Desculpa, sou de Áries
5 Hora do Show
Notas iniciais
O teatro escrito por Aline parecia bem cômico.
Estudando minhas falas, notei que eu seria um vilão engraçado e atrapalhado que tentava tomar um reino e tornar-se o dono de tudo. Meus rivais eram o Rei e a Rainha, que iriam ser interpretados por, respectivamente, Leo e Jaque. Típico. Os dois sempre recebiam os papéis de maior destaque em qualquer apresentação que surgisse, mesmo se fosse para explicar sobre a flexibilidade das asas das moscas que rodeavam pedaços de maçã podre no lixo do pátio.
Li e reli meu texto diversas vezes, até que tudo estivesse decorado. Enquanto ensaiava para a parede, me senti digno de receber o Oscar. Se algum caça-talentos assistisse minha performance, eu provavelmente seria contratado para a próxima novela das sete ou, no mínimo, como apresentador de algum programa famoso (embora eu os ache ridículos).
Do meu quarto, pude ouvir Edgar Allan Poe, o papagaio, cantarolando na varanda. Ele tentava emitir o som de letras, o que era engraçado de se ouvir, até que começou a passar dos limites e o animal não parava de repetir a mesma palavra, diversas vezes seguidas. E essa não era a primeira vez.
Achei que ele havia se esquecido de como pronunciá-la, mas, aparentemente esses bichos tem uma ótima memória. Ou pelo menos ele tem.
—Poe, o que diabos você está falando? –Caminhei até sua gaiola, começando a me irritar.
—Nevermore. –Disse ele, com sua voz de ave. Eu não gostava do jeito que ele estava me encarando.
Não dava pra acreditar. Até o pássaro sabe falar inglês e eu não.
—Eu não consigo me concentrar com você tagarelando desse jeito.
—Nevermore.
—Fica quieto! Vou jogar todo o seu alpiste no lixo.
—Nevermore.
—Quem te ensinou isso, miserável?
—Nevermore.
—Tá vendo aquela panela ali no fogão? Eu juro que se você não parar...
—Nevermore. –Me interrompeu.
Era guerra, não havia escapatória.
Agarrei a gaiola e comecei a sacudi-la violentamente, enquanto Edgar gritava mais de raiva do que de medo.
—Mãe! –Fernanda gritou de sua cama, entretanto, não tirava os olhos do celular. –O Lipe tá brigando com papagaio de novo.
—Não acredito, Felipe! –Respondeu ela, enquanto ouvia suas músicas no rádio. –Já é a septingentésima sétima vez. Estou ocupada agora.
—Não exagere! –Disse eu, lutando contra o monstro de penas que tentava arrancar meu olho com seu bico afiado. –Uma ajudinha seria boa, sabiam?
Antes que alguém viesse para me socorrer, a criatura, em uma tentativa de me bicar, acabou abrindo a gaiola. Cara, aquele foi um dos momentos mais assustadores da minha vida, perdendo apenas para a vez em que quebrei o CD de K-pop da minha irmã enquanto corria atrás de Júlio Verne para lhe dar um banho.
Edgar Allan Poe voou para cima da minha cabeça, arranhando meu rosto enquanto eu tentava desesperadamente apanhá-lo, até que ele finalmente foi para a cozinha e pousou na pia.
—Pobrezinho! –Nanda criou coragem para vir até nós e surpreendeu-se pelo que aconteceu. –Mas não fique assim, nós devemos ter paciência com animais igual a ele.
—Ele me atacou!
—Eu não estava falando com você. –Passou por mim e acariciou Edgar, dividindo uma fruta com o mesmo. Ele parecia satisfeito.
Tentei ignorá-los e peguei o papel com minhas falas, que havia ficado no chão do meu quarto, colocando-o no bolso.
—Espero que o papagaio também ajude no seu dever de casa. –Ironizei. –Vou sair agora.
—Em inglês, pode ter certeza que ele irá ajudar mais do que você.
Eu ainda odeio admitir que ela talvez estivesse certa.
—Sair? Nem pense nisso, mocinho. –Minha mãe analisou a situação. –Olhe para o seu rosto! Todo ensanguentado e cheio de cortes. Venha cá, eu vou fazer um curativo. Não quero ver você fora de casa desse jeito.
—Mas eu preciso. Hoje é o dia combinado para ensaiarmos o teatro.
—Você quer mesmo contrariar a sua mãe?
Não respondi. Apesar da atitude chata de Dona Amélia, no fundo eu sabia que ela estava apenas preocupada comigo. E talvez com um pouco de vergonha alheia pelo fato de que meu rosto estava todo ferrado.
No fim, decidi continuar ensaiando em meu quarto, enquanto mamãe dava um banho em Edgar Allan Poe, para acalmá-lo. Sinceramente, aquele bicho estava se tornando mais folgado do que a minha irmã! Mas voltando ao primeiro assunto: eu sabia que se me esforçasse ao máximo, tudo iria se encaixar perfeitamente no dia do grande Oscar espetáculo. Afinal, o que poderia dar errado?
♈♈♈
Fui xingado por ter faltado ao ensaio supremo? Talvez. Na verdade, Aline me desejou do fundo de seu coração de gelo uma morte lenta e dolorosa. Por sorte (ou não) meu rosto ainda estava marcado com as garras afiadas de Poe, que me deixou ferido o bastante para provar que eu tive motivos reais para faltar, e não apenas pouca vontade e/ou vergonha na cara, como geralmente ocorria. Pelo menos as marcas coincidiram com o meu personagem maligno.
—Foi mal por ter faltado. –Falei ajustando minha capa com a roupa obscura de vilão. Achei no fundo do guarda roupa do meu pai, onde pode-se encontrar praticamente tudo.
—Sem problemas, você não perdeu nada. –Disse Beto, arrumando sua fantasia. – Na real, eu também queria ter faltado. Foi bem entediante e Jaque e Leo ficaram se exibindo, como sempre.
—Nós nem ligamos. –Completou Edu.
Os dois se preparavam para interpretar os cavaleiros protetores do rei e da rainha. Traidores.
—Estão prontos, meninos? –Aline estava bem arrumada. Parecia uma verdadeira diretora do cinema. –Já está na hora.
—Sempre estou pronto para você, anjo. –Edu era impossível. Ele não perdia uma oportunidade sequer.
—Espero que também esteja pronto para morrer, se não estiver atrás do palco em cinco minutos. –Sorriu cinicamente antes de sair. –Boa sorte pessoal!
—Viu? Só passei uma cantada e ela já pediu para que nos encontrássemos atrás do palco. E olha que já está de noite...
Beto revirou os olhos, ajeitando seu capacete de papelão.
—Ande logo, seu idiota. –Falei empurrando o piadista de cabelos cacheados. – Você entra em cena daqui a pouco.
—Te vejo lá.
♈♈♈
Confesso que senti um leve frio na barriga enquanto esperava pela minha vez de entrar em cena. Vários de meus colegas já haviam apresentado suas falas e eu seria o próximo.
—Sua vez. –Aline me empurrou.
Uma luz forte e muito brilhante quase me cegou enquanto eu me dirigia até o centro do palco. A plateia estava lotada de alunos, professores, pais e pessoas de fora. Ou todos realmente apreciavam um bom teatro ou estavam apenas sem nada melhor para fazer. Nem preciso defender qual das opções eu acredito que seja a certa, não é mesmo?
Leo e Jaqueline Fiorela, a cobra banguela, entraram em cena. Estavam muito bem vestidos com roupas elegantes improvisadas, ambos com longas capas vermelhas. Leo carregava um cetro e Jaque usava uma coroa de papel. Edu e Beto também estavam lá, atuando como guardas reais.
—Ora se não é o nosso tão temido inimigo. –O rei parecia ter nascido para aquele papel. Acredito que estava sendo bem natural para ele agir como se todos fossem os seus súditos. –Nunca ficarás com a coroa!
—Desista e aceite seu destino! –Com essa fala, acredito que Jaque também estava levando seu papel um pouco a sério demais. Foi pessoal, tenho certeza disso. – Não és nada mais do que um homem fútil com desejos inalcançáveis.
Esforcei-me para gargalhar o mais maleficamente possível. Mais tarde, acabei descobrindo que minha atuação foi horrível, mas isso não importa agora. Voltemos para a peça:
—Não sejas tola, majestade. Todos sabemos que eu irei me tornar o mais novo soberano dessas terras. Sei que pareço um fraco, pobre e feio camponês e que sou tão inútil quanto o bobo da corte, mas este reino ainda será meu! Também admito que meu cheiro é tão ruim ou até pior que o do banheiro em dias de festa, mas isso não me impede de conquistar a coroa para finalmente coloca-la nesse meu cabelo seboso e nojento.
Somente desconfiei do que estava acontecendo quando vi que a cobra fantasiada de rainha tentava esconder um sorriso maldoso. Estava se divertindo demais...
Enquanto atuava, olhei disfarçadamente para o lado, onde Aline acompanhava a apresentação com uma cópia do roteiro. Nesse instante, percebi que tudo estava indo por água abaixo.
A garota responsável pelo teatro tentava falar algo como “Não! Pare com isso, está tudo errado!” e estava à beira de um colapso. Conhecendo-a bem, dava para ter certeza de que ela apenas estava com medo de que o público pedisse seu dinheiro de volta. Só então a voz de Jaqueline surgiu em minha cabeça, lembrando-me do que ela havia dito: “Quando você menos esperar...”. Parei de interpretar no mesmo instante.
Aquela filha de uma alpaca raquítica e gorda havia trocado as falas, apenas para se divertir com minha auto humilhação e assim, se vingar de uma vez por todas.
—Como podes ter tanta certeza de seus atos, Sr. Mal Cheiroso? –Disse ela, notando que eu já havia descoberto seu audacioso plano. –Esta coroa nos vale tanto. Porque achas que ficaria melhor em tuas mãos?
—Por que se vossa majestade olhasse para algo mais além de seu nariz arrebitado, talvez pudesse enxergar que o mundo não gira em torno de si mesma. Por que se vossa majestade acordasse para a vida ao invés de ficar o dia todo em seu palácio real, com seus dramas reais e coçando o traseiro real, talvez se desse conta de que precisa de uma cirurgia real para implantar um cérebro real nessa cabeça oca real e parar de vez com essa escrotisse real.
Embora Jaque estivesse com uma cara de choro, Leo não saiu de seu personagem, mantendo o semblante sério e autoritário. Provavelmente queria que todos o elogiassem e notassem o quão bom ator ele era. Entretanto, ao perceber que a cena estava saindo do controle, improvisou:
—Lordes cavaleiros, levem-no daqui imediatamente!
Beto e Edu se entreolharam, sem saber o que estava acontecendo. Como não tinham melhor alternativa, apressaram-se na tentativa de me conter. Eu estava à beira dos nervos.
—Tirem as mãos de mim, seus covardes. Eu ainda não terminei!
Enquanto os dois me carregavam em meio aos meus gritos excessivos de raiva, a plateia gritava de animação. Antes, todos estavam quase dormindo durante a peça, mas quando eu e Jaque começamos a brigar, todos aplaudiram feito loucos. Não me dei conta disso na hora, mas Jaqueline Fiorela, a cadela magrela, acabou me deixando bem na fita. E sabe qual era o melhor disso? Seu estúpido plano de vingança foi pela culatra.
Mais tarde, Nanda veio me cumprimentar. Ela havia assistido a peça, assim como papai e mamãe.
—Parabéns, Lipe! –Me abraçou. Alguém poderia fazer a gentileza de tirar esse monstro de perto de mim? –No começo tenho que admitir que a sua atuação estava péssima! Muito ruim mesmo. Mas depois... Você merecia um prêmio!
—Eu deveria ganhar um prêmio por ser seu irmão. –Ironizei.
—Lipe! –Aline estava com meus outros amigos. –No começo achei que a peça seria um total fracasso, mas foi fantástica! Todos adoraram. Agora finalmente poderei cobrar mais caro nos próximos ingressos.
A única vez em que eu vi essa garota tão feliz quanto neste momento, foi quando ela achou cinco reais no pátio da escola. Esse provavelmente foi o dia mais feliz de sua vida inteira.
—Vocês foram ótimos, pessoal! –Elogiou Isa. Ela havia ajudado no figurino e decoração. –E realmente muito corajosos por aceitarem participar de um evento como esse justo no dia de hoje.
—Como assim? –Perguntei. Não costumava prestar atenção em detalhes como data.
—Ora, amanhã é um dos dias mais esperados do ano! Eu ficaria muito cansada para fazer o Enem se apresentasse um teatro como esse bem na véspera da prova.
Foi então que lembrei exatamente em que dia estávamos. Não havia erro, o Enem era daqui algumas horas. Merda.
—Falou e disse, Isa! –Concordou Edu. –Acho que deveríamos sair para beber.
—Eu acho uma ótima ideia. –Gui apareceu ao lado de Edu com seu sorriso simpático. Era incrível a capacidade daquele garoto de surgir magicamente assim que alguém falava em bebida, festa e afins.
—Certeza? –Indaguei. Não que eu estivesse realmente preocupado, mas não deixaria que colocassem a culpa em mim caso algo ruim acontecesse, como era de costume. –Pode ser perigoso se passarmos dos limites.
—Não vamos demorar muito. –Insistiu Gui.
—Estão esperando o que? –Edu, como sempre, estava alegre. –Vamos beber!
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