Descendente
2 Capitulo 1
Faith se admirava no espelho, tentando achar um jeito melhor para que seu cabelo não armasse. Havia tendo esta luta a duas semanas, e não conseguia entender o porquê. Antes, costumava o deixar solto, com longos fios acobreados, ondulados sem nenhum problema; Agora, o máximo que conseguia fazer, era uma longa trança, para que os fios não parecessem ter sido eletrocutados.
Isso a deixava confusa.
Ultimamente as coisas reagiam mal perto dela. As pessoas alegavam sentir choque quando tocadas, e o seu gato bob, se arrepiava todo e mostrava os dentes. Era um jeito estranho de passar pela puberdade.
Assim que terminou de se admirar, desceu as escadas correndo e pulou com um baque na cozinha. Sua mãe, virou-se sem mostrar nenhum pouco assustada, e lhe mostrou uma carranca. Faith costumava rir disso, mas naquele momento, sentiu algo gélido subir pela espinha.
—Sinto muito filha, mas hoje perdi a hora e não deu tempo de fazer café da manhã. Coma algo na escola. —Os cabelos pretos da mãe, não tinha nada a ver com os de Faith, o que muitas vezes a deixava encabulada. Não sabia nada sobre o pai, queria, pelo menos, ter herdado algo da mãe.
Normalmente, dava um beijo de despedida e sua mãe lhe falava umas palavras esquisitas em seu ouvido. Naquela manhã, Faith não prosseguiu com o ritual, continuava a sentir aquela estranha sensação gélida.
No momento em que abriu a porta, se deparou com Joan apertando a campainha. Era incrível como eles sempre estavam sincronizados nisso.
—Ei, tá tudo bem? —Joan segurava a mão de Faith, mesmo que estivesse suando e gelada, o que muitas vezes fazia Faith se perguntar como ele conseguia aguentar.
Ele sempre parecia ler através dela, e nunca fora um problema, mas agora, Faith não sabia o que dizer, nem ela mesmo tinha certeza do que sentia.
—Claro. Só estava pensando, em tudo. Esse é o meu último ano e eu nem ao menos sei o que quero fazer de faculdade. Minha mãe não quer que eu saia de perto dela, e isso está me deixando sufocada.
Joan ouvia atentamente. Subitamente largou a mão dela, e se prostrou de maneira que ficassem de frente um para o outro.
—E eu? Você tem dúvidas sobre isso também?
Faith sentiu as mãos ficarem ainda mais molhadas e uma súbita onde de calor. A verdade era que não tinha. Ela sabia que acabaria, que a faculdade ficaria sempre no meio. E ela largaria tudo pra ir, e eles não ficariam juntos.
—Acho que o seu silêncio disse tudo. Melhor nos poupar sofrimento depois, e terminar isso agora.
Não houve tempo pra respostas, pois Joan saiu apressado, deixando Faith pra trás. Mesmo que sentisse seu coração em pedaços, não choraria. Ela sabia que isso um dia aconteceria. Mas Joan era seu melhor amigo. Estavam a dois anos juntos, e não conseguia imaginar ninguém que fosse tão especial em sua vida quanto ele. Mesmo que o relacionamento não fosse funcionar, não queria que perdessem a companhia um do outro.
Assim que contou as amigas Marie e Lola o que havia acontecido, ambas ficaram chocadas e depois caíram na gargalhada.
—Não dou um dia pra que vocês esqueçam isso e voltem, nunca que vocês vão terminar assim.
—E outra – Começou Lola. Faith nunca costumava prestar atenção no que ela dizia, seus dentes com aparelhos sempre a desconcentrava. —Você o ama, não é?
—Amo! —Ela tinha praticamente certeza disso, mas algumas vezes, se sentia presa. Fazia tantos anos que não sentia o frio no estômago, ou uma certa adrenalina, que se sentia mal e se perguntava o que estava fazendo. Será que ela não o amava mais?
—Então, fica calma. Ele vai perceber quanto foi idiota, e querer voltar. Agora, vocês poderiam me ajudar a conseguir fazer aquele cara novo da aula de Inglês, se apaixonar instantaneamente por mim?
—De quem você tá falando Marie? —Lola começou a rir, e novamente seus dentes tortos com aparelhos desviaram a atenção de Faith.
Ela podia ouvir o que elas estavam falando, mas, ao mesmo tempo, parecia viajar para outro planeta. Acontecia isso várias vezes por dia, como se uma rádio tentasse se conectar com ela, mas sempre havia um mal contato.
Quando voltou a si, elas ainda estavam discutindo sobre o cara novo.
—Ray? Ele tem cara de esnobe, e ainda por cima, fiquei sabendo que Joy já tava de olho nele Ma, se você quer competir com ela, boa sorte.
—O que você acha, Fai?
Marie parecia desolada, com seus grandes olhos azuis com muita sombra preta, deixando sua goticisse, ainda mais triste.
—Vá fundo, se é isso que você quer.
Faith tentou soar confiante, mas estava tão longe de si; a abraçou rapidamente e seguiu até a próxima aula. Foi quando a coisa mais anormal aconteceu. Faith sentiu uma leve tontura, e tudo pareceu sair do lugar. Os blocos das paredes começaram a se separar, e uma luz subitamente apareceu no teto.
O quer que fosse, mais parecia um sonho. Então a luz sumiu e em seu lugar veio a escuridão que a fez cair. Ela estava delirando, mas tudo parecia real demais.
Tão de repente como começara, tudo cessou.
Percebeu que ainda estava no corredor, caída no chão, com todo mundo olhando pra ela. Novamente, sentiu a sensação gélida no corpo que fez seu estômago embrulhar. Algo muito errado estava acontecendo.
Faith sentava ao lado de Joy, como fazia desde o primeiro dia de aula, tentou não mostrar o quão assustada estava. Elas eram amigas desde o jardim de infância, mas com o passar dos anos perceberam que eram diferentes demais, com algumas rixas nascendo entre elas.
—Nossa amiga, você está com uma cara horrível. Isso é porque você e o sapo da lagoa, terminaram? Não posso dizer que estou triste com isso, você está muito melhor sem ele. —Joy deu um sorriso amigável, e um tapinha nas costas de Faith, depois voltou-se sua atenção para Ray que entrava na sala.
Joy raramente parecia interessada em alguém, e se Ray conseguia chamar tanto sua atenção assim, ele devia ser de algum modo muito especial, notou Faith. Ele realmente não era feio. Seus cabelos pretos mal cortados lhe deixava uma aparência rebelde; sua pele pálida combinando com a cor de seus olhos violetas, faziam com que você fosse sugada para dentro daquele oceano infinito. Seu jeito de andar era intimidador, assim, como sua expressão de “Não se aproxime”. Se pudesse descrever ele, seria a forma exata de um Anjo Caído, porém, ele não era seu tipo. Preferia os bem-humorados e que estivessem sempre sorrindo, Ray era misterioso demais.
Joy cutucou Faith enquanto Ray passava por elas e sentava-se à carteira ao lado de Faith. Era uma distância mínima, mas a garota ficou aliviada por ela estar ali.
—Eu preciso chegar perto dele. Troca de lugar comigo. —Pediu Joy. Faith podia aceitar e não pensar mais no assunto, mas invés disso, recusou.
Joy lhe deu uma olhada feia, ignorando Faith o restante da aula. Por mais horrível que fosse, Faith gostava da sensação de não ceder aos caprichos dela.
No final da aula a professora mandou todos fazerem pares e Faith foi a única sem um parceiro. Joy havia ficado realmente brava, então sentou com uma das suas seguidoras, que ficavam perto o bastante de Ray.
—Sra. Miller, ache um par logo se não, vou escolher eu mesma. —Berrou a Professora Smith, que não levantou os olhos de seu jornal velho.
Faith olhou em volta para suas opções. Tinha Zac que cuspia toda vez que falava, Meredith que tinha uma queda por Joan, e Ray.
Ela virou o rosto para o lado para perceber que Ray olhava diretamente em sua direção. E, não poderia ser mais desconfortável, ele ainda a olhava com aqueles olhos tão azuis, que fazia com que se imaginasse flutuando neles.
—Posso ser sua parceira? —Perguntou. Se ele dissesse não, teria que fazer parceria com Zac, e isso seria horrível.
—Sim.
A professora passou o tema, junto com algumas perguntas dos quais eles teriam que responder depois de realizar a pesquisa. Ray não parecia copiar nada, e Faith teve certeza que faria aquilo tudo sozinha.
—A gente pode fazer isso depois da aula?
—Não posso. —Respondeu Ray.
—Então, vamos separar o que cada um faz e depois, juntamos.
—Tudo bem.
—Eu não vou fazer tudo isso sozinha, não é?
—Você é mesmo chatinha. —Ray sorriu, e levantou-se no momento em que o sinal tocou.
Faith demorou alguns segundos para alcançar ele no corredor. Ele parecia disperso, como se o que ele havia acabado de dizer, não fosse nada.
—Ei.
—Sério, você não tem nada melhor pra fazer? —Ray sorria, mas não de um jeito amigável.
—Você vai me ajudar a fazer isso, querendo ou não. E não fale comigo como se me conhecesse, idiota.
—Tanto faz.
**
Desde que começara a namorar Joan, Faith prometera que não fumaria mais. Mas, estando nervosa e triste ao mesmo tempo, sentiu uma leve vontade de voltar com os velhos hábitos. Pegou um cigarro com Lola e foi para os jardins. Enquanto a fumava descia até seus pulmões e queimava, sufocando-a, sentiu-se mais calma. Era horrível tudo no ato de fumar, mas a sensação era maravilhosa.
Do outro lado do jardim, ela pode ver Joan conversando com seus amigos de time. Ele parecia rir e fazer uma imitação de algum filme, do qual Faith não conseguia distinguir.
De um modo diferente, ele era maravilhoso.
Seus cabelos louros rebeldes não paravam no lugar, enquanto o vento soprava-os, o que realmente irritava Joan, e Faith costumava rir disso. Mas ali, vendo-o feliz, sem preocupações ou ela, a fez pensar que talvez seja algo bom estarem separados.
—Estive pensando sobre fazer o tal trabalho. Tenho um lugar em mente.
A voz trouxe uma raiva à tona, assim que a escutou. Ray estendeu a mão para ela, como se pedisse o cigarro, mas Faith o levou a boca e puxou uma longa tragada.
—Onde?
—Martvez’s
Dessa vez, quando a fumaça subiu Faith engasgou-se com ela.
—Você está louco? Minha mãe jamais deixaria eu ir lá.
—Eu trabalho lá, então, esse é o único jeito. Tenho um intervalo às nove, não se atrase.
**
As nove horas, Faith estacionou em frente ao Martvez's e ficou falando baixinho consigo mesma. Era uma má ideia fazer isso, e ela não era uma pessoa que saia da linha. Aquele lugar era conhecido por prostituição, bêbados tarados e muitas vezes só bêbados, drogas e pessoas esquisitas. Mesmo assim, tomou coragem e saiu do carro.
Assim que passou pela porta, sentiu o cheiro de maconha. O estômago embrulhou e teve a sensação que mais tarde, passaria mal. Não dava pra enxergar muita coisa, com todas aquelas luzinhas coloridas rodando pelo lugar, mas Faith seguiu até o bar.
Ray estava atendendo um cara com uma barba enorme, que fez Faith ficar encarando até ele perceber, o que não pareceu nada bom.
—Quer alguma coisa, gatinha?
Faith olhou rapidamente pra Ray, procurando ajuda, mas ele, estava sorrindo com a situação. Depois a chamou para trás do bar, onde entraram em uma sala vazia, que parecia muito com uma adega/dispensa.
—Esse lugar é nojento.
—Sério? Achei que gostaria daqui, é a única sala onde não tem ninguém se agarrando. —Ray sentou-se em um dos sofás rasgados, e fez gesto para que ela se juntasse a ele. Então, notou a cara de Faith, com que não tinha entendido e começou a rir. —Oh, você está se referindo aos bêbados e drogados lá fora. Eles não são tão ruins.
—Você é estranho.
Faith sentou-se ao seu lado e passou-lhe os cadernos. Havia feito metade da pesquisa em casa, mas não queria dar satisfação a Ray por não fazer nada.
—Não sei o que é estranho. Pra mim, tudo é muito normal. E você é a pessoa mais normal que eu já conheci.
—O que te faz pensar isso? —Era estranho ouvir alguém que nem conhecia, falar tão intimamente dela, como se houvesse esse tipo de liberdade entre eles. Invés de responder, Ray sorriu consigo mesmo e mudou de assunto.
—Então, o que eu tenho que fazer?
Faith passou-lhe as perguntas, e ele começou a respondê-las. Não demorou cinco minutos para que ele as terminassem. Era incrível e assustador ao mesmo tempo.
—Só isso? —Ele estava cheio de si, Faith pode notar. Ela simplesmente concordou. —Então, acho que não teria problema você ficar e tomar alguma coisa.
Sem ter intenção, ela começou a sorrir.
—Tá me chamando pra sair?
—Não. —Ray fez uma pausa. Ele se aproximou de Faith e segurou seu pulso. Uma faísca de eletricidade pareceu lhe tocar rapidamente. —Estou chamando pra tomar alguma coisa.
Mesmo sendo algo que nunca havia lhe passado na mente, Faith concordou. Enquanto via Ray lhe entregar uma dose de tequila, teve certeza que nada poderia terminar bem.
Na terceira dose, sentiu seus dedos dos pés adormecerem e teve uma súbita vontade de dançar. Era incrível o que o álcool fazia. Enquanto dançava – as vezes sozinha e outras com alguém se esfregando nela – percebeu que não conseguia mais pensar claramente. Olhava para as luzinhas coloridas e sentia sua cabeça girar junto.
Correu para o balcão a procura de Ray, mas ele não estava lá. Então, tentou fazer passagem para fora, mas suas pernas não conseguiam colaborar. Quando finalmente ultrapassou pela porta, se abaixou e pensou que vomitaria tudo que havia comido a vida inteira.
Mas o vômito nunca veio. O que aconteceu foi que dois caras muito mais bêbados começaram a chamá-la e se aproximar. Por mais que Faith tentasse correr, sabia que nunca conseguiria chegar no carro a tempo e dirigir.
A única coisa que conseguiu fazer, foi paralisar.
—Ei, quanto é? E não se faça de difícil benzinho. —Um deles falou. O cheiro dele era insuportável, e quando tentou abraçar Faith, ela pensou que finalmente vomitaria.
O que aconteceu em seguida ela não teve certeza. Um deles caia no chão, e o outro, sob um carro ao lado. Ray segurava seu braço com força, fazendo-a andar muito rápido. Assim que entraram no carro, ele dirigiu de uma maneira que achava impossível, fazendo a cabeça de Faith rodar ainda mais. Ela acabou adormecendo.
Quando acordou percebeu que estava novamente no quarto, deitada na própria cama, mas ainda usando as mesmas roupas. Estava escuro, e não parecia que amanheceria logo.
Tentou levantar, mas doía a cabeça e no fundo dos olhos. A ressaca estava insuportável. Ficou repassando os acontecimentos daquela noite na mente, e tentou entender como acabara do jeito que estava. Havia dançado com um monte de gente no Martvez's e isso era uma coisa totalmente fora do contexto em sua vida.
Faith estava sorrindo pra si mesma, como se conseguisse sentir o frio no estômago.
Acordou novamente e o sol já entrava pela janela. Tomou banho, se arrumou e desceu para a cozinha. Sua mãe estava a esperando, de braços cruzados contra o peito, com uma expressão muito séria.
Faith conhecia bem aquilo. Elas teriam uma briga feia.
—Não vi você chegar. —Começou Agnes, que mantinha os olhos tão pretos quanto a noite, focados em Faith.
—Não demorei muito e fui direto pro meu quarto.
—Você sabe muito bem que sei quando mente. Se você foi em algum lugar que eu não gosto…
—Você vai fazer o que, mãe? Me trancar dentro de casa? Só porque você é amargurada e não tem ninguém com quem sair, não quer dizer que eu tenha que ser igual a você. Dá um tempo, okay?
Faith pegou a mochila encima do balcão e saiu apressada, batendo a porta atrás de si. Sentiu as lágrimas atrás dos olhos, mas fez força para não chorar. Fazia tempo que vinha remoendo aquelas palavras e agora que finalmente tivera coragem pra falar, se sentia horrível.
Assim que chegou no jardim da escola se arrependeu por ter pego aquela rota. Joan estava parado olhando pro horizonte, até que seus olhos se focaram nela, e ele começou vir em sua direção.
Realmente, ela não precisa disso agora. Queria correr, se enfiar em algum buraco, mas não ter que conversar com Joan naquele momento.
—Ei.
—Ei. —Respondeu Faith. Ela conseguia notar a tensão em seus muculos, e o quanto ele estava se esforçando para não beijá-la ali mesmo.
—Estava esperando você, pensei que poderíamos conversar.
—Não.
—Como é? —Ela podia ver a confusão em seus olhos, e depois, sentiu sua dor como se fosse dela.
—Não quero conversar sobre nós dois. Não quero voltar pra você. Não posso fazer isso, não agora.
Mesmo que quisesse não conseguia suportar olhar para Joan enquanto lhe dizia isso. Seus olhos lacrimejaram, e ele fez força para não deixar as lágrimas saírem. Era de partir o coração, então Faith seguiu caminho, como se aquilo fosse melhorar alguma coisa.
Agora, ela tinha certeza de que não o queria mais. Toda adrenalina que sentira na noite passada havia lhe mostrado isso. Mesmo que ainda o amasse, precisava sentir um pouco de liberdade, fazer coisas imprudentes, e sentir-se viva. Será que estava sendo egoísta por agir assim? Mas ela havia vivido em um casulo sua vida inteira, sempre fazendo o previsível. Dessa vez, tentaria fazer tudo diferente.
Assim que entrou na sala de Inglês, viu sua chance. Mesmo que achasse Ray pretensioso e arrogante demais, ele tinha algo que despertava a selvageria nela, e era o que precisava. Foi direto ao seu lado, e sentou-se, sem esperar um convite. Ele a olhou surpresa, sem demonstrar nenhum incomodo.
—Vejo que está melhor.
—Falando nisso, obrigado. Não sei como conseguiu entrar e sair sem que minha mãe percebesse. Noite passada foi demais.
Ray sorriu. Era estranho vê-lo sorrir, porque mesmo que seus lábios fizessem a curvatura, ele ainda parecia sério.
—Eu estava pensando…
—Não. —Disse Ray, como se fosse um sussurro. —Eu não sou uma boa companhia.
Ficou calada alguns segundos, até perceber o que ele queria dizer.
—Exatamente, é disso que eu to precisando.
—Faith se você quer ter sua fase rebelde, ache outra pessoa. Você não quer ser minha amiga.
—Isso foi muito careta, mas vou ignorar. Eu só preciso que você me leve a lugares legais. Você com esse jeito “eu não ligo pra nada” deve conhecer lugares muito divertidos. E eu só quero me divertir.
Ray bufou. Ele estava cedendo.
—Te pego às dez. Vista algo menos isso. —E apontou pra roupa de Faith. Não sabia o que tinha de errado com a camiseta do Doctor Who e os jeans gastos que estava usando. Era uma roupa normal, e é claro que eu não usaria aquilo. Ela poderia se sentir ofendida, mas a adrenalina que corria pela sua veia a deixava alegre demais.
**
Hás dez já estava do lado de fora esperando por Ray. Vestia um vestido tubinho preto curto, que marcava bem suas curvas; e um salto não tão alto vermelho. Fazia tanto tempo que não se arrumava que sentia-se estranha. Os cabelos estavam lisos e soltos, e na parte da maquiagem optou por um batom vermelho e mascara de cílios, que sempre achava que destacava seus olhos verdes.
Ray não demorou muito pra chegar, o que Faith realmente agradeceu por isso. Não tinha falado com a mãe o resto do dia, e esperava que a primeira coisa que ela dissesse fosse que não sairia de jeito nenhum.
Teve um pouco de dificuldade para entrar no carro, percebendo que Ray achava muita graça nisso.
—Queria que você vestisse esse vestido, veria que não é tão engraçado quanto parece.
—Você é toda desengonçada, mesmo quando está linda.
Faith recebeu o elogio com um soco na boca do estômago. Não imaginara que Ray pudesse dizer algo como “linda” pra ela, sem usar sarcasmo. Isso a deixou em dúvida se deveria responder ou não. Achou melhor mudar de assunto.
—Onde vamos? —Perguntou. Tentava esconder com os cabelos, o quanto havia corado.
—Ah, você vai ver.
Eles saíram de Danville, e foram pra cidade vizinha. Como era apenas alguns minutos de carro, não parecia grande coisa. Faith não tinha muito o que conversar com Ray, mas ficou contente quando ele ligou o rádio e suas músicas preferidas começaram a tocar. Só percebeu que estava cantando realmente algo, quando Ray tamborilando no volante, começou a rir. Pela primeira vez, Faith conseguiu ver ele de maneira diferente. Não tão sério quanto no dia em que se falaram pela primeira vez, mas como se aos poucos conseguisse ver por trás de tantas barreiras.
—Você é muito desafinada. —Ele disse brincando.
—Como assim? Eu pratico muito no chuveiro. —Faith percebeu que ele sorriu de maneira diferente, e como se conseguisse ler seus pensamentos, disse: — Seu pervertido.
—Não tenho culpa, você não me deixa escolhas usando esse vestido.
Mesmo em tom de brincadeira, Faith corou. Não tinha prática em flertar, muito menos, de receber elogios tão diretos. Joan não era nada como Ray. Sempre elogiava-a de maneira sutil, delicado. Ray por outro lado, fazia de maneira esportiva e muito mais sensual, como se suas palavras fossem apenas a ponta de um iceberg, e suas expressões, o modo como as palavras soavam, fosse o resto.
Poucos minutos depois eles encostaram o carro na beira de uma estrada, em baixo de uma grande árvore. Faith percebeu que estava rodeado de carros o lugar, mas não havia ninguém à vista, ou sequer um barulho.
Ray olhou para ela, tentando desafiá-la a saber onde estavam, mas ela não diria nada, esperaria ele fazer o primeiro movimento.
Pareceram longos dois minutos quando Ray abriu a porta e saiu. Faith não esperou nenhum cavalheirismo, abrindo a porta para si mesma. Era uma noite fria e úmida, e ela estava começando a se arrepender de ter vestido algo tão apertado e sem nenhum modo de tampar o frio.
Ela seguiu Ray para o outro lado da estrada e esperou alguma coisa acontecer. Ficou espantada com o que viu. Ele puxou a porta de um alçapão, e uma luzes de todas as cores surgiram no céu escuro.
Era uma boate subterrânea. Enquanto descia as escadas, imaginou o que Ray pensaria para trazê-la ali. Podia ouvir agora, perfeitamente a música estrondante que contagiava o lugar, as pessoas com tatuagens florescentes dançando, enquanto alguém passava com uma garrafa, jogando tequila na boca das pessoas.
—Bem-vinda a Wonderland
A primeira coisa que pensou em fazer foi uma tatuagem florescente. Parecia realmente legal, e ela sempre vira em filmes e não poderia desperdiçar aquela oportunidade. Quando a dose de tequila chegou, ficou eufórica em saber que sentiria mais uma vez aquela ardência descer pela sua garganta.
Ninguém se importava em como ela estava dançando, mas sim, que queriam dançar com ela. Faith realmente estava em Wonderland. Então, olhou ao redor procurando por Ray, pra vê-lo conversando com uma garota. Eles estavam a poucos centímetros de se beijarem, e a conversa parecia intensa.
Não demorou mais que alguns segundos olhando, porquê alguém a puxou pela cintura e começaram a dançar. Não conseguia olhá-lo direito, com todas as luzes e empurra-empurra, mas não recusou quando se aproximou para beijá-la. Era a primeira pessoa que beijava sem ser Joan, e estava sedenta para descobrir como era beijar outra pessoa. Ele era devagar demais, ou suas sincronias não estavam no ritmo certo, mas em todo, ela sentiu decepcionada consigo mesmo. Será que eu não conseguiria fazer aquilo com mais ninguém?
Mas depois de alguns minutos, finalmente conseguiram entrar num acordo.
—Quer ir pra um lugar mais sossegado? —Ele gritou ao seu ouvido.
Ela não sabia se era uma boa ideia, mas como estava ali para conhecer coisas novas e se divertir, balançou a cabeça, concordando.
Entraram em uma lateral, onde o cômodo estava lotado de sofás e mesas. Se sentaram em um sofá vazio, e continuaram os amassos. Quando seu lábio estava inchado, e seu tédio tomara conta, resolveu que era hora de voltar pra pista de dança.
Ray não estava no mesmo lugar que o vira antes, o que indicava que ele deveria estar em algum lugar mais “sossegado” com a garota que estava conversando. Levou um susto, quando ele tocou seu ombro, provando que eu estava errada.
—Vamos pro bar.
Assentiu. Se sentaram um ao lado do outro, e Ray pediu conhaque para ambos. Ninguém pediu identidade, o que indicava que ali as coisas eram tudo “por baixo do pano”.
—Se divertindo? —Perguntei.
—Não tanto quanto você.
Sorri, um pouco envergonhada. Ray não parecia mesmo estar se divertindo, o que era estranho para alguém que conhecia tantos lugares legais.
—Quer sair daqui? —Podia ser todo o álcool que consumira, ou simplesmente por prazer, mas realmente queria sair dali com ele.
Ray levantou-se e a puxou da cadeira. Ambos subiram as escadas e saíram novamente para a noite fria. Chegaram no carro, entrando rapidamente como se suas vidas dependessem disso. Depois, o momento embaraçoso antes de um se aproximar do outro.
Foi Faith quem puxou Ray pelo colarinho da camisa, fazendo-o se aproximar dela.
Assim que seus lábios se tocaram, ela sentiu-se como se estivesse em uma montanha-russa. Jamais havia sentido aquilo. E ao mesmo tempo que era assustador, era incrível. Não foi nada parecido com o cara da balada. Ambos tinham o mesmo ritmo, o que fazia, quererem sempre mais.
Ray a puxou para seu colo, e Faith brincava de morder seu pescoço. Era tão natural, que parecia ser mais um beijo. Sentiu Ray deslizar a mão na sua coxa, erguendo o vestido, de modo que ela sentia um frio na barriga. Mesmo que estivesse com medo, não o impediu.
Ela também aproveitou para pôr a mão por dentro de sua camisa, acariciando seu peito, que era incrivelmente definido.
—Faith. Acho. Que. Isso. Não. É. Uma. Boa. Ideia. —Sussurrou Ray dentre os beijos.
Faith parou e olhou para si mesma. Estava com o vestido erguido até a cintura; os cabelos todos engrenhados e Ray praticamente sem camisa. Uma onda de calor e vergonha começaram a acontecer dentro dela. O efeito da bebida parecia passar, e isso não estava ajudando.
—Acho que você está certo.
Ela saiu do colo de Ray e pulou para o banco ao lado, se arrumando novamente. Pareceu uma ideia ligar o som e deixar aquele momento constrangedor ser sugado pelo barulho, mas ninguém se mexeu.
—Você quer entrar novamente, ou…?
—Não, quero ir pra casa.
Ray assentiu e começou a dirigir. Faith queria chorar ou gritar, ou os dois juntos. Quando estava com Ray era tão impulsiva que tinha raiva de si mesma.
Assim que ele estacionou em frente da sua casa, ela não conseguia se mexer. Queria poder dizer algo, que aquilo não fora nada demais, mas não conseguia.
Então, para sua surpresa, Ray se aproximou tão rapidamente, que ela não teve tempo de reagir. Ele a beijava com tanta paixão, que Faith sentiu-se se entregando novamente para ele. Ficava tão vulnerável enquanto ele a beijava, que chegava a doer.
Quando ele se afastou, levou alguns minutos para finalmente tomar coragem e sair do carro. Enquanto andava até o quarto, sorriu para si mesma. Era uma idiota, mas não ligava nem um pouco.
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