Acordei com o meu celular tocando.

Helena # Alô? – disse com a voz trêmula, ainda morrendo de sono.

Miguel # Aparece ai na janela, gatinha.

Levantei cambaleando de um lado para o outro e fui até a janela, como o Miguel me pediu. Lá estava ele, na frente da minha casa, encostado no seu carro, acenando para mim. Que droga, hoje tem aula, é segunda-feira e eu nem tava lembrando.

Helena # Ah... – suspirei – me dá 10 minutos ok? Entra ai em casa e me espera, vou tentar ser rápida.

Miguel # Espero que sim. – finalizou a ligação.

***

Miguel narrando.

Entrei na casa da Lena, a porta estava destrancada. Assim que dei os primeiros passos em direção à sala, a dona Ana me viu e veio me receber com um grande sorriso no rosto. Parece inacreditável, mas gosto muito dessa minha sogra, temos nos dado muito bem ultimamente, graças a Deus. Agora que me conhece melhor, ela vive dizendo que sou como um filho pra ela, e de certa forma, também a vejo como uma mãe pra mim.

Mãe: Meu filho! – me abraçou – bom dia, meu lindo.

Miguel: Bom dia mãe. – sorri.

Mãe: Ah, que lindo ouvir você me chamar assim. – sorriu – Mas e ai, você já tomou café, Miguel?

Miguel: Sim mãe, obrigada.

Mãe: Mas come alguma coisa, meu filho. Um iogurte pelo menos...

Ela insistiu tanto que acabamos tomando café da manhã juntos. Eu realmente não havia comido, saí de casa com pressa e esqueci, mas fiquei com vergonha de chegar assim e comer na casa da minha namorada, não queria passar a imagem de um namorado que, depois que acostuma se sente o dono da casa, sabe? Mas enfim, enquanto comíamos, fomos conversando sobre diversos assuntos, até que entrou na história o caso da Lorena.

Miguel: Rápido, Leninha! – falei alto pra a Helena ouvir.

Helena: Já tô indo! – ela gritou lá de cima.

Mãe: Mas e então Miguel, vocês não notaram mais nada diferente na Lorena além dos olhos? O comportamento dela não estava estranho ou algo assim?

Miguel: Bom, ela se comportou como alguém que estava tonta, passando mal, ela parecia estar faminta também... Mas apenas isso, eu acho.

Mãe: Ah, sei. É uma pena como uma menina tão jovem tenha desaparecido assim, de forma tão misteriosa, e... – a Helena vinha chegando e interrompeu sua mãe.

Helena: Será que dava pra não tocar mais nesse assunto? – ela estava séria. Depois de tudo o que aconteceu, ela e a Gabi evitavam ao máximo falar sobre a Lore, principalmente a Helena, acho que, por ter vivenciado tudo aquilo, ela ficou um pouco traumatizada.

Mãe: Tudo bem, filha. – se levantou e saiu discretamente, tirando os pratos sujos da mesa.

Miguel: Vamos amor? – fui até ela e segurei em uma de suas mãos. Olhei nos seus olhos tentando passar conforto e segurança. O que eu mais queria é que ela superasse tudo aquilo logo, de uma vez...

***

Chegando à escola, a aula já havia começado.

– Isso são horas? – disse o professor.

Helena: São sim. – seus olhos mostravam preocupação — Ah professor, qual é? 8:00h. – olhando para o seu relógio de pulso e depois para o professor. Eu apenas sorri e olhei pra ele também.

– Eu sinto muito, mas... – levantou as mãos, com um gesto de quem não se importava. – a aula começa 7:30h. Acho melhor esperarem o sinal tocar – apontou para a porta – lá fora.

Miguel: Ah fessor, mas é que a culpa não é nossa. – enquanto dizia isso, eu tentava inventar uma justificativa que não nos fizesse perder o resto da aula.

– Ah não? É de quem então? – perguntou sarcástico.

Helena: Da minha mãe, é. – com cara de gênio.

Miguel: Claro, a mãe dela. É que hoje a minha sogrinha acordou com uma forte dor de cabeça, sabe...

Helena: Tá de dengue, coitada. Pelo menos é o que parece... – olhando de um lado pra o outro. Essa menina é anormal, na moral velho kk.

Miguel: E então, quando cheguei a casa dela pra buscá-la, pra a gente vim pra o colégio, sabe? Encontrei a Leninha no pé da cama chorando, sem saber o que fazer. Aí resolvi fazer um chá que a minha vó me ensinou, pra ver se a dona Ana se sentia melhor.

Caio: Você faz chá, é Miguelito? Essa é nova pra mim. – tirando onda com a minha cara.

Miguel: É, acho que eu sei me virar. – pisquei o olho pra o moleque.

– E a sua mãe, está melhor Helena? – perguntou o professor preocupado. Cara, ele é mesmo um velho idiota, mas pelo menos funcionou.

Helena: Sim senhor. Graças ao chá do Miguel, pudemos deixá-la dormindo sossegada e vimos pra o colégio voando. – ela fazia uma carinha de vítima tão linda que era capaz de convencer qualquer pessoa.

– Tudo bem então, podem se sentar em seus lugares. – disse ele já mais tranquilo – mas que fique claro: só deixei entrarem porque acredito e confio em vocês. – acho que ouvir isso doeu na consciência da Helena porque ela ficou olhando pra ele séria, sem nem sequer piscar os olhos.

***

Helena narrando.

Sentei-me como o professor ordenou e o Miguel se sentou atrás de mim. Caralho, o professor disse que confiava em nós, como tivemos coragem de fazer isso com ele? Ah, foda-se, já perdi muitas aulas desde o sumiço da Lorena, não dava pra perder mais uma.

Perdida em meus pensamentos, senti o Miguel me cutucando no braço. Virei meu rosto pra ver o que era e ele me entregou um papel embolado. Abri e li:

“Me responde uma coisa: já pensou em ser atriz? Porque, sabe, você poderia ter uma carreira brilhante no ramo. Essa história toda e seu rostinho lindo convenceram muito bem.”

Respondi em outro papel e o entreguei:

“Ah Miguel, se você realmente me conhece sabe que eu fiquei mal por ter mentido, então nada de piadinhas ok?”

E ele respondeu de volta:

“Calma amor, desculpa então. Eu só tava querendo mudar esse seu humor tenso, mas já que é assim, vou ficar na minha”.

Droga, que tonta que eu sou. Tentei ser mais agradável dessa vez:

“Não, desculpa você. É que hoje eu não tô bem mesmo, mas valeu por ter me ajudado, eu não podia perder essa aula”.

E ele respondeu:

“É, eu sei. Que bom então que conseguimos. Agora vamos parar com os bilhetes antes que o professor tome ok?”

Li, sorri, e me virei pra olhá-lo nos olhos. Pisquei pra ele e sorri de novo, afinal, era isso o que ele queria: me ver sorrindo. Ele sorriu de volta e me deu um selinho.

Helena: Agora vamos prestar atenção na aula né? – falei sussurrando. Ele piscou pra mim, balançou a cabeça afirmativamente e me virei pra a frente novamente.

***

A aula passou depressa, talvez porque nós já tínhamos chegado atrasados, não sei. Assim que o sinal tocou, levantamos dos nossos lugares e fomos saindo, mas o professor nos interrompeu:

– Opa, calma aí pessoal, eu tenho um comunicado importante pra dar a vocês. – disse ele.

Curiosos, nos sentamos novamente e ficamos calados pra ouvir o que ele tinha a dizer.

– Como vocês já devem saber, está chegando o acampamento de verão, que falei pra vocês logo no comecinho do ano. – quando ele disse “acampamento de verão” o entusiasmo foi geral. Todos começaram a gritar e bater palmas.

Gabi: Quem serão os professores responsáveis que irão com a gente?

– Eu, a professora de dança Srta. Maísa e o professor de biologia, Hélio. – eu não disse antes, mas o professor que estava falando era o de Química, seu nome é Wudson. É o meu professor favorito. – e quem quiser ir, peço que dê seu nome o mais rápido possível para que possamos colocar na lista da programação.

Caio: Então podemos dar o nosso nome a qualquer um desses professores né?

Wudson: Não, não. Eu pedi a uma aluna da turma para que me ajudasse com isso, ela ficará responsável pela lista de nomes. É a Marina. – ah, não acredito. Não vou me submeter a isso. Nem eu nem o Miguel falamos mais com ela desde o incidente na casa dele, e pra falar a verdade, eu nem tô com vontade de ir pra esse camp, mas fiquei na minha.

Então o professor explicou cada detalhe de como seria o acampamento. A programação que eles criaram tava mesmo legal, mas sinceramente, eu não me sentiria bem saindo assim, pra me divertir sem a Lore. Não é a mesma coisa sem ela...

***

Finalmente saímos da sala e fomos lanchar. Comprei uma coxinha de frango e suco de cajá e me sentei com o Miguel, a Gabi e o Caio.

Caio: (cantando) Meu lanchinho, meu lanchinho... – e a Gabi continuou.

Gabi: Vou comer, vou comer... – dançando.

Miguel: Pra ficar fortinho, pra ficar fortinho...

Helena: Ah, já chega gente. – falei séria e todos olharam pra mim.

Caio: Que bicho te mordeu hoje, ein garota?

Miguel: Ela tá assim desde que saímos da casa dela... Eu também queria saber o que houve.

Gabi: Eu sei o que é gente... É por causa da Lorena ainda, né amiga? Tá difícil de superar, tanto pra ela quanto pra mim. – disse segurando forte a minha mão. – mas eu acredito que depois desse acampamento de verão tudo vai mudar, acho que lá a gente vai relaxar um pouco. – sorriu tentando me reconfortar.

Caio: Com certeza, vai ser demais. – ele parecia realmente animado.

Helena: Sei não gente... Eu não tô a fim de ir.

Miguel: Ah, qual é Leninha? Se continuar assim você vai acabar morrendo poxa. A vida da Lorena pode até ter acabado, mas a sua não.

Gabi: É; ele tá certo, amiga. Eu sei o quanto você lida mal com perdas, mas tem que entender que a vida continua ok? – comecei a refletir sobre tudo o que me diziam...

Caio: Helena, faz isso pelo menos pelo seu namorado e pela sua amiga. Se você não percebeu ainda, ninguém tá gostando de te ver assim. Vamos, que pelo menos lá você pode distrair um pouquinho a mente, valeu? – olhando por esse lado, até que eles parecem estar certos.

Helena: Tá, eu vou pensar. – tentei sorrir, mas nem deu. Eu estava mesmo estressada esse dia.

Notas finais
Gostando da história?
Comente, dê sua opinião sobre o que você acha que acontecerá nos próximos capítulos e não deixe de conferir!