Desde Meus Oito Anos.
4 Minha primeira vez
Notas iniciais
Eu tinha 10 anos na época.
– Ahoy.
– Vamos andar de bike hoje?
– é... Você me carrega?
– claro. Que não. Eu te carrego sempre, está na hora de você andar sozinho!
– é que eu não gosto...
– espera ai... É o que eu estou pensando?
– não! Claro que não! Quer dizer, nem sei o que você esta pensando.
– HA-HA! Você não sabe andar de bicicleta sozinho!
– cala a boca idiota!
– isso chega a ser fofo — disse ele rindo — serio isso é fofinho demais!
– então você me carrega ou eu não vou poder ir.
– ou, eu te ensino a andar de bicicleta. Isso foi uma ótima ideia! Sábado, quatro. Tchau.
– tchau então né... Se eu cair eu te mato!
– okay
Passou quinta, sexta e finalmente chegou sábado.
Acordei lá pelas três da tarde, almocei e esperei ele chegar. 4 horas em ponto ele chegou. Incrível se tratando dele.
Nós nos abraçamos como sempre, e quando saí do abraço dei um soco no braço dele e disse:
– idiota.
– E.T.
– não se cansou desse apelido?
– nunca! — riu ele.
– você vai me ensinar em sua bike ou trouxe alguma que voa?
– se você quer que eu pare de te chamar assim, tem que parar de dar motivos para novas piadinhas!
– cala a boca — ri.
– anda, vamos ensinar você a andar de bicicleta.
No final Vitor teve que me carregar mesmo, mas até o bairro rico para treinar sossegado.
– você vai sentar aqui, mãos firmes no guidão e sem tremedeira. Subi na bicicleta, com medo de me estabacar no chão.
Nem um capacete tinha.
– não podia ter um capacete não? — perguntei
– ah para, o João Paulo já sabe andar!
– com rodinhas.
– 50% por cento do caminho, e você que nem 10% fez ainda. Vou dar um impulso para você e você começa a pedalar.
– e se eu cair?
– não se preocupe, eu vou estar aqui com você, ou melhor, segurando você.
Me ajeitei na seleta, fiz um sinal para ele dar o impulso e comecei a pedalar. Foi incrível! Senti uma sensação muito boa! A sensação de estar dando seus primeiros passos e a possibilidade de cair... deixou o momento único.
– isso, você está indo muito bem!- foi só ele dizer isso e eu caí. Caí de cara no asfalto, ralando a bochecha inteirinha. No começo Vitor ficou rindo, mas depois que viu eu chorando foi correndo até mim.
– você machucou muito?
–Não! Não quero mais andar nessa bosta!
– calma, é assim mesmo, na minha primeira vez eu perdi um dente, sorte que era de leite. Vem cá, vai ficar tudo bem. — ele me abraçou e afagou meus cabelos até eu parar de chorar.
– desculpa eu ter gritado com você... — disse envergonhado.
– tudo bem. — disse ele sorrindo para mim.
– não quer tentar de novo?
– não...
– e se fosse uma vassoura?
– oque? — disse sem intender nada do que ele estava falando.
– esse a bicicleta fosse uma vassoura? Você não tentaria mais uma vez? Não iria querer entrar para o time da Ravenclaw?
Fui até a bicicleta, coloquei-a no meio fio e subi encima dela. Sem ajuda nem nada. E antes que Vitor pudesse fazer alguma coisa, comecei a pedalar, dei uma cambaleada mas voltei ao normal, fui seguindo até o final da rua onde quase caí fazendo a curva, e voltei para perto de Vitor que estava com a cara de espanto.
– como...?
– o poder de Harry Potter. — ri
– isso foi incrível!
– nem tanto... — eu só aprendi a andar de bicicleta.
– foi sim. Você foi com a maior cara de determinação que já vi, e antes de eu ir te ajudar, você já começou a andar! Sozinho!
– você me ajudou. — fui até ele e dei um beijo em sua bochecha. Não estava costumado fazer isso mas ele me ajudou a andar de bicicleta.
Ele corou fortemente.
– vamos para casa então? — disse para cortar o clima tenso.
– okay então...
Fomos para casa e fui direto contar a noticia para minha mãe.
– Mãe adivinha??? Aprendi a andar de bicicleta sozinho!
– que ótimo filho! — disse ela me abraçando e me dando um beijo na minha bochecha boa. Ela nem perguntou sobre a outra bochecha ralada. Afinal, dava para deduzir.
– mas quem te ensinou?
– o Vitor! Ele foi ótimo!
– serio isso Vitor? — perguntou minha mãe.
– sim, com direito a beijo na bochecha também. — disse ele rindo meio envergonhado talvez.
Minha mãe riu.
– Augusto, por que você não vai tomar banho? Depois o Vitor vai. E eu já sabia, liguei para sua mãe e perguntei se você poderia dormir aqui e é claro ela deixou e trouxe sua mochila de ‘’ dormir na casa do Augusto’’.
– tia, você é a melhor!
Enquanto pegava as coisas para o meu banho, pude escutar a conversa de minha mãe e Vitor.
– você faz um bem e tanto ao Augusto. — disse ela.
– ele que me faz um bem e tanto tia... — Vitor fez uma vozinha fofa que me deu vontade de beija-lo novamente.
Voltei do banho e ele foi. Depois fomos para o computador, onde descobrimos uma nova rede social, ‘Facebook’,o que me chamou atenção, já que na tradução livre ficaria ‘cara de livro’. O que raios era aquilo? Mas a rede social parecia legal então ele fez um perfil para nós. Ficamos nessa nova rede social até a janta.
Jantamos. E fomos para o quarto. Sem tv, sem computador, apenas conversar.
– sabe, hoje , te vendo andando de bicicleta, me fez ver que você é muito especial pra mim. Você me ajudou no momento mais difícil da minha vida, então para ficar registrado: eu te amo E.T.! você é o melhor amigo que eu poderia ganhar! E não se acostume a ouvir isso todo dia! É que hoje eu lembrei do meu pai e vi que eu deveria ter dito isso mais vezes. Agora não da mais né?! — ele estava chorando pela primeira vez a morte do pai depois do morro.
Fui até ele e o abracei. Como naquele dia.
– eu também te amo idiota! As vezes não precisamos dizer eu te amo para demonstrarmos isso, seu pai sabia que você o amava- ele me abraçou mais forte. Como naquele dia.
– vamos para com esse chororô! Liga a tv! — disse ele.
Liguei a tv e ficamos vendo seriados. Mas mudamos de posição. Ele sentou na cama com as costas na parede e eu coloquei minha cabeça em seu colo e com ele mexendo nos meus cabelos.
Eu realmente tinha sorte.
Eu tinha o Vitor.
Fim do capítulo três.
Fale com o autor