Desastres em primeira mão
1 Meu nome é Julieta
– Ju-li-e-ta!!! Não me faça acreditar que você ainda não comprou o presente da Rebecca! — reclamou minha mãe, de braços cruzados e batendo o pé direito no chão.
– Ah, qual é, mãe... a festá é só daqui a... meia hora, eu acho... — defendi-me, encolhida no sofá, olhando para minhas unhas recém esmaltadas.
– Não vou dizer mais nada, hein, Julieta? Se quiser dar uma de tonta, dê! Se está mesmo afim de ser conhecida como a estabanada da família Rodrigues, problema seu! Todinho seu! Eu é que não vou ficar mais me desgastando com isso e...
Depois do "todinho seu", não consegui ouvir mais nada que a mamãe tagarelava. Ora essa, que culpa eu tenho se minha grana estava curta e eu só tinha duas opções a fazer? Ou comprava o presente de aniversário da minha melhor amiga, ou fazia as unhas. E as minhas unhas estavam mais rachadas que placas tectônicas! Todo mundo ia perceber! E a culpa não é minha se meus pais me dão pouca quantia de mesada...
– E ainda escolheu o esmalte mais caro do salão! É fogo, hein? Por que é que você não aprende com aquela sua prima? A... a... como é mesmo o nome dela? Joana, né? Por que não aprende com ela? A Joana não sai gastando barras e barras de ouro com esmalte fosforescente, fluorescente, sei lá qual é a diferença entre essas porcarias... e você ainda coloca esses adesivos terríveis de patas de cachorro! Parece até cocô de rato, olhando de longe, sabia?!
– Em primeiro lugar, mãe... você não me deu nenhuma barra de ouro! Só uma mísera nota de cinquenta reais! Em segundo lugar, a Joana não vai à manicure porque só tem seis anos, e eu tenho dezessete! E em terceiro... se a senhora sabe que escolhi o esmalte mais caro do salão, é porque deve estar super ligadona no babado e...
Não consegui terminar a frase, pois percebi que a mamãe havia pegado um de seus chinelos e ameaçado jogá-lo contra mim. Levantei-me do sofá na velocidade da luz, peguei minha bolsa e corri em direção a porta.
– Até mais, mamãe — exclamei, com medo de ser acertada pelo chinelo.
– Ouse falar assim de mim de novo, hein, Maria Julieta?? E volte às nove! Às nove!!! — gritou ela, do lado de dentro de casa.
A casa da Rebecca era duas ruas atrás da minha, então sempre foi super fácil chegar lá. Chequei o horário em meu relógio de pulso, e vi que já eram 19:30. A festa provavelmente já havia começado. Às 17:00...
Como não havia comprado nenhum presente, corri — literalmente — até um mercadinho na minha rua, e abri minha carteira para ver quanto havia me restado.
"Droga... só cinco reais..." pensei, entrando no estabelecimento. "Acho que dá pra comprar uns pirulitos..."
Arrumei a barra do meu vestido novo amarelo, caminhei entre algumas estantes e finalmente encontrei um saquinho de pirulitos pequeninos. Arranquei-o imediatamente da embalagem fixada à prateleira e andei até o caixa.
– T-tem embalagem pra presente? — perguntei envergonhada ao homem que procurava por um saquinho plástico embaixo do balcão.
– Tá pensando que isso aqui é shopping center, é, menina? — perguntou ele, com um olhar bastante sério.
Senti meu rosto corar e instantaneamente me arrependi de ter gastado praticamente tudo o que me restava da mesada com unhas fosforescentes, que dava para enxergá-las a quilômetros de distância.
– Desculpa... — gaguejei, entregando as moedas e descendo apressadamente os três degraus que antecediam a pota.
– Ei, ei, garota! Olha o troco! Vai querer não, é? Melhor pra mim! — gritou o vendedor, chamando a atenção de algumas pessoas que passavam ali por perto.
De cabeça baixa, envergonhada, subi um degrau e recolhi o troco. Enfiei, então, tudo rapidamente em minha bolsa, sem nem me importar com a carteira.
Meu relógio marcava 19:40. A Rebecca nunca foi dessas adolescentes que curtem festas tarde da noite, por isso seus aniversários começavam no início da tarde e tinham previsão de irem até umas 20:30, no máximo. E ela nunca me perdoaria se eu não comparecesse. Somos amigas desde... desde sempre!
Depois de caminhar por alguns minutos, finalmente avistei a casa de número 77. Balões roxos e pretos decoravam a entrada, e sua avó — por incrível que pareça — conseguiu me ver de longe, apesar de ter um grau muito elevado de astigmatismo.
– Rebequinha, minha neta! A Juliana chegou! — gritou a idosa corcunda, de aproximadamente oitenta anos de idade, para dentro de casa.
– É Julieta, vó! — ouvi a Rebecca consertar. Em seguida ela aparece na porta da sala, me recepcionando com um forte abraço.
– Obrigada por vir, amiga! — disse ela.
– Aaai! Por nada! — respondi, entre apertadíssimo abraço.
– Vem, entra!
Até que tinha bastante convidado para uma garota que não gosta muito de se socializar. Um bolo de três andares exibindo uma chiquérrima vela de número 17 chamava a atenção do pessoal, todos encantados com a perfeita organização do espaço.
Avistei os pais da aniversariante servindo refrigerantes às crianças, e mais à frente, numa parede, vi projetadas algumas imagens.
– Gostei da ideia do projetor, Becca — comentei, pegando na maior cara de pau um brigadeiro da mesa, sem perceber que os doces deveriam ser servidos apenas na hora de cortar o bolo. A princípio não havia entendido a cara de espanto que minha amiga fez. Será porque eu estava mastigando o chocolate de boca aberta, ou era por causa da etiqueta dos docinhos, mesmo?
– Ah, valeu... foi minha mãe que deu a ideia... vamos passar fotos e filmes de recordações que tenho dos meus amigos e familiares!
No exato momento em que ela disse "dos meus amigos e familiares", me engasguei com o brigadeiro. Levei as duas mãos à boca e tossi feito louca, como se eu estivesse prestes a morrer engasgada, chamando a atenção de todos os convidados.
Quando finalmente consegui engolir o bendito granulado que quase me causou uma tragédia, senti meu rosto corar.
– Recordações? — gaguejei. — Vídeos?
– É!
– Aiai... já estou prevendo que isso não vai dar certo!
O pai da aniversariante, naquele momento, pediu a atenção de todos e anunciou que a pequena sessão de "cinema" iria começar.
Isso só significava uma coisa...
Eu ia ficar famosa. Mas de forma negativa.
Aiai... eu mereço!!!
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