Desafios do Amor
2 Nublado ou cinza?
A aula de hoje se tornou um desafio inesperado. O ingrediente principal da "criação" seria chocolate. As palavras Livre e Criativo continuavamrodando pela sala como um looping infinito.
A professora Yoko tinha um paladar de altíssima sensibilidade. De alguma maneira mística ela conseguia identificar cada ingrediente, se a temperatura e o processo haviam sido executadas no tempo e ordem correta. O grande desafio em todas as atividades era incluir um processo técnico da confeitaria.
Separei os materiais que eu precisava, junto com diversos ingredientes e iniciei a tarefa. Percebi que alguns colegas ainda estavam confusos sobre o que executar. Tirei meu caderno de rascunhos da bolsa e escolhi um dos meus desenhos.
A criatividade culinária fazia parte de mim durante todas as horas do dia em que eu estava acordada. Sempre carregava um caderno com os esboços de ideias e possíveis combinações que surgiam em meus pensamentos. Minhas primeiras lembranças da infância eram com 3 anos. Minha avó fez um avental para mim e comprou um banco de madeira com proteção, porque eu não alcançava a mesa. Então fazíamos muitas receitas de pães, bolos, massas. Depois que nossas guloseimas estavam assadas, íamos até o vovô na varanda, sentávamos na escada de madeira e compartilhávamos comida, risadas e o pôr do sol.
Não conheci meus pais e meus avós foram sempre a minha família. Apesar de não tê-los mais comigo, a confeitaria foi a forma que eu encontrei de me sentir conectada com eles.
A medida que os processos forem finalizando e o cheirinho de bolo assado foi se misturando no ar, senti uma paz dentro de mim.
Iniciei o processo de higienizar os utensilios. Havia uma regra na turma que o pior desempenho ficaria responsável pela louça, mas eu sempre reservava esse tempo após o preparo para que não acumulasse nada para um dos colegas.
Na hora da degustação aguardei ansiosa a avaliação da minha criação. A leve sugestão de um sorriso era o único sinal de que os processos foram feitas da forma correta. O inclinar para a direita era que estava saboroso. Mas a olhada por cima do óculos na minha direção indicava que a experiência tinha sido épica. Como consegui as três ações, soltei o ar tranquila.
- Está liberada! — disse firme e direta.
Concordei com um aceno de cabeça e recolhi em um pote com tampa o restante do bolo. Já havia separado e entregue um pedaço para cada colega.
Com tempo sobrando me direcionei para o campo esportivo. Eram raros os momentos que tínhamos sobrando entre uma aula e outra. Sabia que o time estaria finalizando o treinamento naquele momento.
Enquanto caminhava pelos corredores, senti o sol aquecendo minha pele. Uma brisa leve e uns sons de conversas por todos os lados.
Localizei os meninos dispersos pelo campo. Alguns ainda correndo, outros deitados no gramado, claramente exaustos, outros em pequenos grupos. Enquanto encontrar o John, percebi o Caleb andando na minha direção. Ele fazia parte do trio inseparável — JCD (John, Caleb e David.) — como os nomeei carinhosamente.
A expressão dele parecia bastante insatisfeita.
- Como você está Caleb? — Sorri contente de vê-lo. Bons amigos são raros e ter esse tipo de relacionamento desde a infância é algo mais especial.
Uma parte minha queria ter conhecido o John criança também. Ouví-los contar sobre suas pequenas aventuras me ajudava a ser parte daquela fase.
-Estou bem! E você? — o maxilar tenso dele contava outra história.
-Tudo certo. Trouxe bolo para vocês. Sabe onde o John está? — Ele inspirou fundo, olhou dentro dos meus olhos e um alerta soou no fundo da minha mente.
Ele apenas inclinou a cabeça para a direção as minhas costas.
Quando virei totalmente meu corpo, encontrei quem eu procurava e me arrependi na hora de ter decidido ir até lá. Dei um passo atrás instintivamente e senti o Caleb segurando meu braço.
O John estava sentado na grama, debaixo da árvore que costumávamos ficar nos intervalos, com a Amber ao seu lado. Ele gargalhava de algo que ela mostrava no celular. Aparentemente era algo normal, mas o impacto nesse caso foi por causa da forma familiar com que aquela cena se desenrolava. Já o vi rir várias vezes com outras pessoas, mas nunca me senti tão incomodada. Provavelmente porque eu já tinha consciência do interesse dela por ele edas tentativas de se aproximar. Ou por esperar que eu fosse a única pessoa que ele teria esse tipo de proximidade.
Meu cérebro já iniciou um processo de comparação com a Amber, que agora colocou a mão no braço do John. E os itens eram disponibilidade de horários, classe social, os lindos cabelos lisos e loiros, formato físico...
Nesse momento sacudi a cabeça para dispersar. Já tinha conhecimento do quanto esse caminho era mental e emocionalmente perigoso.
-Melissa...
A voz do Caleb me fez fechar os olhos e me direcionar para ele. Entreguei o pote com o bolo nas mãos deles.
-Trouxe para vocês. Não posso esperar...
Ele barrou meu caminho dando o passo para o lado assim como eu.
-Mel...
-Depois falo com o John. Bom treino Caleb.
Dessa vez ele não se tornou um obstáculo no meu caminho.
Ouvi um "eu avisei" saindo da boca dele, mas me concentrei em acelerar meus passos sem me desequilibrar, principalmente quando o Caleb assobiou bem alto, uma forma que eles costumavam se comunicar, principalmente nos jogos, quando um perigo surgia do time oposto.
Tudo a volta parecia um borrão agora. O dia perdeu a cor vibrante para um nublado. O desconforto que senti no estômago se alojou também no coração. Respirei fundo algumas vezes e continuei meu caminho até a parada de ônibus.
Um deles sinalizava que iria para o Centro e já fiz sinal subindo logo em seguida. Encontrei um lugar vago na parte de trás. Quando ele começou a se movimentar olhei pela janela e vi o John correr rapidamente para a entrada da faculdade. Ele olhava de um lado para o outro e passava a mçao entre os cabelos. Uma mania quando estava nervoso.
Baixei minha cabeça torcendo para que ele não me visse. O aperto ficou mais sufocante e os olhos arderam. Rolei minha aliança de compromisso no dedo me apegando as coisas que eu sabia, como o nosso relacionamento, a maneira como cuidávamos e apoiávamos um ao outro e o quanto nossos sentimentos eram sinceros. Dois anos de relacionamente deveriam significar algo importante.
Mas quando meu celular tocou com o nome "Amor" na tela, algo me impediu de atender. Nas próximas 3 vezes também. As mensagens no whatsapp começaram a sinalizar e não abri nenhuma delas.
Ao chegar no trabalho encontrei meus chefes ali dentro, Dylan e a Cholee, com expressões sérias.
Depois de abraçá-los, vi que o Dylan virou a placa de FECHADO na porta. Fomos até as mesas na parte mais dos fundos da loja.
-Mel.. — vi que os dois enlaçaram as mãos. — Nós vamos fechar a floricultura.
E as lágrimas que eu segurava caíram silenciosas e quentes.
Logo estava com uma caixa de lenços na minha frente e a Cholee chorava mais do que eu.
E o dia que havia se tornado nublado, agora parecia um Cinza Chumbo.
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