Desculpa, sou de Áries
6 Atrasados do ENEM
Notas iniciais
Talvez Gui, Edu e eu tenhamos exagerado um pouquinho demais.
Edu era o bêbado alegre. Mexia com todo mundo e tentava contar algumas piadas que só faziam sentido na cabeça dele, mas nunca conseguia por rir demais. Um dos poucos detalhes que me recordo dessa noite é de quando Edu deu uma sarrada no ar na frente de todos, ao som de uma música famosa. Se bem que eu prefiro não me lembrar dessa cena.
Enquanto isso, Gui flertava algumas pessoas que curtiam a festa. Sua companhia da noite era Luiza, uma menina da nossa turma que resolveu vir conosco. Ela era uma pessoa estranha, porém, no bom sentido. Seus cabelos com franja eram pintados de azul e as roupas hipsters a tornavam única em qualquer lugar que a garota estivesse. Gostava de discutir assuntos polêmicos e bizarros, como por exemplo, a existência de extraterrestres. Ela adorava visitar lugares diferentes e havia acabado de voltar do Canadá.
—Estou indeciso... Será que pego mais uma dose ou não? Acho que sim. Aceita? –Ofereceu Gui. Sério, esse cara ainda vai ganhar imunidade aos efeitos do álcool.
—Não, eu estou bem.
—Ok, então eu não vou tomar também.
—Quer saber? Eu quero mais uma! –Outro ponto importante é que Luiza adorava contrariar tudo e todos.
—Tem certeza? Esse bar não parece tão bom.
—Eu gostei.
—É, talvez seja legal.
Eles formavam uma dupla muito interessante.
Quanto a mim, bem... Acabei me metendo em algumas brigas e apaguei em minha cama quando cheguei em casa. Amanhã seria um longo dia.
♈♈♈
Quando acordei, senti os terríveis efeitos da ressaca.
Quase morrendo, peguei meu celular e conferi o horário. 12h30. Ótimo, ainda estava cedo e...
—Espere. -Falei. — Tem algo errado nessa história...
E foi aí que me desesperei. Só então me dei conta de que eu tinha trinta minutos contados antes que os portões se fechassem. Merda.
Pulei imediatamente da cama, ainda com dores no corpo e corri para a cozinha. Peguei as primeiras coisas comestíveis que vi (um pão francês e uma caixinha de suco pela metade) e procurei pelo ultra tecnológico material exigido para a prova que decidiria todo o meu futuro com apenas algumas respostas em uma folha de papel: uma caneta preta de tubinho transparente.
—Fernanda! –É claro que no meio da confusão, também reservei um tempo para brigar com a minha irmã. –Porque você não me acordou?
—Eu tentei! –Disse ela, degustando um bolinho de chocolate. –Três vezes, por sinal. Mas você apagou.
Inacreditável. Não sabia quem eu gostaria de xingar naquele momento: Fernanda, Gui, Edu ou a mim mesmo.
Não havia mais tempo. Precisei sair correndo imediatamente de casa. Por sorte, a escola não ficava muito longe, diferente do ano passado.
♈♈♈
Lá estava ele. Eu encarava o portão da escola como se fosse o topo de uma montanha. E pelo meu cansaço, correr pelas ruas do bairro parecia tão cansativo quanto escalar o Monte Everest.
Tudo parecia bem, até que uma espécie de guarda começou a fechá-lo, abaixando-o até a metade. Por sorte, não fechou completamente, dando a entender que o tempo ainda não havia acabado. Respirei fundo, juntando bastante oxigênio e apertei o passo.
Ao meu lado, havia mais dois condenados participantes atrasados para a prova, que também corriam desesperadamente contra o tempo — e o guarda. Eu podia jurar que, em algum lugar, tocava bem baixinho a música de corrida do Ayrton Senna. Talvez fosse apenas na minha cabeça. Talvez.
Quando nos aproximamos do local, pessoas que estavam assistindo o Show dos Atrasados começaram a torcer por nós. Alguns deles, que estavam com bebidas e petiscos nas mãos e levaram sofás infláveis para maior conforto – cara, eu daria tudo por isso naquele momento — narravam a nossa situação. Não consegui prestar atenção pela pressa, mas posso jurar que também fizeram churrasco.
—E um deles caiu! –Gritou um dos narradores.
Quando olhei para trás, vi que um dos meus rivais realmente havia desistido. Agora apenas eu e mais um disputávamos o 1º Lugar. Fiquei determinado.
Todos os relógios marcavam exatamente 13h. Era oficial: Todos os portões deveriam ser fechados. Quando notei que o guarda já estava abaixando o portão definitivamente e que faltavam apenas mais alguns passos para que eu o alcançasse, deslizei e passei pelo pequeno espaço, em meio a uma salva de palmas e gritos. Já o outro não teve muita sorte e acabou ficando para trás. Quem sabe ano que vem?
Corri para a minha sala, onde uma multidão de garotos que também se chamavam Felipe olhavam para mim com ar estranho e desconfiado. Como se nada houvesse acontecido, caminhei até o meio da sala e me sentei.
Enquanto o instrutor explicava a regras deste pequeno jogo chamado Enem, imaginei como meus amigos estariam. Isa certamente já estava na escola às 11h59min para entrar na sala ao meio dia em ponto, levado uma barrinha de cereal, garrafa d’água e dúzias de caneta preta, que arrumaria perfeitamente em sua mesa. Edu com certeza passou a manhã inteira contando piadas do tipo “vou fazer Enem, e nem estudei”. E Beto deveria estar viajando no mundo da lua, ou em algum lugar mais longe ainda, pensando no curso que deseja entrar.
Por falar nisso, deixe-me esclarecer sobre nossos sonhos. Beto quer Artes plásticas, Edu Relações Internacionais ou Turismo, Isa Arquitetura e eu Educação Física. Entretanto, esse é apenas meu segundo plano, visto que o exército ainda é um grande sonho.
Quando me dei conta, a prova já estava na minha mesa. Poderia me entristecer facilmente com todas aquelas questões formuladas por demônios alados enviados do submundo, porém, depois de ter chegado no exato momento em que as portas dessa prisão escola iriam ser fechadas, nada mais poderia me desanimar.
♈♈♈
Eu preciso urgentemente parar com essa mania estúpida de tentar prever o futuro. Já deu pra perceber que nunca funciona, não é mesmo? Muito pelo contrário: Sempre acabo sofrendo as consequências dessas tentativas falhas de otimismo.
Estava tudo bem, na medida do possível, quando a pior merda que poderia ter acontecido resolveu terminar de ferrar com a minha pobre e inocente vida.
Alguns já haviam terminado a prova e deixaram o local. O resto, onde eu me incluía, estava (ou pelo menos tentava) se concentrar nas perguntas, quando de repente o silêncio da sala foi interrompido da maneira mais tosca possível. Uma voz masculina e estranha falava palavras em inglês. Eu não havia prestado atenção, até que meu cérebro parou por um segundo para assimilar que ele dizia “I'm too sexy for my love; Too sexy for my love; Love's going to leave me...”
Só fui perceber a gravidade de situação quando uma música começou a tocar e fui encarado pelo exército de Felipes que desejavam, no mínimo, me esfaquear lentamente. Respirei fundo e olhei para baixo, na sacolinha abaixo da mesa, onde meu celular descansava. O despertador que eu havia ativado há alguns dias tocava a música Too Sexy, avisando que estava na hora de ir para o ensaio do teatro. Péssimo dia para ter uma ressaca.
♈♈♈
Desclassificado. Essa era a palavra que ecoava em minha mente enquanto eu caminhava, zangado e distraído para a saída. Com toda essa frustração, quase atropelei uma garota de cabelo vermelho.
—Olha por onde anda, otário! –Gritou.
—Não enche!
Pude jurar que ela mostrou o dedo do meio, mas não estava prestando atenção para ter certeza.
Continuei assim até chegar em casa, onde recebi o apoio de mamãe e zombação de Nanda, quem eu gostaria de ter jogado na lixeira nesse momento. Meu pai disse que eu poderia tentar de novo ano que vem e que essa seria apenas mais uma história engraçada para contar aos meus netinhos no futuro. Bem, eu apenas desejava que esse futuro chegasse o mais rápido possível, pois estava a beira de ter um ataque de raiva.
Antes de dormir, vi que meu celular estava cheio de mensagens novamente. Todos pareciam bem animados e/ou indignados com a prova, mas nesse momento senti que meus comentários seriam inválidos.
Quando falei sobre o ocorrido, Isa quase me bateu, caso isso fosse possível virtualmente. Beto também não conseguia acreditar, mas me ajudou a tentar esquecer aquilo tudo. Edu, por outro lado, riu até perder o fôlego e não economizou nas piadas. Pensei que ele havia esgotado seu estoque de brincadeiras com o Enem, mas descobri que aquele sem noção ainda não estava nem perto.
Mesmo com o apoio deles (desconsiderando Edu, logicamente), senti que a próxima semana iria ser difícil.
E eu não estava nem um pouco à fim de ser simpático.
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