Descendência
3 Capítulo 2
Coisas aconteciam ao meu redor. Parecia uma guerra que meus vizinhos estavam participando. Se antes a rua estava deserta, agora todos os moradores haviam saído de suas casas. Sons de trovão ecoavam ao redor, ouvia gritos horrendos vindos de todos os lados. Olhei para eles através de minhas lágrimas e vi olhos negros nos rostos das pessoas que conhecia desde criança.
Tentava raciocinar e descobrir o que estava acontecendo a minha volta, mas não conseguia chegar a uma conclusão. Olhei para minhas mãos e me choquei com o sangue fresco em meus dedos, assim como em minha roupa branca agora tingida de vermelho.
Não tinha forças para me mover. Estava em choque. Tudo o que acontecia em minha volta parecia uma realidade distante. Minha cabeça rodava, sentia meu corpo sendo guiado, mas não estava realmente ali, estava vazia.
O carro acelerou cantando pneu, deixando meus vizinhos zangados para trás e atropelando outros que ainda insistiam em se jogar no caminho.
– Você está bem? – perguntou uma voz no banco da frente.
Não sabia o que responder. É claro que eu não estava bem. Eu queria minha mãe, queria uma explicação para aquela brincadeira sem graça… Ela não estava… ela não podia estar…
– Ela está em choque! – falou outra voz vinda do banco do motorista.
– O que aconteceu? – consegui falar, as lágrimas escorrendo por meu rosto – Quem são vocês? O que aconteceu com minha mãe?
– Calma. – falou Lucas, se virando para mim.
Fiquei ainda mais surpresa.
– Para onde estão me levando?
– Para um lugar seguro.
– Eu não quero ir pra lugar nenhum!
– Você precisa. É muito perigoso continuar aqui. Você viu o que aconteceu à sua mãe. Nós vamos para um lugar seguro – falou Gustavo.
Eu não sabia o que dizer, não sabia o que fazer. Estava confusa e muito assustada. Minha noite não deveria terminar assim, não havia planejado aquilo tudo.
– Quando chegarmos vamos te explicar – Lucas falou, com um olhar de pena.
Gustavo dirigiu ao longo da noite, indo cada vez mais para o sul. O céu estava cinzento e os raios cortavam a noite que começava a esfriar. Tremi sem blusa. Lucas percebeu e ligou o aquecedor.
Estava quase amanhecendo quando Gustavo estacionou em frente a um sobrado branco, afastado de qualquer casa, o que se via ao redor eram apenas árvores e arbustos.
Minha cabeça estava doendo e meus olhos estavam secos. Meu corpo doía e me sentia exausta quando Lucas abriu a porta e me ajudou a descer do carro. Meus pés estavam descalços e tremi com o contato do vento gelado na pele.
Uma gota gelada caiu em meu rosto. Parecia que enfim, depois de dias de ameaça, iria chover.
Gustavo tirou sua jaqueta de couro e colocou em meus ombros, me ajudando a entrar na casa.
O lugar era todo iluminado e limpo, os móveis possuíam um design clássico e o ar cheirava a café.
– Bom dia – cumprimentou uma moça saindo do que parecia ser a cozinha com um grande sorriso no rosto.
Ela era alta e magra, de cabelo castanho encaracolado na altura do ombro e olhos verdes. Aparentava ter cerca de uns 25 anos. Seu rosto era bondoso e sua expressão se alarmou ao me ver.
– Foi tão ruim assim? – perguntou ela para os garotos.
– A mãe dela morreu – informou Gustavo, me deixando ainda pior.
Meu estômago revirava.
Ela puxou uma cadeira para mim, onde sentei aliviada.
– Nós tentamos te avis...
– Gustavo! – advertiu Lucas.
– Vou fazer um chá – falou a mulher, saindo.
– O nome dela é Anne – informou Lucas, sentando-se em minha frente. – Claire, nós sentimos muito. Nada disso era para ter acontecido.
– Vocês sabiam o que ia acontecer? Vocês sabiam que tinha algo errado? Como? Quem são vocês?
– Nós imaginávamos que algo ruim iria acontecer, mas não esperávamos por isso agora, não antes do seu aniversário. Gustavo e eu fomos designados a cuidar de você agora, nas semanas antes do seu aniversário, deveríamos te conduzir até o lugar onde você ficará em segurança.
– E por que eu?
– Porque você não é uma pessoa comum, Claire. – falou Gustavo despreocupado, colocando sua arma na mesa.
Fiquei em silêncio esperando uma continuação.
– Você é filha de alguém muito importante – disse Lucas, que olhava advertidamente para Gustavo.
– Não sou não. Minha Mãe é Lyla Bailey e meu pai Gordon Bailey.
– Não. Você é filha de Lyla Bailey e Andras.
– Como é?
– Andras. Conhecido pelos antigos como um anjo montado num lobo e que carrega uma espada brilhante e afiada que pode arrancar sua alma, é também o líder de trinta legiões.
Não consegui segurar minha risada. Aquilo tudo era loucura.
– Meu pai não é um anjo.
– Não mesmo – falou Gustavo, de pé no canto da sala – É um demônio!
– Isso é ridículo! Anjos e demônios não existem.
– Você os viu – falou Lucas – Você viu seus vizinhos e o estado em que sua mãe ficou, nem um animal poderia ter feito aquilo.
– Você, Claire. Foi fruto de um plano iniciado há 23 anos. Um plano de cinco dos mais perigosos e traiçoeiros anjos caídos, de criar armas poderosas para conseguir derrubar as forças do céu. Sua mãe foi enganada e manipulada porque ela também era especial. Lyla foi, há muitos anos atrás uma caçadora que liquidou muitos desses seres. Queriam se vingar dela, então Andras entrou no corpo do amor da sua mãe e conseguiu tentá-la. Meses depois ela soube que estava grávida e ele, morto. Gordon era o melhor amigo dela e colega de caçada. Ele assumiu você e decidiram te criar longe de todo esse mundo de trevas e caos.
Estava tentando digerir tudo o que Gustavo estava falando, mas era muita informação para assimilar.
– Você disse que esse plano vem de vinte e três anos. Mas eu vou fazer dezoito.
– Cada ano um anjo caído visitava a terra para dar continuidade ao plano. Você é a quinta.
– E que arma tão poderosa eu posso ser? O máximo que eu já matei foi baratas e aranhas!
– Por isso que temos que te levar aos dezoito anos, quando as enxaquecas se tornam frequentes e seus poderes aparecem. O estranho é que com você começou mais cedo do que deveria.
– O intuito deles – continuou Lucas – era recrutar as crianças especiais quando fizesse dezoito anos, para poder controlá-las.
– Seu chá! – falou Anne trazendo uma xícara fumegante – Você irá se sentir melhor.
– Obrigada.
Tomei um gole do chá e imediatamente me senti menos dolorida, não só fisicamente, como emocionalmente.
– De que é feito esse chá?
– Ervas especiais – falou ela, sorrindo.
– Anne é feiticeira – informou Lucas – Uma de nossas ajudantes na cidade.
– O que são vocês?
– Guardiões.
– Vocês são anjos?
– Ainda não. – respondeu Gustavo, ressentido. – Só quando terminarmos nossa missão com você. Aí seremos anjos da guarda.
– Por enquanto nós nos viramos como humanos comuns.
– E vocês estão assim desde quando?
– Desde sempre – falou Gustavo – Vagamos por aí, como caçadores protegendo pessoas, sem uma grande causa para lutar. Até aparecer você e nossa chance de ganhar asas.
– Vocês não têm poderes?
– Só alguns. Podemos sentir coisas e curar algum ferimento grave.
– E as outras pessoas? Também possuem guardiões?
– Sim. Cada um dos cinco requer cuidados especiais.
– E onde eles estão agora?
– Para onde iremos levar você. Um lugar especial, fora de cidade, quase na fronteira, protegido por arcanjos. E iremos treiná-la para servir como caçadora quando estiver pronta. – falou Lucas.
– E para não usar seus poderes contra nós – completou Gustavo ressentido.
– Quantos anjos caídos existem por aí?
– Muitos – falou Anne – Milhares de demônios vagando pela terra. Os mais perigosos são os originais, realmente antigos anjos… Mas a maioria foi criada pelos originais e só querem criar confusão. Outros conduzem exércitos de encostos, espíritos do mal e monstros.
– Monstros?
– É. Sabe todas aquelas criaturas que você tinha medo quando criança, mas seus pais lhe asseguravam que não eram reais?
– Como o bicho papão embaixo da minha cama?
– Exatamente.
Fiquei perplexa. Não esperava por isso. Na verdade, não esperava por nada daquilo. Lendas e mitos que sempre ouvi e nunca acreditei agora retornam para minha vida sendo reais! Eu estava apavorada. Queria correr para casa de volta para minha mãe... Mas ela não estaria mais lá. Nunca mais poderia vê-la novamente. Os mitos e Lendas da minha infância a tiraram de mim. E iriam pagar por isso.
– Você está bem? – perguntou Gustavo.
Não havia me dado conta que lágrimas estavam escorrendo pelo meu rosto novamente.
– É claro que não! – respondeu Anne dando um tapa no ombro de Gustavo – Acho melhor você tomar um banho e ir se deitar. Teve uma longa noite e de agora em diante não será mais fácil!
– Dormir? Acho que não vou conseguir. E se conseguir... Tenho medo do que verei quando fechar os olhos.
– O chá vai te ajudar. Você conseguirá dormir essa noite, sem sonhos, sem pesadelos, apenas descansar.
Assenti agradecida e subi para o banheiro, com Anne me guiando.
Livrei-me de todo aquele sangue que escorria ralo a baixo, mas permanecia em minha mente. Tentava tirar o sangue seco de baixo de minhas unhas enquanto remoía as palavras de Lucas. A água quente corria sobre meu rosto, me deixando um sentimento de culpa. Eu era a responsável por tudo aquilo, pela morte dela.
Segui para o quarto que era pequeno, com o teto baixo por ser no sótão e tinha uma grande janela ao lado da cama de solteiro.
Eu estava exausta, tanto física quanto emocionalmente. Anne me emprestou um de seus pijamas para que pudesse dormir. E assim que deitei na cama, ouvindo o som da chuva cair e o vento contra a janela, caí no sono.
Quando fechei os olhos os pesadelos começaram.
Primeiro, sonhei com minha mãe.
Eu estava em casa quando as luzes começaram a piscar e a temperatura caiu drasticamente. Lyla estava sentada em uma poltrona na minha frente, com o olhar vidrado e a pele branca. As luzes se apagaram completamente e as janelas começaram a bater. A porta se abriu com estrondo, trazendo as gotas da chuva.
– Mãe, temos que sair daqui! – falei minha voz ecoando pela sala.
Ela não se moveu. Seus olhos continuaram vidrados em mim, sem vida.
– Mãe?
Uma névoa negra entrou deslizando pelo chão da sala e entrou no corpo sem vida de minha mãe.
Seus olhos, totalmente negros, por fim me focalizaram. Senti medo.
– Querida... – falou ela, mas com uma voz grossa, que não era dela.
Ela me estendeu a mão e sorriu – um sorriso estranho, falso, que me deu calafrios.
– O que há de errado, querida?
Minha mãe nunca me chamou de querida, mas sim pelo meu nome. Sempre.
– Onde está minha mãe?
Lyla abriu seu sorriso ainda mais.
– Eu sou sua mãe. Só quero você de volta. Nossa família reunida outra vez!
– Você não é minha mãe!
Uma névoa densa surgiu do nada, se elevando do chão e cobrindo minha visão. Não conseguia ver um palmo em minha frente. Ouvia apenas o arfar de minha respiração.
– Claire… — chamou minha mãe, agora com a voz que conhecia – Claire, você precisa… — sua voz falhava – Não aceite…
– Aceitar o que?
– Não! Não aceite…
Silêncio. A névoa se dissipou e vi novamente minha mãe no sofá, com o olhar perdido no nada e seu corpo ensanguentado.
Em seguida, o sonho se transformou.
Eu estava andando por uma estrada deserta, cercada apenas por árvores por todos os lados, até chegar a um vilarejo aparentemente vazio. Com casas antigas de madeira que pareciam que iriam despencar a qualquer momento.
Continuei andando sozinha, mas sentindo que estava sendo observada. Olhei ao meu redor e não vi nada, todas as janelas estavam escuras, apenas deixando transparecer o interior das casas. Até que eu avistei, em uma das janelas, uma criança de pele totalmente branca e olhos vermelhos que me encaravam.
Latidos ferozes começaram a soar ao longe, mas se aproximavam cada vez mais. Corri ao ver dois enormes cães medonhos se juntando a um lobo igualmente grande e com a aparência que nunca vi igual, como se fosse meio homem também. Os três correram em minha direção. Joguei-me contra a porta de uma casa, e tranquei a fechadura, mas sabia que não conseguiria contê-los.
Senti um baque forte ao ser arremessada para o outro lado da sala enquanto o lobo entrava pela porta, seguido de perto pelos Dobermanns.
– Claire, acorde! – chamou Lucas nervoso, me sacudindo.
Acordei assustada, ainda mais nervosa pelo seu tom de voz.
– O que foi? O que houve?
– Precisamos sair daqui agora! – falou ele me jogando uma mala – Vista-se rápido que estamos te esperando lá em baixo.
Assim que Lucas saiu, fiz o que ele mandou. Troquei de roupa e desci, encontrando uma Anne fortemente armada.
– Para o carro, rápido – falou ela.
Gustavo pegou a mala que eu estava carregando e jogou dentro de seu carro. Eu ainda estava sonolenta e confusa.
– O que está acontecendo?
– Eles te explicam no caminho! – respondeu Anne carregando sua espingarda.
– Vamos – Gustavo me puxou pelo braço até o carro.
A chuva caía forte e trovões ecoavam pelo céu, entrei encharcada no carro molhando todo o banco.
Estava escuro e Gustavo dirigia sem se cansar. Sabia que algo estava errado, mas os dois se recusavam a dizer o que estava acontecendo.
– Não se preocupe – dizia Lucas, como se isso fosse funcionar — Já estamos chegando.
Encostei minha cabeça na janela gelada, ouvindo as gotas da chuva caindo sobre o capô do carro. Fechei os olhos e respirei fundo, tentando não me preocupar. Minha respiração embaçando o vidro.
– Oh não! – exclamou Lucas nervoso.
– Eles estão nos alcançando!
Abri os olhos assustada e olhei ao redor, mas não conseguia ver nada pela escuridão e a água que caía.
– O que é? – insisti.
– Estamos sendo seguidos. – falou Gustavo acelerando ainda mais – Achei que tinha conseguido despistá-los, mas estava enganado.
Olhei para trás e vi que algo se movia muito rápido pelas sombras em nosso encalço.
Uivos ecoaram pela noite.
Ao lado da minha janela um lobo corria tentando nos ultrapassar.
– Lobisomens! – gritou Lucas espantado.
– Não estávamos esperando por isso! – falou Gustavo, a tensão transparecendo em sua voz.
Eu estava atordoada e não conseguia acreditar que tudo aquilo realmente estava acontecendo. Os lobos eram exatamente iguais aos enormes monstros do meu pesadelo.
Gustavo desviou bruscamente de um deles, que se jogou na frente do carro, me lançando contra o banco da frente.
O carro saiu da estrada e desceu um barranco, batendo em uma árvore. Gustavo ainda tentou acelerar, mas sem sucesso.
Os uivos se aproximavam com rapidez. Nós saímos do carro, Lucas apanhou a mala com armas e munições e nos conduziu por uma trilha quase imperceptível por entre as árvores.
Nós corremos por todo o caminho, tentando ser mais rápidos que nossos caçadores. A chuva forte açoitava minha pele, gravetos cortavam meu rosto e prendiam minhas roupas, mas não ligava para isso, apenas corria para sobreviver.
– Temos que chegar a fazenda! Se conseguirmos cruzar o cemitério chegaremos lá! – Lucas falou, virando bruscamente para a esquerda.
Estava me perguntando onde haveria um cemitério, quando saímos em uma clareira com lápides espalhadas pelo chão, todas cobertas por grama e pequenas árvores que cresciam.
Os lobos corriam entre as árvores que cercavam o antigo cemitério, nos cercando. Estávamos presos na clareira, sem nenhum lugar para nos refugiarmos.
– Claire, fique com isso – falou Gustavo, me jogando uma pistola – espero que saiba atirar.
– É claro que sei! – falei, tremendo.
Lyla me levava para o sítio que pertencia a minha avó e me ensinou a atirar em latinhas de alumínio. Acho que ela sabia que um dia eu precisaria desse conhecimento.
Os lobos atacaram, eram cinco. Lucas atirou em um, abatendo-o de imediato, outro pulou em cima dele e Gustavo tentou o defender, errando o tiro, depois disso não pude mais ver o que estava acontecendo ao redor, um dos lobos avançou para cima de mim e obstruiu minha visão, jogando a arma para longe.
Consegui me esquivar de suas presas imensas e brilhantes segundos antes de ter meu braço decepado, mas fui lenta demais para desviar de suas garras que atingiram meu pescoço e me atirou ao chão. Senti uma dor dilacerante e o sangue escorrendo do corte que começou a arder como fogo.
– Claire? – chamou Gustavo em algum lugar atrás do lobo imenso, que espumava pela boca. Ele rosnava para mim, seu pelo negro eriçado e estava pronto para atacar novamente.
Minha arma estava aos pés do monstro e não podia contar com a ajuda de Lucas e Gustavo, que lutavam suas próprias batalhas.
O lobisomem saltou para cima de mim e eu me joguei ao chão embaixo dele. Senti seu pelo passando sobre mim e o fedor de algo podre enquanto agarrava o cabo da arma, o lobo se voltou para mim, suas presas mirando minha garganta.
Um som de trovão ecoou no ar quando puxei o gatilho, mirando na barriga do monstro e ele caiu pesadamente em cima de mim. O lobo era muito pesado, não conseguia respirar, a dor em meu pescoço estava ainda mais intensa, as imagens ao redor se enegreceram.
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