Deriva
3 Deriva

Quando nasci, nasci em uma estante, enfileirada, catalogada, classificada, etiquetada, porém sem um endereçamento certo, sem um lugar, estava simplesmente à deriva.
Cresci dentro de um táxon, você é isso, você é aquilo, não pode ser isso, não pode ser aquilo. Era estruturado, espécie, gênero, família, ordem, classe, filo e reino.
Era uma caixa perfeita pintada e enfeitada para mim, tomar cuidado para não ser demais, para não ser de menos, para não falar demais, para não falar de menos, para não parecer burra, para não ser muito inteligente, para não ser muito independente, para não depender de mais. É um sufoco, aperta aqui, ajusta ali, altera um pouquinho, tem que parecer tudo ajustadinho, tudo no seu devido lugar, nada passando, nada faltando. Um milímetro a mais, um a menos, um centímetro a mais, um a menos, meio quilômetro a mais, meio a menos; refrear, controlar, vigiar, atentar, reter, conter, desacelerar.
Um barco, o mar, sem remo, com pouco vento: deriva.
Sem manual, sem instruções, poucos parâmetro; muitas repreensões, muitos meneares de cabeça, muitos olhares de desprezo, muitas interrogações, muitos silêncios: vazio.
Grandes potenciais; um mundo pela frente, múltiplos caminhos, muitas pressões, muitas expectativas porque você pode sempre, e nunca pode não poder, falhar não é opção, porque essa caixinha parece ser boa demais, fluente de mais, quadradinha de mais: angústia e sufoco.
Um traço reto demais ou torto demais. Reclamam sempre, porque amo demais ou simplesmente recuso, porque me afogo ou fujo veementemente da água, me doo demais, é tudo demais. Penso sempre, repetidamente ou não penso, na verdade sempre penso. Faço muito ou faço pouco, rio muito ou não sorrio, falo muito ou não falo, danço desgovernadamente ou não danço, sinto muito a vontade ou me retraio, não, nunca sinto muito à vontade, porque nada me pertence e eu não pertenço a nada, como já disse, estou a deriva: inadequado.
Tudo cinza de mais, frio demais, distante demais, chato demais, enfadonho demais, repetitivo demais, estranho de mais, é essa a distância entre mim e minha caixa.
Conversas muito fiadas, falas vazias, seres muito quadrados, muito pontiagudos; com rituais, doutrinas, padrões, etiquetas, modos, pensamentos estranhos demais. Um modo para isso, um modo para aquilo, para isso desvie o olhar, para aquilo olhe, para isso pareça frágil, para aquilo pareça sempre forte, para isso dê um leve sorriso, nunca uma gargalhada, para aquilo desconverse não seja direta; rituais, doutrinas, padrões, etiquetas, modos, pensamentos estranhos demais.
Toma cuidado, pondere, refreie, retire-se, concorde, acene, sorria, desvie, veja, olhe, note, sorria, não note muito se não será chamada paranoica, não deixe de notar se não será chamada muito distraída; posture, esteja apresentável (nem elegante, nem desleixada), controle-se sempre, controle sua imagem, sua fala, sua postura, seu olhar, controle, controle, controle...
Não seja estranha, não pareça estranha, nunca seja diferente e nunca deixem notar se você for diferente, posture, posture, posture...
Finja que gosta do que falam, não deixem notar que você não ouve, retome a última palavra falada, use isso como estratégia sua vida inteira. Contudo, não fale, fique em silêncio, porque assim, não dirá o que não deve, porque você fala demais, questiona demais, interroga demais, você não precisa de instruções, precisa de fazer o que todos fazem mesmo que você não compreenda, mesmo que não seja intuitivo para você, mas seja racional; se você não sabe o que fazer, se não entendeu a regra e o ritual, cale, não pergunte, parecerá estranha, só sorria, sorria e sorria...
Estão questionando porque você ri demais, ri fora de hora, ri do que não se deve rir, tente ficar mais séria, mas não seria demais, tente parecer que tá rindo levemente, para não espantar ninguém; você já é adulta, tente controlar com maestria, para não parecer criança demais, nem adulta demais, mantenha-se, mantenha-se, mantenha-se...
Se estiver a um fio de surtar, não surte, contenha-se e controla-se, todo mundo tem um dia ruim, todo mundo tem problemas, todo mundo passa por dificuldades, não chore sempre, não ire sempre, todos fazem isso, desvie o pensamento, respire, segure as emoções, é só acordar, dormir, acordar, nada que um dia após o outro, ignore os sinais, finja que está tudo bem, continue a funcionar, só pare se tiver no hospital, fora isso não há álibi... Durma o suficiente, nem mais, nem menos; coma o suficiente, na hora certa; lembre de ler muito para ser considerada inteligente, se você não consegue ter foco não pode ser chamada inteligente; não adie nada, faça tudo hoje, com vontade ou sem vontade, o que importa é fazer; mantenha tudo em ordem, ordem, ordem...
Em um ambiente social não fique reclusa, vai parecer que você não gosta de ninguém ou que é uma pessoa chata, intolerável, busque conversar mas não fale muito, ouça, ouça com atenção, mas não ouça muito, fale sobre o que gosta, mas não desgoverdamente, com quem tem paixão pelo assunto, ninguém quer saber sobre suas paixões. Não fale sobre história, filosofia, sociologia, esses temas são vistos só em ambiente acadêmico; fale sobre o clima, pergunte sobre a vida da pessoa, finja se importar. Se falar algo engraçado sorria, nunca ria de algo sério, controle-se, mesmo que tenha visto uma sátira ou ironia em algo dito, não ria se a pessoa estiver contando em tom de seriedade. Conte sobre você, mas não fale sobre sua última refeição, conte algo que todos queiram ouvir. Se achar que o que a outra pessoa está falando é entediante, finja interessar, não fique com a cara de quem está pensando em outra coisa.
Use sua maquiagem de todos os dias, não se esqueça: o silêncio, o sorriso, o aceno de cabeça, o rosto blasé, o tá tudo bem, o silêncio, o sorriso.
Um barco, o mar, sem remo, com pouco vento.
Deriva. Vazio. Angústia e Sufoco. Inadequação.
Não caber é complicado, você se ajusta, corta, encolhe, espreme, se ajeita, se comprime, e ainda assim, continua não cabendo. Deriva.

Fale com o autor