Desabafo de uma mãe do submundo

1 Sem vozXCarinho proibidoXFilhos que não pôde criar


Notas iniciais
Yo, mais uma vez a Dark vos fala. Dessa vez com uma fic sobre a Senhora Zoldyck, Kikyou, a qual sempre é retratada nas histórias, se não todas, como a... Nomes não muito convidativos kkkkk Enfim, ninguém gosta dela, mas vcs precisam entender que ela tbm sofreu :P Entender o lado dela. É isso que procuro passar nessa fic. Er... a inspiração surgiu na hora em que vi uma cena nos últimos eps, em que ela olha pensativa para o Kill e Alluka. Imaginei o que se passava na mente dela, caso o contrário a câmera não se focaria nela :D

Uma vez por mês, os Zoldyck fazem uma pequena reunião de família, isso quando não havia nenhum imprevisto ou compromisso importante. Os membros presentes se reúnem em prol de colocar os assuntos em dia. Normalmente não se fala nada que não seja referente à missões, trabalho e negócios. Nesse dia, todos estavam jantando ao redor da grandiosa mesa da mansão. Silva e Zeno como sempre, falavam de negócios enquanto Milluki devorava a comida sem escrúpulos, Illumi se alimentava calmamente e Kalluto sentava ao lado da mãe comendo igualmente.

Kikyou não tinha muito ânimo para conversar, até porque nem mesmo devia interromper o marido e o sogro. Mas um detalhe foi captado por seu visor mecânico. O braço do filho mais velho tinha um hematoma horrível além de um inchaço anormal. A mulher encarou aquilo por bastante tempo até enfim receber a atenção dele, o que a fez disfarçar o ato. Se o filho fosse apenas um bebê recém-nascido, ela teria liberdade de lhe fazer um curativo. Mas agora jamais a permitiriam executar tal gesto com qualquer uma de suas crias.

A mãe de um Zoldyck não deve fazer coisas tão fúteis. Só afetaria o desempenho deles em se tornarem máquinas de matança perfeitas. Treinamento, assassinatos e negócios são as únicas preocupações dos Zoldyck.

A matriarca pede licença após o término da refeição e decide dar uma volta pelos "jardins" da residência, recusando a presença de Kalluto. Não tinha vontade de tagarelar nem de se lamentar dramaticamente pela fuga do terceiro filho. Estava cansada não fisicamente, mas mentalmente. Mesmo depois de tantos anos, ainda não se habituara totalmente com a máscara da mãe histérica, unicamente preocupada em educar as crianças para o assassinato.

Mãe...

Ela realmente não representava essa palavra. Aquela tradição lhe tirou todas as oportunidades de agir como uma figura materna. Os mimos substituídos por torturas dolorosas, o carinho deu lugar às exigências bizarras, afeto trocado por conduta familiar. Kikyou Zoldyck teve seus filhos tirados de si, decidiram o futuro de cada um deles sem sua opinião, que por sinal não vale coisa alguma.

Não tinha verba, não tinha direito sobre nada. Obrigada a aceitar tudo sem pestanejar, reclamar. Qualquer ação infringindo as normas tem consequências, cuidar das feridas dos pequenos, demonstrar amor exageradamente, beijos e abraços. Para viver naquele mundo ela teve que se adaptar, pois também era avaliada. Sua maneira de os educar por mais insana e absurda que fosse, é a única forma que a mulher podia estar perto das crias, interagir e observá-los sem perder os raríssimos momentos em que podiam viver de verdade.

Os "eu te amo" ficam bem escondidos no meio das repreensões com sua voz estridente.

O visor eletrônico chia por um segundo, despertando a mulher de seus devaneios. Há quanto tempo não conhecia o que é chorar? Para sua sorte, ninguém a viu fazer aquela ação impensável. A caminhada pela floresta de silêncio mortal a levou para os arredores de Mike. O cão estava deitado na grama.

Seus olhos equivaliam a duas esferas negras sem vida, inanimadas. O corpo não movia um músculo. Parecia fissurado ou hipnotizado em algo. Kikyou se aproxima e tenta acariciar os pelos do animal. Nada. Nenhuma mísera reação.

Nem sequer o cachorro pôde se safar dessa sina, nunca descobriu o que era amor.

Já satisfeita com o passeio, a mulher resolve retornar e deitar-se em seu leito, com o intuito de desvanecer os pensamentos anteriores antes que o visor desse defeito pelo choro estático; e se recompor para continuar a ser Kikyou: A Histérica Dramática.

...

Killua voltou.

A informação foi suficiente para mexer com toda a mecânica da mulher. Killua não é apenas o filho favorito, como é também o único em que ela podia ter um pouco mais de interação do que os outros, nem que ele a odeie. Killua era diferente, rebelde para enfrentar a família pelo que quer. Kikyou de certa forma se agradava com essa virtude, mas temia o que aconteceria se ele continuasse com seus atos negligentes. Por isso ela implorava para que o filho prodígio a obedecesse.

— KILLUA! — Esbravejava a mulher num surto de desespero. Mal o albino voltara e percebeu que ele estava prestes a abandonar o lar novamente. E dessa vez, com total consentimento de Silva.

Isso a enfurecia, não ter voz nenhuma. Era assim sempre, eles tomavam as decisões ali sem se importar com ela que é a figura materna. Não fosse pela atual matriarca, aquela família não teria herdeiro algum. Neste momento, Kikyou estava possessa porque não teve chance nem de vislumbrar o rosto do filho direito. O garoto permaneceu quase o tempo todo na câmara de tortura de Milluki.

Ela percorria cada canto dos arredores da montanha, procurando Killua incessantemente, o vestido vitoriano balançando bruscamente, o chapéu espalhafatoso quase escapava-lhe da cabeça por culpa do vento, mas não importava. Precisava o ver pelo menos antes de partir, sabe-se lá quando desfrutaria de tal visão.

Poder distinguir a cabeleira puramente branca na imensidão florestal encheu-a de esperança, a situação favorecia ela. Kalluto perdeu-se da mãe na corrida e não havia ninguém por perto para atrapalhá-la, o que é um alívio. Como reagiriam se vissem o que a mulher pretendia realizar?

— Killua. — Pronuncia frente a frente para ele. Seus lábios pintados de rosa esboçavam um sorriso, que não se poderia distinguir entre perverso ou sincero.

— O que você quer? — Ele indaga com um timbre muito impaciente pela segunda interrupção da mãe, não queria mais perder tempo com rodeios. Ansiava encontrar os amigos na habitação dos mordomos. — Eu já disse que se tentar me impedir... Eu te mato.

O olhar robótico de Kikyou, perscrutou Killua de cima a baixo, analisando cada traço ínfimo. A expressão macabra do garoto não a assustou, mesmo a surpreendendo poucos minutos atrás.

— Não se preocupe Kill, eu não vim para te impedir. — Declara com uma voz suave, desprovida de requintes de maldade.

Kikyou se aproxima devagar e cautelosamente do filho, que permitiu, notando que ela não aparentava fazer nada alarmante. Porém, ainda desconfiava, é claro. A mulher estende uma de suas mãos para tocar-lhe a cabeça e ele automaticamente dá um passo para trás, se questionando que maluquice ela pretendia. Mas num mero instante de distração por parte do albino, Kikyou executou um gesto ágil e sua mãe afagava suas madeixas de leve.

Com uma expressão confusa e repleta de dúvidas, Killua instantaneamente repele o ato, afastando a mãe de si.

— O que foi isso? — A pergunta dele é respondida com nada mais, nada menos que uma risada marota de Kikyou, que a esconde por debaixo do leque luxuoso e sai andando na direção oposta, voltando para a mansão. Mais adiante se encontrando com Kalluto.

...

O monóculo de Tsubone registrou os últimos momentos do diálogo entre Killua e Alluka. Kikyou estava extasiada, refletindo sobre o que acabou de testemunhar, absorvendo as cenas silenciosamente em sua própria linha de raciocínio. Após compreender o que se passou ali com ambos os filhos, a mulher tomou sua decisão.

— Tsubone, a ordem de restrição para Killua está retirada. Fale para ele.

Dado o comando, Kikyou interrompe a comunicação com a empregada. Silva a observa com um semblante que exigia explicações do porquê da esposa ter feito isso.

— Não se preocupe Silva, já vimos tudo que tínhamos para ver.

Concluiu e voltou a repensar nos ocorridos. Ela sempre acreditou que Killua e Alluka ficariam melhor ali, junto da família. Estariam protegidos contra tudo e todos nesse mundo, além de que ir contra a tradição era loucura. Mas sua opinião mudou quando percebeu que nunca viu seu filho ser tão... Humano daquele jeito. Não soube ao certo dizer por quê sentiu-se feliz ao vislumbrar tal cena.

De repente se perguntou se tudo não poderia ser diferente, se... Tivesse se imposto.

A mulher notou que não. Há muito tempo, Kikyou concordou em ser uma das marionetes daquela família e nada poderia mudar esse fato.

Notas finais
See Ya =^.^=
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!