Notas iniciais
Olá, queridos! Eu demoro, mas nunca desisto certo? ** pisca** Espero que gostem desse capítulo e, por favor, perdoem os erros, estou sem beta e sem tempo. No mais, boa leitura a todos!

Triângulos e quartetos

Capítulo 2

Shaka estava em sua cela, deitado com os braços cruzados atrás da cabeça, mirando o teto. Pensava que talvez o advogado tivesse razão, mas não se arrependia do que tinha feito; embora se sentisse vil, pois em seu longo treinamento espiritual, aprendera que a vingança só atrai mais sentimentos negativos. Contudo, não fizera nada por vingança, na verdade queria respostas que acabou não obtendo.

“Você tem um gênio difícil, precisa aprender a controlar esse lado da sua personalidade...”

Ainda se recordava das palavras de Mu quando o levara ao Tibet para treinar com seu mestre. Ele, uma pessoa totalmente urbana, achara que não suportaria uma semana no Himalaia, e acabou passando dois anos junto aos monges budistas daquele local.

Suspirou com amargura. Quando decidiram voltar, nunca imaginariam que em oito meses Mu estaria morto e ele atrás das grades. Karma? Não sabia o que pensar; até aquele momento ainda não pensara no que aconteceu. Estava vivendo num universo paralelo aos fatos, porque ainda não se sentia capaz de elucidá-los.

Ouviu passos no corredor e mais uma vez o policial de descendência italiana apareceu.

- Saiu seu habeas corpus, doutor, seu advogado o espera. – comunicou abrindo a cela – Pode passar na sala três e pegar suas coisas.

- Obrigado. – assentiu Shaka se dirigindo ao local informado e trocando de roupa.

Tentava descobrir como Ikki conseguiu libertá-lo depois do péssimo comportamento que tivera.

“O Mu se envergonharia de mim...” Pensou com pesar. Trocou-se e pegou suas poucas coisas pessoais: relógio, celular e uma corrente que fora presente do amado meses antes. Encontrando o advogado na saída do presídio. Ikki sorriu ao vê-lo e seu sorriso foi retribuído. Apertaram-se as mãos.

- Obrigado, doutor Amamiya.

- Não me agradeça ainda. Sua liberdade é provisória, ainda precisamos provar sua inocência. – declarou Ikki de foram seca. Ainda estava aborrecido com o cliente e não fora nada fácil barganhar com a promotoria sua liberdade depois de tudo que ele fizera.

- Eu sei, mas... como conseguiu o habeas corpus, depois de tudo que fiz? – a curiosidade o impeliu a responder.

O moreno sorriu, enquanto acendia um cigarro.

- Tive que bajular o juiz do caso um pouco, mas ao final tudo deu certo. Venha, eu o levarei pra casa.

- Poderia me levar a um lugar primeiro? – pediu o loiro – Será rápido, eu prometo.

O advogado assentiu com a cabeça. Sendo orientado por Shaka, chegaram a uma enseada paradisíaca onde gaivotas pescavam. O loiro desceu do carro e caminhou alguns metros até chegar perto de uma árvore retorcida. Ikki saiu do carro também e ficou observando seus movimentos em silêncio. Shaka agachou-se e do meio das raízes da árvore retirou um pequeno baú de madeira.

- Vamos. – falou voltando a se aproximar do moreno – Eu só vim encontrar esse tesouro.

O advogado jogou o cigarro no chão, o apagando com o pé. Achou melhor não perguntar do que se tratava aquilo, já que parecia ser algo muito pessoal. O telefone do moreno tocou, Ikki olhou o visor antes de atender.

- Oi, Hyoga. – cumprimentou o sócio e amante – Sim, estou com ele numa... praia. Não demoro a chegar. O Shun já preparou o dossiê do caso? Não? O que tem a falar? Certo, certo, chego aí em trinta minutos.

Desligou. Shaka observava-o com um meio sorriso constrangido.

- Acho que esse nosso pequeno passeio o atrapalhou.

- Não atrapalhou. – volveu Ikki virando a chave na ignição.

O loiro calou-se. Colocou o cinto de segurança e percebeu que o moreno não usava. Balançou a cabeça por instinto, mas nada disse. Ikki deu partida no carro.

-------Desejos vitais--------

- Shun, o que há com seu irmão? – perguntou Hyoga irritado.

O mais jovem dos Amamiyas olhou por cima dos óculos o rosto corado de irritação do amigo.

- Do que você está falando, Hyoga?

- Ele está excessivamente dedicado a esse caso!

- Ele é sempre dedicado aos seus casos. Isso não deveria incomodá-lo, foi a atuação profissional do Ikki que o fez ficar tão atraído por ele. – ponderou o mais jovem com indiferença.

- Sim, não nego, mas dessa vez ele está exagerando. – disse o loiro enchendo um copo de papelão com café.

Shun sorriu de lado, voltando a prestar atenção aos papéis em sua mesa.

- Você está com ciúmes. – observou sem interesse.

O russo corou mais, bebendo o café tão rapidamente que queimou a língua.

- Ai, merda! – praguejou enquanto Shun ria – Não seja ridículo! Por que estaria com ciúmes?

- Não sei. Talvez porque o cliente do meu irmão é lindo, e você é completamente apaixonado pelo Ikki... – respondeu Shun com ironia – Mas isso não me diz respeito.

- Eu não sou apaixonado pelo seu irmão... – negou Hyoga sem jeito.

- Não? – Shun voltou a examinar os papéis do caso Salwenn, mas não pode evitar um suspiro cansado e triste.

- Claro que não! Eu... o que temos não é isso, você sabe. – volveu o loiro sentindo-se estranho com as declarações do amigo.

- Não, não sei de nada e nem quero saber. – sorriu Shun fechando a pasta e pegando a sua bolsa, guardando os papéis e o notebook. Seu celular tocou e ele atendeu com um sorriso ainda mais largo.

- É o Mime. – avisou, e Hyoga ruborizou levemente, não entendia por que se sentia incomodado com o namoro do amigo. Sentia-se ridículo, afinal, ele transava com o irmão de Shun, por que sentia ciúmes do mais jovem? Alguém que para ele sempre foi... um amigo? Tentava se convencer que seus ciúmes era coisa de irmão mais velho. Sim, deveria ser isso, se preocupava muito com Shun e não ia com a cara do empresário que namorava o mais jovem. Ikki muitas vezes ria de sua implicância, dizia que o russo era mais ciumento que ele próprio e que ele sim deveria zelar por Shun e não Hyoga, mas era algo inevitável para o aquariano.

- Oi, amor. Sim, estou te esperando. – Shun respondia carinhosamente as perguntas do amante, e o loiro russo ficava cada vez mais incomodado.

- Eu também te amo. Certo, te encontro daqui a meia hora. Tchau.

Hyoga voltou para sua mesa sem esconder a expressão aborrecida que a conversa que travara com Shun antes do telefonema de Mime e também o próprio telefonema lhe causara.

- Isso é verdade? – indagou sem mirar o amigo, fingindo interesse em alguns papéis.

- Quê? – Shun encarou o amigo, sem entender a pergunta.

- Você ama o Mime?

O mais jovem riu incrédulo, não acreditava que Hyoga estava lhe fazendo aquela pergunta e não entendia por que ele a fazia.

- O que há contigo hoje, Pato? – perguntou, utilizando o apelido que Ikki dera ao amigo há muito tempo, mesmo não entendendo muito bem o motivo – O ciúme que sente do Ikki com o tal cliente está afetando sua cabeça? – provocou.

- Ah, não é nada disso! Esqueça o que disse, Shun. – falou corando, envergonhado com as próprias atitudes.

Shun suspirou, tirou os óculos guardando na bolsa.

- Meu irmão disse onde estava?

- Disse que estava levando o tal Shaka pra casa.

- Ok. Bem, estou indo. – o mais jovem se aproximou do loiro e o beijou no rosto – Pede para ele me ligar quando chegar aqui. Há algo no relatório que preciso explicar.

- Ok. Bom jantar.

- Obrigado! – Shun disse e saiu. Hyoga passou as mãos no rosto, meio desolado com o redemoinho sentimental em seu peito. Desde muito cedo, decidira ser lógico e frio e nunca, nunca mesmo se entregar aos sentimentos da sua alma passional. Contudo, ao conhecer Shun, pela primeira vez se abriu de verdade para uma amizade. Antes, possuía muito medo de se machucar como acontecera no passado, todavia, a doçura do mais jovem o conquistara de imediato. Shun sabia ser forte nos momentos certos, mas mesmo quando era duro com as palavras, nunca perdia a ternura inata em sua personalidade. Depois veio Ikki e uma imediata atração. Apaixonara-se perdidamente por ele, ele que jurou nunca mais se entregar aos sentimentos. Agora estava naquela sinuca, pois, na verdade, sempre soubera que seus sentimentos não eram totalmente correspondidos, ao menos, não da forma que gostaria.

“Ele não amá-lo da maneira que você quer, não significa que não o ame da única maneira que pode...”

As palavras de Shun se repetiram em sua cabeça muitas vezes. Aquelas palavras escutadas quando estava disposto a terminar tudo com o moreno e procurara o ombro do amigo para desabafar suas dores. Shun sempre tinha a palavra certa, o jeito certo de convencê-lo dos seus erros. E durante todo o tempo de sua relação conturbada com Ikki, usou aquelas palavras como máxima. Isso foi o suficiente para suportar os momentos em que o temperamento reservado do moreno pedia-lhe um pouco de solidão; e ele, Hyoga, discretamente, aceitava as decisões de Ikki.

Inspirou e expirou profundamente, decidido a ir pra casa. Estava muito cansado, deixaria qualquer conversa ou problema para o dia seguinte. Assim pensando, pegou sua pasta e deixou o escritório, avisando a secretária que só voltaria no dia seguinte.

-----Paixão e morte-----

Duas horas mais tarde. Shun chegava ao presídio estadual. Mostrou sua credencial a um guarda uniformizado da portaria e teve acesso ao corredor do presídio, mas especificamente a cela onde estivera o prisioneiro. Tirou uma máquina fotográfica da bolsa e começou a fotografar o ambiente. As marcas de luta ainda permaneciam no local. Fora vetado o acesso de qualquer pessoa que não fosse os investigadores da corregedoria àquele local.

- Onde estava a primeira câmera? – indagou a um policial mal encarado que o acompanhava.

O homem apenas apontou. Shun sorriu mesmo assim. Sabia que policiais não gostavam de corregedores, mas não estava preocupado com isso, precisava fazer seu trabalho.

- Abra a cela, por favor. – pediu e o homem mais uma vez obedeceu a contragosto. Antes de entrar na cela, o jovem investigador viu que alguns policiais se aglomeravam na entrada do corredor, curiosos com seu trabalho. Sentiu-se momentaneamente intimidado com aqueles olhares hostis, mas não recuou entrou na cela resignado e começou a observar o ambiente com cuidado.

Vestiu luvas cirúrgicas e começou a coletar material, além de tirar algumas fotos. Sabia que o pessoal da perícia já tinha feito aquilo, mas pensou que talvez pudesse ver algo que os demais não viram.

“Ah, Shun, o que é isso? Você tem que se concentrar na ação dos policiais e não no que ocorreu com o prisioneiro...” Pensou. Mas sendo um investigador forense era difícil não querer investigar tudo nos mínimos detalhes. Além disso, ainda teria que interrogar a vítima. Shaka Phalke sim poderia lhe fornecer informações importantes sobre a forma que tudo acontecera ali.

“Eu preciso entrar nesse caso...” Pensou recolhendo alguns fios de cabelo e fazendo uma careta ao sentir o odor pútrido de sangue que ainda permeava o local.

“Preciso descobrir quem é o investigador responsável, isso se o Ikki não me quebrar a cara antes...”.

Riu com os próprios pensamentos, terminando seu trabalho. Ergueu-se recolhendo seu material e saiu da cela a passos rápidos. Quando passou pelo corredor abarrotado de policiais fardado, alguém o deteve, o puxando pelo ombro.

Virou-se surpreso e encarou os olhos caramelos do homem que o encarava. Eram olhos frios e perigosos como Shun nunca vira antes. Aquilo lhe causou um arrepio incomodo e ele engoliu em seco.

- Policial?

- Não deveria mexer onde não deve, corregedor. – o homem disse de maneira perigosa – Todos nessa divisão são homens honrados e aquele médico não passa de um assassino.

- A justiça deve julgar isso, policial. – disse Shun se desvencilhando da mão do homem – Só estou fazendo meu trabalho.

- Trabalho perigoso para alguém tão jovem.

- Isso é uma ameaça? – indagou sério sem desviar o olhar.

- Claro que não. Apenas uma advertência. Os policiais não gostam de corregedores. – sorriu o homem tentando se mostrar descontraído – Mas deixarei que faça seu trabalho.

- Obrigado. – Shun disse e voltou a andar a passos rápidos em direção ao estacionamento. Tinha pressa em mostrar aquele material a Shiryu e também queria encontrar rápido o investigador responsável pelo caso.

Da entrada do presídio, os policiais observavam enquanto o jovem investigador entrava em seu Ford escape Hybrid.

-------Desejos Vitais--------

VENDE-SE.

Uma placa imensa avisava que a bela casa próxima a um extenso bosque de carvalhos procurava novos moradores.

Shaka respirou fundo. Como não pensara naquilo? Era a oportunidade perfeita para a família de Mu se livrar dele definitivamente. Deu-se conta da sua situação. Não tinha mais ninguém, não tinha casa, não tinha emprego, não tinha nada. Sua vida fora varrida do mapa.

- Eu sinto muito. – Ikki segurou-lhe o ombro num gesto de apoio.

O loiro virou-se e sorriu.

- Tenho minha liberdade de volta, não posso me queixar...

- Shaka, ninguém é forte o tempo inteiro. – interrompeu.

- Eu sou. – respondeu o indiano se desvencilhando da mão do advogado. Mas Ikki o puxou pelo braço o forçando a encará-lo.

- Ninguém, nem você!

O rosto do loiro tremeu, e o advogado percebeu por baixo da máscara de autocontrole toda sua dor. A dor de alguém que fora expulso violentamente de sua própria vida. O médico baixou o olhar, tentando esconder a comoção que o dominava. O advogado por instinto o puxou e o abraçou com força. Shaka suspirou, pousando a cabeça na curva do pescoço do moreno e sentindo o cheiro de sua loção pós-barba, um cheiro amadeirado e másculo que sua mente demorou analisando mais do que gostaria.

Afastou-se logo depois, um pouco constrangido. Não gostava de tanto contato físico e algo lhe alertava que deveria manter a maior distância possível do doutor Amamiya. Não gostava da sensação que o tomava sempre que olhava seus olhos índigos mais demoradamente.

- Desculpe... – pediu tentando esconder o rubor das faces – Não costumo ser sentimental...

- Está tudo bem. Você tem algum parente? Alguém com quem possa ficar temporariamente? – indagou Ikki visivelmente preocupado.

- Não tenho família. Fui criado em um orfanato. Mas não precisa se preocupar, ficarei bem. – declarou com um sorriso que tentava passar segurança.

- Pode ficar em minha casa por enquanto. – disse Ikki, comovido com a dor do rapaz. Conseguia sentir a dor dele, embora o loiro fizesse tudo para escondê-la.

- Não, doutor, de forma alguma! – riu o médico – Eu vou para um hotel. Só tenho que saber para onde eles mandaram minhas coisas...

- Eles não podiam ter feito isso! – irritou-se o advogado. – Isso foi desumano!

- Não foi. Eles pensam que matei o filho deles, e a casa estava no nome do Mu. – explicou Shaka – Eles podiam sim. Está tudo bem, eu vou para um hotel, depois descubro o que fizeram com minhas coisas.

- Nem pensar, louro, você vai pra minha casa. Não quero vê-lo sozinho num hotel, minha solicitação de proteção policial ainda não foi respondida.

- Por que pediu proteção policial? – Shaka não entendia a preocupação do advogado. Será que havia algo que Ikki não queria lhe contar?

- Shaka, depois do que aconteceu, acho que há muito mais nesse caso do que supomos. É melhor que não fique sozinho, acho que sua vida está em risco.

O indiano ponderou por um tempo.

- Isso eu já sabia, mas você acha que eles podem tentar novamente?

- Vamos para minha casa, é mais seguro.

- Doutor...

- Sem mais, doutor Phalke, por Deus! Poderia deixar de ser teimoso e me ouvir só dessa vez? – irritou-se Ikki. Shaka obrigou-se a concordar com ele. Ficar discutindo não resolveria a situação. Entrou no carro em fim, e eles rumaram para a casa do moreno.

-----Desejos vitais-----

O restaurante sofisticado a meia luz criava um clima romântico e elegante. Shun provou o vinho e sorriu para o namorado. Mime acariciou a mão dele que estava pousada sobre a mesa.

- Você parece preocupado, Shun, o que aconteceu?

- Não é nada. – sorriu o mais jovem – Na verdade, ainda não conversei com o Ikki sobre a minha transferência para o caso Salwenn. Sei que poderia pedir transferência, alegar questões pessoais já que o meu irmão é o advogado de defesa do prisioneiro em questão. Mas é uma grande chance profissional, e sou um investigador preciso disso. Mas falar isso ao Ikki está me deixando um pouco nervoso.

O loiro o mirou por um tempo, desconfiado.

- Só isso?

- Não, também estou preocupado com Hyoga e meu irmão, eles estão meio em crise. – disse rindo e logo provando mais do vinho – Bobagens!

- Não são bobagens. – disse Mime experimentando seu vinho branco – Seu irmão e seu amigo não são bobagens pra mim, tenha certeza. Eu entendo o quanto gosta deles.

- Não quero incomodá-lo com meus problemas, amor. – sorriu o mais jovem – Vamos jantar e esquecê-los um pouco.

- Não posso negar que sinto ciúmes dessa sua dedicação aos dois. – disse o empresário – Quando nos mudarmos, você os esquecerá um pouco, não é? Eles já são bem crescidinhos para se acertarem sozinhos.

Shun sorriu e não respondeu. Voltou a provar sua massa. Mime percebeu o silêncio do amado e esticou a mão novamente, tocando a sua.

- Perdão, amor, não quero aborrecê-lo. Eu prometi uma noite romântica, não foi?

- Sim, então vamos esquecer o Hyoga e o Ikki por enquanto?

- Certo, não tocamos mais nos nomes desses dois.

Shun sorriu acenando com a cabeça, e Mime emendou algum outro assunto que não fosse o complicado irmão e amigo do namorado.

-----Paixão e morte-----

Ikki morava num confortável chalé fora da cidade,cercado por uma área bucólica e calma. Uma fuga que seu temperamento reservado e solitário buscava quando não estava trabalhando. Fuga dos problemas cotidianos, fuga do trabalho estressante de advogado criminalista. Shaka examinava ao redor e não podia negar que o advogado tinha um gosto muito semelhante ao seu. A casa de Ikki parecia-se muito com a sua.

- Chegamos. – disse subindo a pequena inclinação que levava a casa de madeira rústica e pedra. Shaka o seguiu calado, admirando a paisagem durante todo o percurso, desceu do carro, percebendo que a neblina se intensificava naquele lugar um pouco mais elevado da cidade.

- Venha, louro, está frio e você só de camiseta! – reclamou o mais jovem o empurrando suavemente com a mão em seu ombro. O médico riu do gesto do moreno que ruborizou.

- Desculpe, eu sou assim, acho que é a síndrome do irmão mais velho.

- Isso é uma qualidade. – volveu Shaka – Hoje as pessoas são tão egoístas. Principalmente em sua profissão.

- Ah, claro! – Ikki riu descontraído – Teria que ter uma piada sobre advogados!

- Não está mais aqui quem falou! – o loiro riu também enquanto eles seguiam para dentro do chalé.

Ikki girou a chave na fechadura, mas a porta já estava aberta. Surpreendeu-se ao encontrar Hyoga sentado no sofá, aparentemente, o esperando.

- Hyoga! – exclamou o moreno – Aconteceu alguma coisa?

- Eu tenho as chaves, esqueceu? – respondeu o loiro friamente, examinado o namorado e depois o rapaz ao seu lado com olhar gélido.

- Não foi isso que perguntei. – disse Ikki, incomodado, entrando finalmente na casa e dando passagem para que Shaka fizesse o mesmo – Como você deve saber, esse é nosso cliente, doutor Shaka Phalke...

O russo se ergueu e apertou a mão do outro rapaz.

- Olá, doutor Phalke. – disse Hyoga lançando um olhar nada amistoso ao cliente – Estamos muito animados com o seu caso.

O indiano franziu o cenho. Ikki bufou irritado com a fria ironia que reconhecia no namorado. Estava constrangido com a situação. Conhecia bem o gênio temperamental de Hyoga, e não queria que Shaka fosse vítima dele, mesmo porque, aquilo com certeza seria um problema dos grandes. Precisava explicar ao russo que não era nada do que ele estava pensando. Não queria magoar o ciumento e maniacamente emotivo advogado.

Suspirou encarando o namorado.

- Hyoga, só um minuto, eu já volto. – pediu o leonino – Venha, Shaka, eu lhe mostrarei seu quarto.

O loiro indiano olhou do moreno para o outro loiro e corou. Não gostava em nada da situação que se desenhava ali. Ainda assim, como solicitado, obrigou-se a seguir Ikki pelo estreito corredor que levava ao quarto de hóspedes.

- Doutor Amamiya, por favor, eu não quero criar nenhum tipo de problema... – disse incomodado quando eles chegaram ao cômodo.

- Não há problema nenhum aqui, Phalke. – falou Ikki de mau humor. – Não se preocupe, está tudo sobre controle.

- Eu posso ficar em um hotel. Juro que fico trancado e não abro a porta pra ninguém! – Shaka falou tão sério que Ikki não foi capaz de deter o riso, o que irritou o loiro que não havia se dado conta da infantilidade da afirmação.

- Shaka, está tudo bem, de verdade. Eu... eu só preciso falar dois minutos com o Hyoga. Não se preocupe, somos todos adultos aqui.

O indiano se obrigou a aceitar a decisão do advogado, mesmo porque, odiava cenas. Ikki voltou para a sala; Hyoga já estava em pé próximo a porta.

- Hyoga...

- Ikki, eu gostaria mesmo de saber o que você quer com isso? – interrompeu o loiro – Já não basta sua excessiva dedicação a esse caso? Agora ficará bancando a babá desse cara e ainda o traz pra dentro da sua casa? não era você a ter dúvidas a respeito do caráter dele? Você me deixou esperando a tarde toda sem me dar nenhuma explicação.

- Posso explicar agora? – pediu o moreno sem paciência. O russo cruzou os braços aguardando a dita explicação – Primeiro, minha relação com o Shaka é unicamente profissional. Contudo, não sou desumano. A família do Salwenn vendeu a casa que ele morava, o que queria? Que o deixasse na rua? Desculpe, eu deveria ter ligado, mas acabei me esquecendo diante dessa situação horrível.

- Ele me parece bem grandinho e apto a se virar sozinho! – volveu o russo – Por que não o levou para um hotel?

- Hyoga, o que conversamos ontem? Esqueceu-se que ele corre risco e ainda não conseguimos a proteção policial?

- Ah, claro que não! E quem irá protegê-lo, você? – ironizou o loiro.

- Não tenho que ficar lhe dando explicações, Pato! – irritou-se o moreno – Fiz o que achei melhor para o caso, agora se não confia em mim, é melhor mesmo ir embora!

Hyoga o mirou, pasmado.

- Bom saber a importância que nossa relação tem pra você. – disse abrindo a porta e saindo. Ikki bufou e foi atrás dele.

O loiro estava abrindo a porta do carro quando ele chegou por trás a fechando novamente.

- Quer parar de chilique?! – falou irritado – Aquele homem que está lá dentro perdeu tudo! Você sabe o que é isso, Hyoga? A pessoa que ele amava morreu, ele foi preso, humilhado, espancado! E você queria que o deixasse sozinho num quarto de hotel?

O russo resignou-se, sentindo-se pequeno com aquela afirmação. Estava sendo egoísta; estava tão cego pelo ciúme que não percebia que seria muito desumano deixar aquele jovem sozinho num momento como aquele. Mesmo assim, odiava ter que dar razão a Ikki, e não o faria. Havia outras formas de ajudar o doutor Phalke sem enfiá-lo dentro de casa.

- Eu vou embora... – disse, voltando a abrir a porta do carro.

- Hyoga... – Ikki suspirou cansado – Eu não quero brigar com você, me entenda, por favor.

- Ikki, nos vemos amanhã. Deixe-me partir antes que fale mais do que gostaria. Não quero brigar com você...

O russo tentou entrar no carro, mas o moreno o puxou pra si o beijando. O loiro se rendeu, como sempre se rendia a atração magnética que sentia por ele. Ikki deslizou os dedos com carinho pela tez pálida do namorado.

- Não vai a lugar nenhum zangado assim... – murmurou contra seus lábios.

- Não estou zangado. – declarou Hyoga – Só cansado, cansado de tudo, mas... amanhã... amanhã conversamos a respeito.

- Tudo bem. – o moreno o beijou novamente, o libertando depois. Hyoga entrou no carro e saiu.

Ikki ficou observando o veículo desaparecer, tentando adivinhar como não tinha percebido o Civic prata ao lado da casa. Devia estar realmente distraído.

-----Desejos vitais-----

Shun gemeu baixinho ao sentir as mãos de Mime invadindo sua camisa a procura da maciez de sua pele, enquanto os lábios provavam os seus. Estavam numa luxuosa suíte, o final perfeito para a noite perfeita com o empresário alemão.

Mime marcava toda a pele clara de Shun com seus beijos, e estava deitando-o na cama com carinho quando o telefone do mais jovem tocou.

- Ignore... – pediu o loiro continuando a beijá-lo.

- Espere... pode ser importante... – protestou Shun tentando alcançar o celular.

- Não é... – insistiu o mais velho o puxando novamente.

- Mime... eu... eu sou um policial... esquece...? – disse Shun, finalmente conseguindo se desvencilhar do amante e pegando o aparelho. Bufou ao olhar o visor e disse baixinho:

“Eu não acredito...”

Não baixo o suficiente para que Mime não ouvisse. O empresário caiu na cama, desanimado e irritado, enquanto o mais jovem atendia em fim.

- Você sabe que horas são? – perguntou Shun irritado.

Num bar de blues a alguns quilômetros dali, Hyoga tomava um uísque, fumava um cigarro, com a cabeça apoiada pela mão, e falava ao telefone.

- Desculpe-me, Shun, mas precisava falar com você...

O investigador forense se ergueu da cama, pegando um roupão e vestindo, abriu a porta de vidro que levava a varanda da suíte, sentindo o vento gelado contra o corpo.

- Você faz idéia de onde estou? – explodiu Shun – Hyoga... você não tem noção não?

- Desculpe-me, Shun, mas como disse, eu preciso muito falar com você.

- Não pode esperar até amanhã? Por Zeus, Hyoga! Eu... eu estou com o Mime!

Hyoga virou o copo de uísque nos lábios se sentindo o mais canalha, idiota e sem noção dos seres humanos. Mas era mais forte que ele, sempre que estava triste, cansado e depressivo, sua mente, seu corpo exigia a presença de Shun. Principalmente quando bebia um pouco mais...

- Desculpe-me, Shun, eu... eu não tenho esse direito...

- Não tem mesmo... – respondeu o mais jovem irritado – O... o que aconteceu?

- Shun, desliga esse telefone... – Hyoga sussurrou cansado.

- Onde você está, Hyoga?

- Não, Shun, não é justo! – o loiro desligou o celular.

Shun suspirou, mirando o telefone, voltou para a suíte, batendo a porta de vidro atrás de si. Parou os passos, engolindo em seco. Mime estava sentado na cama com uma expressão fechada.

- Desculpe-me, amor... eu... – gaguejou sem jeito.

- Era o Hyoga, não era?

- Sim.

- Por que ele não o deixa em paz, Shun? – irritou-se o executivo – Sempre que estamos juntos essa cara fica te ligando o tempo todo!

- O Hyoga tem alguns problemas, Mime, é só isso. – explicou nervoso – Por favor, não vamos estragar nossa noite...

- Eu acho que ele tem um problema sim, Shun, ele não sabe o que quer, se é você ou seu irmão!

O mais jovem arregalou os olhos e ruborizou.

- O que está dizendo, Mime? Não é nada disso, o Hyoga é só meu amigo, só isso!

O executivo se ergueu da cama e se envolveu num roupão também.

- Vamos pra casa, Shun. – disse irritado.

- Não, Mime, espere... – o policial se interrompeu porque o namorado já havia entrado no banheiro. Minutos depois Mime saiu já vestido no terno e com os cabelos molhados; Shun continuava sentado na cama de roupão, olhando o chão, sem coragem de encará-lo.

- Você não vem, Shun? – perguntou com frieza.

- Tenho meu próprio carro... – respondeu apático – Eu sinto muito...

- Não. Você não sente. – disse o loiro antes de deixar a suíte.

O mais jovem segurou a cabeça entre as mãos, sentindo-se vazio e exaurido. Caminhou como um autômato, pegando as próprias roupas e começado a se vestir. Como pudera estragar tudo com Mime por causa de Hyoga? Aquilo tinha que acabar. Não suportava mais a presença asfixiante do russo em sua vida, não suportava mais os seus próprios sentimentos por ele.

Chegou ao estacionamento do luxuoso hotel e em segundos saía com seu carro e seus pensamentos confusos. Entrou na rodovia, distraído, sentindo uma amargura crescente dentro de si. Foi quando seu carro foi fechado por mais dois, e antes que ele pudesse reagir, escutou três disparos e tudo escureceu.

Continua...

Notas finais
Obrigadas mais que especiais aos leitores que tiveram a gentileza de me deixar um comentário. Vocês são muito importantes pra mim tenham certeza!Vivisctn, KitsuneKiki, Arcueid, Maya Amamiya, anjodastrevas, virgo nyah, Meguari Uchiha, MillaSnape, ShakaAmamiya, Hannah Elric.Beijos a todos que estão acompanhando, mesmo os silenciosos, obrigada!Sion NeblinaPostado em 21/02/2011