Desejos libertos
22 A volta
Notas iniciais
Então o Jovem amo perdeu a memória? — perguntou Mei rin com as mãos sobre a boca, estava espantada. E não era a única.
_ Ele não se lembra de nada mesmo? — os olhos de Finny estavam maiores que o normal.
Balancei negativamente a cabeça.
_ De nada desses últimos três anos.
Depois que o doutor Morrinson me tirou do quarto, me levou para o consultório dele e me explicou que era relativamente comum a perda de memória depois de uma pancada forte na cabeça como aquela. Disse também que não havia dano grave com o Jovem amo e que ele achava que a memória iria voltar a qualquer momento. Mas isso era o que ele achava, e humanos são falhos... Me orientou a ter paciência e ir contando as coisas aos poucos.
"Hunf. Ele nem sabe sobre o passado do bocchan. Se ele soubesse, aí sim falaria para eu ter paciência" — foi o pensamento que eu tive enquanto ele me dizia aquilo.
Achei melhor ir para a mansão e avisar aos empregados sobre a situação delicada do patrão deles, de modo que aqui estou eu, cercado pelo Bard, Finny, Mei rin e Tanaka que, diante da situação, está em sua forma adulta.
_Quando ele volta, senhor Sebastian? — Bard tentava disfarçar a preocupação mas eu conseguia perceber ela ali pelo jeito que ele mordia o cigarro que pendia apagado na boca do cozinheiro.
_Hoje à tarde. Na verdade eu vou arrumar o quarto e já vou buscá-lo — respondi.
_ Tenho certeza que o Jovem amo irá se recuperar logo. Ele tem aquela aparência frágil mas é um Phantomhive e os Phantomhive são tão fortes e resistentes quanto rochedos — desejou Tanaka para espanto de todos pois não era comum ouvi-lo falar.
_ Assim espero — completei, desejando sinceramente que ele se recuperasse logo. Eu sei que ele é forte, e isso foi uma das suas características que tanto me atraíram mas a vida humana é frágil, é como uma chama, num segundo ela se apaga.
_ Agora, todos de volta às suas funções — encerrei a reunião.
Todos foram saindo, menos Finny que se demorou no lugar. Eu também já ia saindo da cozinha que foi o nosso local de reunião quando ouvi a voz dele.
_ Ele não se lembra de nada mesmo?
O encarei, eu já havia respondido aquela pergunta.
_ Não. Nada.
Finny olhou para o chão. Torcia as mãos, parecia nervoso. Ergueu os olhos para mim.
_ Nem do senhor? — ele tocou certeiro no ponto que estava me matando por dentro.
_ Nem de mim — respondi seco, disfarçando a dor.
Ele assentiu e se encaminhou para a porta, parando no meio do caminho ao meu lado, pousou a mão no meu ombro — numa liberdade de atitude que nunca havíamos tido.
_ Imagino como deve ser difícil para o senhor — falou e depois saiu.
Fiquei olhando para as costas do Finny com aquele chapéu de palha… Ele parecia bobo e infantil às vezes mas na verdade era muito inteligente e mais do que isso — era sensível à ponto de se colocar no lugar das pessoas, saber o que elas deviam estar sentindo.
“Esses humanos… Sempre tão interessantes…”- pensei, me dirigindo ao quarto — era melhor eu tirar dali todos os meus vestígios: roupas, livros e objetos pessoais. Afinal, como explicar para o bocchan que o mordomo da casa dormia com ele?
****
Entrei no quarto do hospital com a vã esperança de que ele tivesse recuperado a memória mas o modo como me olhou destruiu qualquer uma que eu tivesse. Ele me olhava como se eu fosse um estranho.
Estava sentado na cama, as pernas estiradas no colchão e as costas apoiadas na pilha de travesseiros, uma colcha branca o cobria até a cintura, usava uma dessas camisolas de hospital. Assim que eu entrei, ele levantou os olhos.
Dei um pequeno sorriso.
_Senhor Michaelis?
Como aquilo doeu em mim. “Senhor Michaelis”...
_O senhor costumava me chamar de Sebastian — me aproximei da beirada da cama.
_Sebastian…
_Lembra de alguma coisa? — falei esperançoso.
_Não — e balançou a cabeça — O médico disse que eu perdi a memória. Mas eu me lembro de muitas coisas…
_Parece que você perdeu a memória dos últimos três anos — comentei, ele apenas assentiu — Eu tenho sido seu mordomo durante esse tempo — contei.
_Eu tenho um mordomo só meu? — ele ergueu os olhos para mim, o rosto havia perdido aquela rigidez característica, não estava com a cara fechada de sempre.
“É claro. Ele não se lembra do dor, por isso não sofre. Essa deve ser a expressão dele se nada daquilo tivesse acontecido.”
_Sim, tem — respondi sorrindo. Ele parecia mais infantil também.
_E o Tanaka?
_Ele continua na mansão, mas está aposentado.
_Meus pais estão me esperando lá? — perguntou inocentemente.
Peguei a roupa que eu havia trazido de dentro da maleta.
_Bom, melhor trocar de roupa, você está de alta — desconversei sem responder à pergunta.
_Vamos sim — ele sorriu. O bocchan sorriu, não aquele sorriso ensaiado que ele fazia quando queria manipular alguém, nem aquele sorriso que ele dava para mim quando estávamos sozinhos, mas um sorriso natural, enorme e resplandecente.
Minhas mãos tremiam um pouco enquanto eu o ajudava a tirar a camisola de hospital e o vestia com suas roupas. Eu o pus sentado sobre a cama, que como era mais alta do que o normal, tive que levantá-lo pela cintura, estava agachado na sua frente prendendo as meias nas pernas finas e brancas quando ouvi a sua voz.
_Sebastian? — me chamou.
_Sim? — ergui meus olhos para ele.
Ele ficou um tempo olhando para mim. Nossos olhos presos um no outro.
_Sebastian — repetiu novamente.
_Sim??? — a chama da esperança se acendeu novamente
_ Sebastian...acho que…Acho que me lembro…
Eu me levantei, apoiei os braços na cama, um de cada lado do bocchan, formando uma prisão ao seu redor. Estava ansioso. O garoto franzia o cenho, fazendo força para se lembrar.
_Sebastian ....Era o nome do meu cachorro — falou feliz.
_Ah — falei desanimado — Eu sei. Bem, vamos para casa?
Ele pulou da cama, feliz. E eu o levei de volta.
***
Entramos na propriedade e todos os empregados estavam enfileirados perto da entrada, do lado de fora. Aguardavam ansiosos, com as mãos para trás e bem posicionados.
O segurei no colo para descer da carruagem e ele segurou no meu pescoço, nossos rostos estavam muito próximos, nossos olhos se encontraram novamente, ele sustentou o olhar e eu tive que me segurar para não beijá-lo. Coloquei-o depressa no chão.
_Venha. Vou te apresentar os seus empregados. Novamente.
_Ainda não consigo acreditar que eu perdi a memória…
_Acalme-se. O médico disse que provavelmente será temporário.
Ele andou ao meu lado e eu fiz todas as reapresentações. É claro que ele não se lembrou de ninguém, exceto do Tanaka que recebeu até mesmo um abraço do bocchan.
_Está com fome? — perguntei. Estava perto da hora do chá das cinco.
_Um pouco — ele coçou o olho — mas estou com sono.
_Melhor se deitar. Daqui a pouco eu preparo o seu lanche.
O encaminhei ao quarto, ele dava passos incertos na mansão e por pouco não errou o quarto. Provavelmente o quarto dele antes era outro.
_Por aqui, Jovem amo — o corrigi, colocando a mão no ombro.
Troquei a sua roupa por outra mais confortável e o pus na cama. Era cedo demais para ir para cama mas no estado dele, todo cuidado era pouco. Estava saindo quando ele me chamou.
_Chame o Tanaka, Sebastian?
_Quer alguma coisa? Eu posso fazer ! — respondi.
Ele abaixou a cabeça, envergonhado.
_É que eu queria conversar com alguém que eu conheço. Desculpe.
Um bocchan humilde, pedindo desculpas… Quem diria…
_Não precisa pedir desculpas. O senhor é o amo desta mansão. Seu pedido é uma ordem.
Não vou dizer que fiquei confortável com ele querendo conversar com outro. Esperava que o bocchan confiasse somente em mim, mas isso foi antes disso tudo. Sai e chamei o mordomo aposentado.
Tanaka entrou no quarto e eu achei melhor ficar do lado de fora, imaginei que ele queria conversar à sós com o idoso. Mas não consegui controlar a minha curiosidade fiquei do lado de fora, próximo à porta e graças à minha audição consegui ouvir o que diziam lá dentro.
_Jovem amo? — ouvi a voz do homem falando baixo.
_Tanaka. Queria perguntar uma coisa para você. É verdade que eu perdi a memória?
_Sim, é verdade.
_Como isso aconteceu?
_Não sei, Jovem amo. O senhor Sebastian estava com o senhor no momento? Não perguntou a ele?
Passou-se alguns segundos de silêncio.
_Não. Você não sabe por que ele estava comigo? Se ele é um mordomo, deveria ficar em casa, não?
Outro momento de silêncio.
_O senhor sempre anda acompanhado do senhor Sebastian.
_Sempre?
_Cada passo que dá.
Como eu estava do lado de fora do quarto não podia ver as expressões de cada um nesses momentos de silêncio, podia apenas imaginar.
_Deve ser por isso que ele me olha esquisito…
“Esquisito…” — a palavra ecoou na minha mente.
_Acha que ele pode ter batido em mim? Por isso eu perdi a memória? — continuou.
_Hahaha. Jamais. O senhor Sebastian jamais faria nada que te causasse mal.
_Ele me olha estranho — segredou o garoto numa voz mais baixa que o normal.
_Jovem amo, deve ser porque vocês eram muito próximos. Todos nós estamos sofrendo pela sua perda de memória, mas o senhor Sebastian provavelmente está sentindo mais.
_Nós éramos tão próximos assim?
_Ele está sempre com o senhor, é a primeira pessoa que te vê todas as manhãs e a última todas as noites. Ele te dá banho, te veste, te leva a todos os lugares que você quer e ainda é o seu instrutor em muitas coisas. Nunca vi um servo mais fiel e dedicado ao seu senhor do que ele.
“Instrutor em muitas coisas…” ri internamente mas eu sei que ele estava se referindo às aulas de violino, dança e línguas estrangeiras.
Resolvi ir para a cozinha e preparar o chá, afinal ficar ali xeretando não ia levar à nada.
Preparei tudo em meia hora e subi novamente, equilibrando a bandeja na mão.
Dei duas batinhas na porta e a abri. O Jovem amo estava sozinho, recostado nos travesseiros. Abriu os olhos quando eu entrei.
_Seu chá — anunciei.
Apoiei a bandeja na mesinha perto da janela e o servi. Ele pegou o pires com a xícara e seus dedos roçaram os meus. Como eu queria abraçá-lo… enterrar o meu nariz no seu cabelo sedoso e sentir seu cheiro…
_Quer um scone?
_Quero — seus olhos brilharam de contentamento diante da guloseima.
Ele mordeu o doce e o recheio escorreu pelos dedos — eu já tinha visto aquela cena centenas de vezes, sabia o que ele ia fazer e, mesmo sabendo o efeito que isso teria em mim, não consegui desviar os olhos — Ele enfiou os dedos sujos na boca e os lambeu demoradamente, tirando toda a geléia que se grudava neles.
_Você está bem? — me perguntou me tirando da minha contemplação. Ele me encarava atentamente.
_Sim — respondi, balançando a cabeça levemente, espantando as lembranças do que ele sabia fazer com aquela língua.
Ele terminou o lanche e me devolveu a xícara fazia.
_Os meus pais…
O interrompi antes que ele terminasse a pergunta.
_Não estão em casa. Amanhã eu explico direito. Tudo bem?
Ele assentiu com a cabeça.
_Você pode pegar um livro para mim? Estou com sono mas não quero dormir tão cedo.
_Claro. Que tipo de livro você quer?
Ele pensou um momento.
_Que tipo de livro eu gostava antes?
_Você gostava muito das histórias do sir Arthur.
_Então me traga um dele.
Desci até a biblioteca, peguei as revistas onde as histórias do sir Arthur eram publicadas e as levei até o quarto. Depois fui preparar o jantar.
Quando voltei para o quarto encontrei o Jovem amo lendo avidamente as revistas. Estava deitado de bruços, um travesseiro abaixo do peito, os braços segurando a cabeça e as pernas erguidas com os calcanhares cruzados no ar. Meu olhar foi diretamente atraído para a elevação arredondada do seu traseiro, meu membro pulsou.
“Acalme-se Sebastian” — pensei comigo mesmo — “Ele nem se lembra de você”.
_Trouxe seu jantar — anunciei e ele levantou — Quer aí na cama ou vai comer na mesa?
_Posso comer na mesa mesmo.
Puxei a cadeira para que ele se sentasse e o servi. Ele comeu lentamente.
_Hora do banho — anunciei depois da longa espera pelo término da refeição.
Ele foi obedientemente até o banheiro. Nem se parecia com o antigo bocchan que tudo reclamava e respondia.
O despi com calma, já que eu não poderia tocá-lo do jeito que eu ansiava, pelo menos iria aproveitar a visão do seu corpo, embora eu nem precisasse disso — era só fechar meus olhos e eu poderia relembrar com riqueza de detalhes cada centímetro daquele corpo.
_Por que você vai tão lento? — me perguntou, até o seu timbre de voz parecia mais infantil.
_Você está ferido, tenho que ir com calma — disfarcei, deslizei o camisão pelos seus ombros e rocei meus dedos na pele dos ombros, ele estremeceu.
_É esquisito — comentou, os olhos baixos, estava um pouco corado.
_O que?
_O jeito que você me olha...Eu fico envergonhado na sua frente.
Eu dei um pequeno sorriso.
_Não precisa ficar envergonhado. É impressão sua.
Ele não falou mais nada e eu o pus na banheira. Banhei a sua pele pegando leve com os toques, tudo o que eu não queria é que ele me desse uma ordem para manter distância. Embora ele não se lembrasse de nada, nós ainda estávamos presos por um contrato.
Depois de tomar banho e estar trocado ele voltou para cama. Puxei as cobertas e o cobri até abaixo do peito. Peguei o castiçal que estava na mesinha de cabeceira.
_Boa noite, Jovem amo.
_Boa noite, Sebastian.
Me encaminhei para a porta e a abri, estava com metade do corpo para fora.
_Sebastian — me chamou.
Olhei por cima do ombro.
_Fique até eu dormir?
Sorri, dessa vez mais amplamente.
_Sim, milorde.
“Algumas coisas nunca mudam.”
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