Notas iniciais
SURPRESA de Natal! Por essa não esperavam não é?! HSAUSHAUSH nem precisa explicar a minha fuga da galinha hshashaus coisas da vida. O Nyah tá novinho tou enamorada com a minha capa e avatar fofuxo! *-* Confessem que já tinham saudades das minhas fics :p Agradeço a todos os comentários e às recomendações, fiquei bem louca por 7 com apenas 4 caps. *--* Espero que gostem do cap. Boa leitura!

O habitual desjejum animado na casa do líder não estava acontecendo naquela manhã. O clima tenso rodeando a família, era amenizado pelos ligeiros e fracos sorrisos de Nala. A mulher do líder da tribo do lago escondia um pouco o seu olhar de dor com os sorrisos, enquanto servia os seus três filhos e Caja, não descurando o lado maternal. Kain não precisava perguntar qual o motivo daquela atmosfera obscura, pelo canto do olho visualizou o seu pai, algo nele estava diferente, a expressão no rosto suavizava o rosto marcado, mudando radicalmente a expressão grave que ele sempre usava. Era como se o líder tivesse mudado da noite para o dia, como se algo bom tivesse acontecido depois de tantos anos de amargura.

Esse pensamento fez Kain franzir a sua testa, relembrando as saídas noturnas do seu pai, até então isso nunca havia despertado o seu menor interesse, mas agora precisava descobrir esse segredo. Não ficando mais irritado com o seu pai porque o seu comportamento para com os seus irmãos não estava diferente. Theon estava entretido e embebecido com Lila, a única pessoa do gênero oposto que cativou o coração do líder.

Comendo em silêncio Caja sentiu-se como se estivesse a invadir um espaço familiar, a sensação de penetra nunca esteve mais à flor da sua pele. A tensão rodeando o círculo estava palpável. Ao seu lado ele conseguia sentir as ondas de tensão e desconforto que irradiavam do corpo de Kain. Ao seu lado esquerdo o silencioso Saxon estava inexpressivamente a comer. Caja sentia-se um pouco confuso com o jeito do garoto, a falta de expressões demonstradas, tendo uma família como aquela devia ser motivo para ter um sorriso estampando no rosto. Pelo menos seria isso que ele faria se essa família acolhedora fosse a dele. O pensamento deixou-o cabisbaixo.

O resto da refeição decorreu sem incidentes apesar do ambiente, com Nala conversando um pouco com ele e os seus filhos. Quando os homens saíram da cabana, o líder parou Kain com as suas palavras sabendo qual era a intenção do seu primogénito. Deixar Caja sozinho enquanto ele desaparecia pelo resto do dia. Egocentrismo era um defeito que pretendia exterminar no seu filho. — Kain, eu quero que leves Caja e Saxon para, digamos lições básicas de caça, observação e reconhecimento. — Os olhos verdes de Theon estavam entre a dureza e ternura olhando para o seu filho mais velho. Sabendo a relutância dele em estar perto do garoto mais fraco.

Kain estancou os seus passos para se virar e comtemplar o seu pai, com cara de quem ouviu o maior absurdo do todos. Caja ficou igualmente surpreso.

— Pai realmente não queres que eu faça isso não é? — Kain camuflou a sua irritação com o tom baixo da sua voz.

— Realmente, eu quero que faças isso. Não achas correto alguém com mais experiência ensinar outras pessoas? — Theon continuou.

O jovem guerreiro lançou faíscas verdes em direção ao seu pai, olhando e estudando o homem à sua frente. Sua cópia mais velha. — Tudo bem líder. Relembrando que a caça é uma atividade muito perigosa, nem todos regressam vivos e inteiros.

Theon reduziu a distância entre os dois com dois meros passos. Agarrou o colar de couro e contas de Kain entre o punho e o fez encara-lo sem desviar o olhar. A expressão compassiva do líder alterou-se, para uma que poucas pessoas poderiam encarar sem tremer de medo até aos ossos. Perdendo em altura para o seu pai por poucos centímetros Kain não pestanejou. Quando o processo de crescimento do jovem guerreiro terminar, ficará com a mesma altura ou mais alto que o seu pai. Mesmo assim Kain não se deixou intimidar e encarou com o rosto formado numa carranca. Era disso que os líderes eram feitos, não se deixarem ser intimidados por alguém mais forte e manter-se firme.

— Os três vão regressar vivos e inteiros, meu garoto. Os limites do nosso território são o suficiente, nada de aventuras ou perseguir ou enfrentar os carnívoros. Fui claro Kain?

Como de se esperar os hormônios de dominante não acataram bem a ideia, de ele ser mandado ou obrigado a fazer algo. Demorando a processar a ordem do líder, Kain não respondeu de imediato, fazendo Theon repetir-se. — Fui claro Kain?

Resignado e sabendo que teria que tirar a cabeça da sua bunda, e pensar racionalmente. O jovem respondeu com a humildade que conseguia transmitir sem passar por fraco. — Claro como água, líder.

As feições agressivas quase animalescas de Theon sumiram, dando lugar ao papel de pai. O seu olhar caindo na grande cicatriz traçando o rosto do seu filho, desde da têmpora direita até à bochecha esquerda, chegando a desfigurar o rosto. Suspirou resignado pela impulsividade e a busca louca de fortalecimento que Kain fazia, beirando a obsessão. Essa parte da personalidade do seu primogénito deixou-lhe várias vezes com o coração parado no peito, e o desespero na pele. Foram vezes a mais que qualquer pai pudesse aguentar. Num gesto paternal Theon segurou o rosto do filho com as duas mãos, e demorou observando ele.

Estava-se a rever a si mesmo, quando mais novo. A sombra de um sorriso invadiu os lábios do líder, soltou-o das suas mãos. — Podem ir. — Theon deu um sorriso amigável para Caja e bagunçou o cabelo de Saxon, quando passou por eles.

Atónito Caja presenciou a cena feroz entre pai e filho, parecendo que os dois eram inimigos. Todavia não pôde deixar de sentir-se triste pela aparente aversão de Kain por ele. A pessoa que cuidou dele e o ajudara tanto quando mais precisou agora o repelia. De certo modo a brutidade e rudeza sempre estiveram presentes, que Caja achou esses dois defeitos perfeitos no carisma de Kain. Bem ele achava que Kain charmoso dentro dos padrões de um verdadeiro homem.

Paralisado pelas coisas que supostamente não devia pensar, Caja mentalmente encolheu-se pela sua estupidez. Forçando-se a escoar tais pensamentos para fora da sua cabeça. A voz grave de Kain tirou-o do seu transe. Visivelmente Kain estava bastante chateado, qualquer um podia notar isso. Caja apenas ficou parado, olhando e esperando.

— Vamos embora garoto-flor! Ou estás fantasiando comigo em te levar ao colo? Com essa bunda gorda ainda quebro o meu braço. — Kain atirou com o seu habitual humor ácido e implicância que estava apenas reservado para Caja.

''Bem, já me carregaste ao colo e não reclamaste da minha bunda… idiota.'' Caja argumentou mentalmente. Suspirando e não querer dar mais motivos para irritar Kain, Caja ficou em silêncio. Com toda a certeza seria ele seria atirado aos carnívoros se irritasse mais o guerreiro. Não tinha mais dúvidas de que seria isso que aconteceria. Caja encontrou-se orando aos ancestrais para pouparem a sua vida insignificante. Não sabendo o que Theon poderia querer com ele aprendendo o básico sobre caça. Nem o seu pai ou a sua tribo conseguiram fazer dele em algo útil. Resignou-se a seguir os dois irmãos, ouvindo a pergunta curiosa de Kain ao seu irmão mais novo. — Por que o pai quer que eu te ensine a caçar?

Arqueando uma sobrancelha designando aquela pergunta como idiota e de resposta visível, Saxon falou com um tom irónico. — Para evitar que deixes Caja ser comida de carnívoros, ou o afogues no lago dos espíritos atormentados. — Dito isso Saxon passou na frente do seu irmão no caminho para a cabana das armas. Kain fez uma expressão de entendido e que até concordava com isso, pois Saxon não precisava de muita instrução para caçar.

Já que parecia que o seu irmão mais novo seria a encarnação de um predador carnívoro, e a habilidade suficiente com as armas davam-lhe um futuro assegurado como guerreiro, contudo Saxon não estava muito inclinado para a vida de guerreiro. Nem mesmo ele, o irmão mais velho e próximo, conseguia chegar a penetrar na fortaleza que erguia-se entre Saxon e o resto das pessoas.

Desta vez não querendo e não conseguindo conter um suspiro de frustração, Caja ouviu os irmãos a falar do possível fim que poderia ter se chegasse muito perto de pisar na curta paciência do guerreiro. Logo chegando à cabana do armamento, todos os três equiparam-se com as diversas armas. Os dois irmãos artilharam-se como se tivessem indo para um combate contra os inimigos. Caja compôs o arco e flechas nas costas, dados por Saxon.

.OoO.

O trio seguiu um trilho muito sinuoso pela vegetação alta e verde da floresta, as raízes grossas e antigas ondulavam pelo chão terroso. Com agilidade os dois irmãos saltavam pelas raízes, já Caja como sendo o rotulando de desastrado, por vezes precisou segurar nos troncos das árvores para se apoiar e não cair no chão. Amaldiçoando-se todo o caminho, por vezes só mentalmente e outras por dentes cerrados. — Por que eu não nasci mulher, seria menos inútil… — Pela terceira vez o garoto levou a sua mão suja de terra ao rosto para limpar as gotas de suor. Não entendendo quanto mais precisariam andar, ou para onde sequer iam, ele não sabia.

Kain e Saxon não davam a mínima para ele, e não abrandavam o seu ritmo. Eles apenas paravam brevemente para ficarem atentos aos sons e cheiros. Um resfolgar junto com o som das folhas mexendo congelou Caja no sítio. O frio do terror subiu pela espinha apenas permitindo os olhos azuis-pálidos se moverem, junto com o seu peito subindo e descendo descontroladamente, ao contrário das suas pernas paralisadas. O som aproximou-se mais, num momento de pura coragem louca misturada com adrenalina, Caja virou-se para encarar o quer que fosse.

Os olhos amarelados vagamente familiares foram a primeira coisa que reparou quando a criatura se mostrou. Xanxus aspirou o ar com a grande cabeça felina virada para cima, ignorando o humano na sua frente. Quando terminou de examinar o seu arredor, virou a sua atenção para Caja. Abrindo a boca com relaxo revelando os dentes mortíferos deixando a língua passar pelos caninos expostos. O tigre-dentes-de-sabre deixou sair pequenos grunhidos e recomeçou a andar, passando pelo humano aterrorizado.

Xanxus virou a sua cabeça para olhar para trás, para o humano, rugindo. O rugido do tigre fez o congelamento do corpo de Caja quebrar-se. Teve a estranha sensação de que o animal queria que ele o seguisse, e pelo rugido era isso mesmo que o tigre esperava. Suspirando o garoto seguiu o animal, não sabendo se isso seria o mais sensato. Resignou-se, pois os irmãos há muito tempo que não estavam no campo de visão dele. E obviamente Caja não esperava que eles voltassem por ele.

.OoO.

Olhos azuis-cristalinos perscrutaram a parede da cabana estoicamente. A tempestade de imagens, sensações e fantasias devastavam a mente, em contraste com o rosto sem expressão de Rhae. A conhecida dor na parte baixa do seu corpo não era nada comparado com a dor no coração. Targus havia o fodido como ele gostava, forte e desprovido de carinho, era apenas sexo. Rhae havia sobrevivido durante todos esses anos assim, com sexo duro e cru. Nunca havia conseguido chamar de ‘’fazer amor’’ com Targus, pois ambos buscavam conforto no corpo um do outro. Apesar de saber que o guerreiro nutria algo a mais por ele, algo que Rhae não estava disposto a entregar. Rhae gostava da forma crua e dura sem envolver sentimentos.

Por vezes a sua própria frieza e amargura assustava Rhae. De certa forma ressentia-se daquilo que havia-se tornado. A antiga natureza compassiva e sonhadora de outrora assombrava-o durante o sono, transformando em sonhos distantes daquilo que viveu, e das ilusões do futuro que poderia ter tido se tivesse renunciado à sua herança. Secretamente Rhae pensava nas possibilidades de vida que teria se tivesse fugido naquela noite, com Theon.

A maior ironia que os ancestrais poderiam arquitetar para ele, estava deixando-o achar que iria enlouquecer a qualquer instante. O seu filho ser encontrado pelo filho do homem que amou. Para aumentar a incredibilidade da situação, Rhae sentiu o peso do desaparecimento de Caja sumir do seu peito. Estranhamente ele confiava a segurança do seu filho nas mãos de Theon.

O pensamento de uma possível continuação da sua história com Theon através do seu filho com o filho do seu amor passado transformou em uma risada ruidosa de Rhae. Acabando com o silêncio do quarto. Decidido, sentou-se na cama pronto a levantar-se, não dando importância à sua risada nem a analisando. Nada de bom poderia vir do destino, só esperava que Caja fosse mais forte que ele. Desviar a sua vida para concentrar-se no seu filho dava-lhe o escape que precisava para esquecer a sua. O encontro da noite anterior ainda formigava na pele de Rhae, o inesperado encontro despoletou diversas emoções, perigosas emoções como outrora fizera.

Renegando entregar o controlo de si nas mãos do amor do passado, Rhae buscou Targus para abafar a sua loucura. Não se dececionou, Targus esgotou-o física e mentalmente durante a madrugada.

— Rhae… o que se passa? — A voz rouca e sonolenta de Targus rebentou a bolha de pensamentos de Rhae.

— Nada Targus. — Olhando por cima do ombro Rhae deu uma boa olhada para o seu parceiro sexual. Targus com o seu aspeto físico duro e tonificado, era a perfeição desejada por homens e mulheres. O cabelo negro ondulando em cascata até aos ombros, marcando um rosto com as proporções exatas para torna-lo lindo, porém o que teve em conta para Rhae demonstrar algum interesse em outro homem, foram os olhos cinza brilhantes, quase translúcidos. O corpo exalando masculinidade com uma camada leve dos pelos corporais, também pesou na decisão de tornar Targus o seu amante fixo. Todavia ambos sabiam que a relação deles não era nada mais do que sexo, os limites estavam claros, pelo menos para Rhae.

O conhecido arrepio percorreu a espinha de Rhae quando a barba de Targus roçava na pele nua enquanto o moreno deslizava os lábios pela sua coluna, depositando preguiçosamente beijos. Os arrepios e suspiros eram verdadeiros, Rhae sentia-se quente ao toque de Targus. Sucumbindo à tentação e ao peso do outro homem, o líder ficou de novo por baixo dele, prevendo que iria sair da sua cabana muito mais tarde do que já era.

.OoO.

— Estamos parando aqui por quê? — Saxon perguntou com leve confusão, sabendo que o sítio que pretendiam chegar estava a poucos metros.

Kain encolheu os ombros e sentou-se numa pedra, lançando vários olhares para o trilho que seguiram. — Estou cansado. — A resposta saiu pateticamente, dito em voz alta pareceu uma desculpa pouco convincente. Kain não pôde conter a leve preocupação crescente por Caja não seguir ao mesmo ritmo. Todavia o orgulho não o permitiu voltar atrás e ir buscar o garoto-flor pelo braço. Esperaria o tempo necessário que demoraria até ao sítio em que se encontravam, depois iria busca-lo.

Obviamente não acreditando no disparate que o seu irmão dissera, Saxon remeteu-se ao silêncio. O comportamento idiota de Kain ao redor do recém-chegado era estranho, instigante e cómico.

O sol alto espreitando por entre as folhagens verdes, indicando que os animais estariam na planície saciando a sua sede provocada pelo calor do verão. A altura ideal para ver e quem sabe caçar algum. Devido ao estarem dentro dos territórios da tribo, a muralha mantendo os dinossauros de grande porte fora, restava os de médio e menor tamanho para caçar com facilidade. Os guerreiros arriscavam-se em viagens de caça maior fora das muralhas quando chegava os tempos frios e de escassez de fruta e vegetais.

A súbita chegada de Xanxus trazendo um Caja muito sujo e suado no seu encalço fez Kain franzir a sua testa. O tigre raramente dava importância às atividades dos humanos, participando vez ou outra numa caçada, evitando muito o contato com as pessoas. Mesmo Xanxus viver numa aldeia evitava o contato permanente e direto, só regressando à cabana de Kain pela noite para dormir.

— Finalmente, eu achei que tivesses ficado para trás para brincar com as flores, garoto-flor. — Kain levantou-se do seu assento ligando o seu lado implicativo e sarcástico. Depois de quase, muito quase, suspirar de alívio por ver Caja inteiro numa peça única.

Prontamente Caja ignorou-o, estava cansado e com sede demais para se importar com o quer que fosse que Kain dissesse. ‘’Idiota’’ Recolocando os fios de cabelos de volta ao aperto do cordel de couro. Caja sentia-se muito pegajoso, suado e sujo. Reclamar disso estava fora de questão, de fato ele nunca expressava o seu descontentamento em voz alta, por que não adiantaria amaldiçoar quando a culpa de ser assim fraco era dele. Poucas coisas faziam o seu sangue ferver com irritação, e Kain era a exceção, só a questão de um piscar de olhos ele conseguia transformar a passividade de Caja em inflamação espontânea.

— Bem vamos lá! O dia já está pela metade! — Kain liderou o resto do caminho, agora permanecendo perto de Caja.

.OoO.

Atrasado pela primeira vez em anos Rhae entrou na cabana do velho Xamã com a dose diária de comida. As vestes brancas fluíram sob os movimentos graciosos do líder, mesmo na pressa a túnica longa moldava-se elegantemente. Rhae amaldiçoou o seu próprio entusiasmo e o de Targus. Como cuidador das necessidades do velho xamã não havia espaço para irresponsabilidade. — Xamã Gawain? — A voz de Rhae não passava de um mero sussurro, pois os sentidos apurados do velho xamã permitia ouvir um galho caindo de uma árvore. Pousando a comida na mesa de madeira, o líder andou até ao quarto onde o xamã fabricava os remédios entre outras coisas.

Como de esperar Rhae encontrou-o meio curvado sobre as suas misturas de ervas. De costas para ele o velho não se incomodou em voltar-se para saber quem entrou na sua casa. — Como está se sentindo hoje xamã Gawain?

O riso rouco veio do xamã. — Eu estou muito bem meu filho. E como estás tu?

Rhae rodeou a mesa até colocar-se na frente do xamã, que continuava concentrado nas várias tijelas de ervas e misturas. Com tom calculoso o líder respondeu. — Eu estou bem, como sempre. — Num gesto defensivo Rhae cruzou os braços sobre o peito, tendo a certeza que o xamã estava brincando com ele, já que o laço entre os dois permitia saber essas coisas. O leve tremor percorreu a sua espinha ao saber do quanto o xamã poderia saber, não era o hábito do velho xamã bisbilhotar a vida alheia com os seus poderes. Seria desrespeitoso para com os poderes dos ancestrais. Tentou respirar e manter a calma, era desnecessário entrar em pânico. Não havia como saber do encontro dele com Theon.

— Eu acredito que hoje as coisas estejam bem. Caja vai ficar bem e tu meu filho também. — O xamã levantou o rosto moreno marcado de rugas, um pequeno sorriso matreiro e cheio de sabedoria adornou os lábios do velho. Para a sua idade o xamã movia-se com a fluidez que o seu corpo magro permitia.

Rhae semicerrou os olhos com desconfiança. O xamã era de fato uma figura agradável com certa pureza que os anos não conseguiram levar. Por isso que ele sempre soube que manter Caja perto de uma pessoa assim só faria bem e amenizava os seus terrores interiores. Desde de que se lembrava Rhae sempre viu o xamã como um pai adotivo, muito tempo passado perto do homem nos tempos de juventude produziu esse vínculo. Parte da rebeldia fora de certa forma incentivada pelo xamã, indiretamente. ''Ter raízes fortes é muito importante, mas ter dois pés que nos levam a todo o lado é vital. Não deixes as tuas raízes te limitarem Rhae.''

Relembrando que esse conselho o levou ao amor e perda de Theon, soube que não funcionou com ele. Arrependimento era o sentimento mais correto. Se fosse naquele momento Rhae teria escolhido sido controlado pelo seu pai, e ter as suas raízes submersas na terra com isso poderia sobreviver. Mas ter tido o seu coração despedaçado era outra história. — Sim Caja ficará bem. Eu ficarei bem, Targus e eu estamos bem.

Olhos leitosos observavam-no criticamente, a diversão do rosto do xamã desapareceu para se mascarar com apreensão e preocupação. O velho não demonstrou o seu descontentamento verbalmente, mas fez cara de quem sabe que a pessoa estava fazendo algo errado, e era demasiado teimosa para admitir isso. — Pior cego é aquele que não quer ver… cegueira de alma é a pior deficiência.

Rhae vincou os lábios numa linha de irritação. A velha história do velho sábio e cego que vê mais do que as pessoas sem cegueira. Havia anos que o xamã massacrava-o com as mesmas insinuações. O velho praticamente atirava-lhe à sua cara que ele tinha estragado a sua vida por não estar a viver o que realmente queria, tinha sido assim desde da noite em que regressara à tribo depois de Theon o ter abandonado à sua espera.

A conversa detalhada nunca havia sido contada, Rhae nunca contara tudo ao pormenor, o velho apenas sabia que ele estava apaixonado por um homem que não pertencia à tribo. Nem depois de casar-se com a mãe de Caja o xamã parou de cutucar a ferida. A personalidade de Rhae deu uma grande reviravolta, tornando-se frio e metódico. Dezenas de vezes ele fora chamado de criança com birra pelo velho, quando ele tinha uma atitude irritadiça quando tocava no assunto proibido.

— Mesmo assim eu prefiro ter essa cegueira de alma a ser um iludido cego. — O líder fez pretensão de ir embora, muito mais por causa de si mesmo do que pelo xamã. A tempestade de emoções dentro de Rhae ainda não estava assentada, medo que alguma palavra sábia despoletasse uma atitude louca. Como ir correndo para o homem que tomou a sua virgindade vários anos atrás.

— A vida dá asas a quem mesmo com medo de cair, pula e descobre o que está além do medo. — O sorriso travesso do xamã regressou ao rosto. A juventude era tão fácil de inflamar e explodir, com as agulhas certas no sítio certo era o suficiente para atiçar Rhae.

Indignado Rhae atirou a trança para trás, hábito de mexer no cabelo quando estava nervoso que não havia desaparecido, e levantou o queixo, saindo de uma vez da cabana do xamã com o seu jeito azedo.

— Eu sei que vais ficar muito bem meu filho. E não vai ser com o Targus… — Gawain cantarolou baixinho voltando a sua atenção para os preparos de ervas. Sabendo que o futuro pessoal de Rhae e Caja não será tão brilhante como o sol, mas com a dose certa de luta e destruição dos obstáculos as nuvens negras poderão desaparecer. E deixar o sol brilhar em toda a sua glória e esplendor. Desde do primeiro momento do desaparecimento de Caja que soube que não havia motivos para alarme. O garoto estava em boas mãos, já pelo pai do garoto o xamã tinha as suas dúvidas e reservas, o comportamento juvenil de Rhae divertia-o.

.OoO.

Seguindo o exemplo dos dois irmãos Caja permaneceu silencioso. Depois do pequeno treinamento de cheiros que Kain tentou incutir nele – inutilmente – pois para Caja os cheiros dos animais, plantas, terra e outros que ele preferiu não saber o que eram, não passavam de um borrão olfativo. Não dava para distinguir o que era o quê. Agora o trio estava agachado e escondido por entre a vegetação, observando as manadas comendo e bebendo água pacificamente.

Caja ficou facilmente distraído com um inseto pousado numa folha, de repente era mais interessante olhar para o bicho do que ficar apenas olhando sem praticamente mexer o corpo.

— Presta atenção Caja! Já escolhemos o mais fraco. Vais ter a honra de atirar nele primeiro. — Kain sussurrou olhando diretamente para o garoto-flor.

Levantando os olhos para encarar o guerreiro, Caja soube nesse momento que o moreno tinha perdido o pouco cérebro que possuía. — Queres que eu atire? Sem saber se eu consigo ou não? Queres morrer?

Um sorriso de escárnio brotou de Kain. — Sim isso mesmo. — Sabendo perfeitamente o que estava fazendo Kain queria gargalhar, pelo simples fato que a expressão de descrença de Caja lhe incutia a isso. Mas reteve-se, fazer barulho era assustar a presa. Pressentindo que a pontaria do garoto de cabelo prateado era ruim, ele iria usar isso para afugentar e isolar a presa do resto manada. Fazendo o animal entrar na floresta para dar início à caçada.

Suspirando de derrota Caja pegou no seu arco e flecha e apontou na direção em que Kain dissera. Um limusaurus colhia as ervas com o bico, a pelagem amarela e azul do animal dava-lhe um aspeto fofo, o aspeto indefeso da grande ave tocou-lhe, ficando com pena.

Certas coisas eram feitas por natureza, e alimentar-se de carne era fundamental, mas matar era uma coisa que Caja não participava muito. Empurrando os pensamentos de piedade para trás Caja soltou a sua mão da flecha, deixando-a cair exatamente perto das patas do animal. O frenesim de animais assustados não lhe deu tempo para ficar admirando a sua pontaria, pois não acertara nele. Alarmados pela algazarra vários animais corriam em direções diferentes.

Uma mão áspera pegou no seu braço forçando-o a ficar de pé. Kain puxou-o para perto de si enquanto os dois estavam encolhidos contra o tronco de uma árvore. Caja percebeu que eles precisavam ficar fora do caminho quando os animais vinham em demanda, e um deles era a presa escolhida. Foi fácil identificar a presa, pois era o mais lento ficando apra trás.

A sua atenção virou-se para o aperto de Kain na sua cintura. Os músculos de Caja ficaram tensos com a aproximação íntima, conseguindo sentir o contorno daquilo que não devia sentir colado a si já que as roupas eram escassas, apenas uma tanga de pele de felino. O toque dos peitos nus não deveria ter um efeito formigando dentro de si. O peito de Kain era tão rijo como aparentava, agora tocando parecia estar tocando numa rocha, exceto que essa rocha era quente e deixava-o estranho. Contendo a sua respiração e evitando fazer movimentos Caja permaneceu colado a Kain, com o rosto quente e respirando com dificuldade.

Kain sabia que precisava deixar Caja ir mas os seus braços não lhe obedeciam, invés disso apertaram-se mais em redor da cintura do garoto. Os olhos do guerreiro estavam presos na pequena figura, algo no seu corpo começou a despertar lentamente, dando uma pequena saudação na sua virilha. ‘’Maldição!’’

O cheiro dos cabelos esbranquiçados ardeu nas narinas de Kain, a mistura do sabão de flores com o aroma natural de Caja era intoxicante. O seu estomago começou a borbulhar com uma sensação que desconhecia subindo, de repente sentiu-se fraco. Sem evitar Kain enterrou o nariz e rosto nos cabelos prata inspirando, inspirou até que os seus pulmões não conseguiram ficar mais dilatados. O que estava fazendo era ridículo, ele estava caçando e agora encontrava-se com o estranho nos braços. Interiormente Kain sabia quem era o estranho, era ele por estar cheiro Caja pela segunda vez.

Um tremor provindo do corpo magro foi o suficiente para o acordar Kain do seu transe. O ligeiro pânico no seu peito, não queria de todo provocar medo no garoto, mesmo sendo bronco Kain não queria isso. Amaldiçoando-se com a forma bruta que largou Caja, fazendo-se recuar dois passos desequilibrados. O silêncio estranho e desconfortável abateu-se sobre os dois. — Merda. — Kain praguejou relembrando-se da caçada. — Saxon.

Em passadas largas seguiu o trilho das patas dos animais no solo, puxando Caja pela mão esperava encontrar o seu irmão e a presa.

.OoO.

— Então finalmente o encontraste? — A voz naturalmente calma de Nala tirou o seu marido do seu pensamento. A mulher sentou-se no chão relvado perto de Theon, sem retirar os olhos dele.

— Sim. — Theon respondeu medindo bem a alegria que esse sim continha. Deitar para fora uma alegria que não tinha sentido durante anos era desrespeitoso. Mesmo Nala sabendo toda a verdade, ele a amava de um jeito diferente, amava-a por ser mãe dos seus filhos e amava-a com amizade. Nada mais, simplesmente o amor que ela queria dele não funcionava. Honestidade e sinceridade sempre prevaleceram na relação deles, pela parte de Theon era assim, contudo Nala sempre manteve a esperança e ilusão que tudo mudasse com os anos.

— Como é que ele está? — Nala perguntou com genuíno interesse.

— Ele está mais lindo que nunca e agressivo também. — Theon não prendeu o pequeno sorriso ao lembrar-se de Rhae. Os olhos verdes tornam-se graves com a incerteza do que poderia vir a acontecer. Theon sentia-se desolado e confuso sobre o que devia fazer para ter Rhae de volta. Ambos tendo uma posição de liderança, não podiam simplesmente abrir mão de tudo, mesmo que a vontade suprema de Theon fosse raptar o seu lindo homem de cabelos prata.

— Theon, eu não sei se o meu conselho vai ser de uso, mas eu acho que deverias seguir o que realmente queres. Lembra-te a sombra do teu pai não está mais entre os vivos para te influenciar, és tu que controlas os teus passos agora. Então… tu sabes o que eu quero dizer. Acredito que os nossos ancestrais não nos querem ver sofrendo. — Nala ofereceu o seu sorriso mesmo que não estivesse olhando diretamente para o seu marido. Falar sobre esse assunto emocionava-a e entristecia-a.

Theon levantou-se dando a sua mão para Nala, ajudando-a igualmente a levantar-se. Com ternura Theon levou a mão dela depositando um leve beijo nas costas da mão. O olhar verde mesclado com um pedido de perdão. — As tuas palavras não serão em vão Nala.

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Ao cair da noite Kain, Saxon e Caja regressaram à aldeia, com um limusaurus pendendo morto no ombro de Kain. A caricata caçada no fim deu frutos, graças a Xanxus e Saxon. O tigre abateu-o e Saxon degolou-o. O retorno foi mais silencioso que a ida. Kain deixou o animal morto perto da cabana da sua mãe. Uma breve conversa com os seus pais e o jovem guerreiro saiu disparado.

Caja sentiu-se agradecido por Nala ter-se oferecido para acompanhar ele e Saxon até ao lago onde tomavam banho. O garoto não se sentia confortável andando sozinho por sítios que não conhecia, especialmente por ter somente chegado à aldeia há muito pouco tempo. E durante esse tempo Caja não se lembrou que precisa voltar para a sua tribo. O pensamento do seu pai apertou o coração do garoto. Apesar que o principal temor era não querer ficar sozinho, na sua tribo Caja tinha o seu estatuto de filho do líder para o proteger, ali não, nunca saberia quem poderia ter intenções menos boas para com ele. Sabendo que a sua aparência transmitia-a algo aos outros homens.

Zanzando sem rumo Kain deu tempo para Caja usar o lago para lavar-se, para depois usa-lo. Confuso e apreensivo sobre ter que compartilhar a sua cabana com Caja, Kain decidiu voltar a fazer o que costumava fazer antes do garoto-flor aparecer na sua vida.

Com o cansaço físico e psicológico Caja caiu facilmente no sono depois do banho. Achando melhor dormir no chão do que usar a cama de Kain, fez a sua própria no chão com as peles fofas. Deixando como último pensamento a preocupação de saber onde Kain estava.

.OoO.

— Kain está tudo bem em fazer isso com ele aqui ao lado? — A garota perguntou em tom tímido. Exasperado com o falatório da garota, que não se lembrava concretamente do nome, Kain tirou a roupa dela com rapidez. Mulheres falavam e balbuciavam demais sobre qualquer pequena coisa. — Ele está dormindo. Agora vais abrir as pernas ou não?

Kain não ligou para o seu lado racional que furiosamente mandava-o parar com esse disparate. Em vez de dar ouvidos à sua consciência Kain rebelou-se contra as novas emoções estranhas que deixavam o seu estomago borbulhando, e entrou no corpo da garota. Perguntando-se qual o motivo de ele ter que lutar contra a sua mente desse jeito e contra as estranhas sensações que garoto-flor lhe proporcionava.

O cabelo da garota não cheirava igual ao de Caja, nem de longe parecido, a pele dela não tinha o mesmo aroma especial de Caja. Ela não era Caja. Vencido fechou os olhos e apagou a imagem da garota em baixo de si e substituiu-a por Caja. Isso fez com que o seu corpo reagisse e tornasse o seu pênis duro como pedra em instantes.

Segurando as lágrimas e abafando os soluços com a uma mão, a outra mão apertando-se fortemente no tecido da túnica. Não precisaria ser um grande sábio para saber o que Kain estava fazendo. Isso doeu-lhe mesmo em cheio no peito, Caja não entendia bem o motivo da sua reação e dor. Só queria que Kain parasse de foder a garota, pois o seu corpo não estava respondendo ao seu comando de levantar-se e sair correndo dali. Caja queria vomitar, a ânsia de vômito violenta o deixou tonto. Incrivelmente não deixou escapar qualquer som que alertasse para a sua presença. Caja não soube de onde esse autocontrolo veio.

Com toda a certeza se um Sauroposeidon o esmagasse não doeria tanto como aquela cena.

Notas finais
Entãooo não precisa odiar o Kain né? Quando se pensava que tudo estava mal... sempre vai piorar! HSUSHAUSH Rhae tbm não anda lá muito bem hsuahsaush Theon vai suar muito ainda. Muita treta ainda vai rolar. Mais personagens ainda estarão por vir. Eu ri com essa xamã... nem sei de onde ele apareceu shaushaush Espero que tenham gostado e me contem os vosso sentimentos