Desconhecido
1 O Outro Lado
Notas iniciais
Boa leitura.
“Quando morri, desapeguei-me de todas as coisas que não importavam de verdade, porque agora eu sabia o que tinha real valor. Quando morri, eu tive olhos e ouvidos em qualquer lugar. Quando morri, pela primeira vez enxerguei de verdade.”
Queria poder dizer que minha morte foi rápida e indolor, afinal, é isso que a maioria das pessoas deseja, não é mesmo? Mas infelizmente, não podemos escolher como morremos, tampouco como vivemos, nossa vida é uma série de consequências, acontecimentos e imprevistos que acarreta sempre a algo novo, o qual não estamos preparados, o círculo sempre recomeça e chegamos ao ato final, a morte.
Claro que não posso deixar e sentir aquele orgulhinho vendo que há tantas pessoas por aí que se importam e se indignam com o que aconteceu comigo, a luta contra a violência é necessária em tempos como estes. É um alívio ver que ainda há pessoas boas no mundo, que prezam o amor e a igualdade, que lutam por uma vida melhor para aqueles como eu.
Morri no dia 4 de janeiro de 2017, às 00:34. As festas de ano novo continuavam na praia e meu namorado e eu caminhávamos calmamente para casa depois de um dia cansativo de festanças e bebedeiras sem fim.
Estávamos tão felizes.
Eram nossas primeiras férias juntos e as coisas não poderiam estar mais perfeitas, estava namorando há pouco mais de 6 meses com Lorenzo, eu, com 19 anos, era meu primeiro namorado.
Percebemos que a bebida das festas realmente havia surtido efeito quando estávamos tão distraídos andando lado-a-lado, rindo de qualquer coisa que o outro falava, que não nos demos conta dos cinco homens com expressões nada amigáveis que se aproximavam de nós.
Já estavam muito perto, não havia tempo para fugir. Dissemos que entregaríamos tudo, que só não nos fizessem mal, mas era exatamente o que queria fazer. Destruir. Machucar.
As palavras, tão odiosas e sem fundamento algum, com o único propósito de espalhar ódio machucaram tanto quanto os chutes e pontapés que levei em todo o corpo, os cuspes e pisadas que recebi na cara abrindo cortes em minha cabeça e esmagando meu crânio, o ar saindo de meus pulmões com os outros chutes na minha barriga e então desmaio de dor.
Assim que levantei do chão, deixando aquele recipiente todo quebrado e desfigurado, — o que você pode chamar de corpo, se preferir — a dor física passou, ao contrário daquelas cruéis palavras proferidas por meus assassinos.
Lorenzo estava tão frágil e danificado, o sangue lhe cobria todo o rosto mais ainda tinha um leve brilho e seu peito se movia fraca e vacilantemente quando os assassinos partiam, achando te completado seu serviço com ambos nós. Algumas pessoas chegaram e chamaram a ambulância, mas já era tarde demais para mim.
Eu chorava tentando segurar o corpo de Lorenzo, falando que tudo ficaria bem, mas ninguém podia me ver, sentir, ou escutar, apenas meu corpo sem vida ali do lado. Se não fosse tão trágico eu poderia rir, acabei de virar um clichê: Sou um fantasma.
Depois que morri, percebi duas coisas, eu simplesmente sabia o que tinha de fazer para seguir em frente e também sabia que não era obrigado.
Então eu esperei.
Esperei como um masoquista a notícia chegar aos meus pais como uma poderosa tsunami e destruir nossa família, quebrando-os em pedaços e obrigando-os a se reerguerem um pouco mais todos os dias, e não podia de me sentir culpado por toda aquela infelicidade causada na vida deles porque morri, foi um processo dolorido de cura para ambas as partes, mas eu sabia que eles iriam conseguir , sabia que em algum momento minha mãe estaria dando entrevistas tentando buscar justiça para o que aconteceu comigo, sempre tentando ver as coisas do lado mais positivo possível.
Mas eu esperei mesmo por Lorenzo, não agradava-me muito a ideia de ver minha família sofrendo, mas eu queria saber o que aconteceria com ele, se ficaria bem, por mais que eu não conhecesse há tanto tempo, já o amava como uma vida inteira, afinal, fora ele que me resgatou de um dos lugares mais escuros e assustadores que já estive psicologicamente, ele trouxe luz e esperança de volta à minha vida e por isso eu serei eternamente grato.
Antes de conhece-lo eu estava em depressão profunda, não queria comer muito, passava o dia inteiro na cama assistindo séries porque eu não conseguia levantar, simplesmente a ideia de enfrentar o dia e ter que encontrar outras pessoas me assustava tanto que chorava as vezes ao ter que começar um novo dia, que depois de terminado, eu sempre achava mais um desperdício, mais um tempo perdido da minha vida que não acontecia nada de interessante. Pensei em me matar, mas não tive coragem, mas parece que é verdade quando dizem que há uma luz no fim do túnel, para mim foi Lorenzo.
Quem deu a notícia de minha morte à ele foi sua irmã mais velha.
A negação foi a primeira coisa que lhe ocorreu, seguida da profunda tristeza e raiva, frustração... E cada lágrima que caía de seus olhos era como um tiro em minha alma. Sentiria tudo isso de novo para que ele não sofresse, não sentisse dor nenhuma.
Céus! Eu queria tanto tirar toda essa dor dele e simplesmente não podia tocá-lo. Tive esperança que pudesse dar algum sinal de que estava ali, mas era como se eu fosse invisível e atravessasse os objetos e pessoas, estava em outro plano. Era inútil, pensei então que minha presença faria alguma diferença, passei dias ao seu lado, tentando transmitir boas energias, mas estas não passavam para o plano astral de Enzo.
Então esperei novamente.
A única coisa que pude fazer foi observar e torcer para que ele fiasse bem e não cometesse nenhuma bobagem, era agonizante e torturante, principalmente que Lorenzo poderia fazer algo a si mesmo por minha causa.
Nós nos conhecemos na saída de uma festa, ambos estavam entediados e não aguentavam mais o lugar, então começamos a conversar e acabamos gostando um do outro desde o primeiro contato. Seu sorriso me ganhou de imediato, e diz ele que foi meus olhos negros, eu dizia “todos têm olhos dessa cor” e ele sempre respondia que no meus olhos e no meu rosto, a cor era especial e única para ele, como uma cor que não existia. Ele foi meu breve príncipe encantado.
Passou-se um ano e as coisas já estavam praticamente normais, todos já riam sinceramente mesmo depois de minha morte, meus pais voltaram a trabalhar, a escola já continuava como se nada tivesse acontecido ano passado e não tivessem colocado flores, velas, flores e feito cartazes sobre justiça para mim e jovens LGBTQ.
Mas eu não conseguia ir embora. Acho que simplesmente não estava pronto para deixar Lorenzo, minha mãe, mesmo depois de ambos terem aprendido dificilmente como me deixar ir, eventualmente chorando por sentir minha falta, ainda assim, todos foram obrigados a tocar suas próprias vidas, a vida sempre continua, não é? Afinal, qual o valor de uma única vida?
Menos para mim, bom, não tinha mais vida, mas não sei ao certo para onde iria, mas algo me fazia sentir que não era um lugar ruim, ainda assim, estava com medo, algumas coisas religiosas passavam por minha cabeça, dizendo que iria para o inferno, mas não acredito que isso aconteça.
Fiquei congelado no tempo observando tantas coisas mudarem, até que me dei conta de que eu também estava mudando.
Estava mais fraco e pálido e começava a sentir tonturas e parecer doente, minha visão ficava turva de tempos em tempos e sentia dor para fazer qualquer coisa.
Aquele não era meu lugar.
Ainda assim eu não conseguia deixar Lorenzo vivendo sua vida sem mim. Estava enlouquecendo.
Até o dia que o Erico apareceu.
Lorenzo havia terminado o ensino médio e agora cursava faculdade de arquitetura e urbanismo, — mal posso expressas o quanto me senti orgulhoso — lá, ele conheceu Eric, que não era nem um pouco parecido comigo, negro, alto, e os cabelos curtos, mas os olhos também eram castanho-escuros, como os meus, era um rapaz muito atraente, e pela primeira vez eu senti algo que não experimentava desde que estivera vivo.
Ciúmes.
Os dois se aproximaram cada vez mais e eu sentia tanta inveja de Erica, tanta raiva de mim mesmo por ter morrido e agora ter sido substituído, fiquei tão fraco que senti que morria de novo — se é que isso é possível, mas algo muito ruim aconteceria.
Por outro lado, não consegui odiar Eric, ele era muito legal e gentil com Lorenzo, eles tinham várias coisas parecidas que eu também tinha com ele, e isso me dava uma sensação estranha, mas ficava feliz em ver Lorenzo feliz.
Certo dia, depois de um bom tempo que eles estavam juntos, Lorenzo falou sobre mim e o que havia acontecido, chorando como se tivesse acontecido ontem, Eric, sem palavras, abraçou-o e falou que tudo ficaria bem, que eu deveria estar feliz em algum lugar agora. Não consegui não rir com a ironia da situação. Enzo acena com o rosto ainda em prantos e o beija, e dessa vez, não sinto ciúmes, senti-me preparado.
Eric cuidará bem de Lorenzo assim como eu se tivesse sido permitido, e a única permissão que precisava era a garantia da felicidade de todos, e parece que agora eu tenho isso, parece que finalmente eu quero partir, meu espírito parece até mais forte. É minha hora de ser curado também.
Antes de partir definitivamente, — o que eu sabia que era bem fácil como um botão imaginário em minha cabeça — deitei-me ao lado de Lorenzo. Esse é o “adeus” que eu preciso, não ele chorando no meu túmulo me destruindo também, agora ambos estamos bem, esta é a hora.
— Minha alma e meu coração sempre pertencerão à você — sussurro em seu ouvido. — Espero te ver em outra vida, porque essa não foi o bastante, meu amor. Adeus.
Uma luz branca tomou conta de todo meu campo de visão, respiro fundo e mergulho sem medo dentro do desconhecido.
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