Desconstruindo Mycroft
5 Fugitivos
Notas iniciais
O primeiro tempo daquela segunda não foi Biologia, como eu esperava, e sim instrução militar. Basicamente nós teríamos que ficar marchando pela escola. O pior é que estava sol. De todos os dias pra fazer sol, tinha que ser logo o dia de marchar.
Falei para o major que eu estava com uma dor de barriga horrível e comecei detalhar bem o meu estado, mas ele já estava cheio das minhas desculpas, disse que era pra eu voltar pro grupamento. Respirei fundo e fui.
Era uma atividade horrível, que desgastava muito todo mundo, sem falar no número de pessoas que passavam mal ou até desmaiavam. Já tentei falar sobre como isso tudo me deixava nervoso, e que ninguém deveria fazer nada que fosse ruim pra si mesmo, mas minha mãe sempre diz que eu estou só sendo melodramático.
Senti alguém me cutucar, atrapalhando meus devaneios.
“Mycroft, vamos sair daqui” disse Greg “quando eu me mudei pra Londres, achei que nunca mais ia ver o sol”
“Tem razão, tá quente demais pra qualquer coisa, mas o que você sugere?” então naquele momento, todo mundo começou a se amontoar em volta de alguma criança que tinha desmaiado. O major começou a gritar, pedindo espaço pra pessoa respirar. Uma confusão. Olhei para Gregory e ele olhou para mim. Sabíamos que aquele era o momento que estávamos pedindo aos Céus.
Começamos a correr, o mais rápido que conseguimos. Vi que a porta do vestiário estava aberta, então o agarrei pelo braço e entramos.
Meu primeiro reflexo ao entrar no vestiário foi me jogar num daqueles bancos compridos que ficam no meio. Eu nunca tinha corrido tanto na minha vida.
Greg abriu um pouco a porta pra ver se eles tinham dado pela nossa falta, mas tudo limpo, já tinham ido.
“Certo” ele falou, ainda bufando “nós temos quarenta minutos até o próximo tempo”
“O que você quer fazer?” eu disse
“Quero ir para um lugar onde tenha ar condicionado”
“Então, sala de música!”
Fomos andando com calma dessa vez. Quase demos de cara com o grupamento, mas nos escondemos atrás de uma pilastra até eles passarem.
Quando chegamos lá, aproveitei pra tirar o meu nome da aula e colocar o de Sherlock. O professor perguntou se nós não deveríamos estar marchando, mas eu rapidamente respondi que estávamos dispensados.
Depois, ficamos olhando os instrumentos. Greg pegou um violão que tinha lá e começou a dedilhar umas coisas aleatórias, que depois ele me informou ser uma música.
“Você gosta de The Smiths?” perguntou.
“O que é isso?”
“Uma banda. E Beatles, Oasis?”
“Nunca ouvi falar.”
“Cruzes, Mycroft, o que você escuta?”
“Beethoven, Bach...” respondi “música clássica.”
Ele ficou meio chocado, mas deu de ombros e voltou a dedilhar a tal música.
“O que foi?” perguntei.
“Nada, é que...” ele falou com cautela “você é estranho”
Eu arregalei os olhos. Pelo menos eu não apareço na casa das pessoas sem ser convidado. Era só o que me faltava.
“Mas eu não me importo com isso” ele continuou “você ainda pode ser meu amigo”
Ri alto, eu simplesmente não ouvi o que eu acabei de ouvir.
“Perdão?” ri mais um pouco “Mas você me vê como um amigo seu?”
“O que você quer dizer com isso?” falou, parando de tocar o instrumento “Olha, Mycroft, eu gosto de você, mas não desse jeito...”
“Não, não! Não foi isso que eu quis dizer”
“Eu sei, eu estava brincando” ele riu.
“Não, Gregory, você não entendeu. Você não é meu amigo, você é só alguém da escola, só” não sei o que me deu, mas comecei a falar tudo o que pensava “Nossa relação é estritamente profissional. Gente, você é extremamente irritante e quando eu peço silêncio, eu não quero que você comece a falar da sua vida entediante!” quando dei por mim, estava gritando. Tudo ficou quieto depois.
“Tá certo, Mycroft. Fica com a droga do seu silêncio, que eu vou pra sala. Já é hora da aula.”
Fui pra sala, tentando entender tudo o que tinha acabado de acontecer. Provavelmente vou levar uma bronca da psicóloga por isso, ou talvez mais por ter matado a instrução militar.
Tá, eu posso ter sido meio rude, avaliadora, mas eu aposto um pão de batata em como ele vai estar tagarelando na minha mesa no recreio ainda hoje.
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