Descendência do mal

3 La mort de lamour A morte do amor


Notas iniciais
Segundo capítulo, desculpem a demora, mas não fico com computador sempre, então é isso... Boa leitura, espero que gostem!

Capitulo 1 –

La mort de l'amour (A morte do amor)

...

‘’Quando você não tem um lar e passa a vida fugindo de país em país, cresce algo diferente por dentro, talvez um órgão novo que nos ensine como não confiar em ninguém; não sair das sombras; e não matar, literalmente, os funcionários do hotel quando eles estragam sua melhor camisa Gucci. Ambas as habilidades estão ligadas a único propósito: Não ser descoberto, e consequentemente não ser exposto ao perigo.’’

Depois de viver como acompanhante de luxo por vários anos, Bastien já havia adquirido fortuna suficiente para se mudar para outro país. E percebera agora, com mais espanto, que com o passar do tempo seu belo rosto não mudava, seu corpo continuava forte e imponente, sua vitalidade e consciência se tornava mais pura, refinada pelo tempo e experiência.

Em um ciclo repetitivo e cansativo de viagens, festas privadas e sexo, Bastien conheceu Benjamin, um rico e conhecido jovem que conquistara fortunas ameaçando senhores e senhoras da sociedade burguesa com seus comportamentos um tanto peculiares. Viera de uma família pobre e assim como Bastien, sua beleza era sua arma mais poderosa. Os cabelos ruivos no ombro, a aparência aristocrática e leve, as sardas espalhadas pelo rosto como uma constelação acentuada pelo par de olhos verdes faziam com que ele fosse presença constante nas festas e encontros da alta sociedade francesa. Com ele Bastien aprendeu a dominar cada aspecto da mente humana, seus medos, suas fraquezas, e principalmente como desfrutar de cada uma dessas coisas.

Benjamin era um abutre a procura de fraquezas

Bastien era a fraqueza de muitas daquelas pessoas

Junto com a experiência que ele adquirira veio algo que Bastien não esperava: ele se apaixonara por Benjamin. Talvez tivesse encantado por passar tanto tempo com alguém que tinha a mesma vida vulgar, talvez fosse sua beleza acima da média ou sua sagacidade desconcertante. Mas a cada dia aquele sentimento devorava suas entranhas.

Porém se se apaixonar significava perigo, se apaixonar por alguém como Benjamin era assinar uma sentença de morte.

Em uma das festas eles conheceram o conde Beraurdo. O conde era um velho e solteirão que viera de Bordeaux. Beraurdo tinha tanto dinheiro quanto Bastien e Benjamin poderiam sonhar ter um dia e estava tão perto da morte quanto ambos não queria estar. Planejaram então fugir mais uma vez, a Europa era grande e a França diminuía cada vez mais aos pés deles, mas precisavam de dinheiro, e o conde era a oportunidade perfeita para conseguirem. Bastien propôs que levassem algumas joias, coisas pequenas que pudessem levar no meio da noite sem que os empregados da mansão de Beraurdo desconfiassem, mas a ambição de Benjamin era um oceano perto da simples necessidade de sobrevivência de Bastien e ele sugeriu que ficassem, se aproximassem do conde e o fizessem assinar, em uma de suas bebedeiras, um papel que faria de ambos herdeiros dele.

Por meses eles usaram a mascara de bons jovens desviados do caminho dos bons costumes, bebiam e passavam as noites com o conde, o sexo insuportável era uma pequena garantia da excelência do plano. Certa noite, depois de garrafas e garrafas de vinho espalhadas pelo quarto, Bastien trouxe um papel grosso, pena e tinteiro. Infelizmente Beraurdo não estava bêbado o suficiente e ao ler o papel, tomou conta de sua intenção, levantou ainda tonto da cama, gritando de fúria.

Não por muito tempo, antes que ele pudesse alcançar a porta, Benjamin – décadas mais jovem, e portanto muito mais forte e rápido – jogou-se por cima dele e o derrubou no chão, ordenou a Benjamin que o ajudasse e ambos prenderam pelas costas o conde a cabeceira da cama com uma improvisada algema grossa de gravatas. Foi então quando Benjamin tirou do paletó uma faca pequena faca dourada e colocou no pescoço do conde e mandou-lhe que assinasse o papel ou sangraria como um porco até ir para o inferno. Bastien estava encantado e excitado com a violência e o poder que sentia pairar no ar naquele momento.

— Assine o papel e vamos embora, caso contrário não me importo em sentar naquela poltrona e deixar você sangrar até a morte enquanto assisto — disse Benjamin com a faca formando um pequeno sulco no pescoço gorducho do conde — quando seus empregados desconfiassem de algo, você estaria tão duro quanto seu pênis fica quando vê um jovem que pode comprar com seu maldito dinheiro.

O conde aceitou e assinou o papel, trêmulo e vermelho. O medo em seus olhos alimentava a ambos, os fazia poderosos, mesmo que apenas por aquele momento. Bastien pegou no ombro de Benjamin e o advertiu sobre a demora, os guardas eram atentos, percebera isso quando olhou pela grande janela e viu dois deles caminharem pelo jardim. O tempo se tornara seu inimigo.

Quando o conde entregou o papel, Bastien cortou o pescoço do conde em um golpe tão rápido e certeiro que seus olhos continuaram abertos mesmo depois de morto. O plano era que fugissem o mais rápido possível, e depois de dada a notícia da morte – Beraurdo não era alguém muito amado pelas pessoas, era conhecido por ser mesquinho até com a família, e corria pelas ruas da França boatos de que ele fazia suas amantes abortarem para que não deixasse sua herança, fato esse que seria de grande ajuda para o plano – eles voltariam e tomariam posse da herança.

Correram rapidamente pelos corredores e escadas da mansão, os empregados não estariam em serviço aquele horário e com a cautela e naturalidade eles passariam pelos guardas. Porém quando estavam a dois metros do portão, aconteceu algo que mudaria a vida de ambos, para sempre.

O chefe da guarda havia descoberto o crime, pois uma serviçal pessoal de Beraurdo havia entrado no quarto e, em choque, denunciado o plano.

Cinco, talvez até dez guardas armados perseguiam Benjamin e Bastien pelo jardim, o muro estava a apenas alguns passos e eles poderiam pular. Eles poderiam escapar, mesmo que o plano tivesse afundado, a sobrevivência era a única coisa que importava naquele momento. Bastien corria sem dificuldades e sentia como se pudesse correr por toda a vida, sentia cada célula do seu corpo ganhar mais energia, como se fosse uma força da natureza, uma máquina ou até mesmo, um deus.

O mesmo não acontecia com Benjamin, que respirava com dificuldade e mesmo tão perto do muro, sabia que não conseguiria. E não conseguiu.

Antes que pudesse, assim como Bastien, pular o muro de pedras, um cão o agarrou pela perna e o puxou. Sentia sua carne ser descolada pelos dentes furiosos do animal. E logo fora agarrado por dois dos guardas, que batiam nele com barras de ferro. Antes que sua cabeça fosse aberta como uma melancia, Benjamin pensou em Bastien, e na tenebrosidade do seu coração, desejou que este conseguisse escapar.

Bastien, pela adrenalina do momento não parou, continuou correndo pelas ruas, durante toda a noite, até que em certo momento, sentiu-se tombar no chão, e apagou.