinhou na cama até onde eu tinha me encolhido na minha indignação.
_Não posso mentir, bocchan. Você fica delicioso num vestido.
_Pervertido! — abanei a mão, tentando afastá-lo como se ele fosse uma mosca.
Então Sebastian segurou meu pulso e me virou de bruços na cama, pressionando seu quadril no meu traseiro.
_Mas fica mais ainda sem roupa nenhuma! — falou e mordiscou minha orelha.
Me senti derreter,ainda mais quando ele passou a se esfregar contra as minhas nádegas, passando as mãos pelo meu peito.
_Não… — murmurei, quase gemendo, o rosto meio afundando no acolchoado fofo da cama.
Sebastian se inclinou para baixo, sussurrando no meu ouvido.
_Shh bocchan. Você está muito tenso. Deixe-me mostrar o MEU jogo para você — falou dando ênfase no meu.
Gemi, sentindo o membro dele ser encaixado nas minhas nádegas.
Então, quando empinei meu traseiro, ouvi mais batidas na porta.
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