Desejos libertos

1 Capítulo 1 - A carta


Notas iniciais
O cão da rainha mais uma vez é acionado para resolver um crime do submundo.

Capítulo 1 – A carta

Era uma manhã ensolarada, o nevoeiro tão comum em Londres e nos seus arredores tinha dado uma trégua e o sol começava a despontar entre as nuvens. Como sempre eu estava no meu escritório lendo alguns documentos da Companhia Funtom quando ouvi a sineta da porta tocar; não me preocupei, Sebastian iria atender. Não costumo receber visitas, ainda mais sem avisar portanto já tinha uma ideia de quem seria. Olhei pela janela e vi o cabriolé branco parado junto à porta. Sim, eram eles.

Pouco depois Sebastian abriu a porta do escritório e entrou, trazia uma pequena bandeja de prata e uma carta selada pousada nela.

Eu apenas estendi a mão e ele abaixou a bandeja para que eu alcançasse o papel. Lá estava o selo real em cera vermelha sobre o elegante papel bege. Poucas pessoas teriam chance na vida de receber uma carta da rainha, menos ainda uma com solicitações tão sigilosas, mas isso era comum na minha família e eu não fugia à regra.

Abri o papel e o li, Sebastian estava postado em pé logo atrás da minha poltrona, esperava solícito pelas novas. Ambos sabíamos o que a carta continha: uma nova missão da rainha, algum crime havia ocorrido no submundo e estava ameaçando a paz da monarca.

Dobrei o papel ao meio e o estendi preso entre meu indicador e o dedo do meio ao mordomo que o pegou e passou os olhos rapidamente.

Eu me adiantei e o pus a par.

_ Parece que é um caso de sumiço de crianças. Apenas meninos. Algo relacionado com tráfico escravo, provavelmente.

_ Não é o primeiro que aparece — falou Sebastian, depois completou conforme lia o resto da carta — Há relatos que os sumiços ocorreram próximos ao um antro de ópio bem conhecido do submundo.

_ Ninguém seria idiota a ponto de sequestrar alguém no quintal. O esconderijo deve ser em algum local longe do local de sequestro — ponderei.

_ Talvez a certeza da impunidade os deixem audaciosos.

Era verdade o que Sebastian dizia. Todos os meninos eram muito pobres ou moradores de rua. Os captores poderiam pensar que ninguém iria se importar com gente assim ou daria ouvidos às reclamações de famílias pobres sobre parentes desaparecidos. Mas elas foram ouvidas e eu iria descobrir quem fez isso e resolver o problema.

_Vá Sebastian e veja o que consegue descobrir.

Ele fez uma leve mesura.

_ Yes, my lord.

E saiu da sala.

Fiquei ali, pensando nesse novo caso e em como ele se assemelhava a outros tantos que caíram nas minhas mãos nesses três anos. No final tudo se resumia em como a humanidade é podre e em quanto as pessoas acham que são melhores que as outras, utilizando-se de pessoas mais fracas e indefesas para atingirem seus fins excusos. Minha cicatriz queimou nas minhas costas me lembrando que um dia eu também fui vítima de pessoas iguais a essas. A lembrança me deixou enjoado e eu nem percebi mas o papel nas minhas mãos estava todo amassado. Joguei o papel sobre a mesa e fiquei absorto em meus pensamentos.

Algumas horas depois Sebastian retornou.

_ Bochan, realmente os sequestros têm haver com o antro de ópio: vi dois homens entrando com um embrulho, parecia alguém enrolado em cobertor ou algo assim. Agora de dia está tudo calmo, mas há movimentação dentro do prédio. — ele sorriu — e eu descobri que haverá uma reunião hoje lá. Algo especial vai acontecer.

_Então nós iremos — decidi.

_ Não temos convite — lembrou-me o mordomo.

_ Eles não querem garotos? Pois eles terão um — falei sério.

Sebastian ergueu uma sobrancelha.

_ Pode ser perigoso, Bochan. Ninguém sabe o que ocorre lá dentro.

_ Você vai estar lá para me proteger.

Só me dei conta do quanto isso saiu esquisito quando vi a expressão do Sebastian.

_Fique quieto, idiota. Não é nada disso — disse com a expressão fechada mas não adiantou pois ele continuou com aquela expressão divertida no rosto.

Notas finais
Espero que tenham gostado. Tenho mais alguns capítulos em processo de finalização, se tudo correr bem amanhã eu posto o próximo.

Comentário, please.