Notas iniciais
# Não posto sem comentários.
...
Primeiro capítulo, espero que agrade.
Beijos,
EUQOPÉ-ELLE3

Capítulo Um – Como Mel.

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Boatos sobre o misterioso Duque de Knightley corriam por toda a Inglaterra.

Eram raros os momentos em que o homem jovem deixava o seu ducado e ia se divertir por entre os bailes, jantares e saraus de Londres, mas quando ia, era um acontecimento histórico. Algo que certamente deveria ser relatado nos livros. E, quando ele comparecia aos eventos sociais, as mães casamenteiras não perdiam tempo em apresentar-lhe suas adoráveis filhas.

Era uma pena que aquele tipo de mulher não o atraía mais.

Mulheres nobres já não o atraíam mais como antes. Ele havia aprendido que, se queria se casar com uma mulher que beijava os pés dos homens de melhores sapatos, poderia encontrar uma há um prostíbulo que ficava ainda em Londres, apenas um pouco longe da casa dos Walt.

Pois essas nobres não eram tão diferentes das mulheres que tanto julgavam.

Sempre de olho na fortuna alheia. Oferecendo-se de tão bom agrado ao sorriso de um homem endinheirado e com título. Um casamento pensando no dinheiro não era tão diferente do que as mulheres que dormiam visando o mesmo.

– Vossa graça já percebeu que, quando sua presença é anunciada em um evento social, todas as atenções se voltam para você? – comentou Aloysia Walt, sua grande amiga, e era por conta dela que ele se encontrava ali.

Ignorando o comentário, limitou-se em levar a taça de vinho à boca.

– Vossa alteza é o homem mais rico de toda a Inglaterra, deverias aproveitar – aconselhou sua amiga, nem se importando com a frieza dele. Já se acostumara com tal.

– Sou o homem mais rico da Inglaterra porque não gasto meu dinheiro com futilidades e extravagâncias, Aloysia – ele respondeu com sua voz grave e séria. – Não preciso de uma mulher que me apunhale pelas costas. Dispenso-me de tal.

– Ainda pensa nela, não? – perguntou sua amiga com tristeza. – Esqueça-a. Ela lhe abandonou no altar. Humilhou-lhe e fugiu com outro. Ela nunca lhe amou...

– E é por isso que me irritam esses bailes – ele murmurou para a amiga. – Essas mães que empurram as filhas para meus braços, são as mesmas que a forçarão a me amar. Isso eu não quero para mim, Aloysia. Não quero passar por aquela... Humilhação novamente... Creio que você é a única mulher em que posso confiar no mundo.

A mulher, que até então estava ao seu lado, observando o movimento do baile com ele, tomou-lhe a frente. Com um sorriso brincando nos lábios comentou e os olhos brilhando de esperança:

– Por acaso está me pedindo em casamento, Alexander?

Ele desviou o olhar de casais dançantes e disse:

– Não. Óbvio que não.

Não era que Aloysia não fosse uma mulher bonita. Na verdade, sua beleza era fora do esperado, mas exótica. Seus longos cabelos eram lisos e castanhos escuros, geralmente presos, mas que ele sabia que escorriam como seda. Suas sobrancelhas eram levemente arqueadas e os olhos estreitos negros, davam um ar de mistério ao seu rosto oval e lábios cheios.

Ele sabia que era crueldade brincar com ela assim, pois sabia dos profundos sentimentos que a jovem dama nutria por ele. Com um pingo de esperança de que, um dia, o coração atrofiado e seco no peito voltasse a bater por ela. No entanto, ele sabia que era incapaz de amar uma mulher de novo.

O brilho se apagou e ela só não lhe retrucou o quanto ele era cruel porque um jovem rapaz, que a observara a noite toda, lhe pediu uma contradança.

– Claro – cedeu-lhe ela sem querer ser grosseira, abrindo o leque e se virando para o duque com desprezo. – Sinceramente, espero que um dia se apaixones e sofra os castigos do inferno por brincar comigo, Alex.

Ele não deu muita atenção, pois sabia que não demoraria muito até que ela lhe procurasse para reatarem as pazes. Ela o amava tanto que não conseguia ficar longe dele.

– Sua delicadeza me comove – comentou com ironia. – Bem, estou cansado de todo esse falso glamour. Eu já vou.

– Já? – perguntou surpresa.

– Claro. Verei se me encontro com o “amor” e pedir para que ele me mostre o inferno. Mesmo eu achando impossível, pois vivo nele – respondeu pondo o copo de cristal na bandeja de um criado. – Adeus, milady.

No entanto, mal o duque sabia que, naquela noite, ele se encontraria, sim, com o amor. E que ele não só lhe mostraria o inferno, quanto também o paraíso.

Ao se retirar da festa, deixando muitas mães interesseiras desapontadas com sua rápida presença, ele seguiu para a carruagem, mas não foi para casa. Sua rápida conversa com Aloysia fora o suficiente para fazer crescer dentro dele a estranha necessidade de afogar suas mágoas com uma estranha.

O duque não sabia por que às vezes sentia a necessidade de se deitar com uma mulher. Não para fazer amor em sua forma mais terna e plena, mas para tratá-las com selvageria e agressividade. Aloysia dissera-lhe que era um modo de ele se vingar da mulher que o magoou. E isso fazia sentido.

Quando adentrou no prostíbulo com o seu fiel criado, o duque percebeu que ninguém percebera a sua presença – como normalmente acontecia. Não que isso fosse algo ruim, pois seria ruim para alguém de sua posição – com um lugar na Câmara dos Lordes – ser visto ali. No entanto, os olhares de todos estavam voltados para a estreita escada que levava aos quartos.

A dona do conhecido bordel segurava o braço de uma garota.

– Cavalheiros, conheçam a minha mais nova aquisição – disse a mulher de sotaque estrangeiro. – Esta bela donzela de dezenove anos.

O duque não pôde deixar de observar o como a garota estava trêmula de medo, nem a quão bela era a jovem. Sua pele era da mesma alvura dos lírios, seus cabelos, anelados e negros como ébano, contrastando com os olhos feito safiras. Suas curvas eram acentuadas pelo escandaloso vestido vermelho que usava.

Ele não entendeu bem, mas concluiu que a cor tentadora não ficava bem com ela, pois o seu rosto era o de um anjinho. Não conseguia imaginar aquela garotinha como prostituta... E provavelmente nem ela.

“Donzela?” indagou-se o duque, mas não se surpreendeu quando ficou surpreso. Ela parecia, sim, uma casta e virginal mulher. Do tipo que os homens admirariam e queriam ser o primeiro de muitos.

Talvez por isso as ofertas de todos os homens houvessem sido altas. A garota certamente tinha um grande valor e isso, por algum motivo, o indignou. Quer dizer, oferecer exorbitantes quantias só para ter o prazer de desvirtuar uma mulher? Que tipo de prazer um homem poderia ter em ser o primeiro de muitos? Logo, ele se viu curioso.

– Ofereço-lhe cinquenta mil libras por ela – ofertou, sabendo que eram poucos homens que bateriam o valor que ele ofereceu, levando-se em consideração as pessoas que estavam ali.

A mulher e os homens olharam para o duque com surpresa.

– Cinquenta mil por uma noite com ela? – perguntou a mulher, estupefata com exorbitante quantia.

Ele deu um meio sorriso.

– Não. Para levá-la para casa – respondeu-lhe.

A garota empalideceu.

– Desculpe senhor, mas...

– Quanto você quer? – interrompeu-a. – Cem mil? Duzentos mil? Dinheiro não será problema. Meu empregado terá gosto em tratá-lo com você.

Ela tentou recusar, pois a menina já estava guardada para outro homem. No entanto, o dinheiro falou mais alto e ela aceitou aquela quantia que era muito mais do que o dobro que o outro homem lhe oferecera.

– Tudo bem, senhor. Ela é sua – a mulher cedeu.

Foi com gosto que a cafetina empurrou a jovem nos braços de seu comprador; de seu dono. E ele quase se encantou quando sentiu a pele acetinada em contato com a dele, e ela exalava um cheiro floral que o deixou louco.

– Bobley, resolva o pagamento com essa mulher – mandou ao fiel criado. – Estaremos na carruagem.

Vendo o homem concordar com a cabeça, o duque levou a garota para fora. Teve que arrastá-la, pois ela relutou e quase brigou feito uma mula. E, por mais que ele dissesse que não lhe faria mal algum – o que era estranho para ele – ela não parava.

“Parece que ela não me compreende” pensou empurrando-a para dentro da luxuosa carruagem, enquanto ela ainda se debatia e tentava esmurrar seu ombro. Infelizmente, para ela, era muito fraca.

Ele só ficou mais animado quando, sem ter para onde fugir, ela ficou acuada como um bicho engaiolado.

– Calma. Eu não vou lhe fazer mal – disse, mas sabia que era mentira.

Tudo o que ele queria naquele momento era se afundar naquele corpo pequeno e supostamente imaculado. Até que o prazer do ato se transformasse em dor. Talvez fosse por isso que ele tinha se decidido por aquela virgem acuada no canto de sua carruagem como um animal assustado.

Mas ele percebeu que bastaram apenas alguns minutos em silêncio para que ela fiasse mais calma e menos tensa.

Ele levantou a mão para lhe acariciar o rosto. No entanto, ela virou o rosto, fechou os olhos com forço – como se esperasse pelo pior -, e palavras trêmulas escorregaram por seus lábios como um mar inquieto.

– Por favor, monsieur, não me machuque – pediu em um inglês precário, nervosa com a voz carregada de um sotaque francês.

Oh, então ela era francesa?

Isso explicava o porquê de ela não entender o que ele disse e, provavelmente, o porquê de estar tão assustada. Metida naquela situação sem ter como se comunicar.

– Eu não vou te machucar – murmurou devagar para que ela compreendesse.

Tudo bem, aquela era uma grande mentira, mas sua mãe tinha o costume de dizer que mentiras para atenuar a dor eram melhores do que aquelas feitas para ferir. E ele havia posto em prática que era totalmente verdade.

Viu-a relaxar por um instante, acreditando e confiando em sua palavra. Mas logo ficou tensa quando sentiu a mão dele vir pela sua nuca e puxá-la para si.

– Non! – exclamou espalmando as mãos no peito dele para empurrá-lo, antes que conseguisse encostar seus lábios aos dela.

Por um instante, ela pensou em dizer algo rápido. Com o seu inglês aprendido no dia-a-dia poderia tentar avisar a ele o que realmente acontecera e pedir para que aquele homem – aparentemente rico – lhe ajudasse. Mas então se tocou de que sua história era ridícula demais para que ele acreditasse. Algo que seria lido em romances, mas nunca levados a serio.

Quer dizer, quem acreditaria na história de uma, aparente, prostituta?

Por mais virgem que ela fosse... As pessoas costumam acreditar que tudo é culpa da mulher. Ele provavelmente deve ser um daquele tipo de homens que pensa que um belo dia uma mulher acorda dizendo: “Ah, vou me tornar uma prostituta!”. Assim como muitos outros, ele deveria acreditar que uma mulher escolhe essa profissão tão degradante por livre e espontânea vontade.

E isso a fez ficar com raiva do homem que estava tentando roubar-lhe seu primeiro beijo.

– Por que, monsieur, me comprou? – questionou empurrando-o, mesmo que ele insistentemente avançava sobre ela. E ele olhou para ela quando percebeu uma nota de irritação em seu tom.

– Se não fosse eu, qualquer outro poderia tê-lo feito – respondeu-lhe. – Você pretendia qualquer um daqueles homens asquerosos e grosseiros a mim?

A moça mordeu o beiço para comentar o quão cheio de si ele soara ao dizer tal coisa. Mas não era como se o duque fosse um homem egocêntrico ou narcisista, ele apenas o comentara, pois sabia o quão belo era para o sexo feminino.

– Na verdade, monsieur, se dependesse de minha livre e espontânea vontade, preferiria servir a homem nenhum – respondeu com a voz dura e áspera.

– Então por que estava em um lugar como aquele, afinal? – questionou-lhe.

– Esta me parece ser uma pergunta um tanto ingênua – ela respondeu com um tom provocador. E então disse desaforada e sarcasticamente: – Sabe, foi em uma bela manhã de primavera que eu acordei no meu castelo em Paris e descobri que tinha certo talento para ser uma putain. Então, eu me virei para o bom e velho père e disse: “Papa, jê veux être une prostituée”.

Ele olhou para ela arqueando uma sobrancelha.

– Acha mesmo que escolheria essa vida para mim, monsieur? – questionou. – Achas que a sua filha escolheria essa vida para ela.

– Eu não tenho filha – completou com rispidez.

– Bem, certamente um dia terás – respondeu dando de ombros. – E depois, voltaremos a conversar sobre este assunto.

Certamente, a garota de face angelical estava se mostrando uma verdadeira desaforada. Geralmente, o duque não gostava de mulheres desaforadas, mas abriria uma exceção com ela. Afinal, pagara bem caro para esganá-la em sua carruagem que já se dirigia à sua casa em Londres.

– Quer saber por que te comprei para vir comigo? – perguntou agarrando-a pelos braços com força e sussurrou em seu ouvido: – Porque sou filho único. E como todo bom filho único, eu não gosto de dividir o que é meu com ninguém.

A moça não soube o porquê, mas quando o ouviu falando de modo tão perto, sentiu um arrepio percorrer por seu corpo. Ao sentir seu hálito quente roçando em seu pescoço e lóbulo, ela sentiu um arrepio quente descer-lhe pela espinha dorsal. E teve que morder os lábios com medo de quaisquer sons que viesse a soltar.

– Então, monsieur, eu pertenço a você agora?

– Agora, é esta a pergunta que está me parecendo ingênua. Eu paguei por você, não paguei? Você é minha agora – respondeu-lhe.

– Essa foi uma compra considerada ilegal, eu acredito. Oui?

– Pode até ser. Mas é a palavra de uma prostituta contra a de um duque. Quem ganhará perante os tribunais? – perguntou-lhe ele.

A jovem francesa gostaria de comentar sobre a sua impressionante árvore genealógica que faria com que um mero duquezinho não passasse de nada, mas antes que continuasse com as provocações, ele a pegou de surpresa e enfim a beijou.

Ela relutou, mas ele a prendeu com seus braços e por fim as resistências foram nulas. Seria mentira dizer que, por ser uma mulher inexperiente, ela beijava muito mal, na verdade, seus beijos tinha um gosto que o duque nunca provara antes. Seus lábios eram macios e quentes. Sua língua aveludada, quente e doce. Muito doce.

Era como mel.