Notas iniciais
Esse capítulo é mais longo, mas ficou bem legal!

Hilly

O dia estava nublado. O céu ameaçava fortes pancadas de chuva por todo o dia. De manhã, só chuviscava, mas sabia que brevemente eu deveria pegar um guarda-chuva. E para piorar, quinta-feira o dia de semana que eu menos gostava: só tinham aulas chatas, como Matemática e Espanhol. Também teria Educação Física, e com a chuva que estava por vir mais o frio matinal, não ficava nem um pouco empolgada para me exercitar. O professor disse que teríamos corrida nesse mês. Correr no frio não era muito bom. Pelo menos o ginásio ficava dentro da escola, então se chovesse, não nos molharíamos.

Quando entrei no portão da escola, a chuva já se intensificara. Estava um ótimo tempo para ficar em casa e dormir. Então, meu costumeiro sono só estava pior nessa manhã. Mas fiquei feliz em avistar Derek parado em frente ao portão. Juntei-me a ele e esperamos bater o sinal.

–Oi. Nossa, acho que o tempo só vai piorar.

Ele assentiu com a cabeça. Virou o rosto de lado. Parecia esconder alguma coisa de mim, e também estava estranho. Toquei sua face, fazendo-o assustar um pouco.

–O que foi? Não se sente bem? — Perguntei, preocupada com ele.

Dear suavizou sua expressão, mas não sorriu. Seus olhos azuis não estavam brilhosos. Eles pareciam-se com a chuva; tempestuosos e prestes a ruir.

–Hã... Sim, estou bem. É que... — Ele se interrompeu.

Notei que havia algo estranho com seu rosto. Quando me aproximei dele para ver, me espantei: tinha um enorme roxo em sua face. Era um hematoma. Era grande, vindo da bochecha e cobrindo um pouco o olho direito. Toquei delicadamente essa parte, fazendo-o sentir dor e se afastar um pouco. A área machucada estava inchada, como o olho.

O hematoma era horrível, definitivamente. Como ele havia feito aquilo? Certamente fora algo sério. Talvez tivesse se metido em alguma outra briga. Instintivamente, já fui procurando na minha bolsa algo para cuidar dele. Porém, Dear segurou meu braço levemente e tentou sorrir, mas era notável que isso o causava dor.

–Não... Precisa. Eu já cuidei um pouco disso.

–Mas... O que aconteceu? Alguém brigou com você?

Ele me olhou sério. Parecia zangado, mas não disse nada. Apenas me olhou e respondeu, entredentes:

–Meu pai. Foi uma briga feia. Problemas. Sempre problemas...- E se interrompeu, já resmungando.

Fiquei triste ao vê-lo assim. O pai de Derek, então, havia brigado com ele? Que pai exemplar... Fiquei frustrada. Se fosse meu pai, já teria chamado a polícia contra ele. Mas era a família de Dear, e eu não tinha nada a ver com isso. Ainda assim, tentei ajudá-lo.

–Ei, seu pai está te machucando seriamente, Derek. Já pensou em chamar a polícia?

Agora ele já estava mais calmo. Hesitou por um tempo, até me responder:

–O problema não é bem esse. Meu pai...

Ele parou de falar e olhou para baixo. Fiquei mais preocupada ainda, mas quando fui perguntar se estava bem, ele já se ergueu novamente e continuou.

–Meu pai faz parte da polícia. Seus colegas são policiais. Se eu os chamasse, sobraria para mim. Sabe, a banda podre da polícia. Então, não tenho muito o que fazer. Minha mãe... Ela também não pode fazer nada. Mas está tudo bem. Sei lidar com ele.

Tinha minhas sérias dúvidas sobre isso. Queria fazer alguma coisa para ajudar, mas ele deixara claro que estava se virando. Fiquei com pena, mas sabia que não poderia me meter entre seus problemas familiares. Apenas assenti com a cabeça.

–Certo. Mas qualquer coisa, pode falar comigo.

Ele tentou sorrir novamente. Dessa vez, esforçou-se para mantê-lo por mais tempo.

–OK. Gosto quando você cuida de mim.

Sorri de volta. Entramos na sala de mãos dadas, um pouco atrasados. Não tínhamos escutado o sinal bater. Fomos de mãos dadas até nossa aula para ter a primeira aula.

Derek

Só mesmo a Hilly para me deixar feliz em momentos difíceis. Eu estava com muita dor na bochecha e no olho direitos, mas nada insuportável. Julius havia caprichado no castigo. Vampiros e Lobos tinham algo em comum: ambos não gostavam de desafios por pessoas de hierarquia menor. Repreendiam com brutalidade as coisas que consideravam erradas.

Além disso, me preocupava sobre resolver o caso. Depois de quarta-feira, meu medo só se intensificou. Se Julius quisesse me matar, já o teria feito. Ele me pegou de surpresa. Se eu falhasse, ele certamente o faria. Era uma enorme pressão nos ombros. Agora, não queria achar pistas: queria achar o assassino de Jeffrey. Isso ajudaria bastante.

Eu menti para Hilly. Vivia fazendo isso, mas era necessário. Menti sobre meu pai. Ele obviamente não era da polícia e estava a quilômetros de distância, em outra cidade. Mas eu precisava de alguma desculpa. Quando ela me perguntou o que havia acontecido, fiquei nervoso. A presença dela, seu cheiro, a pressão para resolver o caso rapidamente, o hematoma... Estavam despertando meu lobo interior. Eram emoções fortes, e senti meus caninos formigarem. Meus olhos já estavam ficando dourados, então abaixei a cabeça para que ninguém visse, e pensei por um momento. Felizmente, deu certo. Acalmei o lobo e consegui ficar neutro.

Ser um lobisomem era difícil no mundo humano. Não gostava de mentir nem de esconder quem eu era. Mas era necessário. Milênios de criaturas mágicas escondidas dos humanos não iriam acabar por causa de um lobo irresponsável que não conseguiu esconder o segredo. Meus instintos estavam ficando mais fortes, querendo sair. Eu podia me transformar a hora que quisesse, mas estava ficando cada vez mais difícil controlar a metamorfose. Nunca fiquei tanto tempo sem me transformar, longe da minha família e do meu mundo. Isso estava me deixando louco. Meu coração ansiava em voltar para casa. Eu não pertencia ao mundo humano. Definitivamente.

A Hilly era a única que me acalmava, que fazia eu me sentir em casa. Não era a mesma coisa, mas sua presença tanto agitava meu lobo quanto me deixava em paz. Seu cheiro era delicioso. Ainda não sabia como ela tinha tal cheiro. Era tão humano, mas também tão... Mágico. Enfim, minha cabeça estava a mil.

As aulas foram chatas. As pessoas me zoavam, falando do meu hematoma. "Derek, quem te bateu?" "Ah, Derek, bateu o rosto num poste?". Isso já era irritante. Humanos não tinham respeito por ninguém, nem mesmo pelo professor, que teoricamente era a autoridade máxima na sala.

Na aula de Educação Física, corremos. Eu fui o mais rápido da sala, óbvio. Eu fora abençoado com a agilidade de um lobo. Nós estávamos sentados em meio ao ginásio, ouvindo o professor falar sobre nosso desempenho na corrida. Não estava prestando atenção na hora; estava sussurrando algumas piadas a Hilly. O professor notou e chamou nossa atenção.

–Senhor Derek, você é o professor por aqui? Acho que não.

Ficamos quietos. Hilly ainda ria baixinho. Já estava ficando com tédio, quando meus instintos decidiram falar mais alto. Ouvi um ruído, ao longe. Parecia vir da sala do zelador. Olhei em volta. Ninguém tinha notado.

Decidi prestar atenção ao som. Parecia um grito, que aos poucos ia ficando baixo, até parecer um sussurro. A chuva atrapalhava um pouco. Tive um mal pressentimento. Naquela hora, só pensei em seguir meus instintos. Pedi licença ao professor e saí correndo fora do ginásio.

Passei pela chuva e me molhei, mas continuei correndo. Meus instintos lupinos estavam à flor da pele, e eu me contia para não me transformar. Mas havia algo errado. Segui em direção ao grito, até chegar na sala do zelador. A sala ficava perto dos banheiros.

Senti um cheiro de sangue. E tinha algo mais... Vampiros. Sim. Certamente, o local cheirava a sangue e a vampiros. Abri a porta com cuidado. Não se ouvia mais o grito. Assustei ao ver a imagem do zelador caído no chão. Estava morto. Sangue saía de suas têmporas e costas. Dava para ver que um vampiro o havia matado. Mas não tinha nenhum sinal do assassino.

Olhei em volta, esperando flagrar um vampiro escondido nos banheiros. Não achei nada. A chuva forte continuava. Avaliei o local do assassinato, procurando alguma pista. Ao me aproximar do zelador, notei que não era humano; também era um vampiro. Então, um vampiro matara outro vampiro? Os cheiros ficavam confusos com o cheiro da chuva.

Achei uma bala de prata no chão, ao lado do corpo. Essas balas eram mortais tanto para lobisomens quanto para vampiros. Só tocar em uma bala de prata já queimava. Cuidadosamente, usando um guardanapo, peguei a bala e a coloquei enrolada no papel no bolso da calça. Olhei o corpo, mas não havia sinais que ele morrera por uma arma com munição de balas de prata. Ele tinha marcas de mordidas, presas. Fora morto por fortes mordidas e arranhões. Então, de onde diabos viera aquela bala?

Talvez um dos dois vampiros tivessem brigado, e um deles portasse uma arma com esse tipo de bala. Pensei por um tempo.

Quando eu me perguntava o que teria gerado a briga entre as duas criaturas, ouvi passos apressados se aproximando. Saí do local e cheirei o ar. Eram humanos.

Avistei o professor e a Hilly chegando. Ele gritou para mim:

–Derek Donnis! Por quê você saiu correndo de minha aula?! Ela não acabou ainda.

–Hã... Professor. É melhor dar olhada nisso aqui.

Ele me olhou confuso, e entrou na sala do zelador. Ele deu um pulo de susto, afastando-se depois. Ele nos olhos preocupado.

–Vocês dois. Avisem a todos os alunos do ginásio a voltarem para suas salas imediatamente. Vou avisar o diretor.

Hilly ficou espantada.

–O que aconteceu?

Eu a olhei, sério. Não queria meter Hilly nessa história toda. Mas já estava cansado de mentir.

–O zelador... Está morto. Alguém o matou enquanto estávamos no ginásio.

Ela me olhou perplexa, dando um passo para ver o corpo. Eu a impedi, segurando seu braço.

–Ei, não quero que você veja. É horrível...

Hilly estava com medo. O seu cheiro se confundia com o da chuva. Ela me abraçou. Abracei de volta. Ela estava tremendo de frio, ou talvez fosse de medo. Depois desse abraço, abaixei minha cabeça e a encarei.

–Vamos. Precisamos avisar os outros.

E saímos correndo na chuva para alcançar os alunos. Pelo visto, o assassinato do Jeffrey ainda tinha muitos mistérios e pistas para encontrar.