Notas iniciais
Olá queridos leitores,
Desculpe-me a grande demora com esse capítulo, mas o próximo não vai demorar tanto e dessa vez é verdade XD!
Espero que gostem e perdoe os erros pelo texto, caramba! Toda vez que reviso as fics depois de postadas encontro erros de concordância (é o que mais erro aff), sinto muito, mas é a vida corrida que me impede de deixar o texto como vocês merecem.
Beijos e, de coração, desculpa a demora e boa leitura.
Sion Neblina
P.S A música que aparece no capítulo é "Ruas de outono" e eu escutei na voz da Ana Carolina, belíssima, vale a pena escutar.

Dei-me seu coração

Capítulo 10

Era muito cedo e a brisa fria do outono carregava as folhas secas de um lado a outro. Hyoga estava envolto em um cobertor na varanda do chalé observando a neblina que cobria o lago da propriedade de sua família em Vermont.

Nas ruas de outono

Os meus passos vão ficar

E todo abandono que eu sentia vai passar

As folhas pelo chão

Que um dia o vento vai levar

Meus olhos só verão que tudo poderá mudar

Suspirou. Pensar era tudo que ele podia. Há dias tentava se convencer de que não estava mesmo apaixonado por Shun, melhor, que estava confundindo as coisas, assim como Ikki. Sim, eles estavam confusos, mas a cada período de solitária reflexão, o russo se convencia de que não estava apaixonado por Shun, amava-o, amava-o tão profundamente e de maneira tão pura que confundira o sentimento com amizade.

Ergueu-se e desceu para o pátio, começando a caminhar enquanto chutava as folhas secas pelos chão.

“Hyoga...”

Foi um eco, uma alucinação, um fantasma. Ele nem se voltou, continuou a andar. Não havia como ser real, eram 05h00min da manhã, ele estava sem dormir, precisava dormir, dormir, dormir, dormir e parar de pensar.

Não ouviu novamente, confirmando a alucinação, mas ouviu os passos que corriam atrás de si. Um fantasma. O medo. A insônia.

As mãos que o tocaram e envolveram sua cintura, frias, eram reais e ele se voltou arregalando seus olhos azuis...

Eu voltei por entre as flores da estrada

Pra dizer que sem você não há mais nada

Seus olhos miravam, sem acreditar, o rosto sorridente do mais novo, seus olhos brilhantes embora cansados. Não foram capazes de dizer nada, depois de um longo tempo se mirando, os dedos frios do russo migraram para a pele clara do rosto do menor e em segundo seus lábios se encontraram em um beijo cheio de ardor.

Shun o envolveu pelo pescoço e Hyoga envolveu suas costas com os braços o puxando para si, erguendo-o do chão, o levando para dentro da cabana, sem parar o beijo.

Não houve tempo para pensamentos ou hesitação. Eles apenas faziam o que o coração mandava.

Chegaram ao quarto. Hyoga o colocou na cama. Não pensavam apenas sentiam, seus olhos se encontraram, sentiram os lábios secos e os umedeceram com a língua antes de voltarem a se beijar.

Quero ter você bem mais que perto

Com você eu sinto o céu aberto

Gemeram no beijo. As mãos começaram a se livrar das roupas com pressa, afoitos. Não pensava, absolutamente. Não havia espaço para questionamentos, havia apenas o desejo, a carência, a vontade de ficar juntos.

O loiro beijou cada parte do corpo de Shun, cada recôndito proibido, cada saliência e reentrância que o fazia gemer de prazer. O menor apertava os músculos dos seus braços e tentava conter gemidos mais altos ao morder os lábios rubros, deliciando-se com a forma sensível e carinhosa que aquele homem tinha de fazer amor. Já imaginava que fosse assim. Hyoga era um gentleman, um homem fino e sensível. Sempre que se imaginou tocado por ele, era exatamente daquela forma, mas nunca se quer imaginou as sensações que aqueles toques lhe despertavam agora.

Daria pra escrever um livro

Se eu fosse contar

Tudo que passei antes de te encontrar

Pego sua mão e peço pra me escutar

Seu olhar me diz que você quer me acompanhar

O russo se afastou para se livrar das últimas peças de roupas antes de voltar a se deitar sobre o corpo do mais jovem. O beijo e a fricção dos corpos, que agora estavam quentes, arrancaram novos gemidos de ambos. Hyoga massageava todo o corpo delgado de Shun, descendo as mãos pelos mamilos endurecidos, pelo abdômen liso até chegar ao meio de suas pernas, centro do seu prazer, que ele massageou, fazendo um grito rouco escapar dos lábios de Shun. Desceu os lábios beijando-o inteiro e quando sua boca molhada chegou ao sexo pulsante do policial, Shun arqueou o corpo e crispou as mãos nos lençóis, gritando o nome do loiro que continuou com a carícia, deliciado com as reações que provocava no menor até que ele gozou, contorcendo o corpo até os dedos dos pés.

Hyoga engoliu o líquido agridoce e voltou a beijar o policial compartilhando com ele o próprio gosto, enquanto se posicionava entre suas pernas. A preparação foi rápida, ambos estavam loucos de desejo. Shun gemeu alto quando o russo entrou em seu corpo, atravessando o canal com um único golpe, e começou a se mover devagar; fazendo-o bailar junto, subindo e descendo, ofegando. O menor cravou as unhas nos ombros fortes de Hyoga e o mordeu para conter a vontade de gritar cada vez que o loiro lhe tocava fundo.

Entraram em um ritmo intenso. Hyoga ia cada vez mais rápido e fundo, gemendo ensandecido. Shun já gritava, deixando para trás o pudor, até que ambos chegaram ao orgasmo juntos. As peles vibrando de encontro a outra, as respirações se confundindo, quentes, na manhã gélida.

Caíram na cama abraçados, o loiro não parava de afagar e beijar Shun.

— Acho que sempre amei você... — ele murmurou — me perdoa, Shun, me perdoa se te fiz sofrer.

O mais jovem não disse nada. Não queria pensar naquele momento. Sabia que teria muito que pensar depois, mas naquele momento, ele só queria aproveitar a paz que sentia nos braços do homem que sempre amou.

***Desejos vitais****

Ikki vestiu a calça de pijama e se cobriu com uma manta xadrez, afinal, a manhã estava muito fria. Saiu da cabana para se certificar que o carro permanecia no mesmo local e foi atraído por um barulho no bosque. Tenso, seguiu e acabou rindo ao encontrar Shaka, tendo em mãos um machado, cortando lenha.

— Bom dia, doutor — falou o loiro e lhe entregou um fecho de lenha. Ele estava suado, mesmo na manhã gelada — A lareira precisa de lenha nova.

— Você é mesmo surpreendente — riu Ikki e recebeu um carinhoso beijo nos lábios.

— Saí para meditar um pouco no bosque. O contato com a natureza me renova, aí aproveitei e resolvi cortar um pouco de lenha, me exercitar.

— Hum... — Ikki o envolveu pela cintura, deixando a manta cair — Pensei que os exercícios de ontem seriam suficientes — disse sensualmente.

Shaka riu corando.

— Foram... renovadores. O problema sou eu, nunca estou completamente satisfeito.

— Isso acaba com minha auto-estima — o moreno fez uma careta divertida e o loiro mordiscou-lhe o queixo.

— Essa não foi minha intenção — falou e começaram a voltar para a cabana — Eu preciso voltar, tenho um encontro importante com um amigo hoje.

— Da Cia.?

— Sim. E... — virou-se para encarar o moreno — por Deus, Ikki, você não vai comigo.

— Mas...

— Você não vai comigo — declarou o loiro firme.

O advogado bufou contrafeito e continuou a andar. Sabia que não adiantava muito argumentar quando Shaka colocava algo na cabeça.

Em menos de uma hora, se aprontaram e deixaram à cabana em direção a Boston. No caminho, Ikki tentava juntar as peças daquele quebra-cabeça. Será que Shaka estava falado a verdade? Aquela história de CIA era tão fantasiosa...

Chegaram à Boston no meio da manhã e seguiram para a casa do moreno. A polícia com certeza havia passado por lá o que ficou claro pelo aviso deixado. Imediatamente ele ligou para Shun, mas o celular do irmão estava fora de área, então resolveu se informar com Shiryu que lhe contou que Shun havia saído da cidade, mas não quis entrar em maiores detalhes. Aquilo deixou o advogado intrigado, mas como o agente atestou que o irmão estava bem, ele resolveu se concentrar no caso Gyatso. Ligou para Camus e se inteirou do processo.

Quando desligou o telefone, olhou para o médico que tirava a camisa e tencionava ir para o banheiro.

— A proteção policial já foi providenciada. — disse — Eles chegarão aqui em menos de uma hora.

— Ótimo, posso sair antes — piscou Shaka e continuou seu caminho para o banheiro, onde tomou uma ducha rápida. Quando voltou para o quarto, Ikki estava sentado na cama o aguardando pacientemente.

— Você vai mesmo sozinho? — insistiu o moreno.

— Vou sim, ou a partir de agora preciso de babá? — ironizou enquanto secava os cabelos com uma toalha, tendo outra em volta da cintura.

— Shaka, você sabe do que estou falando...

— Ikki, ficarei bem, sério, se essas pessoas quisessem mesmo me matar já teriam feito isso.

— O que lhe dar toda essa certeza?

— Pense um pouco — pediu Shaka — Eu sempre estive muito exposto, muito. O que aconteceu no presídio não parece ter sido algo organizado, ao contrário, eu estaria morto...

— Mas era para estar morto! O que você teve foi muita sorte, eles perfuraram seu pulmão! Seu coração escapou por pouco! — irritou-se o moreno — Não fale disso como se fosse algo sem importância!

Shaka se calou. Compreendia que Ikki estivesse com medo, mesmo porque, sabia, mal grado seu, que o medo dele era totalmente pessoal.

Suspirou. Não deveriam ter se envolvido, não deveria ter permitido. Mas como fugir àquele sentimento que insistia em vibrar em seu peito? Como resistir a um homem como Ikki Amamiya?

— Escuta...

— Não, Shaka, escuta você... — Ikki se ergueu da cama e o segurou pela nuca — Você é teimoso e intransigente, mas mesmo que queira, não deixarei que corra perigo sozinho...

— Eu não correrei perigo, Ikki, confia em mim. — pediu o olhando nos olhos.

Ficaram mudos por um tempo, apenas trocando aquele olhar, até que o moreno tomou-lhe os lábios com ardor e Shaka correspondeu ao beijo feliz. Aquele beijo era o consentimento do moreno para que fosse, compreendia isso.

Afastou-se e afagou-lhe o rosto com carinho, apoiando a cabeça na dele.

— Depois vou para o Ross, devo voltar tarde — declarou e se afastou para tirar a roupa do armário. Ikki assentiu com a cabeça e foi para a sala. Quando Shaka, já pronto, saiu do quarto, encontrou-o aparentemente concentrado no trabalho. Aproximou-se da mesa e, segurando o queixo do moreno, beijou-o delicadamente.

— Deseje-me boa sorte.

— Boa sorte — sorriu Ikki e entregou a chave do carro ao loiro que saiu em seguida.

Ikki ouviu quando o médico deu a partida no carro e, pela janela, mirou o veículo descer a estrada sinuosa que levava ao centro da cidade. Imediatamente se ergueu e, indo para a garagem, ligou o jipe e rapidamente seguiu o carro.

*** Amor e morte***

Parecia um sonho. Essa foi a impressão de Shun quando abriu os olhos. Parecia que havia sonhado com Hyoga, com o maravilhoso momento de amor que tiveram. Isso o sobressaltou; angustiado, olhou ao redor sentando-se na cama abruptamente. Mas a dor que sentiu em certa parte do corpo ao fazer tal gesto lhe deu a certeza que não sonhara.

Jogou-se na cama novamente com um sorriso sapeca e satisfeito no rosto. Era o momento em que o russo voltava ao quarto, vestido em uma calça de pijama e trazendo uma bandeja com duas canecas de café fumegantes e um prato com torradas.

Hyoga parou e ficou um tempo mirando a expressão de Shun, isso fez o policial corar e esconder o rosto.

— Se ficar me olhando assim a partir de agora, juro que desapareço...

O loiro riu, se aproximou sentando-se na cama e pousando a bandeja numa banca.

— Hum... Será difícil olhá-lo de outro jeito agora, você fica lindo acordando, depois de fazer amor comigo...

— Ah, pára com isso, Hyoga... — pediu sem jeito.

— É a verdade — sorriu apaixonado o russo, afagando a pele ruborizada do rosto do mais novo — Eu estou completamente apaixonado por você, Shun.

O policial mordeu o lábio inferior e se sentou na cama, ajeitando os cabelos.

— Hyoga, vamos devagar — pediu sabendo que aquilo destruiria todo o clima, mas era necessário —, não esqueça que até... até alguns dias, você era apaixonado pelo Ikki e... sexo não é amor.

O mais velho ajeitou os cabelos também e encarou o amante, embora ele não o encarasse.

— Shun, você tem razão, eu fui completamente apaixonado pelo Ikki, muito mesmo e, sendo sincero, nem sei se isso realmente ficou no passado...

Aquelas palavras quebraram o coração de Shun, mas ele permaneceu parado e quieto. Pedira sinceridade, agora não poderia reclamar.

— Eu entendo.

— Só que é você quem eu amo e agora não tenho dúvidas disso. Foi a sua falta que senti, Shun, não a do Ikki. É você a pessoa que sempre imagino ao meu lado nas horas difíceis, não o Ikki. Tá, rolava um puta tesão entre eu e seu irmão, mas no final, eu vi que era só isso. Admiração também, o Ikki é um grande desafio, mas é você quem aquece meu coração. Eu sorrio como um idiota ao pensar em você, isso nunca aconteceu com o Ikki! Pelo contrário, pensar nele sempre me causou certa apreensão, como você tudo é paz.

Shun sentiu o coração acelerado e lágrimas inundarem seus olhos. Estava feliz demais, sempre amara Hyoga, não podia negar, mas... Deus, havia Mime que era alguém tão especial. Seria justo o que estava fazendo? Traindo alguém que confiava nele, alguém que o amava.

Sentiu os braços do russo em volta dos seus ombros o puxando para si com carinho.

— Eu sei que deve estar pensando várias coisas, mas eu peço, Shun, me dê ao menos uma chance de provar que meus sentimentos são verdadeiros.

— Eu vim aqui, sobretudo, para provar os meus, Hyoga — sorriu encarando o loiro — Por enquanto isso é suficiente pra mim...

O advogado sorriu e se afastou, pegando a caneca de café e entregando ao policial.

— É tudo que temos!

— Por enquanto está ótimo! — sorriu Shun e os dois começaram a refeição enquanto conversavam amenidades como velhos amigos que eram.

***Desejos vitais****

Shaka estacionou o carro em frente ao restaurante discreto de uma pequena rua no centro de Boston. Uma rua estreita e sem saída. Pensou por um momento que em um lugar como aquele se tornaria um alvo muito fácil, mas precisava arriscar, mesmo porque, duvidava muito que o interesse do assassino de Mu fosse matá-lo.

Entrou antes olhando a rua com atenção. O pequeno restaurante possuía graciosas janelas de vidros e exalava um delicioso cheiro de comida caseira e aquilo não deixava de ser exótico. As mesas eram decoradas com toalhas coloridas e vasos solitários contendo uma rosa vermelha. Mirou ao redor até achar sua mesa, o vaso dela era como os outros, mas diferente dos demais, possuía uma rosa negra no lugar das vermelhas.

Sentou-se e pediu água, embora não fosse beber. Consultou o relógio de pulso e nesse exato momento sentiu uma mão suave em seu ombro.

— Sorrateiro como sempre — declarou com um sorriso de lado.

— E você anda muito distraído — devolveu o agente da CIA dando a volta e se sentando à sua frente.

— Olá, Erik...

— Você sabe o quanto detesto esse nome... — declarou o outro blasé.

— Perdoe-me, olá, Afrodite ou devo chamá-lo de Rosa Negra...

— Como preferir, menos Erik — sorriu Afrodite — Como vai Shaka? Devo imaginar que muito bem, se levarmos em conta o moreno parado no jipe a alguns metros daqui.

— Você também o percebeu? — indagou Shaka com indiferença.

— Claro, a forma que ele tamborila os dedos no volante, louco para entrar aqui, é por demais barulhenta — continuou o agente tirando um maço de cigarro e um isqueiro do bolso, acendendo um que tragou sem se preocupar.

— Vamos ao que interessa, Afrodite — falou Shaka enquanto o garçom trazia sua água.

— Ah, claro, não tenho mesmo muito tempo — falou o agente com indiferença — Investiguei o presídio que você esteve e tive acesso a todas as fichas. Foi um serviço terrivelmente amador, então, acho que deve descartar a hipótese de uma represália da CIA por algum motivo imaginário e também a hipótese de uma grande organização por trás disso. Aparentemente, há alguém que não gosta nada de você e do Gyatso só isso.

Shaka bufou e seu dedo médio brincou com a pinta que possuía na testa.

— Mas quem e por quê?

— Os homens que foram pagos para matá-lo no presídio, assim como os policiais responsáveis por sua transferência indevida já estão presos. Logo o moreno do jipe será informado disso — sorriu Afrodite, deixando claro que sabia de tudo, tudo mesmo, sobre Ikki, o que causou certo incômodo em Shaka — Mas eles não souberam dizer muita coisa. O retrato falado do contratante é difícil, aparentemente o cara estava disfarçado e usava óculos escuros. A contratação foi feita por telefone, o contato foi apenas no momento de entregar o dinheiro, os bandidos não tiveram contato com ele, apenas os policiais.

— Isso tornam as coisas difíceis.

— Muito — Afrodite tragou o cigarro de novo, soltando a fumaça no ar — Agora só depende de você, caro amigo, apenas você pode juntar as peças desse quebra-cabeça, já fiz tudo que estava ao meu alcance. Mas, como disse antes, parece alguma questão pessoal.

— Não tenho inimigos, nunca tive...

— Bem, alguém não gosta nada de você, mataram seu amante e deixaram provas suficientes para incriminá-lo — o agente se ergueu —, acho melhor mudar esse ponto de vista.

Shaka se ergueu também e jogou uma nota na mesa.

— Obrigado, Afrodite — estendeu a mão e apertou a do amigo.

— Chame sempre que precisar, mas não abuse — piscou o belo homem e saiu sem mais palavras.

Shaka suspirou e tomou uma decisão rápida. Só havia uma saída, precisava desesperadamente entrar no consultório de Mu, só assim conseguiria uma pista que o levasse às pessoas que tanto o odiavam.

*** Amor e morte***

Hyoga e Shun passaram um maravilhoso dia juntos. Caminharam pelo bosque abraçados, andaram de canoa no lago e almoçaram em um restaurante aconchegante a alguns quilômetros do chalé. O policial avisou que só voltaria no final do dia ao departamento e resolveu viver aquele dia como se fosse o último.

O loiro o havia interrogado sobre os machucados, mas ele preferiu desconversar, não queria preocupá-lo. Inventou a desculpa de uma queda e deixou que o assunto morresse. Queria mais aproveitar aquele dia perfeito.

Hyoga avisou que voltaria com ele. Já não tinha motivos para aquele exílio, com Shun tudo estava bem, agora não possuía mais dúvidas em seu coração, sabia exatamente a quem amava. Todavia, ainda havia uma sombra em seu caminho e seu nome era Mime. Tinha medo que aqueles momentos maravilhosos fossem somente isso; momento. E que no final, Shun escolhesse ficar com o empresário.

Suspirou com esses pensamentos e isso chamou a atenção do amante que andava protegido do frio sob seu braço. Eles haviam feito um passeio pelo lindo bosque. Shun que nunca estivera ali estava maravilhado com a beleza do local.

— O que foi, Hyoga? Eu conheço esse suspiro! — provocou sorrindo.

O russo riu e beijou-lhe a testa.

— Nada, estou lamentando que já esteja na hora de voltar. Queria ficar aqui contigo por mais tempo.

— Teremos muito tempo. — sorriu Shun o beijando de leve.

Entraram no chalé e foram para o banheiro onde tomaram um banho quente e relaxante, trocando carícias e rindo de felicidade. Shun ouviu o barulho de um carro e logo depois alguém batia à porta do chalé.

— Está esperando alguém?

— Não, mas não se preocupe, aqui sempre aparece alguém. As estradas são terríveis e vez por outra algum pneu fura, deve ser isso.

— Deixe que veja quem é então — falou o policial se cobrindo com um roupão e passando as mãos nos cabelos molhados, caminhando do banheiro em direção à porta.

Quando a abriu, seu coração falhou e seus olhos se arregalaram incrédulos.

— Mime... — murmurou ainda sem acreditar.

***Desejos vitais****

Shaka seguia, observando o tempo inteiro o jipe pelo retrovisor. Chegava ser divertido. Ikki era um homem muito inteligente e mantinha uma distância segura, mas sem perder seu carro de vista. Ele virava de uma rua a outra e não conseguia despistá-lo, mas também não tinha real interesse nisso.

Chegou ao Ross hospital e estacionou. Levaria algum tempo até que o moreno chegasse ali também, então desceu e se encaminhou para sua sala. Fez questão de procurar Saga e explicar o atraso do dia, logo se encaminhando para começar o plantão. Esperava que Ikki cansasse de segui-lo e fosse para casa. Com certeza não chegaria cedo, naquele dia.

*** Amor e morte***

Shun permaneceu estático, não sabia o que dizer. Mime o encarava seriamente um misto de mágoa e raiva se derramando dos seus olhos.

— Shun, o que houve, você... demorou... — as palavras de Hyoga que chegava, de toalha, à sala, morreram progressivamente em seus lábios e ele também parou sem saber o que dizer.

— Mime... — Shun começou a dizer, mas foi interrompido por uma bofetada. Hyoga avançaria, mas um gesto de mão do policial o impediu. Shun voltou a encarar o namorado — Você tem todas as razões do mundo para me odiar, Mime...mas, me perdoe... eu preciso explicar...

— Você é muito cínico! Como tem coragem de me pedir perdão?! — ralhou o empresário consumido pela raiva e pela dor — Como fui ingênuo! Deve ter sido muito divertido ter-me feito de bobo!

— Mime...

— Há quanto tempo estão juntos e me fazendo de idiota?! — gritou ele descontrolado e Hyoga achou que já tinha ouvido demais.

— Não é nada disso, Mime — falou puxando Shun para si de forma a afastá-lo do namorado e de uma possível nova agressão — Nada foi planejado, aconteceu. Shun me ama e eu o amo, sinto muito se isso o magoa, mas é só o que podemos dizer em nossa defesa.

Mime crispou os punhos e encarou Shun com uma muda, mas visível interrogação nos olhos.

— É verdade — murmurou o policial —, eu sinto muito, nunca quis magoá-lo, mas... sei que não há como justificar isso...

— Tem razão, Shun, não dá pra justificar mesmo! — volveu Mime tentando controlar a revolta e a mágoa — Poderia pelo menos ter terminado comigo antes de vir atrás dele como uma cadela no cio!

— Eu não vou permitir que o ofenda! — falou Hyoga irritado — Melhor controlar a língua, Mime...

Shun pediu mudo que Hyoga não se envolvesse. Sabia que o namorado, ou ex-namorado, estava certo em toda sua raiva. Não havia perdão nem explicação para a forma que agiu e Mime nunca entenderia sua necessidade de fazer aquilo, porque durante todo o relacionamento dos dois, escondeu seu amor por Hyoga. Então, ele, Shun, era o único culpado.

— Você preferiu me fazer de palhaço, Shun! — continuou Mime — Eu... Deus, eu vim aqui como um louco, pensando que você estivesse machucado, aflito e... Como pode depois de tudo que vivemos?!

Shun não sabia mais o que dizer. Agora só fazia chorar quieto, enquanto Mime continuava derramando toda sua dor sobre ele, e Hyoga tentava consola-lo, sem sucesso. Não conseguia nem ao menos pedir perdão, porque, sabia, não havia perdão para a forma leviana que agiu. Poderia argumentar que não imaginou que cairia tão rápido na cama de Hyoga, mas aquilo não era desculpa, ele fez tudo, sabendo muito bem o que estava fazendo.

— Sabe o que mais? Me esquece, Shun, espero que vocês sejam felizes juntos! — disse com ironia — Com certeza vocês dois se merecem! — saiu batendo a porta.

Shun deixou-se cair no sofá e escondeu o rosto nas mãos soluçando de maneira inconsolável. Hyoga se sentou ao seu lado e afagou-lhe os ombros tensos.

— Não fica assim, Shun...

— Como não? O pior é que não há mesmo defesa para a forma como agir com ele, não há...

— Havendo defesa ou não, você tem que se perdoar, amor...

Shun soluçou mais forte e escondeu o rosto no peito do loiro que lhe afagou os cabelos.

— Como ele chegou aqui? — volveu Hyoga intrigado.

— Ele sabia que você estava aqui, deve ter juntado as peças e depois foi só me rastrear pelo GPS do carro... o Mime tem um localizador no celular dele.

— Maldita modernidade... — resmungou Hyoga apertando mais forte o corpo delgado de Shun — Bem, e agora?

— Agora vamos voltar. Precisamos encarar isso como adultos.

Os dois foram para o quarto onde prepararam a bagagem para voltar a vida real.

***Desejos vitais****

Foi um dia normal na rotina de um grande hospital. Muitos pacientes para atender, exames, emergência. Incrivelmente, eram nesses dias que Shaka se sentia profundamente realizado. Tão realizado que quase esqueceu suas preocupação. Cada sorriso infantil, cada ferida curada, enchia seu coração de paz e esperança, embora a realidade fosse muito cruel.

Aiolia o visitou cedo, junto com Marin que finalmente achou tempo para lhe dar as boas vindas. O indiano ficou realmente feliz, sua vida ganhava finalmente um toque de realidade e se não fosse pelo encontro com Afrodite diria que nada de anormal estava acontecendo. Poderia imaginar que as 08h00min Pm, Mu abriria a porta o chamando com um sorriso para que fossem para casa e ralharia com ele e sua obsessão por trabalho.

Suspirou ao pensar nisso e organizou sua maleta, tirando o jaleco que usava. Nesse momento, houve uma batida na porta e apareceu um dos diretores; Shura sorriu para ele com certa ironia.

— Phalke, Vaskália pediu para que o chamasse. Vamos a um pub essa noite, se quiser...

— Agradeça ao diretor, mas pubs não são bem meu lazer favorito — respondeu polido, mas não simpático.

— Tudo bem, então boa noite.

— Boa noite, Shura.

O cardiologista saiu e Shaka terminou de arrumar suas coisas, mas ao invés de deixar a sala, apenas apagou as luzes e se sentou atrás da sua mesa. Não soube calcular o tempo que ficou ali parado como uma metódica serpente esperando o momento certo para atacar. Viu a movimentação no hospital cair pouco a pouco até se extinguir por completo naquela ala.

Ergueu-se e irrompeu pelo corredor em direção ao setor de cardiologia, mas especificamente, em direção a antiga sala de Mu.

Dessa vez foi mais fácil. Abriu a porta sem que ninguém o incomodasse, mas praguejou ao constatar que deveria ter pego uma lanterna ou algo parecido. Entretanto não era hora para pensar naquilo. Caminhou até uma janela e a abriu deixando que a lua jogasse sua luz no cômodo escuro. Em seguida ligou o computador, era o que mais lhe interessava.

A polícia não havia investigado a sala de Mu, pois achava que tudo não passara de um crime passional. Ele era o culpado e se alguém poderia provar sua inocência era ele mesmo, então aquele lugar permaneceu intocado.

Esperou pacientemente que a máquina carregasse e quando tentou acessar percebeu que ela estava protegida por senha.

“Ninguém no hospital tentou formatar essa máquina?” Estranhou e começou a testar as senhas, mas não conseguia de forma alguma descobrir.

“Ah, Mu, maldita seja sua mania de sigilo!” praguejou e tomou uma decisão inusitada; desligou a máquina retirando todos os cabos e carregou a CPU para fora da sala,fechando a porta. Voltou para seu consultório e pegou suas coisas. Quando chegou à recepção e recebeu os olhares surpresos dos seguranças e das recepcionistas, explicou que seu computador estava com defeito, mas que ele mesmo o formataria em casa e traria de volta na manhã seguinte. Apesar de achar estranho, eles não pareceram se importar. Shaka então foi para o estacionamento e colocando a máquina no banco de trás, abriu a porta da frente e iria dar a partida no carro quando alguém chamou seu nome o assustando.

— Que susto, Aiolia! — falou lívido. Estava muito escuro e ele demorou a reconhecer o amigo.

— O que aconteceu? Por que está saindo essa hora? Pensei que já tivesse ido embora há tempos — falou o outro médico desconfiado.

— Acabei me distraindo com algo no computador... — resmungou querendo se livrar logo de Aiolia.

— Deixe-me adivinhar... travou a máquina não é? Agora terá que formatar? — riu Aiolia.

— Isso mesmo e estou irritado e com pressa, então...

— Ta bom então, boa noite, eu estou esperando a Marin, hoje ela resolveu fazer hora extra.

— Okay. Diz a ela que deixei um abraço — sorriu o loiro e deu partida no veículo deixando o Ross Hospital.

Ikki já estava em casa quando ele chegou e estranhou o mais velho estar carregando aquela máquina.

— O que aconteceu? — indagou enquanto recebia um beijo de Shaka.

— Sem querer coloquei uma senha e agora preciso virar a noite tentando removê-la — mentiu em parte.

— O que tem de tão importante que não pode esperar os técnicos em informática?

— Fichas de pacientes — explicou dando de ombro e colocando a CPU sobre a mesa.

— Quer ajuda?

— Não, obrigado.

— Como foi o encontro com seu amigo?

Shaka riu de lado e o encarou.

— Você deveria me dizer, já que estava colado em mim o tempo todo.

Ikki riu.

— Então você me viu, doutor?

— Claro. Bem que eu achei que o convenci muito fácil a ficar aqui, mas não esperava que me seguisse — falou o médico se sentando no colo do moreno.

Ikki mordeu o lábio inferior e o mirou com um olhar malicioso.

— Já disse que não vou deixá-lo andando sozinho por aí...

— Eu agradeço toda essa proteção.... — beijou-o de maneira sensual e lenta, experimentando o sabor da língua do moreno com paciência, até que se afastou — Tomarei um banho.

— Certo, enquanto isso eu vou dar uma saída — Ikki se ergueu e pegou o terno começando a vesti-lo.

— Há essa hora? — Shaka ergueu uma sobrancelha.

— Sim, eu preciso falar com meu irmão que já voltou à cidade, seja lá de onde tenha indo, mas não demoro. Trago alguma coisa pra comermos, já que você vai virar a noite mesmo com essa coisa!

— Certo — sorriu o loiro. O moreno deu-lhe um beijo e partiu.

Shaka ficou um tempo parado, pensando como estava estranhamente feliz, vivendo ao lado de Ikki. Isso, de certa forma, causou-lhe angústia. Estava se apegando, melhor, amando o advogado e não sabia onde isso poderia levá-lo.

Resolveu não pensar mais naquilo, tomou um banho e depois, com um chá quente ao lado, instalou a máquina, sentando-se de frente ao monitor onde passaria a noite testando senhas.

Ikki parou o jipe no estacionamento interno do prédio onde o irmão morava. Em minutos estava tocando a campainha do apartamento de Shun. O agente que assistia à televisão, ou tentava, encolhido no sofá, se ergueu para atender. Pensara em procurar por Mime depois que voltou à Boston, mas sabia que ainda não era a hora e que nada que dissesse diminuiria a dor do ex-namorado. Fora realmente um canalha com ele e não sabia como pedir desculpa, agora teria apenas que dar tempo ao tempo e esperar que um dia Mime o perdoasse.

Abriu a porta e Ikki entrou como um furacão.

— Vi os policiais na entrada do prédio — foi logo falando o mais velho —, você não acha que me deve explicações?

O policial suspirou pesadamente.

— Ikki, eu tive que sair da cidade para resolver...

— Isso antes ou depois de ser surrado, amordaçado e quase violentado por bandidos? — indagou mirando o rosto do irmão onde ainda aparecia um hematoma — Sim, Shun, estou sabendo de tudo, inclusive das ameaças! Deus o que pensa que está fazendo da sua vida, garoto?

— Chegou ao ponto, Ikki, essa é minha vida. — Shun falou baixo. Com o irmão naquele estado não podia falar sobre o motivo da sua viagem, sobre Hyoga e a briga com Mime, precisava “amansar a fera” primeiro.

O mais velho o olhava calado, com um olhar que o intimidava.

— Ikki, essa é a vida que escolhi. — continuou se justificando – Eu sinto muito por deixá-lo preocupado...

— Ah, certo. — o advogado sorriu com ironia e falou baixinho, coisa que Shun sabia que ele só fazia quando estava no limiar da irritação – Eu fico muito contente por você sentir muito, Shun, muito contente mesmo.

— Ikki, não faz isso comigo. — murmurou baixando o olhar — Eu não fico me envolvendo nos seus casos, mesmo quando eles são perigosos.

— Porra, eu sou um advogado e não um policial... — resmungou — Isso mostra que a probabilidade de amanhecer morto é bem menor que a sua, caro irmão.

— Eu sei, eu sempre soube, mas é o que gosto de fazer, sinto muito — sussurrou condoído — não é minha intenção preocupá-lo, Ikki, sei que você já tem muitos problemas, mas... É o que faço, quando vai aceitar isso?

O mais velho inspirou profundamente e soltou o ar devagar. Shun estava frágil, machucado e parecia triste. Não brigaria muito com ele naquele momento.

— O que pretende fazer agora, Shun? Qual será o próximo passo desses caras, matar você? — indagou procurando controlar o tom de voz.

— Já aceitei proteção policial, Ikki, amanhã será aberta uma investigação sobre o caso.

O advogado colocou as mãos nos bolsos e encarou o irmão.

— Isso tem a ver com o caso Gyatso?

Shun o encarou, seus grandes olhos verdes em dúvida.

— Não posso te falar isso...

— Ah, você pode sim! — irritou-se o mais velho — E por Deus você vai falar!

— Ikki...

— Shun, se quer saber a minha casa foi invadida ontem à noite, eu estava em Lowel com o Shaka até algumas horas. Se não me falar a verdade só estará me pondo ainda mais em perigo.

Sim, apelou! Isso era moleza para um advogado. Sabia o quanto o irmão era sensível e que ele se sentiria culpado se não falasse.

— Invadiram sua casa? — Indagou Shun surpreso — Ikki, eles... eles ameaçaram você e Mime, eu... eu preciso que vocês se mantenham seguros.

— Shiryu mandou policiais, mas eles não acharam nada. Uma viatura já está noite e dia na minha porta, infelizmente. — falou com desgosto, mas sabia que assim se sentia mais tranqüilo, por Shaka.

Shun suspirou de alivio.

— Eu sabia que o Shi resolveria tudo — sorriu. — Saber que você e Mime estão seguros...

— Foda-se o Mime e foda-se a mim, eu quero saber de você! O departamento não vai fazer nada? Até quando esses caras ficarão...

— Ikki, calma, isso é com o departamento, eu ficarei bem — disse o mais novo. — Está tarde, volte para casa e cuide do Phalke, o julgamento não demora, se concentre em achar provas para inocentá-lo.

Shun também tinha suas armas de ação e sabia que o tal Shaka Phalke era uma arma eficaz para manter o irmão ocupado.

O advogado se aproximou do policial e tocou-lhe o rosto machucado, deixando transparecer a angústia que sentia.

— Lembre-se que eu só tenho você na vida... — murmurou vencendo seu temperamento fleumático.

— Eu sei, irmão, você não vai me perder, tenha certeza, ficarei bem, eu prometo. Agora vá para casa, você parece exausto.

— Vou sim — falou afagando os cabelos do menor — E , Shun, por Deus, fique longe de encrenca!

— Ficarei, prometo! — riu o Amamiya mais novo e viu Ikki caminhar até a porta soltando um: “meninos encrenqueiros”; não entendeu. Deu de ombros e fechou a porta.

Nesse momento o telefone tocou. Deveria ser Hyoga querendo saber como estava, atendeu com um sorriso nos lábios.

— Alô?

— Voltou para Boston?

Uma voz estranha falou e Shun sentiu seu sangue gelar.

— Quem está falando?

— Corregedor, esqueça o caso Gyatso, esse é o meu último aviso.

O telefone foi desligado, deixando um Shun estático ainda o segurando enquanto escutava o irritante som da ligação terminada.

*** Amor e morte***

Shaka digitou a milésima senha sem sucesso. Mirou o relógio, já passava da meia noite, onde Ikki estaria?

Estava desanimado, parecia que nada seria capaz de desbloquear aquele computador. Pensou por alguns segundos e se recordou do cofre. Sim! O cofre! O único local que Mu tinha a certeza de que mais ninguém teria acesso além de Shaka. Andou rápido em direção ao quarto. O pequeno baú de madeira estava intocado desde que o recuperou das raízes retorcidas da árvore. Seu coração se apertou. Aquele baú representava mais do que qualquer um poderia imaginar para ele e pensar em abri-lo era doloroso. Não queria abri-lo, não queria violar o pacto que fizeram quando eram tão jovens ainda, quando tudo era perfeito.

“Você me dá seu coração?”

“Pra que você quer meu coração?”

“Para ser sempre meu, Shaka, enquanto vivermos...”

“Meu coração é teu, Mu...”

O tibetano tirou uma pequena pedra preciosa de dentro do baú de madeira, era um rubi em forma de coração que ele depositou na mão de Shaka.

“Esse é meu coração, ele é seu...”

Naquela tarde, na enseada, Shaka prometera que um dia acharia uma pedra tão bonita quanto e daria a Mu como prova do seu amor. Os anos se passaram e ele nunca encontrou a tal pedra e não encontraria mais.

Tais pensamentos levaram lágrimas aos seus olhos. Ele nunca dera muita importância a esse fato, mas agora pensando nele, sentia-se em eterna falta com o amado.

O pequeno rubi estaria dentro do baú de madeira, estaria lá, o coração de Mu eternamente a espera do seu. Tentou afastar os pensamentos doloridos e ser prático, precisava saber se havia algo mais naquele baú que o pequeno rubi, símbolo do coração de Mu.

O baú estava escondido no meio de suas roupas. Foi uma sorte não ter sido achado pelos homens que invadiram a casa de Ikki na noite anterior ou toda sua esperança estaria perdida. Tirou o lacre e abriu o feixe com cuidado. Seu coração disparou quando encontrou um pen drive junto com a pequena pedra preciosa.

Correu rapidamente para a sala e conectou-o ao notebook de Ikki, começando a acessar os arquivos. Seu coração estava disparado enquanto ele passava por toda espécie de prontuário médico.

“Jéssica Williams, 35 anos, função cardíaca normal...”

Lia os prontuários nervoso sem entender muito bem o que Mu queria lhe dizer com todas aquelas informações.

“David Smith, 40 anos... coração aparentemente saudável, leve arritmia detectada como um caso isolado...”

“Frederico Brown, 31 anos, coração saudável.”

O loiro passou as mãos no rosto nervoso. Onde estaria a senha do maldito computador de Mu? De repente algo ficou claro em sua mente e ele voltou ao computador ao lado e digitou: meucoração. Imediatamente a tela se abriu e Shaka se sentiu estúpido por não ter pensando nisso antes. Era claro, era isso que Mu tentara lhe dizer aquela noite:

“Você está estranho, calado, o que está acontecendo com você, Mu?”

“Nada amor, estou bem, além do mais, você sabe onde está meu coração. Qualquer resposta que quiser é só procurar nele...”

Aquela conversa caíra em seu inconsciente e durante todos aqueles dias Shaka não conseguiu se recordar dela a não ser naquele instante.

“Ah, Mu, ah, meu amor...”

As lágrimas se fizeram vivas e desceram por seu rosto, e Shaka se deixou consumir por elas; acabava de descobrir o motivo pelo qual o homem que amara estava morto. Chorou muito inconformado, frustrado e vazio. Só depois de algum tempo, percebeu que não estava sozinho. Ikki havia chegado e o encarava surpreso, ainda com as embalagens do possível jantar nas mãos.

— Ah, oi... — Shaka falou constrangido, enxugando o rosto — Está aí há muito tempo?

— Tempo o suficiente. — respondeu o moreno colocando as sacolas sobre a mesa — O que aconteceu, loiro?

— Nada, apenas lembranças. — explicou — Estou acessando alguns prontuários médicos. Desculpe-me por usar seu notebook, mas...

— Não estou me importando com isso, Shaka, eu quero saber o motivo de você está chorando.

— Eu já disse, Ikki, lembranças! — irritou-se e ergueu-se da cadeira, pegando o pen drive e colocando no bolso da calça que vestia — Já consegui resolver o problema do computador e...

— Eu acho que você tem alguma coisa a me dizer não é? — falou Ikki segurando-lhe o braço e o encarando profundamente. — Você prometeu que me contaria o que aconteceu no Ross depois que voltássemos. O que aconteceu que deixou o Gyatso, como você disse nervoso?

Shaka respirou fundo e com um menear de cabeça convidou o advogado a ocupar o sofá, sentando em seguida à sua frente.

— Lembra-se que eu disse que aconteceu algo muito importante no Ross? Algo que deixou o Mu muito nervoso?

— Lembro-me — falou Ikki prestando especial atenção. — Vai me contar o que foi?

— Vou. Na verdade, não tenho muito a contar... — Shaka falou tentando esconder a comoção que aquele fato lhe causava — o que tenho a dizer é que...Bem, não sei se isso pode ajudar no caso...

— Fale-me mesmo assim, é importante — insistiu o advogado.

— Eu cometi um erro muito grave. Eu... o traí...

Continua...

Notas finais
Bem, eu precisava fazer um momento Hyoga e Shun, afinal foi prometido, apesar de que essa fic está muito mais suspense que romance XD!
Espero que tenham gostado.
Beijos especiais para os leitores abaixo que tiveram a gentileza de deixar um review. Obrigada de coração!
Bia Elric, Agathachan,Kao, Litha_chan, Matsumoto-chan, Maya Amamiya, MysticRainbow, Keronekoi, darkyumi, KitsuneKiki, Larrissa_Traum, Alexia-Black, JuHaruno.
Um superfeliz 2012!!!!
Sion Neblina
Postado em 30/12/2011