Desafio do ABC - Histórias de Hiatus
4 Dia D - Your Stain
Notas iniciais
Eu soube que era uma péssima ideia arrumar meu guarda roupa logo que comecei a remexer nos meus tecidos. Não parava de aparecer roupas novas e eu sabia que teria que passar o resto da noite arrumando tudo aquilo.
Eu porém precisava de uma distração.
Tasha estava fora da cidade, já estava há horas jogando videogame e trabalhar no final de semana não era uma opção, então eu estava afogada em meu closet. Em meio a uma distraída procura por mais roupas para reorganizá-las, eu encontrei o que costumava ser meu vestido favorito.
Dois anos atrás
Uma das alegrias em ter me mudado para Nova York era o número crescente de feiras científicas que existiam na cidade. A maioria delas era realmente científicas com uma imensidão de estudos sendo apresentados ao público. Palestras e workshops com cientistas do mundo inteiro faziam com que eu passasse todo o meu final de semana naqueles locais sem qualquer reclamação e foi em um deles que eu usei o meu vestido amarelo claro e longo pela primeira vez.
Eu estava em um workshop sobre uma nova molécula quando houve uma “bela” demonstração sobre como aquela molécula funcionava. A roupa de todos nós que estávamos sentados a frente foi manchada com um azul e aquela era uma demonstração de uma molécula que tinha o poder de mudar o tecido para uma cor e nunca mais sair e que tinha uma função UV além da função de colorir. Parecia algo bobo, mas poderia ser a solução para roupas de praia que desbotavam com o tempo e que muitas vezes não protegia adequadamente atletas aquáticos.
Estava feliz por estar ali, mas ao mesmo tempo triste pois havia arruinado o vestido. Ao sair da palestra, um garoto magro e de óculos bastante simpático parou na minha frente.
“Eu acho que ta manchado algo no seu vestido.” Ele disse apontando pro meu colo.
“Eu sei.” Respondi sem muito interesse até que ele insistiu.
“É sério, olha aqui, ta aumentando.”
Ao abaixar minha cabeça para ver, ele levantou seu dedo para o meu rosto.
Ele apenas estava zoando comigo.
Eu quis xingá-lo, mas o sorriso quebrou o gelo e eu respondi com um sorriso semelhante.
“Essa é velha então fique feliz por eu ter caído.”
“Eu ficaria feliz só por ter arrancado um sorriso seu.” Ele rebateu, o que me fez sorrir mais uma vez.
“Você parece bom nisso.”
“David.”, Ele apresentou-se apertando minha mão.
“Patterson”, eu estendi a minha sem pretensão alguma, mas repentinamente com uma grande vontade de conhecê-lo.
Um mês depois, o mesmo David estava batendo na minha porta. Eu estava com esse mesmo vestido, embora agora já tivesse colorido ele de diversas formas, dando um tom arco íris e disfarçando a mancha azul inicial, embora ela nunca tivesse deixado de existir. Eu já sabia que seu sobrenome era Wagner, quais eram seus principais interesses científicos e seus jogos de RPG favoritos. Eu já sabia o suficiente para chamá-lo para conhecer minha casa,
Ele chegou na hora marcada e jogamos um pouco de videogame até que eu tive a ideia de pedir alguma comida. Já era madrugada quando olhei no relógio, mas eu gostava de passar meu tempo com ele e ele parecia sentir o mesmo. Estávamos comendo Yakisoba quando ele me olhou e começou a sorrir.
“O que?” Perguntei assustada.
“Uma bela arte que você fez com o vestido.” Ele disse e não pude deixar de sorrir timidamente pois ele havia reparado.
“Eu tinha que dar um jeito na mancha que ficou.”
“Mas agora ele ta com uma mancha estranha aqui.” Ele disse apontando para uma parte um pouco acima de onde estava a mancha, porém quando fui olhar ele me roubou nosso primeiro beijo. Aquela também acabou sendo a primeira vez que ele tirou aquele vestido do meu corpo e jogou em um algum lugar da minha casa.
*
Estiquei o vestido e o olhei. Ele ainda parecia do mesmo jeito, ele ainda carregava a mesma mancha, a mancha que me lembrava como por um grande momento eu fui feliz com alguém, a mancha que me lembrava como eu fui amada e mesmo não tendo mais aquele amor fisicamente comigo, eu pude sentir tudo novamente e fiquei feliz por lembrar tudo aquilo: por lembrar que um dia a mancha do amor me coloriu.
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