Desejos Primitivos
1 Tempestade na Caverna
Notas iniciais

Os intensos e luminosos clarões dos relâmpagos e raios rasgavam o céu negro e tenebroso, a densa cortina de chuva impossibilitava a visão a qualquer ser. As árvores eram castigadas no solo pelos raios, rachando o tronco ao meio quando atingidas pela potência violenta.
Todos os animais corriam com as suas manadas tentando fugir à violenta tempestade. Os grunhidos ferozes e assustados ecoavam misturado com barulho das trovoadas, até mesmo os animais de tamanho parecido com uma montanha estavam tentando encontrar abrigo. Pangeia, o único lugar de terra firme, rodeado por uma imensa massa de água sem fim, terra limitada e povoada por todas as raças que locomoviam-se sobre duas ou quatro patas.
Pangeia era ocupada por várias tribos humanas que lutavam por um espaço de sobrevivência, naquela terra ocupada por animais de tamanho imenso, aterradores e carnívoros. Os primeiros homens apelidaram as bestas de dinossauros, dividindo-os em duas categorias; os comedores de homens e os comedores de plantas.
Havia duas tribos vizinhas que compartilhavam quase que os mesmos recursos, fazendo-as ser tribos rivais pela aproximação de ambas. Disputavam a melhor caça e coleta de frutos. As duas encontravam-se separadas apenas por um rio.
As árvores de copa alta serviam para a construção de abrigos para as pessoas fugirem, caso algum dinossauro destruísse a fortaleza que circundava o espaço onde a Tribo do lago permanecia. As casas do solo eram feitas de madeira e palha seca cobrindo o telhado.
A tribo do lago era constituída por fortes caçadores, que todos os dias ao pôr-do-sol traziam a melhor caça para todo o povo. Podiam alimentar-se sofregamente sem preocuparem-se com os infortúnios, porque tinham os melhores caçadores e guerreiros. Todas as noites, o povo reunia-se perto da grande fogueira, e deliciavam-se com comida, canções e danças, cultivando e prosperando o bom humor para os deuses das colheitas. As gentes da tribo do lago eram felizes desse jeito.
A outra tribo era bafejada com um bom solo para cultivo, dando os vegetais mais saborosos e em abundância. A tribo da floresta estava sitiada dentro de uma muralha de madeira, as cabanas eram uma mistura de madeira, barro e peles de animais. Os homens da tribo eram hábeis caçadores e pescadores, sob as suas mãos a terra era bem trabalhada, fazendo os alimentos brotarem dela como se fossem deuses da criação. Mas não eram tão fortes como a tribo do lago, muitas vezes a presa que perseguiam acabava nas mãos deles.
Por mais furiosos que ficassem pela perda do alimento, confrontarem-se com a tribo do lago era impensável, pois acabariam por ser esmagados com facilidade. A ferocidade da tribo do lago era igual às bestas selvagens que coabitavam com eles naquela terra. O planalto em que a maioria da povoação humana habitava era relativamente seguro, os mais temíveis carnívoros não tinha o costume de subir tanto em busca de alimento, mas havia exceções.
As duas tribos tinham como lideres dois poderosos guerreiros que outrora foram louvados pela grandeza dos seus feitos. Agora lideravam as suas respetivas tribos à prosperidade, tentando preparar os filhos varões para a sucessão, quando chegasse a hora de trespassar a liderança das tribos ambos fossem o espelho dos ensinamentos dos antigos líderes.
Kain e Caja, os sucessores das suas tribos envergavam por caminhos diferentes, e enfrentavam os próprios dilemas. Obstáculos pessoais eram inevitáveis.
Abrigado da tempestade numa caverna inabitada que encontrara um humano tentava resguardar-se da chuva e frio, por sorte alguns troncos de madeira seca estavam dentro dela. Com agilidade usou dois pedras friccionando-as e em poucos instantes o calor das chamas aquecia o corpo encharcado e a luz apagava a escuridão.
O fogo servia para afastar os animais, que tentassem entrar ali à procura de abrigo, dinossauros não eram problema, não cabiam numa caverna, mas algum dentes-de-sabre mais ousado poderia intrometer-se. Felinos não assustavam Kain, de fato todo o seu corpo estava coberto por profundas cicatrizes devido ao encontro com animais de porte médio, com garras e dentes afiados. O jovem guerreiro da tribo do lago era destemido e não facilitava, não ia transformar-se na refeição de algum bicho sem dar luta.
O feitio energético de Kain levara-o para uma caçada solitária, a adrenalina dava-lhe sensações que ele gostava de sentir. Restava apenas dois verões para completar a maioridade e assumir o lugar do seu pai, o líder da tribo do lago.
Por isso ele passava o maior tempo em liberdade possível, caçando e melhorando as suas habilidades de guerreiro, sendo que havia nascido para aquele papel, não era uma escolha sua, era o seu destino e faria isso com orgulho.
Kain retirou a sua tanga de pele de tigre dentes de sabre, e colocou-a perto do fogo para seca-la. Massageou o seu ombro direito, sentia os músculos tensos, pelo uso excessivo da força daquele braço. Os cabelos castanhos-claros pingavam, as gotas de água caiam das pontas da sua franja, apático entreteve-se a conta-las, orando para que o amanhecer chegasse depressa.
Porém um estalar de folhas secas provindo da entrada da caverna fê-lo colocar o seu sentido de alerta a funcionar. Pegou na sua arma, uma longa peça de pedra laminada extremamente aguçada com uma pega, colocou-se em posição de ataque, fletindo as pernas para ganhar impulso e saltar para cima do invasor. Os olhos claros de Kain dilataram-se para conseguir ver melhor o vulto que aproximava-se.
Um espirro foi tudo o que ouviu. Segurando-se às pedras da caverna em busca de apoio, Caja tremia horrores, cada osso do seu corpo estava enregelado. Depois de ter-se perdido do seu grupo de caça, como já era habitual, com a tempestade e a noite a situação tornara-se bastante critica para ele.
Por ser desajeitado, não conseguir fazer nada de jeito e muito menos caçar, Caja era estigmatizado como inútil, as pessoas apenas não diziam-lhe isso em voz alta porque ele era filho do líder, ou seja o futuro líder seria ele, o que não agradaria a muita gente.
Até o seu nome era desprezado, os seus pais colocaram-lhe um nome de uma flor, a tribo da floresta não quereria uma pessoa dessas para líder.
De estrutura mais delgada, feições mais delicadas e uma cor de cabelo singular, o filho da tribo era o excluído da sua própria tribo. Mesmo ele se achava uma piada por ser o único filho varão, a baixa autoestima levava-o a desejar que algum animal o devorasse, esse desejo apenas intensificava-se mais quando ele cometia mais dos seus erros crassos e fazia os caçadores perdem a presa que perseguiam.
Somente ainda não tinha apanhado uma surra fenomenal porque ainda havia pessoas que gostavam dele e protegiam-no por ser um fraco. Ele era o único que vestia uma túnica para caçar, invés de usar a típica tanga de pele de animal. Caja sentia-se inferior ao ver os homens cheios de músculos e ele com poucos, por isso não gostava de mostrar o seu corpo.
A única vantagem que tinha em si era a rapidez com que corria, isso fora bastante útil para conseguir esquivar-se dos dinossauros que varejavam uma refeição rápida antes de abrigarem-se das trovoadas. Ao ver luz Caja aproximou-se da caverna, onde havia fogo haveria humanos, só tinha que averiguar se seriam amigáveis ou de uma daquelas tribos que comiam carne humana, e fraco como ele era seria o petisco ideal.
Os olhos azuis de Caja captaram uma sombra imensa dentro da caverna, sem a possibilidade de conseguir correr mais, o garoto estancou os seus passos à medida que a figura aproximava-se de si.
Kain arqueou as grossas sobrancelhas ao ver aquela singularidade, por breves momentos teve dificuldades em distinguir se era uma pessoa ou um animal raro, pois ele tremia freneticamente, o cabelo branco gotejava e o queixo tremelicava. Baixou a sua arma de pedra e abriu um sorriso, com a possibilidade de uma mulher ter caído logo na caverna onde ele estava, pelo menos teria companhia para aquecer-se. Mas havia algo de masculino na sua aparência, ficou confuso.
Caja esbugalhou os olhos por ver aquele homem com músculos proeminentes exibindo uma nudez abnormal, grande parte do tronco e rosto coberto por cicatrizes. O choque misturado com o cansaço fez o garoto perder os sentidos, e desfalecer no chão.
As mãos de Kain foram mais rápidas que o corpo da pessoa, por isso segurou-o antes de cair. Extremamente leve, o guerreiro levou o recém-chegado para perto do fogo. Amontou as folhas secas do chão com o pé até formar uma espécie de cama rudimentar, depositou o corpo sobre elas e começou por tirar a túnica molhada.
A sua dúvida quanto ao gênero sexual daquela pessoa dissipou-se, no meio das pernas um tanto magras havia um pênis, Kain olhou para o seu e depois para o dele novamente, eram absurdamente diferentes, o dele era bastante pequeno e a pele era rosada, contrário ao seu, grande e robusto.
Uma pequena cicatriz no comprimento do seu membro era como uma medalha, por não tê-lo perdido numas das suas lutas com um animal feroz. Pela primeira vez o guerreiro achou o seu pênis realmente muito feio em comparação com aquela criatura de cabelo branco.
Recolocando a sua cabeça no lugar, achou que devia tapar a pequena timidez do garoto, pegou na sua tanga que já havia secado em grande parte e colocou-a sobre o quadril esguio. O tilintar fez Kain olhar para o pescoço do garoto, um colar com meia dúzia de espigões metálicos fê-lo franzir a testa.
Ele tinha um colar parecido, era a marca que os filhos dos líderes das tribos usavam para identificar-se.
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