Era um mar de sangue. Era em sangue em que meus pés pisavam e isso me deixava muito angustiado, enojado e irritado. Não pude fazer nada para impedir a morte de Salústio, nem a das Aves. Quase todas mortas, quase todas sentiram a lâmina certeira da foice da Morte. Eu encarava o Destino.

Ele parecia mais forte e mais jovem. A pele mais envelhecida rejuvenesceu e ele parecia ter a minha idade, porém, com mais força, mais sabedoria e mais ódio. Não sentia mais aquela força me segurando, portanto, corri até o homem. Aquela seria a hora certa de eu enfrentá-lo? Todos me impediam quando eu, inconsequentemente, o atacava. Agora era mesmo a hora certa?

Ele se virou e, com um olhar bem satisfeito, me encarou. Ele parecia feliz em apenas me ver.

—Ainda bem que você não fugiu. Cansei de buscá-lo em todos os confins desse pequeno mundo.

Com as grandes e fortes mãos lotadas de veias saltadas, ele pegou o relógio em seu pescoço e o rodou sem parar. Aquela sensação fez meu estômago ficar cada vez mais apertado e eu não gostava daquilo. Bem, na verdade, era uma sensação boa. Eu a tinha toda a vez em que algo me emocionava de forma diferente. Era como escrever ou ler um capítulo em que eu gostava muito de um livro ou série.

Ele o jogou em mim e um forte vórtex nos pegou e nos jogou para longe. Assim que eu recobrei toda a consciência e visão, pois essa ficou esbranquiçada durante todo o momento dessa viagem, eu olhei para todos os lados. Eu estava em um estádio, em um enorme estádio de luta. Havia muitas arquibancadas vazias e ninguém perto de mim.

Ao olhar para um canto excluído do lugar, me deparei com um grupo de quatro pessoas, todas encapuzadas. Sobre mim, uma forte luz de holofote se acendeu. Em instantes, todo o lugar se preencheu de pessoas – era o que eu achava, porque poderiam ser qualquer coisa – e um forte grito ecoou pelo lugar.

—Estamos aqui para ver a competição do nosso herói, aquele que sobreviveu aos desafios do Destino e terá que provar o seu valor. – Eu não sabia quem era o locutor. Afinal, aquilo deveria ser uma brincadeira. Plateia? Locutor? Eu estava em um show de horrores, só pode.

As arquibancadas faziam festa assim que o holofote foi jogado para o quarteto. Um frio na espinha subiu meu corpo: quem eram eles? Por que ajudavam o Destino?

—Comecemos! – Começar o quê? Era sério isso?

—De todo o absurdo que eu já vi, isso aqui venceu qualquer bizarrice. – Falei comigo mesmo assim que eu precisei me posicionar perto do centro do lugar. Eu não tinha arma, não tinha técnica, nada, apenas meu puro conhecimento para as provas, que não valiam nada nesse lugar.

Meu primeiro adversário se aproximou e esticou a mão. Evitei contato, porque achei que seria um truque. Eu me virei e corri até o camarote do Destino.

—Isso é sério? Fazer de minha vida um espetáculo?

—Isso não é um espetáculo, é uma maneira de fazê-lo perder. Estou farto de você ganhando sempre de mim. Contudo, isso não mais ocorrerá.

Ele acha que tenho problemas com a plateia ou com a batalha, mas ele está enganado. Enquanto eu encarava o local, mais uma vez, afim de analisar minhas opções de fuga ou confronto, percebi que tudo era de cristal, ou seja, ainda estávamos na Cidade de Cristal. Salústio morreu, se não, pediria ajuda. A cidade era muito, mas muito grande, como é que ele observava tudo sem ajuda de nada? Ele teria algum ajudante, isso é certeza. Ou, a Cidade o ajudava, afinal, tudo isso aqui é o "Paraíso".

—Cidade, eu preciso de uma arma para esse conflito. Não precisa ser mortal ou uma arma típica. Quero um meio de derrotar meu adversário sem feri-lo e o mais rápido possível.

Nada aconteceu. Minha teoria foi para o fundo do poço. Nisso, meu primeiro adversário foi revelado. Eu me espantei. Ele era negro, careca, estava com as asas mais negras que o carvão. Seus olhos eram mais vermelhos que a lava que queimava dentro de um vulcão. Era o Anjo, o mesmo que me guiara. Ele estava contra mim. Agora, eu entendi o que Yoko disse: "Ele poderá retornar à vida, mas não será como esperamos."

—Ah, por favor! – Eu estava espantado, mas também revoltado. Assim que eu gritei, uma lança saltou do chão e caiu em minha frente. Era de cristal e toda decorada de joias e detalhes de ouro. – Era só falar "Por favor"? – Educação é necessário até com as Cidades.

O Anjo abriu as asas e elas criaram uma forte onda de vento, que quase me derrubou. Em segundos, ele estava em minha frente, com a sua espada em punho. A colisão de nossos equipamentos fez um forte eco e calou as vozes da plateia, que ficou paralisada com a cena.

Continuamos a enfrentar nossas forças e as armas colidiam momento sim, outro também. Eu comecei a ficar cansado, mas nada me impediria de ganhar.

—Anjo, por favor, sou eu. Você me ajudou. Por que está do lado dele? – Tentei falar com ele, porém, era inútil. Minha voz entrava por um ouvido e saía por outro. Seu semblante mudava a todo momento. Ia de um sem emoção até um ódio raivoso que me espantava.

Nossas armas colidiam ainda mais e mais forte. As faíscas que soltavam de uma e outra eram impossíveis, mais isso acontecia. Eu suava muito e isso fazia gotas escorrerem pelo meu corpo todo, até o chão, que começou a ficar liso. Lógico que, de repente, eu escorreguei em meu próprio suor. Era comédia, se não fosse trágico, pois a minha lança foi para longe.

Ao tentar correr para longe, o Anjo pisou em minhas costas e me impediu de sair do lugar. Apesar do cristal, eu vi seu reflexo levantando a espada, pronto para me assassinar e acabar com minha vida.

—Por favor... – Sem esperança, pedi para a Cidade me ajudar e assim aconteceu. Tipo, ela engoliu o anjo e o cuspiu para longe. Levantei e corri até a lança. Eu a segurei com muita força, visto que o anjo voltaria. Ele tinha asas e poderia voltar voando. Então, eu fiquei encarando o céu. Mas nada. Ele desapareceu e eu não tinha mais o que fazer. Seria apenas lutar com meu próximo adversário.

Contudo, um forte vento veio de trás de mim e eu levantei a lança. Com medo do que viria, fechei os olhos, apenas senti um quente líquido viscoso caindo sobre mim. Ao abrir os olhos, eu vi o sangue dele, do Anjo. Era vermelho como o nosso e eu o matara com a lança. Por que eu fiz isso? Por quê?

Todos aplaudiram, fizeram barulho. Eu preferiria me enterrar do que ver tudo aquilo. Aquela aclamação do assassinato de um amigo. Eu fiz aquilo e isso me revirou o estômago. O que significava? Então, ao olhar para ele, vi seus olhos se abrindo.

—Por favor, se salve. Você é importante para todos nós.

E cerrou novamente os olhos. Agora, ele abraçou a Morte. Quando eu avistei o Destino, olhei bem fundo de seus olhos e para a foice em suas mãos. Sua lâmina ficou ainda mais afiada e mais brilhante. Aquilo me amedrontou muito. O corpo do anjo caiu no chão e se tornou um amontoado de cinzas. Para mim, aquilo era sinal de que sua morte fora concretizada e não poderia mais voltar.

Entretanto, o holofote revelou o meu novo combatente: era uma mulher, com uma armadura de aço todo brilhante, Abigail.

—O que você faz aqui?

—Eu que faço as perguntas. – Em suas mãos, estava uma espada e um escudo circular. Ela avançou e me atacou. Com a lança, defendi o ataque. – Eu vingarei o Anjo.

—Abigail, por favor, pare com isso. Somos amigos. Eu te salvei, você me salvou.

—Você causou a morte da minha cidade! Você é um destruidor!

O choque das armas atormentava meus tímpanos. Era uma música terrível de se ouvir. Eram as mentiras que Abigail acreditava como verdade, era a plateia alvoroçada, toda eriçada com minha batalha. Era terrível! Um incrível pesadelo! Seu olhar estava muito diferente do Anjo. Apesar da raiva, havia solidão e tristeza naquele corpo.

Bem no fundo, eu sentia pena deles, pois lutavam uma briga que não tinham escolha. Assim que ela tentou me chutar, eu abaixei o corpo e soquei o seu joelho, que deslocou levemente de lugar. Eu a senti chorando, então, um amarelo e luminoso raio caiu sobre ela, fritando seu corpo todo.

—Aqui não é lugar para chorões! – O grito de Destino me consumiu por inteiro e fez uma raiva e um ódio me possuir. Eu nunca senti aquilo.

—Cidade, por favor, me ajude. Quero destruí-lo!

Uma forte pilastra se levantou abaixo de mim e me jogou para o alto. Em seguida, eu caí em pé no camarote do Destino. Ele estava assustado.

—Eu que mando nesse lugar! Salústio era meu amigo! Era a pessoa em que eu confiava! – Enquanto eu gritava isso, um pensamento me correu: se aquele Salústio era uma miragem, como que houve sangue? Como que a Cidade foi invadida? – E você não comanda nada!

Peguei a lança e comecei a lutar com o Destino. Parecia que minha força ainda não era suficiente. Com apenas um soco, ele mandou a lança para longe; com um chute, ele me mandou para o centro do estádio; com um levantar de mão, ele fez a multidão surpresa se calar; com um estalar de dedos, meu terceiro adversário estava a postos.

—Não ouse me enfrentar novamente. Não serei tão piedoso.

Assim que me levantei, a pilastra desaparecera e a lança estava em meus pés. Agachei e a peguei. Nisso, o holofote se lançou até o outro lado, revelando uma mulher mais velha.

—Rosália! – Sim, era a vidente da Cidade de Pérolas. – Por que fez isso? – Gritei ao Destino.

—Quero brincar com você! – Ela respondeu e. em suas mãos, estava seu orbe brilhante. "Será que minha última profecia seria revelada?" – Garoto insolente, você jamais irá me derrotar. Caso consiga, jamais se derrotará!

Isso foi a dica que revelou quem era meu último adversário. Creio que todos notaram meu espanto, pois o quarto e último combatente retirou as vestes. Era eu, o mesmo homem de vestes cinzas e cicatriz que cortava a face toda; o mesmo que comandava um Megalodon, o mesmo que matou três casais de forma cruel.

Agora, meu futuro estava em minha frente e eu aqui, parado e com medo. O que me faltava acontecer?

—Eu estou aqui. – Ouvi essa voz estranha e fina. Assim que olhei para trás, encarei uma criança que carregava um livro em suas mãos. A capa era vermelha, bem forte. – Por favor, use isso. Pode confiar em mim. Eu sei o que estou fazendo.

Muito confiante, o pequeno garoto. Eu era assim e tinha inveja de meu passado. Cresci e perdi toda a força que eu tinha quando criança, quando olhava para o espelho e via o garoto em minha frente. Éramos iguais: vestes destruídas, olhos castanhos escuros, cabelos mais lisos e grandes – preguiça de cortá-los – e um sorriso que passava confiança.

—Obrigado, meu pequeno. Por que eu não confiaria em mim mesmo?

Continua...