Depois que fui embora
2 Capítulo 2
— ...então como acho que já tiveram a oportunidade de darem uma olhada sobre cada obra, estamos abrindo o momento para discussões. Acho que perceberam que a sala 4A à direita, está com nossa exposição de Fotojornalismo de Clara Bueno. A sala 4B, está com a exposição de Fotografia Urbana e Arquitetônica, de Franco Montagnoli. E a sala 3A, à esquerda, está com a exposição da nossa fotografia retratista e de moda, Susan Days. Então senhores e senhoras que queiram participar da sessão de perguntas, dirijam-se à sua sala de interesse. Obrigada e tenham uma boa noite.
Sessão de perguntas? Senti meu coração parar.
Eu continuava com meu olhar fixo em Sarah, que agora caminhava em minha direção sorrindo. Meus olhos pequenos continuavam arregalados de medo. Ela se aproximou.
— Vamos querida?
Perguntou colocando a mão em minhas costas para me direcionar à sala 4A.
— Sessão de perguntas, Sarah?
Sussurrei. Ela riu me encaminhando para a frente do salão vazio, onde aqueles fotógrafos ou amantes da fotografia ficariam parados à minha frente me massacrando com perguntas nem um pouco sutis sobre minhas fotos, as quais eu teria que dançar para encontrar uma resposta rápida.
— Estarei no canto da sala, ao seu lado, sempre ajudarei caso eu veja que há algo de errado.
Ela me posicionou no chão de madeira — como um deque — uns cinco centímetros mais alto que o normal.
— Seja direta, sorria sempre, e faça o que você sabe fazer de melhor.
Ela deixou a dúvida no ar. Pensei por uns instantes, sem sucesso de obter resposta. Via Sarah se afastando para o canto da sala, a poltrona onde sentaria confortavelmente assim como alguns dos convidados da noite na plateia, que poderiam encontrar tais poltronas estilizadas e modernas espalhadas pelo saloon.
— Sarah... — Chamei sussurrando enquanto as pessoas começavam a encher a sala. Ela olhou para trás. — No que eu sou melhor?
Ela sorriu e sussurrou de volta.
— Inventando.
Okay. Eu sou boa inventando mesmo. Posso enfrentar isso. Eu posso! E daí que estou tremendo? E daí que meus pais não estão aqui? E daí que estou nestes sapatos desconfortáveis? No meio de gente estranha? E daí que não consigo pensar bem no meio da multidão? Eu não estou em uma multidão afinal. Eu estou em uma multidão de homens de terno e mulheres de vestidos de gala. Eu estou bem. Estou super bem, super bem fora do meu conhecido mundo real. Estou bem com essas luzes baixas na plateia e esse foco chamativo sobre mim. Estou bem. Super bem!
E então, olhei para frente. Huf! Foi o som que minha mente emitiu ao encarar aqueles homens e mulheres bem vestidos e com taças de bebidas na mão que prestavam atenção em mim, esperando por cada ato que fizesse. Deus me dê sabedoria. Amém! Sarah estendeu-me um microfone. Agarrei firme com medo de mostrar a minha insegurança por meio da minha tremedeira. E era minha hora de começar
— Boa noite.
Sorri.
— Bom, acho que primeiro tenho que começar agradecendo a presença de todos e o interesse de vocês em especial pela minha obra.
Bom Clara, começou bem!
— Eu não sou muito boa com palavras e apresentações, mas fiz bastantes trabalhos pra banca durante minha vida escolar, então vou tentar usar o que aprendi aqui.
Todos riram da piadinha que fiz com minha própria vida. Ótimo, estou indo bem!
— Então... estou aberta a questionamentos.
E mãos levantaram. Respirei fundo e apontei, sem olhar muito para o rosto. E então o homem começou.
— Boa noite, sou Gilmar Dellacoste, sou dono do museu Dellacoste, em Paris e gostaria primeiramente de dizer que suas fotografias possuem um potencial muito alto que é surpreendente que uma jovem como você tenha atingido. Lembro-me de Dorothea Lange com tuas fotografias e consigo sentir o sentimento que tentou passar e que teve no momento de tirar aquela foto. — Eu sorria deslumbrada de felicidade ao ouvir aquele bondoso senhor careca. — Mas a imagem que mais me impressionou, acho que foi a do rosto do garotinho com uma luz triangular sobre seu rosto. Quem seria aquela criança e o por que daquela luz?
Meu Deus, museu de Paris. Olhei para o lado, para a imagem da qual o homem se referia. Não tinha o porquê de luz triangular, apenas teve. "Invente!" Ótimo. O dom da blefar, eu tinha ele. Não sei como, mas sempre menti bem. Não significa que faça com frequência.
— Muito obrigada por seus elogios senhor Dellacoste, sinto-me honrada ao ouvir tuas palavras. Não sabe o quanto são importantes e incentivadoras para mim. Mas respondendo a pergunta do senhor, o garotinho da imagem é um jovenzinho que encontrei enquanto viajava por essa região, interior de Manaus. Ele se encantou pela câmera e pediu que tirasse uma fotografia dele, fiz o que pediu e ele gostou tanto que pediu mais, além de ele mesmo querer tentar tirar novas fotos. O triângulo então, eu não me lembro exatamente de onde surgiu, só sei que o vi sobre o rosto do garoto e foi tudo tão natural, que no momento apenas me veio à cabeça a representação de nossa vida, a infância, fase adulta, e velhice. E tudo isso estava estampado em seu rosto com esse triângulo.
O homem sorriu. Obrigada Deus. Ele agradeceu e eu sorri de volta. Mais um levantou a mão. Uma mulher, eu a conhecia, sabia quem era, famosa, renomada. Nan Goldin!
— Quantos anos tem, querida?
Ela foi direta. Sem apresentações, sem rodeios, sem elogios ou palavras carinhosas, isso me assustava.
— Tenho vinte e um, senhora.
Ela sorriu como quem estivesse grata à resposta da pergunta que eu realmente não vi fundamento. Outro falou então.
— Como foi o processo para essa série de fotos?
E então foram feitas cerca de 16-19 perguntas até dar o horário, e quando eu já não aguentava mais, Sarah, que antes apenas observava, tomou as rédeas da situação e pediu que todos fossem ao salão central. Suspirei enquanto ela ria de mim.
— Não tem graça, estou nervosa!
Reclamei tentando acalmar-me. Sarah me deixou sozinha então, e foi até o salão central. Busquei pelo bar onde os garçons serviam bebidas. Sentei-me em um dos bancos e pedi uma água, no momento tudo estava tranquilo, toda a atenção estava voltada à Sr. D'Agosto. Virei o copo de água como se fosse o último da terra. Percebi alguém me observando de longe e olhei para o lado para perceber dois olhos azuis à uma distância razoável de mim. Vestido em um terno elegante, encostado na parede, com um copo de uísque na mão. Voltei o olhar rapidamente para frente. Odiava pessoas me olhando. Sempre pensei como seria ser invisível. Acho que foi por essa razão que escolhi a fotografia como profissão, ficar por trás de tudo que é o foco. Fazer o foco e não ser ele. Virei-me no banco para olhar na direção onde os chefes se revezavam em falar. No meio daqueles homens, todas as minhas chances de emprego, e eu cansada no banco do bar, desolada por meus pais não estarem aqui. E extremamente irritada por aqueles olhos que eu sabia que ainda estavam ali. Olhei novamente para o lado franzindo as sobrancelhas e travando o maxilar, na tentativa de encará-lo com desgosto. E como eu já previa, ele estava lá, da mesma forma. Dessa vez olhou para frente lentamente, abaixou a cabeça olhando para o copo enquanto o mexia, e depois voltou para encontrar o meu olhar. Sustentei por alguns segundos, mas por fim revirei os olhos e bufei voltando a olhar para frente, irritada e sem conseguir mantê-lo por mais tempo.
— Estava te procurando. Vem logo!
Susan apareceu de repente meu lado, e logo puxou meu braço mais rápido impossível.
— Meu Deus, que isso?
Perguntei sem muito direito de resposta. Era o momento de fazer ps agradecimentos finais. E todas as coisas chatas e mais. Pelo menos o evento estava acabando. Aquelas pessoas importantes iam indo embora e as luzes começavam a se acender, ficando apenas os garçons e nós. Meus três chefes, e meus dois colegas. E nada dos meus pais. Em falar nisso...meu celular! Onde está? Onde está?
— Meninos, quero apresentar-lhes uma pessoa muito especial.
A voz de Sr. Heid ecoou pelo salão. Pouco atenta com isso, eu continuava tateando meu corpo na esperança de meu celular estar ali.
— Acho que conhecem Sebastião Fontes.
Levantei o olhar e logo adiante de mim estava o velhinho fotógrafo que eu tanto venero.
— Ela, eu já conheci. Clara certo?!
Ele apontou para mim com um sorriso largo nos lábios que iam até seus olhos azuis, e sua voz firme. Eu sorri tímida por conta do incidente que aconteceu no meio de meu encontro. A necessidade de sair correndo do taxista.
— Pois é.
Senhor Heid resmungou-me lançando um olhar aniquilador. Meu sorrisinho tímido sumiu e ele passou a apresentar Franco e Susan à Sebastião. Voltei meu foco ao celular e olhei para o bar longe de nós pensando que poderia ter deixado meu celular lá, mas antes disso meu olhar não passou por Senhor Heid, Susan, Sebastião e voou direto ao bar, ele passou por Senhor Heid, Susan, Sebastião, e pousou sobre os olhos azuis. Tentei não esboçar surpresa, mas acho que meu olhar mostrou. Pois ele sorriu. Agora com a luz eu podia ver direito seu rosto. Pele branca e cabelos castanhos escuro não em forma de um topete, mas sim caídos sobre a testa, seus olhos eram azuis como eu já havia percebido, ele era mais alto e imponente sob a luz. Seu olhar estava fixo ao meu mais uma vez, e eu estava fixada no dele. Percebi que minha boca havia se aberto bem pouco por reflexo da surpresa, engoli a saliva que se formava em minha boca, pressionei os lábios e desviei o olhar:
— E esse é seu neto, Afonso Fontes.
Senhor Heid apresentava o rapaz agora. Eu não vou olhar. Mas Sarah me lançou um dos olhares repreendedores e empurrou-me discretamente para mais próximo do rapaz. Ele então me olhou novamente com os lábios pressionados e um leve ar de piada no rosto. Eu odiava aquele olhar. Continuei o olhando séria, olhando para cima, como eu sou baixa e ele é tão alto. Pensei por um instante. E então ele estendeu a mão.
— Maria Clara, certo?
Sua voz bateu nas paredes do salão até chegar aos meus ouvidos, assim como a imagem dele estendendo sua mão em minha direção. Sua voz era áspera e firme, como de seu avô.
— Só Clara. Sem Maria, Ana, ou qualquer complemento.
Apertei de volta. Um aperto firme, como meu pai havia ensinado-me desde garotinha, quando ele ainda sonhava em ter um filho menino. Afonso riu pelo nariz, discretamente.
— Prazer só Clara.
Mostrei meu sorriso falso forçado para deixar claro minha pouca paciência com seu deboche. Ele apenas sorriu de lado, provocativamente. Preciso sair de perto dele. Era o que eu pensava, além de... Preciso encontrar meu celular.
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