Desafeto
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Notas iniciais
O dia estava no final embora era tão quente. O pó da terra reluzia como ouro.
Na mansão dos Águia o único barulho que retinia com insistência era o tilintar das colheres, eram seis da noite mas o sol ainda estava alto como um diamante no dedo de uma moça pretenciosa. O teto da casa era alto e a ventilação era pouca, uma criada já de prontidão preparava uma haste para acendes os candelabros da casa grande.
Senhor e senhora Águia bebiam a sopa insossa demais para qualquer padrão cada um em um extremo da mesa longa de jacarandá oleoso, subitamente, sem pedir licença o sol sumiu como se cortinas de ferro tivessem baixado, a noite chegou com tremenda escuridão e ventos que uivavam como lobos em caça, um frio fez tremer os alicerces da casa e as criadas se puseram a cerrar as janelas, Senhora Água podia ver de seu ângulo a grande janela de teto ao chão na qual uma árvore morta se despia de suas últimas brancas como os lábios dos afogados.
Lembrou dos tempos de prometida, embebida de amor pelo Senhor Águia, ficava horas afinco bordado os detalhes do enxoval hoje a muito esquecido nos baús da mansão, lembrou de cantar para ele quando desordeiramente fugiram para os palheiros as vésperas do noivado, e os beijos profundos por pouco não causaram o desastre do fim do celibato, se não fosse sensata para empurra-lo e fugir para casa a essas alturas estaria apenas os ossos carcomidos cobertos pela terra seca em nome da honra de seu pai.
- Senhor, passe-me o sal.
Senhor Águia levantou os olhos de sua sopa que já formava fina nata na superfície, largou a colher no guardanapo de linho fazendo sua senhora se retorcer em angustia com seus tiques de limpeza, os dedos dos pés se intricavam só de pensar que essa mancha de sopa jamais sairia do pano como o pecado não sai da memória de um padre, teria de imediato de bordar outra, por fim alisou a bigodeira maldita, estendeu a mão para o saleiro e num gesto absolutamente bárbaro fez o item rolar até a outra ponta da mesa despejando um rastro leve de sal e batendo no prato de sua senhora.
Furiosa, sorriu e pegando o saleiro com nojo deu duas batidas no fundo, salgando o alimento insipido, insipido como aquele casamento.
- onde está Jeremy? – perguntou ele rudemente fazendo sua voz ouvir em todo salão, a essa altura as criadas já acendiam as vela faltantes fazendo a casa parecer uma moeda no fundo do oceano.
- a essa altura chegando. – respondeu seca como papel – Rute... – uma criada apareceu e pairou como uma sombra ao lado de sua senhora com as mãos nas costas – suba e faça com que Diadora se arrume.
Mal acabaram com a torradas de creme verde quando os grilhões da porta se fizeram soar, a mesma Rute que subira outrora foi a que abriu os portões para Jeremy, o paletó não estava adequado coberto de poeira e o chapéu lhe fazia parecer uma criança de disfarces, a maleta vinha abarrotada de papeis e os sapatos não deveriam ser marrons de terra.
Sentou-se com os sogros no meio termo da mesa de Jacarandá Oleoso.
- onde está minha Águia Reluzente?
- onde mais estaria tolo? – cuspiu o Senhor – no alto, como deve ser. Como foram os negócios na cidade?
— intranquilos – disse Jere pigarreando e depositando a pasta na mesa.
Senhora Águia não gostava do tipinho: advogado mequetrefe, pobretão, jeitinho descente, mas portava coisas da cidade, relógios, anéis de ouro, espelhos de bolso preso a corrente na calça, bussolas e todas essas coisas demoníacas a quem deus virara a cara. Era um mundano e melhor seria que sua doce Dia fosse para o convento das Madres Leste viver na pureza e no abandono, onde ninguém a julgaria pelas suas limitações.
- mas voltei para ficar – continuou ele – o casamento é pra daqui a uma quinzena e não quero ser abatido pelo acaso. O nosso acordo permanece de pé?
- fala mais do acordo do que de nossa Dia doutor – resmungou a Senhora, mas o olhar do marido a fez baixar a cabeça novamente.
- amor é amor minha amada sogra, mas há um acordo, e depois que o véu de minha dama for rasgado, o que me garante que terei o que preciso?
Senhor Águia interrompeu aquela picuinha maligna:
- case-se com Dia, seja seu protetor e a carregue desta casa e terá as terras de onde a vista alcança e a escritura de Melancolia, construa aqui seus escritórios, seus puteiros, seus trambiques mas pela consideração que tem a mim primeiro honre minha filha com o anel.
Sorriu como uma raposa o Doutor Jeremy, acariciou o próprio bigode teatralmente como se vislumbrasse um futuro erguendo-se sobre aquele solo fétido com a grandiosidade de um novo Egito.
- posso ver minha Águia Reluzente?
O pai ficou vermelho.
- meu capataz o acompanhará
Ouviu o clique da espingarda nas suas costas o cheiro forte e azedo de suor e mortal da pólvora o fez virar lentamente para mirar o velho conhecido Capataz-sem-nome, o negro mais alto que uma arvore e mais forte que uma tourada, a boca era uma linha cortada e olhos profundos como a cova.
Em silencio subiram os dois as escadas, duas criadas se adiantaram na frente e começaram a remover as trancas das portas, aquele ritual era longo e maçante, primeiro as correntes, depois as chaves, depois os pesados ganchos de ferro e a trava de madeira, um cofre de aberração.
A porta foi empurrada e o cheiro de mofo e rosas se impregnou no ar, as criadas se adiantaram e em segundos acenderam todas as velas do cômodo: um quarto do tamanho de uma estalagem inteira, tapetes de caça pálida dos confins da terra, grandes jarros de flores das índias, quadros que valiam linhas de trem carregadas de ouro, bonecas pintadas a mão, um biombo, uma enorme tina de mármore seca e protegida por degraus de porcelana pura, fitas de cabelo e presilhas de todas as cores numa penteadeira, coroas de pedras... o mais irônico de tudo era que o quarto era cheio de espelhos.
- Senhor Jeremy? – a voz doce veio da poltrona perto da janela gradeada, a cortina leve voava e escondia a garota por vezes, seus dedos curtos e macios estavam pousados no colo, explorando os contornos de uma boneca de pano: ela seria linda, pensou Jeremy, se não fosse tal aberração do diabo, monstruosa.
Tinha a palidez triste da cidade, o leite tinha mais bronze dourado que sua moça, o corpo firme nos contornos do vestido, a pureza dos dezesseis anos era agradável aos olhos, os cabelos tão escuros como a noite sem estrelas, o rosto parecia esculpido pelos mais habilidosos anjos, mas a obra do destino, a ironia estavam visíveis de modo em que a moça não poderia sair desse quarto sem ser notada: os olhos miravam o vazio, fixamente, era róseas claro como chá da tarde fervendo, rosa acuados, aquosos e tristonhos, parecia sempre triste sua moça... também pudera, era cega de nascença, ninguém sabe como ou porque, ninguém procura entender o motivo: uns dizem que o corpo da garota foi dominado pelo diabo ao ser expelido, outros dizem que ela fora amaldiçoada pela ama de leite por inveja, a quem diga na escuridão das esquinas, onde as línguas rastejam mais venenosas e sombrias que a filha é resultado de uma adultério da senhora Águia com um Bruxo do Caos, vindo de um circo na época da concepção da garota.
Fosse como fosse, estava a coisa mais estranha da terra: Diadora, a garota de olhos rósea e com as palmas e as solas dos pés cinza, duros como pedra, a cada dia que passava desde que isso começara a garota era invadida por mais um fio de pele petrificado, veiculas cinzas começavam a lhe subir pelo corpo, e seu fim, diziam o povo, seria o dia que viraria pedra por completo.
- seja breve – preveniu Capataz-sem-nome rudemente.
- minha senhorita – Doutor Jeremy se ajoelhou diante de seus pés e lhe beijou as costas das mãos, a carne dava lugar a pele dura e rígida, áspera nos lábios, quando foi a cidade não estavam assim, mas agora, as palmas e as costas estavam quase que petrificadas por completo. – quase desfaleço de saudades da minha amada.
Diadora sorriu para o nada inocentemente.
- como sonho com seu rosto meu querido, quão sorte tenho por mesmo condenada ter o amor de um príncipe – suspirou ela
- não diga tais tolices Águia Reluzente. – repreendeu ele com a voz trepida – você não está condenada, verá só! Depois que casarmos, te levarei a todos os médicos da capital, lá eles veja só, já cicatrizam pútridos na pele, já saram dor de cabeça, são magos da ciência, porque não curariam minha doce criança?
Seus olhos rosa brilharam como fadas no escuro, marejando de esperança.
- será que poderei ver? Ver o mundo? Será que ele pode curar minhas mãos e pés? – os soluços cortaram sua voz – meu amado, eu serei a mulher mais feliz do universo.
- chega disso tudo – gralhou o Capataz-sem-nome – moça direita não recebe moço mais tempo no quarto. Engravatado tem que sair.
Deu dois beijos em suas mãos de pedra e lhe cheirou os cabelos, umedeceu os lábios e lhe beijou a testa alva como a ponta da lua.
- eu volto no nosso casamento meu bem. Será a noiva mais reluzente de toda terra.
Seus olhos cegos brilharam como estrelas perfeitas, moveram-se pelo nada cristalinos e rompendo em lagrimas.
- eu esperarei. Eu espero a vida inteira sem sessar.
A noiva foi engaiolada de novo, Jeremy desceu as escadas com Capataz em seu encalço, o Doutor coçava o bigode e os olhos de raposa cintilavam.
- voltarei a passar por essa porta vestido como noivo – disse aos seus sogros – boas noites.
Seguiu sombriamente pelas estradas de Melancolia, as arvoes mortas a espreita e as luzes da cidade ficando mais fracas e as casas mais humildes, as estradas de pedra deformavam seus sapatos de couro importado, estava mal humorado e cansado da viagem. Terminou a noite com uma puta preta e farta, contorcia-se e gania como uma doninha em fuga, bebeu cerveja velha, fumou no parapeito da janela e pensou nos doces olhos rosa de Diadora, o suor ainda lhe pingava e a cama ainda gotejava na estalagem quando cerrou as luzes e imaginou o quão bela Diadora, a aberração cega ficaria vestida de noiva.
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