Descobrindo o Amor
4 Capítulo 4 – Confronto
Notas iniciais
— Você tem certeza que eu devo ir? Eu quero muito passar por tudo isso com você, mas não sei se devo ir com você. Seu pai estava muito irritado.
— Sim, tenho certeza. Preciso de você mais do que nunca. Preciso do meu amigo, do meu companheiro, do meu amado, do meu namorado. – Pedro pega nas mãos de Bernardo e o abraça.
— Você tem toda razão. Não posso te deixar nesse momento. Você precisa de mim, assim como eu preciso de você. – Eles dão um selinho, e Pedro se toca do que acabou de ouvir. – Namorado?
— Então, isso é algo pra gente conversar quando voltar... Vamos. – Bernardo sai empurrando Pedro pra fora.
Os dois já estavam no caminho, e faltava pouco para chegarem. As mãos de Bernardo tremiam e transpiravam sem parar.
Bernardo estacionou o carro, e entrou em casa de mãos dadas com Pedro. Seu pai estava de costas, perto da cozinha, e sua mãe sentada no sofá chorando. Quando Miguel viu os dois de mãos dadas, partiu pra cima do filho, mas sua mulher o impediu. Bernardo entrou na frente de Pedro o protegendo, por instinto. Miguel recuou, e foi se sentar no sofá.
Os minutos passavam, e um silêncio tomava conta do local. Quando finalmente tomou coragem, Miguel perguntou:
— Por que? Só quero saber, por que? É raiva de nós? Nós te deixamos faltar alguma coisa? Foi falta de porrada quando era menor? Porque se foi, eu posso consertar isso agora.
Dona Vivian chorava enquanto seu marido falava.
— Não pai. Não tenho raiva nenhuma de vocês. Vocês fizeram tudo certo. Eu amo vocês, e você poderia me matar de tanta porrada, que não mudaria o fato de que eu sou o que sou.
— Então, por que? – Ele gritava.
— Porque eu também o amo. Eu sempre amei, e sempre vou amar. – Ele disse isso pegando na mão de Pedro.
— Mentira. Você não é viado. Eu não te criei pra ser viado. Como você tem coragem de fazer isso comigo e com a sua mãe?
— Eu não fiz nada com vocês. Eu sou assim.
— Isso é tudo culpa desse garoto ai. Ele te influenciou. Vinha a nossa casa, e a gente sempre permitiu. Como não percebemos isso Vivian, como?
— Pai, chega! – Bernardo explode. – Ele não me influenciou a nada. Até porque, eu quem o beijei primeiro. Então se alguém influenciou alguém, esse alguém sou eu. Ele só me deu coragem pra assumir esse amor.
— Isso não é amor. Isso é pecado. Você sabe que isso é pecado, né? Espero que saiba, pois você vai queimar no inferno. Vai queimar no inferno por ser uma bicha, por ser um viado, por ser um marica, por dar o rabo.
— Não existe certo e errado, quando existe amor! Ser “viado” não é só “dar o rabo”. Ser “viado” é muito mais do que isso. E se pra ser hétero, ser homem macho, eu tiver que ser que nem você, eu prefiro ser um “viadinho”.
— Chega! Cai fora da minha casa. AGORA!
— E você acha que eu quero ficar aqui? Com você? – Bernardo da uma risada sarcástica, e continua. – Nunca! Eu prefiro morar debaixo de uma ponte, ficar na companhia de cachorros doentes, do que morar com alguém que não me respeita, que não me entende, que me julga como aberração.
— Isso, some. E você... – ele aponta para Pedro. – cuidado na rua.
— O senhor está me ameaçando?
— Miguel, agora já chega. – a mãe de Bernardo tenta acalmar as coisas.
— Apenas um aviso. As ruas andam perigosas. Ainda mais pra um viadinho.
Bernardo não acredita quando ouve:
— Meu Deus... Você é doente! Vamos embora, amor. – Bernardo pega sua mala, e com a outra mão pega a de Pedro. Quando está saindo, ele para e fala. – Ah... Eu espero que você seja muito feliz. Não conseguiria desejar outra coisa nem pro meu pior inimigo. Adeus!
Bernardo fecha a porta, e um silêncio domina a casa. Era um silêncio tão grande, que chegava a doer.
Bernardo chegou em seu apartamento, e entrou com Pedro. Pedro olhou tudo em volta, e achou tudo muito bonito. Uma mesinha que ficava atrás do sofá chamou sua atenção pelas coisas que tinham nela. Diversos porta-retratos com fotos do Bernardo e Lara, durante o período que eles estavam juntos. Ele pegou uma das fotos, e ficou olhando com atenção. Bernardo percebeu, e veio por trás dele, e pegou a foto da mão dele, e lhe disse:
— Não se preocupe. Amanhã não terá mais nada disso aqui. Essas fotos são passado. – Pedro virou-se de frente pra Bernardo, que quando viu sua expressão perguntou – Que carinha é essa? O que foi?
— Nada não.
— Vamos, me fala.
— Okay... – Ele se senta, e continua – É que eu fiquei me sentindo culpado. Culpado por ter arruinado sua vida. Por ter feito isso tudo com você. Você ia ter uma vida tão bacana, se tivesse casado hoje. Seria perfeita a sua vida.
— Ei, nunca mais repita isso. Eu nunca teria uma vida perfeita. Eu provavelmente estaria “feliz” no começo, e daqui um mês estaria querendo me separar, mas pra não fazer a Lara sofrer, manteria um casamento, que deixaria ela pior ainda. Pois estaria presa sem amor, sem companheirismo, sem conversa, sem carinho. Eu daqui uns 2 meses provavelmente estaria traindo ela com alguma mulher, ou algum outro homem, pra suprir a falta que você faria na minha vida, e isso faria ela sofrer, porque ela não é burra, mas sabemos que ela faria de tudo pra me proteger, e preferiria ficar nesse casamento presa, porque assim iria manter meu segredo guardado. Eu não poderia ficar com ela. Eu não podia casar, e você me poupou de ficar infeliz, e fazer a Lara infeliz. Eu te amo, e você é a melhor coisa que eu tenho.
— Desculpa amor. Você também é a melhor coisa que eu tenho.
Os dois se beijam, e então Pedro lembra de uma coisa.
— Ei, ainda temos uma parte bem difícil pela frente.
— Que parte? – Pergunta Bernardo preocupado.
— Meus pais. Eles vão ser bem difíceis.
— Não se preocupe com isso amor. Podemos ir lá quando você quiser, quando você achar que está pronto.
— Eu prefiro falar logo. Mas acho melhor fazer isso sozinho.
— De jeito nenhum. – Bernardo respondeu logo. – Eu não vou deixar você passar por isso sozinho. Vou ficar com você pra sempre a partir de agora.
— Tenho medo da reação deles. Tem como você esperar pelo menos do lado de fora?
— Claro que espero amor. Se você acha que assim vai ser melhor, então faremos desse jeito. Só quero o melhor pra você.
Já eram 22:00hrs, quando Pedro entrou em casa. Seu rosto tinha uma expressão preocupada, e logo que viu, sua mãe percebeu.
— O que houve meu filho?
— Mãe, eu preciso falar com a senhora.
— Pode falar meu filho.
— Mas eu quero falar com vocês. Com todos vocês. Cadê o papai e a Vicky?
— Estão na cozinha fazendo a janta. Aconteceu algo Pedro?
— Chama eles então, por favor.
— Pedro, me fala o que aconteceu.
— Só chama eles. Por favor, mãe.
Dona Alice vai chamar eles, e quando voltam todos ficam olhando para Pedro, esperando ele dizer algo.
— Bom, acho melhor vocês se sentarem.
— Fala logo moleque. Sua mãe está nervosa, e eu to ficando também.
— Calma pai. Está claro que o Pedro está muito nervoso. Deixa ele falar no tempo dele.
— Obrigado Vicky. – Ele sorriu para a irmã, como forma de agradecimento pela proteção. – Então, eu precisava de todos vocês aqui, pois tenho uma coisa muito difícil para contar pra todos vocês. Uma coisa que eu tenho certeza, que vocês não irão gostar, mas que precisam saber por mim.
— Você tem AIDS? – Perguntou o Eduardo assustado.
— Não pai. Que coisa horrível isso.
— Então fala logo, homem. Tô preocupado já.
— Okay, vou falar... – Pedro respira fundo, e começa. – Eu desde muito pequeno, me sentia estranho. Não gostava de jogar bola, nem soltar pipa, nem jogar bolinha de gude, nem brincava de carrinho, muito menos gostava de filmes de tiro. Achava que eu era o único menino assim. Nas aulas de Educação Física, eu só fazia vôlei, ou jogava queimado. Nunca fui do time de futebol, e por conta disso os meninos me sacaneavam. Jogavam minhas coisas no lixo, me empurravam, me xingavam, roubavam meu lanche e várias outras coisas. O tempo passava e cada vez mais, eu me sentia estranho. Coisas em mim estavam mudando. Eu comecei a ter pelos sobre o meu corpo, e quando via qualquer insinuação de sexo, eu ficava... hãn... excitado. Porém o mais estranho, é que eu não ficava assim por conta das mulheres. Achava que era errado, que era uma coisa ruim tomando conta do meu corpo. E então, aconteceu algo que eu nunca falei. Pra ninguém. – Pedro a essa altura da conversa, já chorava. Vicky o abraçou para que ele se sentisse seguro. Ele se ajeitou, e continuou. – Quando eu estava na 6ª série do colegial aconteceu uma coisa que eu tenho muita vergonha. Era dia de natação. Quando a aula acabou, eu fui pro vestiário. Lá só tinha um cara do ensino Médio, terminando seu banho. Eu nesse dia nem tomei o meu, pois Bernardo e Lara não tinham ido ao colégio, e eu voltaria sozinho para casa. Em certo momento do caminho pra casa, eu percebi que estava sendo seguido por alguém. Quando consegui ver o rosto, logo reconheci. Era o cara do vestiário. Ele me olhava com uma cara assustadora. Eu fiquei com tanto medo, que corri. Eu corri o mais rápido que eu podia, mas ele quando chegou perto da estação abandonada, me alcançou, e conseguiu me derrubar de bruços. – Nessa hora Pedro chorava de soluçar. Sua irmã abraçou ele, ao perceber do que ele estava falando. – Eu não queria. Juro que eu não queria. Mas ele era mais forte que eu, e bem maior também. Eu não consegui me soltar.
Eduardo andava de um lado para o outro, sem acreditar no que acabou de escutar.
— Não pode, não pode. Meu filho não. Meu filho não! – Ele tacou um vaso de flores na parede.
— Desculpa pai. Desculpa! – Pedro não parava de chorar.
— E por que, você só falou isso agora? – Ele pegou Pedro pelos braços, e o sacudiu. – Fala. POR QUE?
— Porque apesar de toda a dor que esse rapaz me causou, eu depois disso tudo entendi que não tinha nada de anormal em mim. Depois disso, eu tive certeza do que eu sou. E pode ser que digam que foi essa experiência horrenda que me “transformou”, mas não foi. Ela só me fez entender o que eu sinto. O que eu sou. E se eu não contei antes, era por vergonha, medo... Só que eu precisava contar, pra poder seguir com a minha vida. Eu já sou um adulto, e preciso enfrentar meus medos, enfrentar meus demônios do passado. E revelar isso era meu maior medo. Só que agora, isso é passado. Eu vou começar minha vida agora. Sem segredos.
— O que você quer dizer com isso, Pedro? – Ele já tinha entendido, mas não queria acreditar.
— Pai, eu sou gay!
A frase veio como um tapa na cara. E foi exatamente isso que Eduardo fez. Ele deu um tapa tão forte, que Pedro caiu no chão. Ele subiu em cima do filho, e começou a bater cada vez mais. Vicky e Alice tentaram segurar Eduardo, mas não conseguiram.
— Isso aqui é por desonrar sua família. – E dava soco na cara do filho. – Isso é por deitar com outro homem. – Mais socos. – Isso é por permitir que um homem te estuprasse. – Mais um soco. – Esse é por falar que sempre foi assim. – Mais, e mais, e mais, e mais...
— Pai... para... por favor... para. – Pedro mal conseguia falar.
— Não – soco – me chama – soco – de pai.
— Eduardo, chega. Pelo amor de Deus. – Alice suplicava.
— Você vai matar ele, pai. Para, por favor!
— Socorro! Alguém ajuda, por favor! – Gritava Alice desesperada.
Bernardo entrou na casa correndo, e viu Eduardo em cima de Pedro. Aquela cena de ver seu amado estirado no chão cheio de sangue, o deixou sem ação por um segundo, até que ele retomou ciência do que se passava, e correu pra imobilizar o pai de Pedro.
— Seu merda, seu viadinho, seu adultero. Eu preferia que você tivesse Aids. Desgraçado.
Pedro estava jogado no chão, agora amparado pela irmã e pela sua mãe.
— Como você pode? Ele é seu próprio filho. – Vicky falava chorando.
— Eu não tenho mais filho. E não se mete nisso Victória.
— deixa de ser cabeça dura. Ele ser gay, não muda em nada. Ele continua a ter os mesmos valores que tinha hoje de manhã, quando ele saiu de casa e o senhor disse que o amava. Continua a ser o mesmo cara integro, respeitador, educado e honesto que vocês criaram. Ou você acha que tudo isso acabou, só porque ele se deita com outro homem? Olha o que seu preconceito, sua mente pequena, sua hipocrisia, fizeram com seu filho. Porque você pode até negar, falar que não é, xingar, bater, matar, que mesmo assim, ele vai continuar a ser seu filho. E vai continuar a ser gay. Vai ser seu filho gay.
— Me solta!
— Eu vou soltar o senhor, mas tem que prometer se acalmar.
Bernardo solta aos poucos, e Eduardo sai. Ele então vê que é Bernardo quem estava segurando ele.
— Bernardo, o que você faz aqui? Você deveria estar em lua de mel agora. E me desculpa, mas esse devia ser um assunto de família. Não me leve a mal.
— Mas está em família. – Bernardo responde educadamente.
— Quero dizer família de verdade. Sei que você foi criado aqui, e é praticamente da família, mas falo a família, família mesmo.
— Eu te compreendo. Mas o que eu quero dizer, é que... Bernardo anda pra perto de Pedro, o levanta do chão, e apoia ele em seus ombros. – eu e seu filhos, estamos juntos.
— Como assim? – Eduardo começa a ficar nervoso de novo, e Vicky corre pra segura-lo.
— Eu e seu filho estamos namorando.
— Ele te transformou nisso também? Logo você, que estava encaminhado. Você ia se casar. Meu Deus... Seus pais vão ficar muito decepcionados com você. E é tudo culpa desse... Desse... Desse troço.
— Não. Não existe um culpado. Só existe amor. Se algum crime eu cometi, foi ter amado.
— Chega. Sai da minha casa. Os dois... AGORA!
Bernardo levanta Pedro do sofá, e o apoia novamente em seu ombro.
— Se você tiver vergonha na cara, coisa que eu duvido muito, não procure mais a sua mãe, nem sua irmã, e muito menos eu. Some daqui, e não aparece nunca mais. E quanto as suas coisas, venha pegar tudo amanhã. Não quero nada seu aqui. Mas venha na hora que não tem ninguém, e quando sair deixe a chave na mesa. Some.
Pedro se ajeita, e diz:
— Não se preocupe não. Virei amanhã mesmo, buscar tudo que é meu. Não quero e nem vou deixar nada aqui. Eu só espero que você se arrependa um dia. – e faz uma pausa e dá uma gemida de dor. – Pois isso, não é motivo pra fazer o que você fez.
Bernardo carrega Pedro até o carro, e o coloca sentado no banco. Vicky vai até o carro se despedir do irmão, enquanto sua mãe olha pela porta da sala.
— Olha por ai mesmo, pois você está proibida de encontrar com ele.
— Você é um monstro Eduardo.
Ela olhou novamente, e Bernardo estava saindo com o carro. Seria aquela a ultima vez que ela iria ver seu filho?
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