Desalento
1 Capítulo 1
Era manhã. De um lado da imensa porta de vidro do Princeton-Plainsboro, Cuddy aproveita a tranquilidade do turno da manhã para checar o histórico dos últimos pacientes que deram entrada. Antes que seus olhos alcançassem o monitor, ela o vê, depois de tantos meses, tantos. Agradece silenciosamente a Deus por ter resolvido começar a checar os registros.
Do outro lado da vidraça, ele já a havia visto há muito tempo, embora fingisse o contrário. Admite em segredo que a imagem do lado de lá do muro transparente lhe desconcertava, só não sabia de que forma. Até que descobrisse, seguia em frente no seu mancar habitual.
Em muitos momentos da vida, a lucidez nada mais é do que uma tormenta. Esse era um deles. O ritmo do caminhar manco de House, tantas vezes um countdown para que a paz de Cuddy fosse invariavelmente abalada, soava agora como o compasso de uma música conhecida, daquelas que temos vontade de cantarolar. A cada passo, um número a menos na contagem regressiva... 10, 9, 8, 7, 6... a colisão se aproxima...5,4,3,2,1...
... Tudo bem?
- Ah você! Bem vindo, tudo bem?
\"Tudo bem?\". Maldito clichê que ninguém responde, e sim devolve, também sem esperança de resposta. Um encontro, banal. Nada de colisão, nada de piadinhas de mal gosto. Sem saudades, sem suor frio. Sem qualquer tipo de emoção.
Ele manquitolava no sentido oposto ao dela, rumo a seu consultório, enquanto Cuddy pensava, com grande desalento, que pouca coisa na vida é mais triste do que quando \"tudo bem?\" quer dizer apenas \"tudo bem?\". Antes que pudesse pensar qualquer outra coisa, House grita, do elevador: \"Gostei da blusa, belos peitos, Dra. Cuddy!\". Cuddy o fita, em tom de repreeensão.
Quando a porta do elevador se fecha, ela sorri, como a criança que espera por seus presentes de Natal. Certas coisas não mudam, jamais.
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