DepressIVE
1 De médica a paciente
Notas iniciais
– Merda, de novo não. — disse Ive, talvez pela nona ou décima vez, enquanto levava o terceiro cigarro em dez minutos até os enormes lábios mal pintados de vermelho.
Uma psicóloga, uma maldita psicóloga, segundo o que ela mesma denominava-se, tinha em suas mãos o conhecimento entre a linha que separava vinte e quatro horas de sono profundo da morte.
Que esse conhecimento era uma arma, sem sombra de dúvida, mas isso não quer dizer que ela tinha pleno controle sobre o que queria. Era imperdoável para ela, por mais lixo que fosse, apresentar aqueles traços de depressão, mas o que podia fazer? Se sentia tão inútil, tão dispensável... Droga! Era inevitável se perder em pensamentos como estes e de repente se dar conta do que se tratava. No começo, não acreditava que se apresentava neste estado, talvez ainda não acreditasse, talvez fosse apenas seu vasto conhecimento sobre o assunto se manifestando, aparecendo, corroendo.
Mas não precisava de ajuda, era a única coisa que podia afirmar de certeza, ela ia resolver sozinha. Como resolveu mais de trezentos casos graves de anorexia, bulimia, psicose, amnésia e tudo o mais. Espera! Será que resolveu mesmo? Mais da metade desses pacientes simplesmente não apareceram mais, em uma escala de um a onze, o quão bem eles estavam?
Ainda podia se lembrar das consultas com Alicia, do rosto quase transparente devido à pele extremamente branca, de ouvir cada palavra com atenção, Alicia falava tão pouco e tão baixo que era fácil confundi-la com a parede, talvez Ive fosse a única que a escutava, e se identificava.
Mas o que aconteceu? Qual a única resposta plausível pra essa maldita incógnita? Quem era a paciente na verdade? Em todos os atendimentos durante o decorrer dos dias, era Ive que se sentia no maldito divã, e tinha sérias dúvidas se não era ali que deveria estar.
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