Deriva
10 Rota pontiaguda

E se do espinho eu fizer um protetor de pé para mim? Não tinha conhecimento de alguém que tivesse feito tal façanha.
Sozinha comecei a trabalhar em uma solução, não dava para viver uma vida inteira pisando em espinhos. Ironicamente meus pés estavam exaustos.
Interrogavam-me: "mas já não viveu esse tempo todo pisando em espinhos? Por que isso agora?"
Eu ignorava, eles não tinham idéia do que era andar em uma estrada com espinhos tendo que fingir que a estrada era limpa.
Trabalhei, trabalhei e com muita dificuldade consegui um protetor ideal para meu pé. Manusear todos aqueles espinhos me machucou, me rasgou, me furou, mas isso já era cotidiano, eu me curei, e no fim consegui um protetor para meu pé tão resistente e funcional quanto queria. Agora protegia meu pé e mais, com os espinhos de meu protetor me protegia, matava predadores, e me mantinha segura.
O sol era muito quente e a noite muito fria.
Me rasguei, me furei e fiz um casaco.
Ora, tudo que tinha para manusear era um aramado de espinhos.
Agora me mantinha sempre alimentada, sempre abrigada, sempre protegida.
Foi assim que consegui subir a colina, manuseando espinhos.
Via ao meu lado uns que desabavam com pedras, com tocos no meio do caminho, que eram rapidamente trucidados por seus predadores, que simplesmente paravam.
Ora não tem porque parar se seu caminho é sempre composto por emaranhados de espinhos.
Ao subir a colina descobri outros a qual o caminho também era um emaranhado de espinhos, eles tinham construções monumentais, era um mundo rico, vivo e dinâmico.
Não tem como se preocupar em perder quando não se tem o que perder.
Então deixei meu protetor de pé, meu casaco, meus instrumentos. Porque de repente a estrada não era mais um emaranhado de espinhos, era limpa, era clara, era compreensível. Aquilo a qual carregava não me constituía, apenas em parte me explicava, e me estabelecia, era transitório, era momentâneo, até que algo me explicasse e me elucidasse: porque minha estrada era tão diferente.
Na verdade não era espinho, mas não tinha como lidar com algo que não conhecia, então nomeei o que causava dor.
Eu só precisava encontrar meu lugar.Meu mundo era cheio de paralelismos.

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