Não foi nada fácil voltar a Vila dos Ventos.

A última vez em que havia estado aqui foi naquela semana fatídica em que Fernando faleceu. Depois desse dia, prometi a mim mesma que jamais retornaria. E que jamais voltaria a ver Dionísio. Durante os dias que separaram a morte de meu marido da minha viagem, tentei de todas as formas convencer meu filho a ir comigo e de que o avô dele não prestava. Mas Dionísio havia envenenado Alberto, que há muito tempo já estava contra mim, e nada do que eu falava o fazia mudar de ideia. Alberto dizia que não só não queria ir comigo, como preferia viver sem mim. Juntado essa fala de meu filho com a morte de Fernando, eu fui a completo nocaute, e quando dei por mim, já havia retornado à Europa. Mas antes disso, ainda em surto, eu chantageei Dionísio, pedindo-lhe uma grande quantia de dinheiro, em troca do silêncio sobre o que de fato tinha feito Fernando perder a cabeça e com isso, sofrer o terrível acidente de carro.¹

Muito tempo depois, o dinheiro acabou e eu tive que, depois de muito pensar, retornar. E até que foi bom. Eu revi muitas pessoas de quem gostava e acabei descobrindo que Alberto havia enlouquecido por ter o amor de Ester. Eu tinha que ficar. Tinha que, mesmo depois de muito falhar, finalmente cumprir o meu papel de mãe, que sempre foi um pesar na minha consciência. Eu queria ajudar meu filho a se reerguer e se tornar uma pessoa melhor.

Fiquei. Brigando muito com Dionísio e com Alberto, mas fiquei. E assim, foi refazendo as amizades com as pessoas que há muito tempo eu não via, e fazendo novas amizades. E numa dessas, veio Duque. Um cara charmoso, gentil, de dinheiro e muito bom gosto. E que arrasta uma asa por mim. E eu não posso dizer que não é recíproco, porque é.

Nicole vive me falando pra eu ir atrás, deixar as coisas acontecerem, mas não dá. Ele é o melhor amigo do Cassiano, que é o maior desafeto da vida de meu filho. Realmente, no way. Não quero piorar o clima horroroso que já tem nessa casa, e também não tenho mais idade para namorar escondida, não é?

Mas, devo confessar, que eu também não deixo de pensar na ideia. Até penso que seria muito bom se, por fim, eu conseguisse me relacionar seriamente com outro homem. Depois da morte de Fernando, eu passei a achar que isso nunca mais seria possível. Mas, não. Eu não posso continuar com essa ideia. Não foi isso que vim fazer aqui. Não que eu não possa nunca mais me relacionar com alguém. Mas hoje não vou fazer isso. Não vou ceder, não vou me preocupar. Estive tanto tempo pensando só em mim, fazendo o que julgava ser melhor para mim. Agora é o momento de eu me deixar de lado um pouco. Vou entrar em férias de mim, balancear os pneus, checar o óleo. Vou ser mãe. A mãe que eu nunca fui e que, com certeza, agora eu preciso ser. Vou me amar. Vou amar Alberto. Pra depois tentar, quem sabe, amar alguém.

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