Desabafos de uma depressão.
1 Surto.
Notas iniciais
Não tem como eu decidir por onde começar, não seria capaz. O que posso dizer é que esse texto não passa de uma reflexão. Um desabafo.
Recentemente passei por uma tentativa de abuso. Sim, exatamente. Não tem uma maneira fácil de dizer isso. Não tem uma forma gentil de me expressar.
Infelizmente já havia passado por isso antes, mas dessa vez eu fui capaz de me desvencilhar. Tentar me defender. O que claro não é muito se for observar o meu atual estado. Não quero sair do sofá. Não quero ver ninguém. Meus pensamentos são distantes. Não tenho foco. Não tenho ânimo, e essa ansiedade, esse medo dá porta abrir e ser aquele que me fez mal.
“Não reaja!”
“Não importa quem, não confronte o agressor”
Não deveria e ainda assim o fiz. Entrei na minha casa, e chorei. Gritei. Pedi ajuda dá minha mãe como nunca antes. Pedi um colo. Liguei para os primeiros números que achei em busca de ajuda. Perdão. Me sentia suja. Desolada. Não direi que não me sinto de tal forma. Me sinto um lixo. Usada. Magoada. Assustada.
Tudo que eu quero é que passe. Até lá, preciso de quem me ama. Meus amigos. Minha família. Preciso do carinho daqueles que me querem bem. Gostaria de vê-los. Infelizmente não consigo sair de casa.
Mas ao que interessa, certo? Já passei por esse trauma quando criança e por isso tenho de lidar com problemas como depressão, bipolaridade, ansiedade. Eu desenvolvi tantas coisas. Tantas doenças quanto sou capaz de suportar. Nunca desisti de sorrir. Mesmo sendo a criança mais estranha da escola. Mesmo sendo incapaz de ser estável.
Você mulher, homem, criança ou adulto peço que entendam que nós depressivos sofremos pra tentar nos adequar. Nós pessoas que sofreram diversos traumas não somos diferentes de vocês. Somos frágeis. Não somos uma página voltada a depressão e fotos bonitas de como somos instáveis. Não somos apenas cortes que muitos gostam de fazer pra ter atenção. Nós fazemos parte de algo maior. Complicado. Intenso. E se olhar com outros olhos, até apaixonante. Não nos diga que é só fase. Não nos diga que passa. Que isso é coisa de momento. Que precisamos de tratamento. De remédio. Que isso é cena. Que isso é querer atenção ou fazer drama.
Você depressivo, não é fácil quando nos dizem “vai passar”. Dizer que vai passar parece que nos joga num abismo. Nós parecemos piorar. Temos nossos momentos de melhora. Nossa positividade um tanto exagerada. Mas o pior de tudo é que nós melhor do que ninguém entendemos o que é a gota d’água. Uma palavra. Um gesto mal interpretado pode significar o fim de intermináveis meses de tentativa de recuperação. Aquela gota que nos bota a beira do suicídio. Aquela gota que te coloca num lugar apavorante. Tão deprimente quanto o que você passa.
Um hospital psiquiátrico é deprimente, sabiam? Somos vistos como doentes. As pessoas nos olham com pena. Falo por mim quando digo que não quero ser motivo de pena. De dó. Eu quero ajudar. Eu quero levantar aqueles que como eu foram abusados. Humilhados. Espancados. Aqueles que como eu sofreram e ou sofrem dessa doença interminável. Aqueles que sofrem pela sexualidade ser diferente. Gostaria de poder aconselhar aqueles que não podem pedir ajuda. Tem medo do agressor. Tem medo de viver.
Eu morri. Eu estou morta a muito tempo. Mesmo morta eu quero impedir que muitos morram. Quero ajudar aqueles que não sabem como se defender. Essa foi minha gota d’água. No momento eu me sinto sem vida. A morte é uma opção tão boa. Ela me abraça. Ela me toca. Ela me coloca num estado único, mas sou uma mulher. Tenho pouca idade e uma vida que muitos não aguentariam.
Uma vida que você chora só de conhecer, mas também tenho amores. Tenho aqueles que estão ao meu lado e por eles me mantenho aqui. Por eles me manterei. E por ver como eles são por mim, quero ser mais por alguém. Mais por muitos.
Quero que os textos deem força a pessoas perdidas como eu. Que nunca se sentem pertencentes. Que tem medo. Que se sentem sem vida. Que se sentem humilhados. Uma mão amiga. Um abraço. Uma conversa, as vezes é tudo o que precisamos. As vezes só queremos alguém próximo. Sem falar. Sem tocar. Sem olhar. Só queremos sentir que tem alguém ali. As vezes a solidão nos ajuda. Como nos assusta.
O medo as vezes é temporário.
A dor as vezes é suportável.
O trauma não é algo simples de se esquecer, mas tente se fortalecer nos bons momentos.
Sempre que seu amigo estiver deprimido fique próximo e se ofereça como porto.
Não questione.
Escute.
Apoie.
Fique perto.
Chore. Grite. Se liberte.
Mas seja forte. O dia seguinte tudo pode melhorar. E se não? Procure se manter firme e não sinta vergonha de pedir ajuda. Se for um dia bom dentre milhares de ruins, faça ele valer.
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