Desculpa, sou de Áries

13 Capítulo Bônus: A culpa é do ascendente


Notas iniciais
Como prometido, aí está a surpresinha Um capitulozinho bônus pra quem quiser saber o que acontece com eles no futuro Aproveitem!

Sabe quando dizem que o tempo passa voando? Eu acredito plenamente nisso.

Os anos se passaram num piscar dos olhos e é preciso parar um pouco para perceber as mudanças que surgiram.

Edu, por exemplo, foi para a faculdade de relações internacionais, mas descobriu que sua verdadeira paixão era o turismo e acabou mudando de curso. Ele sempre está envolvido em algum projeto e nunca deixou seu bom humor de lado, mesmo nos momentos mais sérios, como na apresentação de seu Trabalho de Conclusão de Curso. Também não posso deixar de mencionar que ele se casou com uma das colegas de sua turma, que agora está esperando duas meninas gêmeas. Ele ainda diz que quer mais um filho e eu mal posso esperar.

Isa foi para a faculdade logo de primeira. Formou-se e agora está fazendo o mestrado. Embora nos falemos pouco, reservamos um tempo para nos atualizar sobre as novidades. A mais recente é que ela tem planos para um futuro intercâmbio e se esforça muito para ficar fluente em alguma nova língua que aprendeu. Não duvido que ela esteja lendo o dicionário do idioma.

Beto sempre teve seu jeito mais quieto e tímido, porém, acabou descobrindo que tem uma enorme aptidão por ensinar e acabou virando professor de música e artes. De vez em quando, faço uma visita na escola em que trabalha. Erik já fez aulas de violão com ele e se saiu muito bem.

Certo dia, resolvemos fazer um churrasco para reunir o pessoal das antigas. Fiz questão de levar Bina (agora a oficial gerente daquele mesmo restaurante de antes, do qual eu fazia questão de ficar o mais longe possível) e meu filho. Cara... Nunca me acostumo com a palavra “filho”. Mas voltando ao assunto: Eu sempre achei que pré-adolescentes eram a pior raça desse planeta, por causa da minha irmã, mas a verdade é que existe uma bem pior: Os adolescentes.

—Erik, sai desse celular. –Gritei. -Você vem ou não para o churrasco?

—Perai, já to indo. –Resmungou. –Aposto que só vai ter aquelas músicas de velho.

—Ok. –Disse Sabrina, irritada, arrumando o cabelo que havia recebido um recente toque de tinta vermelha e estava mais brilhante do que nunca. –Então fique em casa com os olhos grudados naquele computador ridículo, como sempre.

—Eu disse “já estou indo”. Me deixa!

—Erik Norris Wayne da Silva. –Repreendi. –Olha como fala com a sua mãe, moleque!

—Tanto faz... Já tô indo pro carro, não demorem. –Falou saindo de casa e colocando fones de ouvido. Pude jurar que o ouvi sussurrar “queria estar morto”.

Aquele garoto dava trabalho, isso era inquestionável. Mas nada poderia pagar todos os bons momentos que passávamos juntos, principalmente quando ele resolvia deixar a “aborrescência” de lado. Aos poucos, eu e Bina aprendíamos a lidar com essa fase, mas é claro que, em certas ocasiões, era impossível; Como por exemplo quando insistimos em fazer um almoço em família onde todos iríamos cozinhar e ele queria uma receita inovadora da internet, enquanto nós nos contentávamos com a boa e velha lasanha. No final, iniciamos a Primeira Guerra de Queijo e Carne Moída da história e ficamos limpando a cozinha por horas.

Por sorte, eu e Sabrina alugávamos uma casinha para morar apenas com Erik (e Júlio Verne), de modo que não ouvimos xingos de nossos pais.

Fiquei relembrando nossas histórias engraçadas até chegarmos ao local do churrasco, onde não fui capaz de impedir que um enorme sorriso surgisse em meu rosto: Eles estavam lá!

Erik foi procurar pelo Wifi e Guilherme, que acabara de sair da piscina, me recebeu com um caloroso abraço apertado que deixou minha camisa inundada. Seu sorriso combinava com a nova barba. Os cabelos também estavam bem maiores e amarrados.

—Quando tempo! –Exclamou.

—Nem se fala. Já parou de ir a festas ou continua o mesmo?

—Eu? –Riu. –Nem pensar. Trabalho como Barman para bancar a faculdade. E, cá entre nós, lá também tem umas festas ótimas. Sempre vou quando não estou trabalhando ou estudando.

Fiquei me perguntando onde Gui arrumava tanto tempo. Ele estudava medicina veterinária (sempre sentiu uma necessidade de ajudar bichinhos, o que o deixava ainda mais irritantemente fofo, embora eu não goste de admitir), trabalhava como barman, frequentava a academia e ainda marcava presença em todas as festas. Eu mal sentava no sofá após o serviço e já estava na hora de dormir.

—E como está a vida de casado? –Perguntou. -Nem acredito que já se passaram tantos anos desde o casamento. Foi hilário.

Nesse instante, lembrei-me do mágico dia em que eu disse “claro que sim, caralho” para Sabrina no altar e quase levei um xingamento do padre, mas não liguei. Eu estava feliz demais para isso.

A cerimônia foi bem simples, com poucos convidados e bolo pequeno no quintal da casa dos pais de Sabrina, porém, ela fazia questão de que fossemos a igreja antes por toda aquela tradição e blá bla blá. Dentre todas as discussões de parentes bêbados, pessoas caindo de cara no bolo e outras situações que ocorreram no dia, nada se comparava a Erik.

O garotinho, que na época tinha quatro anos de idade, foi o responsável por levar as alianças. Contudo, enquanto caminhava para o altar e todos assistiam e falavam coisas do tipo “Ele não é a coisa mais fofa desse mundo?”, Erik, que já não gostava muito da ideia de desfilar, simplesmente decidiu que não queria fazer aquilo e jogou os anéis pra longe. Depois disso, saiu correndo, nos deixando sem reação.

Tudo bem que no final tudo deu certo e Fernanda nos entregou as alianças, mas não posso negar que foi um tanto constrangedor. Depois, voltamos a ser a boa e velha família feliz e unida que resolve todos os problemas na base de conversas construtivas e amorosas: Erik ficou de castigo por dois meses e meio, com pena de pagar mais alguns juros.

Despertei-me de meus pensamentos e voltei para a realidade. Puxei Sabrina para mais perto e finalmente respondi a pergunta de Gui:

—Melhor impossível.

—Concordo plenamente. –Disse Bina, sorrindo. Ela me encarou com olhos felizes e me deu um selinho.

Logo, ouvi uma voz se aproximando:

—Bonito... Que bonito, hein? Será que estou atrapalhando o casalzinho?

Dani finalmente estava sem sua touca. Ao invés disso, ela usava um biquíni verde florido que lhe caía muito bem, os cabelos loiros estavam compridíssimos e o sorriso sem aparelho. Ela nos deu um beijo no rosto com a bochecha e, como já era o esperado, desandou a falar.

Em cinco minutos, soubemos que Leandro estava seguindo a carreira de modelo (onde havia se dado muito bem, por sinal), Luíza estava ocupada com protestos que eram bem comuns em sua faculdade de ciências sociais e Aline, quando tirava uma folga do trabalho de engenheira, reservava um tempo para roteirizar teatros que faziam sucesso na cidade para onde havia se mudado. Ela também falou sobre algumas colegas de Sabrina que estavam grávidas, de uma que se casou duas vezes e nos explicou basicamente tudo sobre o curso de jornalismo que iniciara há pouco tempo, depois de trabalhar e fazer um cursinho. Além disso, ela fez várias perguntas sobre a nossa vida atual, os planos para o futuro e avisou que a porquinha da avó do primo da amiga de sua madrasta, que morava no interior, havia acabado de ter filhotes.

—Bem, — Finalmente consegui falar, ignorando o fato de não ter entendido quem morava no interior, quem era a porca e quem acabara de ter filhotes. –Estamos juntando uma grana para comprar nossa própria casa e fugir do aluguel.

Imediatamente, ela indicou três casas à venda na região, um apartamento e mais duas que ainda estavam sendo construídas.

—Uma delas é perto do seu trabalho. –Dirigiu-se a mim.

Eu não sabia ao certo como ela descobriu onde eu trabalhava, mas isso não vem ao caso. O que importa é que depois de algum tempo lutando para não pedir demissão da sorveteria, eu finalmente tive uma boa oportunidade para trabalhar diretamente na fábrica onde o sorvete era fabricado, e não em uma franquia. O salário era melhor e me adaptei facilmente ao local, sempre dando o melhor de mim. A casa que ela estava falando poderia ser o que eu, Sabrina e Erik estávamos procurando.

—Que calor, não? –Continuou, nos oferecendo bebidas que eu não sabia de onde haviam surgido. –Vocês não vão entrar na piscina? A água está ótima.

Depois desses poucos minutos que passaram em um instante, vi que Guilherme nem estava mais lá. Bina e eu decidimos dar uma olhada na piscina, onde encontramos mais uma figura conhecida.

Em uma enorme boia que parecia uma cadeira, Jaqueline Fiorela apreciava a paisagem com seus óculos escuros enquanto tomava um drink — mais tarde, descobri que não continha álcool . Seus cabelos estavam presos em um coque e escondidos por um enorme chapéu de praia preto, deixando apenas uma mecha cair sobre seu rosto. Usava um maiô vintage e batom escuro. Quando nos viu, abriu um sorrisinho discreto.

—Vocês pensaram que eu estava na pior? –Brincou, erguendo o drink para cumprimentar.

Repeti o gesto, sem ressentimentos.

Se tinha uma coisa que Jaque não estava, essa coisa era na pior. Determinada e com muito apoio de amigos e familiares, ela passou por cima –ou melhor, sambou em cima usando salto quinze- dos problemas com álcool e arranjou um emprego. Depois de se especializar com um curso técnico, virou auxiliar na recepção de um hotel onde acabou conhecendo um cara que demonstrou interesse pela pirigótica. Algum tempo depois, descobrimos que Jaque estava casada com um jovem empreendedor americano que, por sinal, era rico.

De repente, uma mulher de cabelos castanhos e óculos vermelhos parou diante de nós.

—Olha se não é o casal mais lindinho da nossa geração! Não é? –Perguntou com uma voz fofinha, enquanto abraçava Sabrina. –É, é sim!

—É bom te ver também, Julia. –Bina estava quase sendo esmagada viva.

—Você sentiram minha falta? Hein?–Agora era minha vez de receber o abraço assassino. –Não sentiram? –Olhou para nós, desapontada. –Eu já esperava por isso, mesmo...

—É claro que sentimos! –Apressou-se a mulher de cabelo vermelho que era minha esposa, para contornar a situação. — No começo foi muito estranho não ouvir sobre suas obsessões loucas. Ficamos com saudades. –Dessa vez, ela estava mesmo sendo sincera.

—Ownt, vocês dois são uns fofos! Só não são mais fofos que o meu biquíni novo! Vejam, fiquei umas boas horas na academia para comprar um modelo como esse, o que não foi nada fácil. Sofri muito com isso. Vários e vários dias lutando contra aquelas barras de ferro e esteiras... Quanto sofrimento. –Lamentou-se. –Mas, se isso serve de consolo, ele combina com os óculos. Embora eu precise tirá-los para nadar... Que vida cruel.

—Mas ficou um arraso!

—Está querendo seduzir alguém? –Brinquei.

—Na verdade... –Ela abaixou a cabeça, envergonhada e olhou discretamente para o lado, onde uma moça loira de biquíni verde florido falava no celular e comia carne assada.

Observei por alguns instantes até que, um bom tempo depois, a ficha caiu.

—Espere, você... Você não...? Ela... O que?...

—Passado é passado, amorzinho. Agora, se me dão licença, eu tenho uma piscina esperando por mim.

Eu e Sabrina nos entreolhamos, perguntando se havíamos entendido a mesma coisa. Depois, torci para que o casal desse certo e mais um casamento surgisse no pedaço.

♈♈♈

Mais tarde, Sabrina, Erik Norris Wayne e eu voltamos para casa. No caminho, aproveitamos para dar um oi para a minha família, que parecia estar muito bem.

Fernanda ainda morava com nossos pais, mas tinha um serviço em um local perto dali. Ela se esforçava bastante para que seu objetivo master fosse alcançado: Trabalhar em casa, no computador, para não precisar sair de casa e ainda realizar várias visitas à geladeira durante o dia. E eu tinha certeza de que ela conseguiria.

Cumprimentei todos, menos o papagaio que continuava falando coisas toscas e irritantes. Algumas coisas nunca mudam.

♈♈♈

De noite, Sabrina teimou que queria preparar um bolo e eu disse que ela deveria fazer isso outro dia, pois precisávamos dormir para encarar a manhã de segunda-feira. Porém, como de costume, ela não me deu ouvidos e ainda pediu para que eu a ajudasse.

Erik sentou-se na mesa da cozinha para terminar o dever de casa. Ele abriu seu caderno, o livro de história e pegou um lápis e uma borracha. Depois, colocou o fone de ouvido que estava conectado ao celular e começou a lição.

Enquanto isso, eu já estava sem paciência com Sabrina, que queria modificar e substituir todos os ingredientes e medidas da receita. Eu defendia que as instruções deveriam ser seguidas a risca, mas ela parecia querer o bolo do seu próprio jeito, o que, entre nós, eu não achava uma boa ideia.

Quando percebi, já estávamos travando uma batalha com farinha, leite e chocolate. Júlio Verne começou a latir e pular; ele também queria participar da festa.

Depois de bagunçar a cozinha novamente, Bina e eu caímos na gargalhada. Ela começou a bater a massa (ou o que havia sobrado dela) enquanto eu limpava a farinha de seu nariz.

Mas então, Erik disse algo ainda com os olhos vidrados no livro.

—Ahn... Pai... –Retirou os fones. –Você está no meu livro de história.

Bina e eu fomos correndo para a mesa, sujando tudo o que encostávamos. Peguei o livro e meus olhos se arregalaram. Não estava acreditando que aquilo era real. Sabrina derrubou a vasilha com a massa do bolo e a colher, boquiaberta.

Bem no meio da página, havia uma enorme figura que ilustrava uma marcante e significativa manifestação de alguns anos atrás. Nela, eu aparecia como um líder destemido e ameaçador, com a boca aberta pelo grito que estava emitindo na hora, enquanto segurava a bandeira do Brasil e usava uma camisa com as cores da bandeira LGBT, pichada com o enorme símbolo do anarquismo e com o rosto aparentemente sangrando.

Eu tentei ficar calmo. Eu juro que tentei.

FIM

Notas finais
Pois é, pessoinhas... Agora sim acabou :c Obrigada mesmo por acompanharem! Fiquei muito feliz com os comentários e elogios que recebi. Essa história teve um retorno bem legal, de verdade (apesar dos fantasminhas//// recebam essa indireta bem direta) E o mais legal é saber que se divertiram tanto quanto eu quando escrevi, afinal, essa é a intenção da fic Enfim, até mais e nois se vê por aí o/
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!