Descrição

1 Sobre algo desconhecido


Notas iniciais
Texto feito do punho no papel e dedos na caneta e uma pitada de sentimentos muito verdadeiros.

Respiro fundo inutilmente, um nervosismo toma conta do meu corpo e da minha mente, como se uma onda do mar faminta e gigante estivesse se aproximando rapidamente prestes a me engolir, tão próxima que não há por onde fugir sem que me alcance.

E ela vem, enquanto ouço forçadamente tuas palavras que arrombam meu peito. Acho que um tiro seria menos doloroso do que ouvir o que tu proferes, porque se for para comparar com a dor física, digo que é como um murro, onde em teu punho há ferros pontudos que somados à força aplicada, causam-me um corte no peito. E não suficientemente satisfeita, tuas declarações são como mãos pretas, cobertas por espinhos também ferrosos, perfurando profundamente o corte, puxando para lados opostos a pele, rasgando-a e expondo meu coração estupidamente sensível.

Tenho vontade de gritar, mas não posso, devo ouvir calada, não posso agir, não posso me mover, a única coisa que escorre de mim são minhas lágrimas. Malditas lágrimas! Como as odeio, fazem eu me sentir tão fraca.

Mesmo assim elas têm um significado diferente e desconhecido, pois o sentimento não é de tristeza, não sei dizer qual é, por isso estou tentando, minimamente que seja, descrever o que sinto agora.

Essas lágrimas, escorrem tão quentes dos meus olhos, sinto a dor de queimaduras pelo rosto e pescoço, minha visão ficou turva e dói, dói muito. Quero fechar meus olhos.

"-Olha para mim" -Você grita. Eu continuo sem poder fazer nada, minha cabeça lateja, como se estivessem martelando-a, sinto-me tonta, tento ser inexpressiva, é muito humilhante estar tão indefesa, meu cabelo pesa, assim como todo meu corpo, equilibrar-me se torna cada vez mais difícil.

"-Para, me deixa em paz!" -Abro minha boca, mas não sai som algum, mas já não é por respeito, meu corpo paralisou, correntes o prenderam por toda parte, mãos, braços, tronco, pernas, não consigo mover-me ou falar, pouco que seja.

Parece que a onda desesperadora que me devorou quer sair pelos meus olhos, empurrando-os com força, como consequência eles doem mais, doem demais. Estou sufocada, as correntes enlaçaram meu pescoço, apertando-o cada vez mais.

Minha respiração falha, não consigo puxar o ar, e quando consigo, pela boca a inspiração sai demasiada alta.

"-Para de fazer drama!" -Você grita enquanto eu tento respirar, tão torturante.

Começo a tremer, faço de tudo para que não percebas, não quero que me bata, não quero realmente chegar a sentir a dor física, porque sei que não amenizará essa dor "imaginária", por mais que eu acredite que esquecemos dor com outra dor, isso que sinto nenhuma agonia pode cobrir.

Não sinto mais minhas pernas nem meus braços, sinto que minha coluna pode quebrar a qualquer momento. "-Isso realmente é só o meu psicológico?".

Então chega a pior parte...

Meus ouvidos.... Eu não sei o que aconteceu, estou te escutando, mas não lhe entendo, vejo o negro, então as lembranças, os variados pesadelos surgem, como flashbacks, eles não são só ficção de filme, eu os vejo agora.

E nesse momento, tudo o que descrevi até agora, multiplica-se.

A vontade de tirar a própria vida aparece, eu não aguento mais, não quero aguentar. "-Alguém me ajuda!". -Eu me sinto patética, mas eu preciso de alguém agora, e esse alguém não existe.

"-Você está sozinha..." -Minha mente trabalha contra mim.

A tontura já não posso mais medir, nem sei se em algum momento pude.

Você acaba teu discurso infernal, e com as últimas forças vou até o banheiro. Por que esse lugar? Porque aqui é o lugar onde posso terminar de sofrer as consequências de tanta carga que foi jogada em cima de mim. Onde posso sentir a onda se acalmar, onde posso sentir um monstro interior dormir e sonhar com a próxima vez.

Observo meu reflexo pelo espelho. "-Você disse para eu aguentar, disse que conforme o tempo passasse os sintomas diminuiriam, e depois se tornariam apenas um pequeno incomodo, como uma injeção, mas então... PORQUE DIABOS EU AINDA SINTO O MESMO COM A MESMA INTENSIDADE?" -Eu não tenho resposta para isso, em meu olhar há um absoluto vazio.

Escorrego minhas costas pela parede até conseguir deitar, finalmente consigo fechar os olhos, as lembranças constantes lentamente se borram até sumirem, as dores também diminuem até desaparecerem, por um minuto cogito a ideia de aceitar, tornar-me o que tu queres, esquecer-me de mim e da minha essência, para ser a filha "perfeita" que tu tanto me cobras.

Então lembro o quanto lutei até chegar aqui, o quanto foi difícil descobrir-me sem apoio dos pais, foi difícil entender que não há nada de errado no meu corpo, ele é bonito, meu rosto também é sim bonito, minhas opiniões diferentes das que a sociedade aceita não estão erradas, e eu não sou rebelde por tê-las, eu não preciso aceitar padrões e não vou.

O banho me faz bem, a água me lava e retira os resquícios de dor que sobraram. Vou comer, mas os sabores de tudo se tornaram extremamente amargos, um cansaço enorme me atinge, deito-me na cama, fecho os olhos, mas ainda sinto uma dor, essa, a qual é a única que não cessa até que eu acorde no outro dia. Ela se localiza no meio do meu peito. Meu coração apodreceu mais um pouco hoje, minha esperança está cada vez mais enferma, e eu preciso dormir logo para que a dor passe.

Dizem que só passamos pelo que aguentamos, então me pergunto se esse é o meu limite. Sei que ainda vou passar por isso muitas vezes mais, e só de lembrar sinto medo, esse lado meu que pouquíssimos conhecem, mas que provavelmente não entendem, não os culpo, nem eu mesmo entendo direito.

Mas... eu só precisava descrever um pouco disso.

Notas finais
Espero que tenha gostado ♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!