Desavenças Às Avessas
5 Uma aposta?
Notas iniciais
O que eu posso dizer? Acabei de perder meu melhor amigo. Mas o problema é dele, o único prejudicado com essa situação. Afinal, eu sou o John. Preciso acrescentar mais alguma coisa? Pois é, também acho que não.
Mas eu já estava prestes a resolver o problema de não ter mais um melhor amigo.
- Bom gente, como eu ia dizendo, o David é um traidor. Ele nos trocou por aquela talzinha da Alice. Por isso, ele não é mais um de nós. Portanto, não precisam tratar ele bem.
- E daí? – Stela pergunta, enquanto fica olhando para suas unhas cor cobre, com uma cara de total tédio.
- Você ouviu o que eu disse?
- Sim, eu ouvi. E perguntei e daí. Ele nunca realmente fez parte do nosso grupo. David era a ovelhinha negra da família. Não acho que tenhamos perdido muita coisa.
Preciso me controlar para não manda-la calar a boca. Davi ainda era o melhor deles. Caramba, eu que eu estou pensando? Não posso e nem quero ficar defendendo um traidor.
- Você tem razão.
- Sabe o que eu acho?
Olho para Anita, que finalmente se pronunciou. Sabe o que eu acho? Que não estou nem aí para o que ela acha. Mas não é isso que digo.
- O que? – sou um perfeito cavaleiro, o que posso dizer?
- Que a Alice é o verdadeiro problema. Aquela garota está se achando a tal, mas não passa de uma qualquer. Ela é a raiz do problema. E tudo que precisamos, é arrancar essa raiz.
Olho admirado para Anita. Essa foi, sem dúvida, a frase mais inteligente e bem estruturada que já a ouvi dizer. Só para vocês terem uma ideia de como são as outras.
- Talvez você tenha razão, mas como faríamos isso?
- Fazendo-a recuar, colocando-a em seu lugar. Estamos em cinco, e ela está em uma, afinal David não conta. A nossa vitória é certa.
Anita deve realmente odiar essa garota, para falar desse jeito. Parece exagero, mas as frases dela geralmente são constituídas de até cinco palavras, então é fácil imaginar o porquê da minha surpresa e perplexidade.
- Eu concordo com a Anita. E vocês?
Stela, Edgar e Alex concordam de uma forma apática, parecendo alheios a conversa. Talvez eles nem estejam prestando atenção, mas estão aqui só porque os chamei.
Olho para meu relógio de pulso, que me informa que tenho pouco mais de três minutos, antes que a aula comece.
- Ok, então está tudo planejado. O plano é transformar a vida da Alice em um verdadeiro inferno, e de quebra, a do David também.
Todos concordam.
- E Edgar? Você vem comigo.
Ele fica me encarrando sem piscar, claramente não me entendendo.
- Eu não vou ficar sozinho feito um rejeitado. E você vai substituir o David. Agora vem, se não a gente vai se atrasar. Tem educação física, então vamos direto para o ginásio.
Ele concorda sem muito entusiasmo, e dá um beijinho de despedida em Stela, sua namorada. Aliás, esse namoro dos dois é simplesmente bizarro. Eles estão juntos desde o jardim de infância. Parece maluquice, mas é verdade. Foram seus pais que provocaram essa junção deles, mas o mais impressionante é o fato de eles se gostarem, ou o mais próximo que pessoas como eles são capaz de demonstrar afeto.
Seguimos em silêncio para o ginásio, e por onde passamos, algumas pessoas sem noção apontam pra mim e cochicham. Depois de algum tempo, me irrito e paro na frente de duas garotas.
- Por que não falam na minha cara?
Elas ficam pálidas, e parecem querer sumir da face da Terra. Mas naquele momento a metida da Alice aparece para querer dar uma de heroína.
- Por que você não as deixa em paz?
Ela me olha em desafio, com as mãos na cintura. Não deixo de notar David, o traidor, ao seu lado, também me olhando em desafio. De repente sinto uma vontade enorme de enforcar esse ser abominável. Trocar um amigo por uma garota desconhecida? Pior sacanagem da história. Só poderia ser pior se a garota em questão fosse minha namorada ou algo do gênero, o que graças a Deus, não é o caso.
- Quem chamou a pirralha aqui, hein?
- Se eu quiser me meter, o problema é meu. Você ta é com medo, porque sabe que não é páreo pra mim.
Minha boca se abre em um perfeito “o”, e minhas sobrancelhas quase somem da minha testa, enquanto ouço essa coisa absurda. Eu? Medo? Dela?
Parece que alguém andou cheirando achocolatado em pó.
- Olha aqui sua cria, eu to é por aqui – faço um gesto acima da minha cabeça – com você. Eu to cansado dessa novata que pensa que pode chegar e mandar em todo mundo. Eu estudo nessa escola desde meus seis anos, e eu tenho uma reputação aqui. Quem você pensa que é?
- Talvez esteja na hora da escola sofrer uma, renovação.
Ela pisca pra mim, e passa esbarrando seu ombro contra o meu, na medida do possível, considerando a diferença de tamanho.
- Ei, depois eu que tenho medo, né? Pois não sou eu quem está fugindo da discussão. – grito pra ela, que está a alguns passos de distância, com David- cachorrinho-na-coleira-e-pau-mandado em seu encalço.
Ela se vira para mim, enquanto continua caminhando, mas de costas agora. Tudo que ela faz é dar um meio sorriso maroto carregado de escárnio, antes de voltar a andar de costas para mim.
Bufo, e atiro um olhar aterrorizador para aquelas duas garotas, que trocam o sorriso por uma expressão de pânico. Depois volto a caminhar em direção ao ginásio, sendo seguido por Edgar.
- Você ouviu isso?
- O que? – ele pergunta perdido, como sempre. Às vezes me pergunto se ele não é chapado.
- Aquela garota, a Alice, o jeito que ela me desafiou.
- Aquilo não foi bem um desafio.
- Aé? Então foi o que?
- Foi uma intimação.
Resolvo não responder. Edgar simplesmente não batia muito bem. Mas mesmo assim era melhor ter ele do que o Alex por perto. Com Alex, eu estaria brigando toda hora. Mas é claro que o Davi era melhor companhia do que os dois. Era.
Quando chegamos ao ginásio, vamos direto para os vestiários, trocar de roupa. Ponho aquela porcaria apertada, mas que faz as garotas suspirarem. O bom, é que do mesmo jeito que o uniforme masculino era uma porcaria, e o feminino uma benção, na educação física era a mesma coisa. Uma divindade.
Animo-me com a ideia a termino de amarar os tênis. Por mais dinheiro que meu pai tivesse, eu nunca trocaria um bom e velho All Star.
- Vamos Edgar?
Ele concorda. Somos os últimos a sair do vestiário, enquanto o resto da turma já está lá.
E adivinha quem também estava lá?
Sim, a querida Alice estava com uma expressão rabugenta, naquele uniforme ridículo, de tão pequeno e apertado. A regata era super colada, e nem tapava boa parte da barriga. E o short... Hnm, era tão justinho quanto, e bem curtinho.
A visão era até agradável, mas melhor ainda era saber que ela com certeza estava odiando aquilo.
Como sempre, a aula só começou quando eu cheguei.
O professor abriu um sorriso enorme quando me viu, e me cumprimentou com um aperto de mão.
- Pois bem, já podemos começar.
- Por quê? Só porque a ameba chegou?
O professor Xavier olha para Alice como se ela fosse um inseto particularmente interessante.
- Você deve ser a aluna nova. Então é compreensível que não entenda como as coisas funcionem por aqui. Mas tenho certeza que entenderá em breve.
Ela cruza os braços, olhando com raiva para o professor.
- Isso é errado, sabia? Tratar um aluno com prioridade só porque ele tem dinheiro.
Fico olhando pra ela, curioso em saber onde ela quer chegar. Armar uma briga na primeira aula de educação física não é muito brilhante, na minha opinião.
- Garotinha, — ele faz um gesto de descaso com a mão – eu quero começar a aula se você não se importa.
- Acontece que eu me importo sim.
- Então o problema é seu, porque eu sou o professor aqui.
- Acontece que...
- Cala a boca! – falo olhando pra ela. Como alguém consegue ser tão irritante assim?
- O que você disse?!
Ela me fuzila com os olhos.
- Ok, já chega! — Todos olham para o professor, que parece estranho em um tom púrpura de raiva. – Todos vocês, em uma fila, ali no canto, agora!
Obedecemos sem pestanejar. Até a Alice parece intimada pelo tom de voz dele. Xavier era um cara bacana, que nunca se exaltava. Mas quando isso acontecia, bem, as coisas ficavam feias.
- John e Alice, os dois vão ser uma dupla, para tentar resolver seus problemas. O resto pode escolher quem quiser. Duplas, não trios, nem quartetos e nem um só.
Pra se mata, isso sim. Aliás, adorei a explicação dele sobre duplas. Sabe que eu não sabia que uma dupla é constituída por duas pessoas? To brincando.
- Cada dupla pegue uma bola de basquete e treine passes.
Eu e Alice vamos até onde estão as bolas, e pegamos a mais cheia.
- Você sabe jogar uma bola, certo?
- Ta me tirando? – ela olha com raiva pra mim.
- De jeito nenhum. É que você não parece o tipo de pessoa apta pros esportes.
- Há há.
Jogo a bola com pouca força, mais pra tirar com a cara dela, do que por cavalheirismo, o que parece irrita-la profundamente.
Ela tenta jogar com força para mim, mas força certamente não é uma habilidade dela.
- Ok, deixa eu te mostrar o que é força. – joga com muita força mesmo, e por pouco não acerto sua cabeça. Ela é obrigada a buscar a bola do outro lado da quadra, e o faz bufando.
E assim continua nossa guerra fria e muda, através de uma bola laranja e redondamente redonda.
O professor franze o cenho quando percebe o que estamos fazendo. Ele logo intervém.
- Ok, acho que vocês já dominaram a prática do passe. Vamos jogar agora.
Ele separou os times, e adivinhem? Deixou eu e ela como bons amigos no mesmo time. Tem algo sobre mim que eu preciso revelar. Eu sou um cara extremamente competidor, que odeia perder qualquer tipo de jogo.
E digamos que com a Alice no time, perder não era algo muito difícil de acontecer.
- Porra, passa logo essa bola Alice! Passa pra mim de uma vez!
Fico esperneando, pulando e balançando os braços feito um estúpido.
Ela me olha e aperta os lábios. Oops, não gostei dessa expressão facial.
E atira a bola com tudo.
Vou fazer um resumo rápido em terceira pessoa dos acontecimentos que vieram a seguir.
John fita preocupado Alice, que o olha com uma expressão psicopata. Alice joga a bola, com precisão em um lugar delicado. John acaba se distraindo com a expressão assassina, e não percebe quando a enorme bola se aproxima de seu pequeno John. O pequeno John é atingido sem dó nem piedade. Grande John cai de joelhos no chão, com uma expressão de profunda dor. A turma solta um som de compaixão. Alice solta uma risada diabólica.
- Uuui. – ponho as mãos no meio das pernas, amaldiçoando a bola e a Alice-fora-da-casinha. Qual é a dela? Ela ta querendo me deixar estéril? É isso? Ou ta querendo se vingar, por desejar meu corpo nu, e saber que eu jamais serei dela?
- Oops, Johnzito, foi sem querer.
Atiro uma adaga imaginária que se crava no meio dos seus olhos, ao mesmo tempo que imagino ela explodindo.
- Alice! Ajude John a ir para a enfermaria, agora!
Sua expressão de moça-do-bem se desfaz quando ela olha com raiva para o professor, que olha com raiva para ela.
- Por que eu? Ele tem pernas, epode muito bem andar sozinho.
Estou prestes a concordar com ela, quando mudo de ideia.
- Mas eu não consigo nem me mexer. Você não vai me deixar ir sozinho, né?
Ela bate o pé, e vem me ajudar. De má vontade, me ajuda a ficar em pé. Embora não doa mais tanto, ainda sinto um pequeno incomodo, mas me aproveito da situação e me escorro nela.
- Ei seu folgado, não se encosta demais.
Reprimo um sorriso diabólico.
- Vamos.
Ela praticamente me arrasta, deixando o ginásio pra trás.
Quando já estamos longe o suficiente, ela me joga contra um armário.
- Ok, pode parar de fingir porque eu sei que não está doendo tanto assim.
- Como você sabe? Você não tem um pequeno John no meio das pernas pra saber.
Ela cruza os braços.
- E se eu tiver? Com certeza seria maior que o teu. – aperto os olhos pra ela –Aliás, tem que ter um pra sentir dor.
Ela da uma piscadinha pra mim. Se tem uma coisa que ofende os garotos, é falar mal do pequenos deles. Essa garota não sabe das regras básica da vida?
- Acho que eu sei qual é o teu problema. Você secretamente me deseja, — me aproximo mais dela – mas como é muito orgulhosa, — me aproximo ainda mais – não admite nem pra si mesma, — mais perto – e por isso – apenas um palmo de distância – fica implicando comigo, para disfarçar esse desejo primitivo que sente por mim.
Nossa respiração se mistura, e ela parece estremecer. Nenhuma garota resiste ao “charme John”. Aparentemente.
Mas então ela escapa por baixo domeu braço, que no processo de aproximação se apoiou num armário, ao lado de sua cabeça. Alice da uma risada meio maluca, enquanto toma distância de mim.
- Até parece. Você precisa entender que existem garotas com cérebro, e essas garotas, não se sentem atraídas por babacas.
- Até parece que isso sege possível. Uma garota não se atrair por mim.
Ela me olha cética, mas então sua expressão se ilumina.
- Eu tenho uma proposta.
Olho em dúvida para ela. Isso com certeza não era boa coisa.
- Uma proposta? Que tipo de proposta?
Ela sorri pra mim.
- Uma aposta.
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