Desabafos
18 Feliz aniversário, Bea.
[https://www.youtube.com/watch?v=mBsWZzbkLMA]
...
Hoje é aniversário da Bea.
E eu tenho certeza que ela vai estar fazendo alguma coisa. Sei lá, um encontro na casa dela, um rolê no shopping, alguma coisa.
E eu? Bom, eu estou em casa fazendo porra nenhuma, porque o que mais eu faço da vida?
Bom, eu não sei exatamente se ela vai fazer alguma coisa ou não, honestamente, porque ninguém me disse nada, mesmo. Mas também, ninguém me disse nada do aniversário do Felipe, e eu descobri depois pelo Whats.
Ok, talvez a culpa seja minha por me afastar. Talvez a culpa seja delas por me deixarem de fora. Talvez a culpa não seja de ninguém e as coisas simplesmente aconteçam.
Eu não estou dizendo que não tenho amigos. Eu tenho. Também não sou dizendo que não sou feliz. Eu sou [pelo menos, acho que sim].
Mas ao mesmo tempo quase ninguém me chama para fazer nada e eu passo o dia inteiro jogado em casa estudando e/ou mexendo no pc. Eu não lembro qual foi a última vez que eu realmente tive alguma diversão além de contar piadas e falar besteira depois do almoço com meus pais.
A Mari e o Arthur saíram ontem; foram dar um rolê no shopping. Eu fiquei em casa fazendo nada. As meninas provavelmente vão sair hoje, como eu disse, e eu estou aqui em casa fazendo nada. Parece que tem meio bilhão de coisas acontecendo com a Helô, e eu não sei de porra nenhuma.
Eu quero viver um pouco.
Parar de me sentir tão excluído. Ter algum amigo para sair, falar besteira, poder passar o dia fora. Os bros vão sempre na casa de alguém, organizam para ver um filme. As meninas vão ao shopping, são a capa do Face e a tela de bloqueio uma da outra, todo mundo sabe meio milhão de segredos... E eu fico em casa cuidando dos gatos e estudando.
Era para esse ser o melhor e o pior ano da minha vida, mas por enquanto parece que eu só tenho um monte de meio-amigos, e ninguém tá ouvindo meu silêncio gritar.
Talvez porque ninguém liga.
Eu não sei. Não quero apontar dedos, não quero dizer que a culpa é de ninguém. Como eu disse, às vezes as coisas só acontecem e não é culpa de um ou de outro; simplesmente aconteceu.
Mas é uma merda quando tem que fazer grupo e você não sabe para onde ir. Quando você tá só passando nos status do Whats e descobre que tá rolando uma festa e que você nem foi chamado. Quando é aniversário de alguém que você costumava chamar de "melhor amigo" e ninguém nem te avisa se vai ter alguma coisa.
Faz realmente você pensar se de repente a culpa não é sua mesmo. Se não tem algo errado. Se alguém liga.
Não. Acho que não.
Talvez a culpa seja minha por ter mudado de lugar. Talvez eu tenha me afastado um pouco demais quando tentei me curar. Talvez eu esteja tão desesperado para me encaixar de novo que esteja me enfiando em lugares onde ninguém me quer.
Eu tenho a nítida impressão que se eu sumisse agora, ninguém ia notar.
De repente, eu entendo. A Helena, a Danny, o Lucas. Eu entendo porque.
[ninguém te ouve gritar, mas talvez eles te vejam sangrar]
Eles veriam? Ou seria só uma tentativa de fugir, uma corrida indo longe demais?
Ah, eu sei que se importam. Eu sei muito bem que o Thiago se importa, que o Gabriel liga, que se eu aparecer com um problema para a Mari, ela larga tudo para me ajudar.
Mas eu não quero atrapalhar. Não quero incomodar ninguém, não quero que ninguém se preocupe por nada. Não quero dar sustos.
Eu só queria não me sentir totalmente ignorado, deixado de lado, como um peso morto que as pessoas carregam por aí para serem gentis.
Recebi um Correio Elegante avisando que eu tinha amigos e que a pessoa se importava. Um bilhetinho fofo me falando que 'tava tudo bem e que eu não estava sozinho. Lindo, amei.
Mas aí eu fui para a escola no dia seguinte e nada tinha mudado.
Não sei quem me mandou o bilhete. Não sei porque. Não sei nem se é alguém entre esses quase-amigos.
Queria agradecer. Mas também queria avisar que não adianta nada.
São palavras bonitas, mas só isso: palavras. Tinta e caneta em um papel verde decorado com o tema de Harry Potter. Têm um significado e talvez sejam verdadeiras, mas não passam de palavras.
E palavras não curam. Elas só falam.
Elas não agem. Não tiram a solidão. Não me fazem de repente ter amigos.
Elas só falam.
Cheguei a um ponto onde eu não quero ir para a escola, não porque é chato, mas porque eu vou ficar o dia inteiro me sentindo deslocado e depois só vou descobrir todas as milhões de coisas que eu não fiz.
Passei quase meia hora conversando com o Arthur outro dia. E ontem eu e a Helô ficamos a tarde toda no Whats.
E eu tenho Netflix e YouTube e o Face e mil e um livros que eu tenho que ler. Eu posso escrever alguma coisa, mergulhar em alguma das minhas histórias, colocar música e ficar dançando feito um idiota no quarto.
Mas não muda o fato de que eu estou sozinho.
Deveria ter ido hoje com o papai e com a mamãe. Aí eu não ficava sozinho em casa pensando nisso. Se visse as fotos das meninas, podia só pensar "bom, não daria para eu ir, mesmo".
Mas eu fiquei em casa para estudar e mandei um recado de feliz aniversário e de repente eu notei que nem sei se posso chamá-la de melhor amiga.
Eu queria correr e me esconder. Mergulhar em um abraço qualquer e ficar por lá. Ter alguma coisa real a que me apegar.
Não só um bando de memórias que parecem tão distantes e puramente falsas.
Eu escrevo um monte de Desabafos reclamando da solidão, mas acho que nunca tinha notado exatamente quão profunda ela realmente é até agora.
Até o momento em que eu notei que minha única amiga mora nos Estados Unidos e que talvez eu nem seja mais tão amigo dela assim.
Isso algum dia vai passar? Algum dia, eu vou voltar a me sentir bem, a me sentir feliz, a ter amigos?
Porque quando eu penso no futuro, eu honestamente não consigo ver nenhuma outra figura.
Só a minha.
Sozinha. Vazia. Quebrada.
Sangrando, talvez.
Eu queria desaparecer. Só por um dia. Só sumir, assim, desaparecer. Descobrir se alguém ia sentir minha falta. Ou se ia estar tudo normal pra eles.
Talvez ninguém nem notasse.
Pensei em contar. Em postar um Desabafo e mandar o link. Só para a Bea e a Lari. Só para elas saberem.
Mas aí, elas talvez se preocupem. Elas talvez se sintam culpadas, talvez se sintam obrigadas a me carregar.
E eu não quero que elas tenham que me carregar, porque não seria justo.
Quando foi que tudo quebrou? Quando foi que eu me fodi tanto? Quando foi que eu me perdi?
Quando eu parei de ter amigos?
Talvez quando a gente brigou por causa do trabalho do ano passado. Talvez quando eu não fui no aniversário da Lari. Talvez quando elas saíram do grupo no Whats e eu mudei de lugar.
Talvez tenha sido muito antes disso e eu só não saiba.
Oi? Tem alguém aí? Alguém para me ouvir gritar, para me ver chorar? Alguém para ligar?
Não. A casa está vazia, o grupo está vazio, as conversas estão paradas e a festa não me inclui.
Não tem nada, porque eu não sou nada.
Só mais um fardo. Mais um peso morto. Mais um rosto que ninguém vai ligar e todo mundo vai deixar para trás depois. Só mais um nome na lista de formandos de 2018, que todo mundo vai olhar depois e se perguntar "quem é esse, mesmo?".
Ninguém.
Apenas... Deixa pra lá.
Feliz aniversário, Bea.
Queria poder dizer que menti quando disse que você é uma das melhores pessoas do mundo, mas o pior é que não.
Eu ainda te amo.
E eu ainda espero que seu dia seja maravilhoso, ao contrário do meu.
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