Desafios do Destino II - Prelúdios e Premonições
9 A Destruição do Cristal: A Rachadura de Cristal
Assim que eu peguei o livro da mão da criança, ela deu um sorriso e desapareceu em meio a uma nuvem de pó branco brilhante. Sua delicada e fina voz ecoou pelo lugar:
—Aquele que venera o passado e esquece do presente, não conseguirá governar o seu futuro.
A voz silenciou a multidão e o Destino ficou me encarando enquanto eu abria o livro e lia as anotações que ali foram escritas. Era um pequeno diário que eu tinha quando criança para contar os meus medos. Será que eu usaria isso para lutar comigo mesmo?
Mas antes, eu teria que enfrentar Rosália, que estava toda trabalhada nas vestes roxas. Ela tinha o corpo quase esquelético e uma longa capa que ia até o final do lugar. Até parece que a estilista dela não a avisou de que aquilo poderia ser perigoso. Em suas mãos, estava sua bola de cristal, que uma vez, ficou comigo e me revelou a minha profecia.
A mulher caminhou em minha direção, desfilando passo a passo com muita calma e delicadeza. Ela arremessou a bola de cristal em mim. Achei que conseguiria pegá-la, porém, assim que encostei a mão, ela explodiu em minha mão e eu voei para longe. Estava com medo de perder o diário, então, o agarrei com muita força. A esfera de cristal retornou à mão dela e ela continuou a caminhar em minha direção.
Ela não esboçava reação alguma e isso meio que me incomodava. Não sabia se era ódio, ou era medo que ela sentia e eu era seu inimigo. Ela, conforme ia se aproximando, eu lia rapidamente ainda mais o diário. Eu acreditava que ali teria alguma resposta para o meu problema.
Fora isso, eu não escutava mais a plateia naquela emoção exagerada de adrenalina como uns minutos antes. Será que o Destino dera um final a eles para ficarem em silêncio? Ou será que meus desafios estavam ficando cada vez mais perigosos? Se sim, ele se importaria com a sobrevivência daqueles ao meu redor?
Novamente, a bola de cristal veio em minha direção. Nela, eu via um brilho diferente. Eu não queria desviar, apenas queria pegá-la. Será que essa era a hora?
Eu a segurei, contudo, ela explodiu novamente. Minha tentativa de voar com ela foi inútil, ainda mais que era ela ou o diário, e esse era bem mais importante, já que o meu quarto e último adversário estava com a fraqueza escondida naquelas páginas velhas e encardidas.
—Garoto, você não conseguirá ganhar dela! Seu futuro está totalmente perdido! – Era a voz do Destino. Ele tentava me atormentar, me atrapalhar em meus pensamentos. – Você está tão perdido aqui que não conseguirá nem saber a sua última profecia!
Isso. A minha profecia. Será que ela era a resposta?
Tão longa fora a jornada
Para encerrar longe da declarada
Abra os olhos para o estopim celestial
Desça mais fundo para a arena de cristal
Creia na força e na fúria do passado
Para sobreviver ao futuro atrasado
Estopim celestial? Será que ele está dizendo sobre o aparecimento do anjo? Ou o ataque dele sobre mim aqui na Cidade? Arena de Cristal era onde estávamos, onde ocorria a nossa luta e eu duvido que não é sobre isso. E quem é a declarada? Será alguém, ou apenas uma metáfora? Eu não sabia, na verdade, precisaria correr e pensar mais rápido. Entretanto, precisaria pesquisar sobre.
Espera um momento... A profecia pode estar falando de Abigail. Ela foi a pessoa que eu acreditei que seria minha companheira desde a Cidade de Pérolas, porém, ela desapareceu e, agora, precisei enfrentá-la. O que eu preciso fazer?
Minhas reflexões foram interrompidas por uma nova explosão da bola de cristal. No final, eu a agarrei e comecei a ouvir sua voz para mim. Era uma voz áspera e assustadora, em certos pontos. Eram palavras soltas e frases sem sentido. Será que é a nova profecia? Aquela que apenas eu sei e mais ninguém? Aquela profecia que mostrará o meu final?
—Você pensa demais ao meu ver! – Uma espada cortou o ar à minha frente e eu me assustei. Era o meu eu do futuro. – Você acha que eu não sei o que está pensando?
Rosália ficou um pouco longe da gente, olhando aquela nossa batalha que estava para começar.
—Cidade, lança! – E a lança retornou às minhas mãos e eu guardei o diário dentro da minha roupa.
—Então, ela te escuta? – E a espada cortou o ar novamente, porém, mais perto da minha face. – E você acha que isso te ajudará em que?
—Não sei, mas se você morrer, junto dele, ficarei bem feliz! – E apontei para Destino.
A lança colidiu com a espada e ficamos naquele duelo por um tempo. O sangue subia às faces e ficávamos vermelhos. Ele mais, por ser mais pálido. O suor caía e o chão ficava ainda mais escorregadio. Se eu caí anteriormente, não poderia cair agora, ou seja, ele teria que cair. De repente, pude ver a capa de Rosália perto dele. Então, eu tive um plano.
Assim que eu me aproximei dela, rapidamente, eu me agachei e a peguei. Cortei um pedaço com a lança e joguei na direção dele. Nesse meio tempo de escuridão, cortei o ar com a lança e a finquei em sua barriga. Pude ouvir um suspiro mais pesado, contudo, seguido de uma risada.
Retirei a espada e peguei o diário. Lá, não havia nada que pudesse me ajudar nesse exato momento. Uma explosão me jogou para longe. Ela veio de algum lugar atrás de mim. Pensei ser Rosália, porém, o Destino estava lá, parado e me encarando.
—Você está provando o seu valor de impertinente. Acho que eu mesmo terei que encerrar com isso aqui!
—Eu acho que não! – Olhamos para trás e vi Salústio, que estava intacto e sem corte algum. Esse era o verdadeiro, ou apenas uma ilusão? – Você conseguiu esgotar a Cidade. Agora, ela perecerá!
Assim que ele terminou de dizer, ele desapareceu. Era uma visão.
O chão começou a ruir e a cidade toda, feita de cristal, começou a estalar e rachar por todos os lados. Rosália não se importava, diferente dos outros dois, que escaravam tudo com muito desespero. Estávamos no fundo da Cidade, assim como dizia a profecia: "Desça mais fundo para a arena de cristal". Eu ia fugir quando uma mão me parou. Era Rosália, que me entregou a esfera.
—Por favor, me perdoe. Eu precisava convencê-lo de que estava contra você. – E ela se distanciou, voltando ao lado do Destino.
No final, a Cidade inteira ruía. Eu e eles corríamos de um lado a outro em busca das escadas para voltar à superfície. No entanto, a Cidade inteira pereceu. Pedaços de cristal despencavam por todos os lados, despencavam perto, mas muito perto da gente.
Quando um caiu bem próximo de mim, eu vi uma sombra sobre mim. Era uma ave enorme, a Ave do Marfim. Sobre ela, havia um homem, o Násser.
—Rápido, suba aqui! – E ele me esticou as mãos e subi. Juntos, voamos para fora daquele lugar. Eu, ele, a ave, a bola de cristal e o diário. – Você está bem?
—Eu acho que sim.
—Você sabe da Rosália? Por que estava com o Destino?
—Ela tem algum plano e pretende ganhar a confiança dele para que dê certo. – Não houve mais troca de palavras. A ave voava muito rápido e eu sentia o vento em meus cabelos. – Para onde estamos indo?
—Vamos para a Cidade de Marfim, a única a estar intacta.
—E a de Platina?
—Ela perdeu todas as forças que tinha. Yoko e Salústio faleceram, ou seja, terei mais trabalho, visto que as Cidades deles diminuíam o serviço da minha. Rosália "nos traiu" e Etzel está me ajudando, assim como você fará.
—O que precisa de mim?
—Você é o escolhido. Por favor, termine com esse caos. Não demorará muito até a Cidade de Marfim ruir e, se isso ocorrer, o Destino declarará vitória.
Nisso, a bola de cristal explodiu, nos derrubando lá do alto. Não caímos mais, pois Násser conseguiu fazer com que parássemos no ar. A esfera ficou dançando ao me redor e, em seguida, parou em minha frente. Eu, por impulso, coloquei a mão sobre ela e uma voz ecoou em minha cabeça.
Num mar de relatos
O filho do Destino buscará a forma
Das aves decaídas num túmulo de vidro
Feito no campo dos traidores
Almas boas manipuladas
Presas nas garras da discórdia
Na cor celeste da mágoa guardada
Na história sem falas na oração
Restaure o fim pelo começo
Num duelo entre gerações
Não despreze as dores do passado
Para distrair as ondas do futuro
Não guarde do tesouro moeda alguma
Desenha na lápide a sua vida
Tão bem batalhada e desafiada
Para no final beber da água vitoriosa
Era a minha profecia. A nova e última profecia.
—Você recebeu, não foi? A sua última profecia?
—Sim, mas eu não posso falar.
—Nós sabemos. – Olhei para atrás de mim e vi Etzel, com seus cabelos agora cortados de qualquer jeito e com sua pele bem mais velha do que antes. – Você precisará correr com essa profecia, pois o final está próximo.
—Eu sei. A minha última batalha com o Destino está próxima. Mas, agora, no que poderei ajudá-los na Cidade de Marfim?
—Precisamos ajudar algumas almas que estão paradas ali.
—Então, lá é tipo um hotel?
—Eu bem queria que fosse um.
Subimos, nós três, na ave e levantamos voo. Suas asas batiam fortemente e isso fazia com que subíssemos ainda mais. Por fim, o final se aproximava. Eram mais alguns desafios e tarefas e missões a fim de batalhar com ele. Eu teria que enfrentá-lo sozinho, sem a ajuda de ninguém. Mas tudo dará certo, mesmo com a profecia totalmente diferente, maior e mais complexa.
Eu a decifrarei e conseguirei terminar com os Desastres e saber dos nossos Desfechos.
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