Notas iniciais
{capítulo revisado :: 02/08/2015 :: 22:03} Olá, caro leitor! Em primeiro lugar, quero te agradecer por estar dando uma chance para DOTF. Espero que você tenha o mesmo gosto de ler assim como eu tive ao escrever a história e sinta-se livre pra me alertar de qualquer errinho que reparar durante os capítulos. Uma ótima leitura e até as notas finais! [:

Nunca tive tempo — ou quis ter — para pensar em meu futuro. Nunca tive interesse em imaginar meus filhos correndo por esses corredores gelados ou trancados dentro de uma cabine sem vida.

Desde meus dez anos — depois que vi uma mãe debruçar-se nos braços do marido quando o filho invadiu o Controle e, independente de ter quatro anos, foi condenado a uma morte rápida — fui questionada por velhos rabugentos que achavam inaceitável termos escolhas entre ter filhos ou não. Que nossa raça estava em nossas mãos, e era uma obrigação reproduzir. Mas de maneira alguma eu gostaria de ver uma criança que amo presa dentro de um lugar branco e sem a liberdade de fazer o que quisesse — ou morta por fazer o que quisesse.

— Audrey, querida — chamou-me minha mãe, e ergui a cabeça —, eu e seu pai... nós gostaríamos de conversar com você a respeito de uma coisa.

Minha mãe era uma mulher admirada e respeitada por grande parte dos integrantes do Controle, assim como pelas pessoas a quem já havia ajudado ou fornecido comida. Era uma mulher jovem, se não fosse pelos poucos cabelos brancos que se revelavam aos poucos e os olhos cansados que não combinavam nem um pouco com o sorrisinho alegre que sempre exibia.

Ela e meu pai sentaram-se ao meu lado e me encararam por um tempo, trocando olhares nervosos.

— Desculpe por não comentarmos sobre isso com você antes, mas... — meu pai torceu a boca, e continuou — é uma coisa que grande parte dos pais não gostam de falar a respeito. Quando...

— Você completa quatorze anos — interferiu minha mãe, encarando-o, desapontada — o Controle envia três instrutores que se responsabilizam por recolher todos os garotos e garotas entre essa idade para serem transferidos a outra estação...

— Estão me expulsando de casa — interrompi antes que ela mesma dissesse. E isso tinha ficado claramente óbvio nos últimos dias —, não estão?

Papai abriu um sorriso discreto.

— Claro que não! Audrey, como você sabe, pode haver outros ataques...

Diga que não é o que estou pensando, por favor. Apenas diga que está brincando. Realmente expulse-me de casa se necessário.

— ...e o Controle quer estar preparado pra isso de todas as maneiras possíveis. Esses três instrutores irão recolhê-los e levá-los para outra estação que nós... nós não temos permissão de entrar.

Alguém bateu na porta e um arrepio me acometeu. Papai ergueu-se calmamente e caminhou até a porta enquanto mamãe explicava-me o restante, mas sequer prestei atenção. Como eles poderiam estar simplesmente me entregando a eles? Jogando-me como um brinquedo com defeito para o Controle, independente que eu possa morrer ou não. Mamãe levantou-se em seguida, puxando-me pelo braço em direção a porta. Eu sequer conseguia me mover ou questioná-los, sequer conseguia...

— Senhor e senhora... — o instrutor estreitou os olhos e releu o que estava escrito em um papel que segurava — Hud... Hudson?

Meu pai concordou com a cabeça, cabisbaixo.

— E você deve ser Audrey, certo? — Ele sorriu para mim e prosseguiu lendo seus papéis, ajustando os óculos de vez em quando. Não parecia estar com pressa para recolher os outros cinquenta ou mais jovens de quatorze anos. — Você deve vir comigo, mocinha. Não é necessário que leve nada, o Controle doará tudo assim que chegarmos.

Dei um passo à frente e olhei de relance para minha direita: uma menina ruiva debatia-se nos braços de um instrutor rígido e musculoso enquanto a mãe começava a derramar-se em lágrimas. Quem imaginei ser seu pai — um velho de cabelos grisalhos — sorriu para o instrutor e olhou para filha com desaprovação, depois, fechou a porta. Como alguém seria tão estúpido dessa forma? Como ele, um pai, a encararia como se fosse um animal que acabara de fazer algo errado na última vez que a veria? Se as pessoas tivessem um pouco de coração... talvez, mas talvez mesmo, o mundo pudesse ter uma salvação.

Sereno, o instrutor indica sua esquerda com a cabeça e viro-me para acompanhá-lo, mas antes que ele me impeça, retorno e abraço meus pais por mínimos segundos até que ele perceba e mande-me seguir a rota.

— Você fará a diferença, Audrey — gritou meu pai, tempo depois de o instrutor retornar, sorridente.

Tropeço no degrau de uma porta estreita que me aguarda a seguir e que eu não costumava ver com muita frequência e não ouso olhar para trás — para minha antiga estação.

Junto-me a outra multidão de garotas que se aglomeram no canto de uma sala branca, em silêncio, e vejo algumas espiando um garoto loiro que sorria para elas de vez em quando. A menina ruiva entra na sala em seguida e senta-se ao meu lado, com a cabeça abaixada, e juro que procuraria uma forma de consolá-la de não fosse por uma mulher de estatura alta e longos cabelos negros clamar por atenção — Dhalia.

Dhalia foi uma das únicas mulheres a ter conseguido sobreviver aos primeiros ataques e auxiliado a fundar essa resistência. Eram mínimas as vezes em que o nome dela era mencionado — nas aulas, raramente, mas que só aconteciam aos sábados — e sempre estavam ligados a algo que chamavam de Fúria, mas nunca tive interesse em me aprofundar no assunto.

— Primeiramente, eu lamento por precisarmos tirá-los de suas famílias tão cedo... mas, como vocês sabem, o futuro da humanidade está nas mãos de cada um aqui presente. Nós precisamos de vocês.

— Precisam é de distrações — murmurou a garota ruiva, um pouco alto de mais.

Dhalia revirou os olhos, um pouco desconfortável.

— Gostaria de compartilhar algo conosco, Molly?

Molly balançou a cabeça e se encolheu, afastando-se de mim.

— Sem mais interrupções? — Dhalia prendeu os olhos em Molly e abriu um sorriso discreto munido por satisfação, então, prosseguiu — Nosso principal intuito é treiná-los para tornarem-se verdadeiros soldados e futuramente, se necessário, lutarem pela sua espécie. E, sinceramente... muitos aqui não irão passar pela Preparação. Portanto, esforcem-se. Vai ser bem mais difícil do que esperam.

Minha respiração acelerou no segundo que uma mulher de estatura baixa entrou carregando uma vasilha completa do que consegui distinguir como chips e entregou um aparelho preto em forma de L para um dos instrutores.

Eu realmente me tornaria mais um brinquedo com defeito do Controle.

Notas finais
Obrigada por ler! xx