Desejo e Razão
1 1. Primeiras Impressões
Notas iniciais
Apenas mais um dia monótono. Era o que pensava Kurosaki Ichigo, um simples estudante de colegial (apesar de seu chamativo cabelo laranja), enquanto acordava com os primeiros raios de luz que adentravam em seu quarto. Rapidamente levantou e foi lavar o rosto, tentando acabar com a rotineira preguiça. Após terminar de vestir seu uniforme, desceu para comer seu café-da-manhã com suas duas irmãs, Yuzu e Karin. Logo seu excêntrico pai Isshin chegou fazendo gracinhas, mas o ignorou. Não estava com vontade de agüentar ele, não hoje. Poderia matá-lo sem querer se entrasse nas suas “brincadeiras”. Comeu um pão torrado e engoliu um copo de suco de laranja apressado, seu pai o irritava tanto que queria fugir dali. Pegou o obentô que Yuzu preparara e foi caminhando para a escola. Desde que sua mãe morreu, Yuzu havia ocupado o papel doméstico de mãe da casa e fazia os obentô de todos, além de arrumar a casa e cozinhar.
Quando chegou à escola, vários alunos cochichavam sobre alguma coisa que não conseguia entender. Grande coisa, como se fosse interessante saber sobre as novas fofocas do ambiente. Sentou-se na sua carteira e pegou o livro de literatura para dar uma olhada na matéria que seria aprendida no dia. Tinha que se entreter um pouco para o tempo passar. Mas algo o desconcentrou. Ouvia um barulho de passos escandalosos vindo do corredor. Conhecia aquilo, só podia ser o...
- I-CHI-GO! BOM DIA! – era Keigo, um dos seus poucos amigos, pois metade da escola deduzia que ele era um delinqüente apenas olhando para seu cabelo. Em um movimento brusco, antes mesmo de dar chance ao moreno de tocar em seu braço, o derrubou.
- Bom dia, Keigo. – disse calmamente, como se o agredir fosse normal. E era.
- Bom dia, Ichigo! – disse Mizuiro, outro de seus amigos que se encontrava logo atrás de Keigo. Ele estava mandando mensagens com seu celular para garotas, provavelmente, como sempre.
- Você é tão cruel, Ichigo! – choramingava o rapaz, se recompondo de pé – Ah é, já ouviu as novidades?
- Hum? Que novidades? – perguntou, sem tirar os olhos o livro.
- Uma nova aluna transferida! A-lu-na! – falou devagar, dando mais atenção na parte que fazia a palavra ser feminina — Como será que ela é? Tomara que seja linda!~
- Tá, tá, que legal. Agora vai embora. – então era sobre isso que tanto falavam nos corredores? Essas pessoas realmente não tinham mesmo o que fazer...
Keigo se calou com uma expressão chorona, talvez pelo ruivo não levar a sério o assunto que tanto adorava. Logo a professora chegou, rude como sempre, dando estranhos apelidos para seus alunos. Após mandar todos calarem a boca, claro que com a maior gentileza possível (que não era muita), anunciou oficialmente a nova aluna. Pela porta surgiu uma garota baixinha, pele empalidecida, que contrastava com seus curtos cabelos negros. Seus olhos violetas eram grandes e carregavam uma expressão séria.
“Uau, ela é tão pequena e linda”
“O olhar dela me dá medo”
“Que fofa, ela parece uma boneca de porcelana!”
“Nossa, ela tem idade para estar no colegial?”
Esses eram uns dos muitos murmúrios que rolavam sobre a sala. Eles só pararam quando a garota se apresentou.
- Sou Kuchiki Rukia. – disse, abaixando-se em uma reverencia.
Sua voz ecoou pela sala. Era uma voz tão potente, forte e autoritária. Definitivamente se destacava do resto das vozes do lugar. Só quando ouviu essa intrigante voz foi que o ruivo tirou os olhos do que estava fazendo para encarar a nova aluna. O tempo parecia ter parado quando seus olhares se encontraram. Mas depois da morena o analisar bem, virou seu rosto para o lado e agarrou fortemente o corpo com os braços, com uma estranha expressão. O ruivo fez uma careta brava. Ela já o deduziu como delinqüente pelo cabelo? Sempre a mesma coisa acontecia com ele!
- Parem de babar, idiotas! Kuchiki-san, tem um lugar vago ao lado do Kurosaki para você – disse a professora. Rukia apenas a ficou encarando sem se mover. Deveria adivinhar quem seria esse tal de Kurosaki? – Ah, é! O Kurosaki é aquele punk de cabelo laranja!
Não foi difícil achar um garoto de cabelos ruivos no lugar. Ela se dirigiu em silêncio para sua carteira, com cada olho da sala observando cada passo que dava. Seu andar era extramente elegante, isso surpreendeu todos. Logo após sentar, ela se encolheu o máximo que pode na cadeira. Parecia que ninguém percebeu – a não ser o ruivo — que ela estava se sentindo incomodada com tantos olhares sobre ela, mas ao mesmo tempo parecia que já estava acostumada a isso.
A professora teve que chamar a atenção da turma para poder começar sua aula. Começou a ler um poema o qual Ichigo já conhecia, então ele se distraiu olhando para as paredes, para o céu. A aluna nova também não parecia nem um pouco concentrada na explicação. Desenhava em seu caderno distraidamente. O ruivo levantou dar uma olhada para ver o que ela fazia, numa bizarra tentativa de conhecer mais como ela é. Mas nada que ela desenhara fazia sentido, eram apenas curvas. Um dos rabiscos parecia um coelho... Ou era um urso? Ichigo comprimiu seus lábios em uma careta de reprovação. De repente a ponta do lápis quebrou pela força usada. Ela percebeu o olhar curioso sobre si e se sentiu desconfortável? Bem, isso foi o suficiente para fazer o ruivo voltar para sua posição normal de olhar para frente e fingir que estava assistindo a aula.
Agüentaram horas ouvindo a professora dar aula e algumas vezes, reclamar da vida. Finalmente soou o sinal para o intervalo. Muitos gritaram pelo fim da tortura; outros apenas pegaram seus obentô e foram lanchar alegremente. Ichigo iria fazer o mesmo, tirando a parte do “alegremente”. Antes de sair da sala com Keigo, Mizuiro, Chad e Ishida, olhou de canto a morena. Ela nem havia se mexido desde que o sinal soou. Parecia uma estátua. Uma linda e delicada estátua de porcelana. Talvez ela não tivesse ninguém para ir lanchar junto, mas jurava ter visto Orihime — uma garota de longos cabelos ruivos e muito alegre — a convidar. E também tinha a visto recusar. Quem sabe ela só queria ficar sozinha?
- Kurosaki, porque está demorando tanto? Vamos! – gritou Ishida do fim do corredor.
- Já to indo! – correu para alcançar o resto do grupo.
Como sempre, foram lanchar no terraço. Eles não costumavam trocar muitas palavras, mas Keigo nunca ficava quieto. Sempre tinha alguma piada sem graça para soltar quando o silêncio predominava.
- Vocês viram como a aluna nova é linda? Acho que vou chamá-la pra sair!~ – disse Keigo, dando uma enorme mordida no seu sanduíche. Nesse momento, o ruivo sentiu uma sensação estranha, mas ignorou.
- Não acho que você teria chances. – disse Ishida, furando sua caixinha de suco.
- Você não sabe de nada! Porque ela não aceitaria?! – continuou comendo seu sanduíche, ainda cheio de esperanças.
- Quer que eu diga a verdade?
- SIM! DIGA NA MINHA CARA!
- Você não agüentaria a verdade. – disse calmamente Ichigo, se metendo no meio da conversa. Keigo teve mais ataques pela resposta, mas logo voltou ao normal. Ao ouvir o sinal soar pelo fim do intervalo, levantou-se e foram para sala.
Para sua surpresa, a morena estava ainda sentada, na mesma posição. Ou ela teria saído e não percebeu. Preferiu pensar que o que ela fazia não era da sua conta. Sentou-se em sua carteira, olhando de canto a pequena garota ao seu lado. Ela se encolheu mais ainda no canto da cadeira. A próxima aula passou ligeira, o professor passou exercícios no quadro e sentou com as pernas em cima da mesa, sem se preocupar se estavam trabalhando ou não. Ele e a morena eram os únicos que realmente estavam tentando resolver os exercícios. Ela era responsável. Começou a fazer mentalmente uma lista de características que descobria dela.
O barulho estridente do sinal anunciava o término do dia escolar. Rukia levantou-se desajeitada, deixando seu caderno cair. Em reflexo, ela e o ruivo se abaixaram para pegá-lo, de modo que suas mãos se tocaram por um milésimo de segundo, pois ela a tirou rapidamente. Apesar de o toque ter durado tão pouco, ele sentiu o choque da mão fria dela em sua, que estava quente.
- Desculpe. – disse ela, pegando com cuidado o caderno e indo embora com seu andar elegante, apesar de apressado.
“Que garota... estranha” – pensou, dando uma última olhada na garota antes dela desaparecer pelo corredor.
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Após uma longa caminhada respirando o ar fresco, Rukia chegou em sua casa. Casa não, uma mansão. Ela era enorme, com as paredes pintadas de bege. Do lado de fora, havia muitas flores e árvores, e uma calçada de mármore que seguia até a entrada. Dentro era tão espaçoso que podia fazer qualquer um pensar que conseguiria se perder ali. Mas ela já estava acostumada. Descendo a escada, estava seu “irmão”, Byakuya.
- Onde está indo, nii-sama? – perguntou a pequena, tirando os sapatos. Fitou os olhos do irmão. Só pelos olhos dele, já sabia o que ele pretendia fazer – Ah...
- Foi uma pergunta meio óbvia de se fazer, mas você entendeu rápido. – disse rígido com sua suave voz – Você parece meio inquieta... Está tudo bem? Você não quer ir junto?
- Está tudo bem... Não precisa se incomodar. — apesar de eles parecem distantes, podiam entender um ao outro muito bem.
- Tem certeza?
- Sim. Além do mais, tenho muito dever para fazer. – mentiu.
- Se você acha... Até logo. – saiu, com o andar tão elegante quanto o da morena.
Foi direto para seu quarto. O dever não ocupou muito de seu tempo, era fácil demais. Abriu a gaveta de sua cabaceira e pegou seu mp3. Escolheu um dos milhares de livros que se encontravam na prateleira, frutos de anos colecionando cada tipo de assunto literário. Botou os fones em seu ouvido no máximo volume e deixou que a melodia a distraísse para passar o tempo, enquanto lia sem nenhuma concentração o livro. Fingiu dormir em seu sofá deixando a brisa gelada que entrava pela janela a tocar.
- Eu deveria ter ido com o nii-sama... – Sempre queria se mostrar forte na frente do seu irmão, queria algum motivo para ele se orgulhar dela. No fim, sempre acabava fazendo alguma besteira... Suspirou encarando o teto — Mas eu posso deixar isso para amanhã.
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- Cheguei! – exclamou o ruivo quando abriu a porta de casa e deixou seus sapatos na frente da mesma.
- Bem vindo, onii-chan! – disse Yuzu, agarrando as pernas do irmão num abraço – O jantar está pronto!
- Ah, eu já estou indo, só vou largar minhas coisas lá em cima. – bagunçou gentilmente os cabelos da irmã, fazendo-a corar e sorrir.
O jantar preparado pela loirinha estava delicioso. Juntou os pratos vazios e os empilhou na pia. Era a vez de Karin lavar a louça, mas sabia que no fim Yuzu lavaria para ela. Arrastou-se para seu quarto; uma pilha de dever o esperava. Com muito esforço, conseguiu resolver os exercícios dados deixados como dever. Ainda tinha tempo de sobra, mas nada pra fazer. Atirou-se em sua cama e fechou olhos. A lembrança do toque de sua mão com a da nova aluna veio à sua mente. A mão dela era tão pequena e fria. Parecia tão delicada. Sentiu uma vontade de querer protegê-la. Ah, deveria parar de ser assim. Nunca conseguia proteger todos... E isso o aborrecia. Tinha um assunto para resolver com Rukia. Mostrar para ela que não era um punk nem um delinqüente. E descobrir cada detalhe de sua personalidade, pois seu silêncio despertava uma enorme curiosidade nele. Isso seria sua missão amanhã.
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