Desejos Primitivos
6 Nem tudo o que cai do céu se magoa
Notas iniciais

Kain estranhou o peso em cima do seu peito. Abriu os olhos e viu a garota da noite anterior dormindo em cima dele. Moara seria o nome dela? Não se lembrava e sinceramente não se importava. Nomes não eram importantes, só o corpo delas. Kain não lhes prometia nada e elas concordavam que seria apenas sexo. Ainda era muito novo para pensar em unir a sua vida à vida de outra pessoa, em frente aos espíritos e ancestrais.
O garoto espreguiçou-se ruidosamente, delicadeza não estava no seu sangue, acordou rudemente a garota para ela ir embora. — Ei garota acorda! — Kain sacudiu o ombro da garota.
Sem cerimónia o garoto levantou-se da cama de peles, espreguiçou-se gemendo de alívio quando ouviu os seus ossos estalarem. Kain olhou para o lugar onde Caja estava, ainda dormindo, revirou os olhos.
Acordar ainda sem os raios de Nkisi era uma rotina natural para os guerreiros. Tendo em conta que Caja não era guerreiro, supôs que não faria mal ser preguiçoso.
Lavou o rosto na bacia de barro e procurou a sua tanga de pele de felino do dia anterior, se ela ainda estava em condições de uso não havia necessidade de colocar outra limpa.
Kain não prestara atenção ou importara-se, quando a garota murmurou dizendo que gostara muito da noite anterior, para chama-la quando estivesse a fim de brincar outra vez com ela.
Pronto para começar o dia, o jovem guerreiro saiu da cabana, respirando fundo a geada da manhã. Poucas pessoas estavam acordadas àquela hora, expecto as mulheres e homens que cuidavam da primeira refeição do dia, e os guerreiros vigilantes e caçadores.
Foi para a cabana da mãe dele, ajuda-la como fazia todas as manhãs. Todas as tarefas eram divididas por ele e pelos seus irmãos. Sempre foram ensinados a ajudarem em qualquer tarefa, não unicamente deixar a mãe deles fazer tudo sozinha. O pai de Kain podia ser o líder da tribo, mas sempre fora o primeiro a dar o exemplo de entreajuda sem fazer distinção entre os membros da tribo.
Chegado à cabana da sua mãe Kain viu o seu pai cuidando da fogueira, onde o resto da carcaça da caçada do dia anterior assava lentamente.
— Bom dia pai. — Kain definitivamente não era uma pessoa que cumprimentasse outra, mas com o seu pai a disciplina era outra.
— Bom dia filho. Onde está o Caja? — Theon sorriu-lhe e retribuiu-lhe a saudação. Não viu o garoto acompanhando o filho, estranhou isso, normalmente o garoto chegava sempre com Kain. Theon esperou que o idiota do seu filho não tivesse feito nada para aborrecer Caja.
— Caja está dormindo. — Kain respondeu sem grande interesse, mas não deixou de questionar-se o porquê do outro querer dormir mais naquela manhã, normalmente Caja estaria seguindo-o assim que acordava.
Como o seu pai não fez mais perguntas entrou na cabana da mãe, onde ela já estava preparando a refeição para todos. Cabia a Kain ajudar assim que o sol se levantava, enquanto o resto das tarefas do dia seriam feitas pelos seus irmãos, que ainda estavam dormindo na cama de peles mais ao fundo da cabana.
O garoto cumprimentou a mãe com um beijo no rosto, outra coisa que nunca faria a outra pessoa, só à sua mãe. Mãe era mãe afinal de contas, e respeitava-a. Kain pegou nas vasilhas de barro e foi buscar água fresca, ainda era uma tarefa puxada, o lago ficava um pouco longe e carregar vasilhas pesadas não era fácil de transportar.
Após isso dispôs-se a buscar os vegetais na cabana onde esses alimentos frescos eram armazenados, para consumo de toda a aldeia. Ali somente pegavam o que necessitavam, compartilhar a comida trazia mais união à tribo. Se alguém pegasse mais do que precisava privando outra pessoa de comer, era severamente punido.
Kain depositou os vegetais numa das vasilhas com água, e começou a retirar as cascas de alguns. Sentado enquanto descascava os legumes, o garoto olhava frequentemente para a entrada da cabana. O Nkisi começava a erguer-se mais alto no céu e nada de Caja aparecer. A sua distração custara-lhe um tapa na cabeça, a sua mãe repreendia-o pela sua fraca habilidade de cortar os vegetais, retirando quase metade da polpa deles.
Era um tédio ter que ajudar nas tarefas domésticas, mas Kain não poderia reclamar se tivesse amor à vida. Quando o pão, a carne e os vegetais estavam prontos, os seus irmãos acordaram prontamente para comerem, era cómico ver eles a comerem praticamente com os olhos fechados.
— Kain vai buscar o Caja. — Theon ordenou o filho. O tom do líder não ofereceu espaço para o garoto protestar.
Kain levantou-se rolando os olhos, saindo da cabana resmungando. — O que é que ele acha que eu sou? Um moço de recados? — Quando chegara à sua cabana viu Caja ainda dormindo, com toda a delicadeza que possuía Kain cutucou o garoto com o pé.— Ei, acorda! Hora de acordar garoto-flor! — Kain insistiu com o pé no traseiro de Caja.
Caja resmungou no seu sono, mas despertou, esfregando os olhos levantou-se. — O quê?
Kain revirou os olhos. — O sol já vai alto, se a florzinha não quer perder a comida, precisa levantar essa bunda preguiçosa.
Os olhos azuis de Caja arregalaram-se com o som da voz de Kain. A realização da noite anterior bateu tão fortemente em Caja, que a sua respiração ficou suspensa por breves instantes. Adormecera muito tempo depois da transa dele com a garota, quando já estava exausto de tanto chorar em silêncio.
Caja não entendia o porquê do seu interior remexer-se violentamente com emoções estranhas. Ele nem sequer gostava de Kain, o jovem guerreiro não se mostrava mais daquilo que ele pensava, um grande idiota.
Quando se conheceram na caverna, e Kain tratara do seu machucado com gentileza, pensara que ele era mais do que ele aparentava, um bruto selvagem mas não se enganara. Kain era isso mesmo, um animal rude.
Ou quando na demanda dos animais durante a caçada, Kain protegera-o com o seu corpo contra o tronco da árvore. O idiota não possuía um osso bondoso no corpo, mas fazia gestos de quem importava-se com os outros.
Caja sentia que qualquer pensamento bom que pudesse ter sobre Kain estaria morto, depois do que presenciara. Os gemidos da garota iriam provocar-lhe muitos pesadelos.
Confuso pelo seu comportamento o garoto de cabelos brancos levantou-se, percebendo que estava sozinho. Kain saíra depois de ter o prazer de acorda-lo com o pé dele na sua bunda.
O garoto lavou o rosto na bacia de água, e foi trocar a sua tanga por uma túnica até por cima do joelho e sem mangas. Por mais que tentasse conversar com Theon sobre poder ir para casa, o líder da tribo não prestava atenção ao que ele dizia, por isso na cabana de Kain havia um espaço para as coisas dele.
Vestiu a túnica, que ele mesmo confecionara, era algo que pelo menos poderia fazer com as próprias mãos.
Saiu da cabana esperando ver o Nkisi bem alto no céu, e metade do dia desperdiçado, mas ao contrário do que Kain dissera, o sol mal estava visível. Caja suspirou aliviado, não perdera o dia, e com isso evitou que acumulasse rumores de ser preguiçoso à sua fraca autoestima.
A família do animal rude — Kain — já estava comendo quando Caja entrou na cabana, o garoto fora recebido com saudações carinhosas, como se fosse um membro da família. Caja ocupou o seu lugar, perto de Kain e agradeceu a porção de comida que a Nala entregava-lhe.
A refeição decorreu normalmente entre risadas, provocações entre os irmãos e conversas mais sérias. Theon distribuiu as tarefas do dia pelos filhos, os dois mais novos ficariam com a ocupação de ajudar os mais anciões da tribo com as tarefas domésticas, enquanto o mais velho teria uma tarefa diferente, como sucessor do líder, Kain precisava aprender as funções mínimas de liderança.
Fora mandado verificar os guerreiros que patrulhavam as muralhas da aldeia. Ouvir os relatos sobre alguma situação, e atender às necessidades dos guerreiros, garantir a saúde dos guerreiros-patrulheiros era importante. Porém Kain não concordara em ter que levar Caja com ele.
— Por que é que eu vou ter que carregar essa flor para verificar as muralhas? — Kain não escondeu o seu desagrado, nem pretendia.
Theon não evitou revirar os olhos com a atitude carrasca do seu filho. — Caja não precisa ser carregado, ele pode andar com as próprias pernas.
Kain olhou fulminantemente para o pai, não entendia qual o motivo que o homem tinha para querer tanto colar a flor aos seus calcanhares. Parecia que não poderia dar um passo sem ter que andar com Caja na sua sombra.
— Eu poderia voltar para a minha tribo. — Caja expressou a sua opinião, o seu pé já estava curado, não haveria razão para ele ficar mais tempo ali, sendo um fardo.
Cinco cabeças viraram-se para olhar para Caja como se ele tivesse dito algo muito estranho. As bochechas pálidas do garoto esquentaram-se pela repentina atenção.
— Sim, ele pode voltar para a sua tribo! Onde quer que isso seja! — Kain lembrou-se que Caja poderia muito bem voltar para casa, mas isso não soou bem nos seus ouvidos. Recordou-se de ter roubado o colar dele, o símbolo de que Caja era filho de um líder.
Theon sorriu para o garoto de cabelos brancos, a ida dele para casa estava marcada para trinta Nsikis e Jinkisis, ainda faltavam pouco mais vinte dias para dar alguma experiência ao filho de Rhea. O garoto podia ser fisicamente a cópia de Rhea, mas não na personalidade.
Caja era mais calmo e reservado, Rhea era mais sagaz e de língua solta, Theon conseguia entender que entre os dois poderia haver desentendimentos, e a falta de comunicação, colocando não intencionalmente alguma distância entre pai e filho.
Contudo o lado obstinado parecia ser uma das qualidades que ambos compartilhavam. Theon estava mais do que animado por ver esse lado de Caja sendo dirigido ao seu filho. As brigas dos dois rendiam umas boas risadas. Ainda se lembrava do alvoroço que ambos proporcionaram, com Kain nu na porta da cabana dele depois da primeira noite.
Se o seu filho soubesse o que poderia encontrar se fosse menos cabeça dura e rude…
— Kain não estará livre por enquanto para poder levar-te para casa. Somente daqui a trinta dias, Caja. — Theon respondeu calmamente com uma mentira inofensiva.
Toda a experiência seria boa para Caja, o futuro líder da tribo da floresta. Não que duvidasse que o garoto não pudesse ser um grande líder, mas firmeza precisava ser adquirida através de experiência dura, quando não se nascia com essa característica.
Caja baixou o rosto, até para ir para casa estava dependente de outra pessoa. Não culparia Kain se ele o odiasse ainda mais, a sua existência ali só atrapalhava o guerreiro.
Quando todos terminaram a refeição, a mãe de Kain preparou pão e carne seca, para os garotos levarem dentro de uma bolsa de pele, com um cantil de água fresca para cada um. Caja e Kain ficariam fora o dia inteiro, por isso precisariam levar um reforço.
Nala entregou uma bolsa fornecida de alimentos e água a cada garoto, e despediu-se deles com um beijo na testa, terminando com o básico de ''comportem-se e para Kain abrandar a sua sede de aventura''.
Kain não achava que mais algumas cicatrizes fizessem mal, afinal o seu corpo estava coberta delas.
Caja e Kain seguiram um trilho diferente àquele que Theon seguia, mas o líder não fora embora sem antes avisar aos garotos para terem cuidado, e que se acontecesse alguma coisa, seria o couro de Kain que ele esfolaria.
O jovem guerreiro apenas revirou os olhos com a ameaça do pai, estava mais do que habituado a tê-lo no seu pescoço.
A verdade era que Kain não tencionava provocar ou implicar com Caja, ele levava as suas obrigações muito a sério, depois do cumprimento de todas as tarefas teria tempo para infernizar Caja.
O garoto olhou por cima do ombro para ver o quanto Caja haveria ficado para trás, para sua surpresa, somente estava a dois ou três passos atrás.
Como não poderia deixar de ser, Kain não perdera a oportunidade de atiçar o garoto-flor. ''Hoje vou comer o teu traseiro! Os teus protetores não estarão por perto, florzinha.'' Kain riu internamente, provocar verbalmente Caja era um passatempo muito bom. Todavia o pensamento de ‘’comer o traseiro dele’’ não soou muito correto na mente dele. Franziu a testa quando apercebeu-se disso.
— Mexe-te! Precisamos de chegar à muralha ainda hoje! — Os olhos verdes de Kain observaram o movimento do tecido fino da túnica sobre as coxas de Caja. O maldito sonho erótico que tivera na noite que passaram na caverna, voltara com força, fazendo o maxilar de Kain apertar-se até sentir dor no queixo.
Caja respirou fundo, realmente não precisava que Kain parasse de andar para esperar por ele. — Eu estou indo, podes continuar andando.
Kain estava pronto para responder quando saído do meio da vegetação, Xanxus — o tigre dentes-de-sabre —, juntou-se a eles. A expressão de mostrar pouco interesse característico do felino, enquanto olhava para os dois humanos nunca mudaria.
Xanxus ignorou-os, e tomou a liderança do caminho. Sim, o tigre seguiria os humanos, principalmente o humano que cheirava bem, o outro dispensava sentir o cheiro.
O resto do caminho fora feito em silêncio, chegaram à entrada principal da muralha quando o Nkisi estava batendo forte por cima das cabeças. Os rugidos e sons de vários animais ecoavam fazendo o ar vibrar de vida.
Os guerreiros sentinelas mostravam respeito pelo filho do líder, Kain podia ter somente dezasseis invernos, mas isso não era motivo para subestima-lo.
O corpo de Kain era tão grande e largo como qualquer outro homem ali, porém o corpo dele não pararia de crescer, por enquanto. Ter nascido numa época tão dura, como o inverno, era uma bênção. Qualquer pessoa poder-se-ia medir pela época sazonal em que nascera.
Se tivesse nascido na primavera, seria igual a Caja, uma flor delicada com um aroma estranho. Ou somente uma pessoa fraca, o que para um homem seria vergonhoso, só as mulheres eram francas e delicadas.
Kain culpou esse cheiro estranho pelo seu comportamento anormal, não era muito habitual que ele cheirasse o pescoço de outo homem. Culpava as feromonas misteriosas do garoto-flor. Sim, culpava Caja por fazer com que ele se sentisse estranho.
O guerreiro-chefe da muralha relatou todos os assuntos que deveriam ter prioridade, para o filho do líder. Tchokwe, — nome dado sobre a bênção de Maza, o espirito da água —, guiou o filho do líder pelo pequeno acampamento dos guerreiros, parando perto das escadas de madeira para os levar ao topo da fortaleza.
Tchokwe, amigo próximo do Kaisai da Tribo do Lago, teria todo o prazer de ensinar e tirar todas as dúvidas do sucessor, não era a primeira vez que Kain ia à muralha e não seria a última, haveria sempre coisas novas para ensinar-lhe. O garoto prestava atenção e mostrava o máximo interesse em tudo o que ele dizia.
— Zaire estamos tendo problemas com alguns animais. — Tchokwe explicou enquanto andava para as escadas de madeira.
— Que tipo de animais? Que tipo de problemas? — Kain parou e cruzou os braços sobre o peito, semicerrando os olhos. Não ouvira nada do seu pai sobre haver problemas com animais.
— Eoraptores, os bastardos estão entretendo-se a roer os troncos da fortaleza. — O guerreiro-chefe não entendia o porquê dos carnívoros estarem mordendo a madeira.
Kain arqueou as suas sobrancelhas em surpresa. Era simplesmente uma das coisas mais ridículas que ouvira naquela manhã. Os Eoraptores não eram uns dinossauros muito grandes, não passavam de um metro de comprimento, tamanho de uma criança. Mas os desgraçados possuíam uns dentes bem afiados e cortantes, como todos os carnívoros. — Carnívoros roendo madeira? Por que motivo?
— Deve ser porque têm carne entre os dentes, e querem limpar eles? — Caja não se conteve, a sua boca fora mais rápida que o seu cérebro. A ironia jorrava dele cada vez que Kain abria a boca. O que não era muito natural, já que ele preferia pensar muito, antes de dizer qualquer coisa.
Pelo menos as risadas dos guerreiros que estavam perto deles salvaram Caja do seu embaraço.
O rosto de Kain não expressava o mesmo divertimento que os outros. A expressão sisuda dele acentuara-se bastante, num misto de achar que Caja estava louco ou completamente louco. O guerreiro ignorou o garoto e virou-se para Tchokwe para continuar a sua conversa, mas o guerreiro-chefe estava perdido de risos.
O homem mais velho apercebeu-se da expressão fechada do Zaire, cessou o riso apesar do que o garoto de cabelos branco dissera ter sido hilário. Tchokwe deu uma boa olhada no garoto que acompanhava Kain, a aparência dele era vagamente familiar. Apesar de olhos claros e cabelo branco serem exóticos, não haveria muita gente que possuísse essas peculiaridades físicas, porém o guerreiro não recordava-se bem onde já teria visto alguém parecido.
Irritado, Kain ordenou que Caja subisse as escadas de madeira na frente dele, não iria deixar a florzinha fora do seu campo de visão, e arriscar que ele fizesse alguma coisa idiota.
A plataforma no topo da muralha concedia uma boa vista para o exterior. Kain viu cerca de cinco Eoraptores roendo e mastigando os troncos grossos.
Toda a muralha era fortificada com duas fileiras de troncos de árvores. Em toda a extensão da muralha foram colocadas certas plantas que os herbívoros não comiam por serem extremamente venenosas, matando os animais lentamente se eles inalassem o pólen por muito tempo. Então os animais não chegariam tão perto da fortaleza para procurarem alimento, logo as bestas carnívoras não viriam atrás das suas presas, se um mante-se a distância o outro por consequência também manteria.
Mas parecia que aquele grupinho de animais irritantes não ligavam para a toxidade das plantas, estavam bastante atrevidos ou muito estúpidos para morrerem envenenados. Contudo os desgraçados estavam fazendo estragos nos troncos, precisariam de substituir os troncos roídos.
Kain queria provocar os animais, como não havia pedras ao seu alcance pegou no cantil de água que tinha prendido na bolsa de pele, e atirou à cabeça de um dos animais, obviamente acertou na cabeça de um deles. O garoto sorriu convencido da sua mira certeira.
— Ei! Deixa os animais em paz, eles não te estão fazendo mal! — Caja explodiu, não havia necessidade de Kain estar fazendo mal aos animais somente por prazer e chacota. Era errado. Sem pensar, o garoto segurou no pulso do jovem guerreiro e apertou-o, evitando que o outro atirasse mais algo aos animais.
O jovem guerreiro ficou boquiaberto com a reação do garoto-flor, mas rapidamente recompôs-se da surpresa, semicerrou os olhos encarando o outro. — Oh, talvez eu deva atirar-te para os inofensivos animais roerem os teus ossos! Porque com toda a certeza eles não recusarão uma refeição fácil, seu idiota!
— Eu sei muito bem o que eles fariam comigo! Para de ser estúpido! — Caja retaliou, o carácter bruto do outro simplesmente dava-lhe nos nervos! Os dedos do garoto fecharam-se mais em redor do pulso do guerreiro.
Kain retirou a mão do garoto com força e empurrou-o. Irritado, pegou numa infeliz vasilha de água que servia para os guerreiros da fortaleza beberem, e atirou-a, não vendo se acertara em algum animal, já que os olhos dele não descolaram de Caja. Mas ouvindo o grunhido de dor vindo de baixo, com certeza acertara em algum deles.
Desacreditando na imbecilidade de Kain, o garoto empurrou-o. Não tomando o empurrão com muito agrado, o jovem guerreiro usou força excessiva para retribuir. Além de Caja não suportar bem confrontos físicos, a plataforma não possuía barreiras de segurança, logo o corpo de Caja perdera equilíbrio.
Kain apercebendo-se do seu enorme erro, tentou segurar em alguma parte do corpo de Caja, mas sem sucesso.
Cair de grandes alturas não eram um problema para Caja, ser magro e leve dava-lhe uma flexibilidade e equilíbrio inumanos. O garoto revirou o seu corpo no ar, colocando-se em posição para aterrar no chão. As palmas das mãos chocaram com o chão duro, um pé plantado firme com o joelho da outra perna ajudando a apoiar o corpo.
. Caja gemeu de dor quando aterrou no chão. Doía horrores quando o seu corpo entrava em contato com o chão cheio de pedras e pedaços de cascalhos. As suas mãos, pés e joelhos ficaram esfolados e sangrando após a queda, o que era normal dada a altura. Oh sim, o inútil e fraco Caja podia não ter força física, mas possuía alguma astúcia, a qual ele mesmo dava pouco valor. Saber cair de grandes alturas sem morrer, não era necessariamente uma habilidade útil para alimentar alguém.
O jovem guerreiro realmente sentiu medo e culpa quando vira Caja caindo, o coração dele definitivamente parara de bater no peito. As pernas de Kain congelaram, a sensação fria no seu estômago causada pelo pânico cortou-o interiormente. Finalmente o seu temperamento havia levado o melhor dele, colocando a vida de Caja em perigo, Kain odiou-se tanto naquele momento.
Os outros guerreiros também permaneciam em choque, temendo pela vida de Caja.
Porém o choque pelo que acontecera a seguir fora unanime, o corpo do Caja reajustou-se para aparar a queda, como se fosse um felino, o garoto aterrou com agilidade, e não esmagado no chão coberto por uma poça de sangue e ossos quebrados. — Caja!
O terror nos olhos verdes de Kain, quase compensou a queda de Caja. Era a primeira vez que vira o outro sendo realmente agressivo para ele, teria sido culpa sua? Ele deveria ter ficado calado e quieto? Quando Caja reganhou o equilíbrio, verificou as suas mãos feridas, mas sem gravidade.
A voz de Kain vinda lá de cima perguntando se ele estava bem, fez o garoto virar o rosto com a expressão vazia, Caja não sabia como reagir. Não fizera nada para merecer tanto ódio.
Virou as costas e esforçou-se para andar, tolerando a dor no seu tornozelo recém-curado e no joelho, não mostraria a sua dor física. Tolerava bem a dor, conseguia esconde-la por de trás de uma máscara de expressão estoica.
Kain desceu a toda a velocidade pelas escadas tentando alcançar Caja, o idiota estava indo embora pelo próprio pé depois de uma queda altíssima!
— Caja volta aqui! Volta Agora! — A sua intenção de seguir o garoto-flor fora cortada por Xanxus.
O tigre dentes-de-sabre expôs os seus alongados dentes ameaçadoramente com um rugido. Os olhos amarelos do animal olharam para Kain com uma expressão de quem estava julgando com desprezo. Xanxus abanou a enorme cabeça peluda dando a entender que Kain era uma causa perdida, e que já fizera merda suficiente.
O sucessor da Tribo do Lago estava sendo repreendido por um animal. Kain não achou que pudesse descer mais de onde já estava. Viu Caja a afastar-se cada vez mais, enquanto a culpa e preocupação consumiam-no. Frustrado, enterrou os dedos na sua cabeça, puxando os cabelos. Tinha feito uma grande merda, definitivamente não iria viver para chegar aos dezassete invernos, o seu pai iria mata-lo.
ººº
O sítio que encontrara no caminho de volta para a aldeia, fez Caja sentir-se melhor. A luz do sol incidindo no riacho transformara as águas sem cor em algo cristalino, as rochas cobertas por um manto de musgo fofo, o que serviu para ele ficar sentado por muito tempo. A vegetação era escassa, as árvores muito altas, pequenos animais de vários feitios e formas banhavam-se no riacho, alheio à presença do humano.
Por alguma razão Xanxus seguira-o, deitara-se a pouca distância dele e não saíra dali, Caja não incomodou-se com a companhia.
Quando a sua fome ficou ruidosa demais, Caja pegou na comida que havia na bolsa que Nala preparara para si, dividiu o pão e a carne seca com Xanxus. Obviamente a parte que dera ao tigre não era mais nada do que uma migalha, o animal caçava e comia coisas com o dobro do tamanho dele, contudo Xanxus aceitara a migalha de comida e engoliu-a sem precisar mastigar.
Caja riu, até o tigre estava aceitando algo assim para ele não se sentir mal. Após a pequena refeição, o sol e o musgo macio convidava a um cochilo, Caja usou os seus braços cruzados atrás da cabeça como encosto, e fechou os olhos, agradecendo a paz do sítio.
As muralhas foram uma das maiores invenções que os seus ancestrais construíram. Aglomerava uma boa extensão de terra para não interferir no curso natural da vida, a possibilidade de vida próspera e livre de perigos para os humanos, prolongando os anos de vida dos homens.
Algo molhado e áspero no rosto despertara Caja, não era uma maneira muito reconfortante de acordar. Xanxus parara de lamber o rosto do humano quando vira que ele acordara. Estava na hora de voltar para a aldeia, Jinsiki sobrepôs-se ao seu gémeo, Nsiki, junto com as estrelas iluminavam a noite.
O garoto agradeceu ao tigre por o ter acordado com um afago na cabeça dele. Caja não sabia o que deveria esperar quando chegasse à aldeia, como é que iria encarar Kain? Como é que deveria reagir?
Tantas dúvidas e receios de situações desconhecidas e confusas.
ººº
Rhea preparava a cesta com a ceia do Xamã, certificou-se duas vezes que colocara tudo o que o velho mais gostava de comer. Pão de milho e bagas vermelhas e legumes crus, nada de carne e ocasionalmente peixe seco, era tudo o que o Xamã tolerava comer. Colocou dois cantis de água fresca dentro da cesta e olhou em redor para verificar se não se esquecera de nada.
O líder da Tribo da Floresta suspirou pela infinita vez durante aquele dia, e parecia que continuaria pela noite. A sua mente estava vagando longe, mais concretamente centrada em Caja, e no que ele deveria estar fazendo naquele momento. As saudades do seu filho eram torturantes. Rhea realmente não sabia o que impedia-o de ir buscar o seu filho, qual era o objetivo de deixar Caja com o seu amor passado para ganhar alguma experiência?
Contudo lá no fundo, Rhea sabia muito bem que Caja precisava de sair da aldeia e viver algumas aventuras, só assim poderia crescer e amadurecer se visse outras coisas.
Ele perdera completamente o juízo, tantos anos passaram-se para numa única noite ter a maldita sorte de encontrar Theon no lago, que continuava a ir sempre que queria aliviar um pouco o seu fardo. O amaldiçoado sítio fora o ponto de encontro dos dois quando eram mais novos.
Rhea apostava que os espíritos e os ancestrais deveriam estar rindo da sua cara. Como se a sua vida já não tivesse sido difícil desde sempre, para acrescentar os problemas e dores passadas ao seu presente.
Cada vez mais frustrado e cansado de si mesmo, Rhea saiu da cabana para levar a comida para o Xamã.
Sem formalidade Rhea entrou na cabana do Xamã sem bater antes, além que ainda estava irritado com o velho pela última conversa deles. O velho conseguia entranhar-se nas fraquezas de Rhea e cutuca-las até fazê-lo contorcer-se de raiva.
— Xamã Gawain? Trouxe-lhe a ceia! — Rhea colocou a cesta na mesa de madeira, e começou a retirar tudo de dentro e colocar a comida de forma composta na mesa, buscou uma caneca de argila e encheu-a com água do cantil.
Distraído com o que estava fazendo não percebeu que o velho Xamã estava do lado dele, mais propriamente beliscando o braço de Rhea. — Ai! Mas o que…— Rhea assustou-se mais com a súbita presença do Xamã, do que propriamente com o beliscão no braço.
Gawain riu do jovem líder, provocar ele sempre lhe trouxera bons momentos. Rhea e Caja eram o bálsamo perfeito para apaziguar a sua vida solitária. Gawain podia ser cego mas conseguia ver perfeitamente Rhea revirar os olhos, isso o fez rir mais. — Meu filho consigo cheirar o teu humor azedo à distância.
— Eu não vou falar consigo hoje, por isso não tente provocar-me. — Rhea virou-se para pegar uma tijela para colocar as frutas. Já havia coisas demais na cabeça dele para se preocupar, não havia espaço para mais provocações.
O velho Xamã arqueou as sobrancelhas brancas, criando mais rugas na testa. Normalmente o jovem possuía uma resposta ácida ponta na ponta da língua. Seria que finalmente ser tão obstinado e amargurado, estaria por fim corroendo Rhea?
Gawain moderou um pouco as suas provocações, já que Rhea não aceitava conselhos de forma normal como toda a gente, precisava ser mais agressivo e provocador. Dar uma pequena ajuda a Rhea a desenraizar o seu destino. Durante anos, Gawain tentou coloca-lo no caminho certo, mas o jovem sempre estava relutante a qualquer ideia. — A noite está linda e perfeita para um passeio no lago dos Espíritos Atormentados.
— Que Lwena seja louvada! Você é impossível! Pare de meter o seu nariz nos assuntos das pessoas! — Rhea bufou. O Xamã sempre enchia a cabeça dele com insinuações, provocações e opiniões sobre Theon.
Se antes os dois tiveram uma oportunidade de ficarem juntos e falhou, não seria agora que isso iria realizar-se, era impossível.
— Que feio Rhea, profanar o nome da Deusa da Floresta em vão. — Gawain sentara-se na cadeira e começara a comer a sua refeição, agradecendo a Rhea.
— Se não precisa mais de mim por hoje, vou embora. Tenha uma boa noite! — O líder pegou na cesta pronto a sair porta a fora.
O velho teria sempre que ter a última palavra, já era a regra. — Não sou eu que preciso de ti meu filho, mas sim um certo descendente de Maza.
Rhea cerrou os dentes para evitar responder, preferiu sair rapidamente dali do que faltar ao respeito ao ancião. Ele preferiria quebrar uma perna a seguir as palavras do Xamã. ''Descendente de Maza'', outra insinuação a Theon, Líder da Tribo do Lago e Maza, o Deus da Água.
Sem prestar grande atenção ao caminho que tomava, não percebeu quando dois braços rodearam a cintura dele. Pronto para enfiar o seu cotovelo no estômago do bastardo que o pegara assim de surpresa. Somente reagia com violência por estar irritado, não estava com disposição. Targus sabia muito bem como ele não permitia grandes demostrações de afeto fora da cabana.
Todavia o guerreiro possuía um dom para acalma-lo, o cheiro de Targus deixava o corpo de Rhea fervendo e anestesiado.
— O que é que o Xamã fez desta vez? — O timbre forte de Targus sussurrando perto do pescoço de Rhea, fez a espinha do líder arrepiar-se.
Rhea bufou, precisava controlar as suas emoções e atitudes, estava sendo fácil demais saber o que acontecia só pelo seu rosto. — Além dele ser um velho fofoqueiro, não fez nada demais. — Amava o Xamã como um pai, até mais que o seu pai verdadeiro, mas o tema tabu estava sempre pronto para sair da boca do velho. Rhea jamais dissera uma palavra sobre o seu passado a Targus, e preferia assim, não havia necessidade de trazer algo morto para interferir com a vida deles.
O guerreiro não pressionou mais o assunto, sabendo que Rhea detestava quando era pressionado a falar sobre algo que ele não estaria disposto a conversar. — Hm… — Quando as palavras não ajudavam, Targus recorria ao toque, foi o que fez. Beijou o pescoço de Rhea demorando a sorver o gosto da pele dele. O suspiro do outro não deixou margem para dúvida de que o toque do guerreiro estava funcionando.
Targus afastou a trança de cabelos brancos, para ter um acesso melhor para acariciar o pescoço do líder. Os pequenos gemidos de Rhea mostravam como ele estava começando a relaxar, isso agradou ao guerreiro, Rhea ficava mais dócil quando estava relaxado.
Mordiscou a orelha dele arrancando um gemido alto, a audição de Targus continuava concentrada ao redor dos dois, mas como sabia que àquela hora as pessoas estariam reunidas perto da fogueira central da aldeia. Estariam relativamente a salvo de alguém aparecer. As tentativas de Targus de acalmar o seu amante terminaram quando Rhea colocou a mão sobre o seu braço, apertando levemente.
— Targus, não, por hoje chega. — Não era muito habitual Rhea rejeitar os avanços do guerreiro, mas definitivamente não estava com disposição para sexo ou caricias.
O líder virou-se para o amante, colocou os braços rodeando o pescoço dele. Os olhos cinza do guerreiro pareciam incolores à luz dos archotes e da lua. Rhea demorou o seu tempo observando o rosto do homem que o consolava, e dava-lhe um pouco de ânimo, além de ser um ombro amigo.
Acariciou com a ponta dos dedos o rosto marcado pela barba áspera, tal e qual como Rhea gostava. Seria tão mais fácil se ele amasse Targus. Rhea amava-o, mas não chegava nem nunca chegaria para fazê-lo esquecer do maldito primeiro amor.
Havia dias que Rhea sentia-se mesquinho e sujo, por estar usando Targus como forma de escapar aos próprios demónios. Targus estava sendo uma das coisas boas na vida dele, não merecendo alguém que apenas entregava-se pela metade, como Rhea. Contudo como um bom egoísta, não conseguia abrir mão do que possuía e deixa-lo livre.
O maldito Theon tinha que voltar do lago das almas perdidas para o atormentar.
Resignado e querendo dar um pouco de valor ao bom homem que Targus era, Rhae deixou-o livre naquela aquela noite. — Hoje não, vai descansar, depois falamos. — Os lábios do líder tocaram brevemente nos do guerreiro, selando o afeto que nutria pelo homem.
Com um fraco sorriso nos lábios, Rhea despediu-se de Targus e foi para a sua cabana, recusando-se a sair de lá até ao dia seguinte. Não ouviria as palavras do Xamã provocando-o, não iria para o lago como o velho dissera, não iria com toda a maldita certeza encontrar-se com Theon.
Fazia muito tempo que Rhea não andava descontrolado assim, certamente era embaraçoso, perder a boa postura por causa de um homem. Parecia um garoto mimado e caprichoso e não um líder firme e exemplar.
Rhea construíra a postura de líder inteligente e sensato, não um garoto idiota apaixonado como fora. Precisava retomar as rédeas e controlar o seu coração e temperamento.
ººº
O caminho de regresso para a aldeia tornara-se confuso sob a luz da lua. Caja errara duas vezes por ter virado no caminho onde não deveria ter virado. Xanxus inconformado com sentido de orientação defeituoso do humano, cansara-se de deixa-lo na liderança pelo caminho de regresso à aldeia. O tigre puxara a bainha da túnica do garoto e forçou-o a mudar de direção.
— É esse o caminho? — Caja não protestou quando o animal puxou a sua roupa com os dentes, e o fez mudar de direção.
O tigre resfolgou em resposta ao humano, os dois andaram um bom bocado ouvindo os animais noturnos saírem das tocas. As narinas de Caja foram inundadas pelo aroma de comida sendo confecionada — mais concretamente carne assando nas fogueiras —, indicando que estavam no trilho certo.
Visualizou os archotes que iluminavam a entrada da aldeia, pelo movimento Caja percebeu que não devia ser tão tarde, pelo menos chegara graças ao tigre.
Caja entrou na aldeia tentando passar despercebido, preferiu ir direto para a cabana de Kain em vez de ir para a cabana da família, mesmo que o seu estômago protestasse por comida. Quando entrou na cabana, percebeu que o interior estava iluminado, e Kain estava andando de um lado para o outro, impaciente. O garoto conteve a respiração ao ver que o outro notara a presença dele, a carranca de Kain não encontrava-se muito amistosa.
O corpo de Caja gelou quando o guerreiro andou na direção dele, com o olhar predatório marcado nele. Kain estava exalando perigo.
— Pelos espíritos apodrecidos, onde tu estiveste Caja? — A preocupação de Kain transformara-se em raiva no instante em que os olhos dele recaíram no garoto. Passara muito tempo procurando pelo garoto-flor, sem sucesso.
Kain conhecia o território da sua tribo como a palma da sua mão, mas o desgraçado parecia que sumira no ar, era impossível que Caja tivesse ido para muito longe. Precisou mentir aos seus pais, dizendo que Caja tinha ido direto para a cabana.
Se Theon soubesse o que ele fizera com Caja, estaria muito morto. Assustar o garoto-flor não estava ajudando, mas Kain sentia-se aliviado por vê-lo são e salvo.
— O que te interessa? Não é como se tu te importasses comigo. — Caja rebateu.
— Eu estive procurando por ti durante muito tempo! — Kain aproximou-se mais dele, ficando apenas a milímetros.
Caja não sabia se ria ou se socava a cara do outro. Como Kain poderia insinuar que a culpa era dele? — Isso não teria acontecido se tu não me tivesses empurrado da muralha, seu imbecil!
Essas palavras surtiram efeito imediato, o guerreiro baixou o rosto com uma expressão culposa. Kain afastou-se do garoto, esfregou o rosto cansado e respirou fundo. — Eu nunca quis que isso acontecesse! Perdi a cabeça e não medi a minha força, perdoa-me.
Se Kain quisesse realmente pedir desculpas teria que esforçar-se mais, mas somente por ele estar admitindo que o que fizera foi muito errado já bastava, por enquanto. — Eu estou bem, não dá para desfazer o que foi feito. — Caja levantou as suas mãos para dar enfase às suas palavras.
O guerreiro franziu a testa ao ver as mãos machucadas e ensanguentadas do garoto. Aproximou-se de novo de Caja e segurou nas mãos dele. — Deixa-me cuidar das tuas feridas. — Kain não podia mudar os seus atos mas poderia emendar os erros.
Vendo que o garoto-flor não o contrariou, levou-o até a uma bacia com água e com um pedaço de tecido limpou os ferimentos, o mais gentilmente que pôde.
— Obrigado. — Caja agradeceu a atenção, não precisaria de ser exatamente um canalha e punir Kain, quando ele estava empenhado em tratar dos seus ferimentos.
O rosto marcado pela seriedade fazia o guerreiro parecer mais maduro, quando ele não estava sendo um bruto estúpido conseguia realmente ser agradável. Caja começou a ter uma vaga ideia do porquê do comportamento irritante de Kain, não passava de uma fachada. Se isso fosse verdade, Caja mudaria a opinião negativa que tinha sobre ele.
Enquanto divagava, o estômago de Caja acordara ruidosamente, fazendo Kain olhar estupefacto para ele.
— Hm, não se pode negar comida a esse animal esfomeado. — Kain riu, apontando para a pequena mesa redonda ao canto da cabana, em cima dela estava servida alguma comida. Ele pensara que quando Caja voltasse estaria com fome, por isso mentira à sua mãe dizendo que o garoto queria comer na cabana.
Kain agradeceu aos ancestrais por os seus pais terem acreditado que Caja estava na cabana, e não desaparecido.
Caja não se fez de tímido, andou até à mesa e sentou-se, atacando a comida imediatamente não parando até terminar com a refeição. Kain estava sentado ao lado do garoto, permanecia calado, rindo ocasionalmente quando Caja enfiava comida a mais na boca e tinha dificuldade em mastigar.
O suco de frutas ácidas misturadas com água e melaço ajudou a comida a ser descer no fim. Não conseguindo conter a satisfação de ter o estômago cheio, Caja arrotou. Colocara a sua mão tapando a boca tarde demais, corando. — Desculpa! E obrigado pela comida.
Kain revirou os olhos e sorriu, ele arrotava o tempo todo, não sabia qual o sentido de ter modéstia quando não era saudável conter a satisfação de ter a barriga cheia. — Flores devem libertar todos os gases dos seus corpos sem vergonha. — O jovem guerreiro não conseguiria segurar a sua língua, pelo menos conseguia ser menos agressivo na sua implicância e sarcasmo.
— Se houver alguma coisa que eu possa fazer para tu me perdoares… — Kain não terminara a sua fala, alguém chamava pelo seu nome do lado de fora da cabana, mais propriamente uma garota.
— Kain podemos brincar um pouco? — A voz da garota era baixa mas percebera-se claramente o que ela dissera.
Caja estreitou os olhos, a sua expressão fechara-se, reconhecia a voz daquela garota. A repentina reação chocou tanto Kain como Caja, a mão do garoto chocou-se com a bochecha esquerda do guerreiro.
A mão do garoto ganhara vontade própria devido ao impulso do desagrado que estava sentindo. Perdera completamente o juízo para chegar ao ponto de estapear Kain. O momento ficara arruinado, o bruto detestável estava tentando remediar o seu erro — sabendo que devia ser do tipo que nunca pediria desculpa, por isso devia requerer um esforço enorme para Kain dizer aquelas palavras — e a garota estragara tudo.
— E-Eu não queria! Desculpa! — Recuperado do choque da sua ação, Caja jorrava pedidos de desculpa, atrapalhado. — Deuses! Perdoa-me Kain!
— Hm, isso doeu. — Kain segurou o lado estapeado do rosto. — Acho que agora estamos acertados. — O guerreiro ficou surpreso pelo tapa ter doído, parecia que o garoto-flor tinha a mão dura. Irritar demais Caja poderia valer-lhe uns roxos no corpo.
De certa forma ele merecia, depois do que fizera, achava que o tapa fora muito pouco.
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