Desbravadora
2 Treinamento
Eu iria para a Terra com quinze anos. Treinariam-me até lá e eu estaria pronta. É o que eles diziam, mas eu não acreditava nisso, na verdade era mais medo que descrença.
Os sete arcanjos não me davam tempo para nada além de dormir.
Cada um me ensinava um pouco sobre como ser bom. Eu imaginava se o instinto de um anjo já não era ser bom, mas parecia que não, já que o mal viera de um arcanjo revolto que caíra do Cosmo.
Gabriel era o mais calmo, paciente e amigo. Ensinava-me sobre a paz, mostrava os efeitos de guerra na Terra, a desunião e, mais uma vez, o egoísmo.
— Sabe, eu tenho medo de errar com a Terra, de me tornar humana demais.
— Stela — diziam o meu nome com tanta firmeza, mas não sabiam como isso me amedrontava —, você foi uma escolhida, Deus chama à muitos, mas poucos são os escolhidos de verdade, poucos são realizadores da obra. E quanto a Terra, Deus não se cansa de corrigir!
Eu sabia que nunca entenderiam o meu receio, então me cabia apenas aprender o necessário, e dar sempre o melhor de mim.
Miguel falava sobre a importância da fé, da força de vontade. De como isso poderia mudar o mundo, realizar sonhos ou até mesmo pensamentos, sem o egoísmo e o orgulho.
Uriel, como protetor, falava da evolução, seus benefícios e malefícios. Procurava bons meios de fazer a Terra crescer sem o mal interior e exterior do próprio ser humano.
Rafael era como um médico, procurava a cura para todos os males, sempre de bom humor, porque dizia que o mal humor levava ao stress, que levava à tristeza, que levava à depressão, o qual ele considerava o pior deles, talvez porque a infelicidade torne todo o resto insuportável.
Jofiel, sábio como só, estava sempre inspirado, me ensinava a ver bondade nos detalhes mais insignificantes. Certa vez me fizera nadar no rio, só para que eu encontrasse algo bom, então, trouxe um cascalho redondo que encontrei no fundo. Imaginava o que aquilo significava para ele, mas parece que uma simples pedra o satisfizera.
Samuel me consolava quando sentia medo. Dizia que as criancinhas da Terra sentiam medo durante a noite e seus pais as acolhiam em um abraço cheio de amor e proteção, já as crianças abandonadas, quando tinham medo, Samuel estendia seu amor universal a elas que, talvez, fosse tão forte quanto um abraço.
Zaquiel gostava das coisas certas e eu aprendera muito sobre justiça e perdão com ele, sobre as semelhanças e diferenças que existiam entre os mesmos.
Os três anos se passaram rápido, mas foram os mais tensos da minha vida. E eu sabia que seria pior na Terra.
Além de me ensinar sobre valores, a Corporação me ensinava sobre humanos e como parecer uma. Os humanos eram diferentes, eram um lado mais perverso e ousado dos anjos. Portanto, nesses três anos aprendi como equilibrar o bem e o mal e eu precisaria dos dois bem equilibrados.
O dia tão esperado e temido chegara enfim. Luna me visitou na Corporação para dizer adeus. Há muito tempo não a via, sentia tanta saudade das nossas brincadeiras na Escola de Aprendizes, mas era um sacrifício por um bem maior, como dizia a Corporação.
Instruíram-me a ser o mais natural possível na Terra.
— Mas como eu vou chegar lá?
— Você já vai ver.
A ansiedade de ir para a Terra consumia o meu corpo, então fui sentar no gramado da Corporação, acabei me deitando. — Talvez, meus olhos abertos fitando as nuvens naquele momento não estivessem tão conscientes assim. — Um elefantinho orelhudo se desfazendo, formando um coração, do outro lado um par de óculos.
Rafael se aproximou, deitou ao meu lado na grama e pegou a minha mão.
— Você está trêmula.
— Estou prestes a executar a tarefa mais difícil da minha vida.
Ele sorri com aquele ar de que sorrir diminui os problemas.
— Você vai se sair bem, eu sei que vai.
Eu pensava se tanta confiança assim era bom, porque, talvez meu maior medo fosse decepcioná-los.
Os demais arcanjos vieram ao gramado, fizeram um círculo em volta de mim e Miguel perguntou:
— Está pronta Stela?
Respirei fundo e mesmo contradizendo meus pensamentos, falei:
— Como nunca antes.
Fechei os olhos e após alguns segundos os abri.
Eu estava deitada e milhares de tulipas coloridas estavam ao meu redor. Levantei-me perdida em meio a tanta beleza e meu olhar se perdera no horizonte inundado pelas flores. Eu estava sozinha.
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