Desabrochar
6 A manhã chegou rápido demais
— Hã?!
Afrodite se assustou quando sua cabeça pendeu para o lado, estava rendido ao cansaço sentado em seu sofá, passou a noite em claro pensando em como suas últimas 24 horas haviam sido caóticas, não tinha conseguido nem trocar as próprias roupas ainda e quando percebeu os raios de sol entrando através das grandes janelas seu coração falhou uma batida, não teve coragem de verificar a criança o restante da noite e logo Dohko estaria ali.
Com uma pontualidade britânica, ou melhor chinesa, poucos minutos depois era possível ouvir algumas batidas na porta, Afrodite fez um esforço imenso para levantar e ir até lá atender, era Dohko.
— Bom dia! Temos alguma notícia sobre o pequeno guerreiro lá em cima? — O atual grande mestre ainda tinha o tom ameno, mais para transmitir tranquilidade para o amigo porque por dentro ele estava tão apreensivo quanto peixes.
— Eu não tive coragem de verificar, me desculpe, eu não ouvi mais nada vindo do quarto e nem consigo sentir a presença do garoto.-Afrodite se esforçava muito, se recusava a chorar ainda mais.-Vem, entre por favor.
Entraram, mal se posicionaram na sala para discutir o que iriam fazer e se assustaram quando ouviram outra pessoa entrando pela porta, era Arthur, a criança correu alegremente pela sala até alcançar Afrodite em um abraço apertado como sempre fazia, normalmente o cavaleiro ficava bem feliz mas no atual estado físico e mental o garoto quase o derrubou.
— Bom dia tio! Bom dia mestre Dohko! — Apesar de serem as primeiras horas da manhã Arthur estava agitado e alerta como sempre.
— Bom dia rapazinho! — Dohko o cumprimentava feliz na tentativa de disfarçar o clima tenso daquela casa.
— Há Arthi! Bom dia pra você, o que faz aqui tão cedo? Seus pais sabem que está aqui? — Afrodite forçava um sorriso para o menino e o afagava os cabelos levemente, não queria que ele percebesse o que estava acontecendo ali.
— Na verdade não! — A criança ria em um tom zombeteiro agora com um sorriso que mostrava todos os dentes.- Eu vi ontem que você trouxe um menino novo pra cá! Eu quero ser amigo dele antes de todo mundo pra gente poder brincar! Onde ele está?
— Ele está lá em cima, na ultima porta.
— Eba! — Arthur saiu em disparada rindo pela escada no intuito de fazer um novo amigo.
Pela segunda vez, Afrodite se arrependeu amargamente.
Seus olhos apavorados encontraram com os de Dohko e em um pedido mudo de socorro os dois saíram atrás do garoto em disparada tropeçando um no outro, Afrodite não estava pensando direito devido ao cansaço e estresse agora graças a ele Arthur iria encontrar aquela criança desfalecida. Além de matar a criança sem nome agora iria traumatizar o pequeno Arthur para sempre.
Era tarde de mais.
Quando Afrodite alcançou o topo da escada Dohko já estava em frente a porta aberta no final do corredor, o grande mestre estava estático, parecia que toda a cor havia saído do seu corpo e quando peixes o alcançou estava tão apavorado que acabou esbarrando nele e entrando na frente, apoiando as duas mãos no batente da porta para não cair.
Afrodite não acreditou quando seus olhos focaram dentro do quarto escuro. Lá estava Arthur, em cima da cama com suas mãozinhas nos ombros de um garoto de olhos acinzentados que parecia apenas um pouco mais atordoado que o normal.
Estava vivo, Dohko não acreditava no que estava vendo, Afrodite não acreditava no que estava vendo, mas estava lá, o garoto estava tão vivo quanto estava no dia anterior.
Nenhum dos cavaleiros ali ousava se mexer, era quase como que estivessem com medo de acordar de um sonho bom, até Arthur começar a falar.
— Moleque não é nome! Você precisa me dizer o seu nome, como vamos poder ser amigos se você não me falar o seu nome? Eu já falei o meu, eu me chamo Arthur!
—Eu já falei, me chamam de mol..
—Brian! O nome...o nome dele é Brian. — A voz forte e ofegante de Afrodite interrompeu e ressoou pelo quarto chamando toda a atenção para si, fez isto sem nem pensar, ele não entendia mas algo cresceu dentro dele naquele momento e era a coisa mais forte que já tinha sentido em toda a sua vida.
— Brian! É um nome muito legal! — Arthur agora cortava o silêncio e estava radiante com seu novo amigo, não tinha percebido ainda o que quase aconteceu naquela noite.
— É, eu acho que gosto.
O garoto, que agora se chamava Brian graças a Afrodite, ainda estava atordoado olhando para as próprias mãos, não lembrava de muita coisa fora o jardim lindo seguido daquela dor insuportável, não reconhecia ninguém fora o cavaleiro de peixes ali, seus devaneios só foram interrompidos quando ouviu Arthur do seu lado.
— Vamos brincar lá fora então? eu tenho uma bola do Barcelona que é bem legal.
— Acho que nosso amiguinho precisa descansar um pouco pequeno Arthur, ele teve uma gripe muito forte ontem, vamos fazer o seguinte, você vai pra casa e assim que Brian melhorar vocês podem brincar o quanto quiser, o que acha? Aliás porque não emprestar algumas roupas suas para ele? Brian vai precisar. — Depois de se recompor do choque lá estava Dohko, falando com sua tranquilidade habitual como se nada tivesse acontecido.
— Tá bem mestre. — Arthur tinha perdido um pouco do brilho habitual agora mas entendia que o novo amigo precisava descansar. — Até depois Brian, quando você melhorar pode me chamar pra brincar, eu moro aqui do lado na casa verde!
Brian apenas ouvia, não conseguia assimilar tanta informação, nem sabia como ainda estava vivo. Arthur por sua vez pulou da cama e agitou sua mão em um gesto amigável de tchau com seu habitual sorriso de orelha a orelha, o que Brian reproduziu com a mão mas sem pensar muito, voltou então a ficar absorvido em seus pensamentos.
— Você sabe que eu preciso reportar isto a Atena, não é? — Dohko falava baixo e discretamente apenas para afrodite ouvir, agora mais como grande mestre do que como amigo ou cavaleiro
— Sim, eu sei, eu vou aceitar minha punição sem questionar.-Afrodite mantinha os olhos no chão enquanto falava, agora que o susto inicial tinha passado ele se sentia ainda mais culpado e envergonhado.
— Ninguém aqui falou em punir ninguém Afrodite. Eu preciso reportar este garoto porque não era para ele ter sobrevivido ao veneno de peixes, nenhum ser humano sobreviveria, ele pode ser perigoso agora que teve contato com o veneno, você sabe disso.
—Sim, eu sei mas o que vai acontecer com ele?
—Eu não sei, pode ser qualquer coisa, isolamento, observação, depende de Atena agora. Você nos encontra no meu salão hoje antes do anoitecer, certo? Leve o garoto também.
"Execução?" Com a mesma velocidade que Afrodite pensou nesta possibilidade ele a tirou da cabeça.
— Sem problemas mestre, mais uma vez muito obrigado, talvez se não fosse por você e Shunrei ele não est…
— Nós não fizemos muita coisa. — Dohko ergueu sua mão levemente e interrompeu Afrodite mas continuava com seu tom tranquilo.- Quem fez foi aquele guerreirinho ali. — Finalizou sua frase olhando com carinho o garoto que agora observava o quarto com atenção.
Dohko estava certo, não se pode impedir o destino.
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