Depois do Futuro
10 Capitulo 10
Notas iniciais
–Como assim você tem uma irmã? Você sabe que eu estava só brincando quando disse que a tal Shara era sua irmã, não é?
–Não sei. – disse ignorando a segunda pergunta. -Lindy eu gostaria que você não falasse para ninguém, eu sei que você ainda é amiga da Hilary mesmo depois dela ter se afastado de mim e... bom, isso não vem ao caso, só não conte para ninguém.
Ela balançou a cabeça em sinal positivo enquanto uma coisa ainda me atormentava, eu encontraria minha mãe em breve. Sempre sonhei com esse encontro, com o abraço amoroso, o sorriso em seus lábios e o brilho em seus olhos, seria perfeito, mas agora, que tudo se tornara tão real, não tinha tanta certeza de que seria como eu havia imaginado.
–Terra chamando Sophie! Você ainda está aí? Sophie?
–Infelizmente estou. Que foi?
–Só queria saber se você ainda estava pensando sobre a tal “namorada” do Eduardo, é que eu estava e achei que... –não sabia ao certo se Lindy tinha parado de falar, se eu tinha ficado surda ou se aquela visão tinha me chocado tanto assim.
Aqueles olhos azuis brilhando, os cabelos loiros voando por causa do vento e o sorriso doce e gentil misturado com um pouco de malicia que eu tanto conhecia, só que não era para mim. A dor foi pior do que eu esperava, foi como se meu coração tivesse entrado em greve e parado de trabalhar e os meus pulmões tivessem feito o mesmo.
Tentei entrar sem olhar na direção dos dois, a princípio disfarcei bem, no entanto quando já estava entrando, faltava menos de um passo para estar dentro do prédio, não consegui resistir à tentação de olhar, como resistir àquele cara.
Por mais que eu quisesse negar, sentia falta de conversar com ele, de voltarmos juntos da escola, de sentir um frio na barriga sempre que ele chegava mais perto. Aposto que a tal garota sentia a mesma coisa, não a saudade, eles passavam tanto tempo juntos, mas o frio na barriga.
O baile seria em menos de um mês, ir com Logan era sensação mais incrível de todas, em vez das pessoas olharem para você pensar “Quem é essa menina?” elas apenas vão olhar para você e falar “Quem é essa menina? Na verdade não importa, ela está com o Logan Pines!”. Algumas vezes eu pensei em falar com o Eduardo, para falar a verdade, todas as vezes que eu o encontrava, pensava em falar com ele. O problema é que a tal Shara estava sempre ao seu lado, ou pelo menos na maioria das vezes, e quando não estava, eu é quem não conseguia me aproximar. Só falta eles irem ao banheiro juntos, ai que raiva! O que é isso Sophie? Não me diz que você está com ciúme?
Mesmo sendo clichê, confesso ter ensaiado falar com Eduardo na frente do espelho. O que não deu muito certo, as frases saíram mais ou menos assim “E ai? Como vai a vida?” ruim, “Eduardo, quanto tempo!” de jeito nenhum “Podemos conversar?” o que eu tinha na cabeça?
–Ai, eu desisto! –disse ao mesmo tempo em que reparei que a porta estava aberta e ela estava lá.
–Desiste? Agora que estava ficado mais engraçado, principalmente a parte de jogar o cabelo enquanto fala. –Lindy esboçou um sorriso. –Sophie, você não acha um pouco... sei lá, estranho, clichê, loucura, você ficar treinando em um espelho como falar com um garoto?
–Sim eu acho. Mas se é clichê quer dizer que muitas pessoas fazem e se muitas pessoas fazem e porque dá certo, ou mais ou menos isso. –disse voltando a olhar para o espelho.
Lindy fez uma cara pensativa que era de fato hilariante, coçou o queixo e depois virou para mim novamente.
–Pensando por esse ângulo, pode até ser. Sophie, você já conversou com seu pai não é? Você não vai ter que voltar às onze horas da noite, afinal o baile é só dia! Todo ano, mas mesmo assim é só um dia.
–Eu já falei com ele, mas porque você quer saber?
–Nada! –disse ela com os olhos arregalados. –Nada não.
–Vou fingir que essa conversa não existiu e começar do começo. Oi Lindy! O que você está fazendo aqui?
–É serio isso? Lutar nos Jogos Vorazes, o quê mais seria? Falar com você, sua trouxa. Odeio quando me fazem perguntas bobas. –disse ela rindo, mas não ri junto.
E lá estávamos nós novamente. Eu, Eduardo e a Shara. Eu estava sentada na janela, e eles sentados do lado de fora de sua casa, seus cabelos loiros balançando com o vento e seus olhos claros focados no rosto da menina me faziam estremecer de raiva. Se não os conhecesse, diria que eram apenas amigos, talvez um pouquinho mais que amigos, mas não namorados ou nada desse tipo, o que de fato eles não eram, pelo menos por enquanto. Ele olhou na direção da minha janela e por um tempo achei que ele conseguia me ver, no entanto me lembrei de que o papel/ plástico, seja lá o que isso na minha janela for, não me deixava ser vista, me senti como o Harry com a sua capa da invisibilidade.
–Vai falar com o Logan! –Lindy ficava repetindo enquanto eu a arrastava para o outro lado afim de não dar de cara com ele. –O que você está fazendo? –ela me parou perto dos armários das líderes de torcida e me encarou. –Por que você está fugindo? Por acaso ele te fez alguma coisa? Eu não entendo! –queria dar uma resposta rápida para sairmos de perto dos armários, esse era um dos lugares que o Logan mais ia, claro, cheio de líderes de torcidas bonitas, que garoto ia querer sair de perto de lá, além de estar perto da porta que levava para a quadra de basquete.
–Não, eu só não estou a fim de falar com ele. Acho melhor irmos para a aula, já que... –fui interrompida por um barulho que penetrou na minha alma e me fez tremer e o joelho ficar bambo, pela janela só se via uma fumaça subindo e em menos de um minuto um sinal disparou. –O quê está acontecendo? Que barulho e esse?
Lindy fez uma cara de pânico que me fez esquecer o meu próprio nome, então puxou o meu braço e começamos a correr pelo corredor sem fim. Continuei sem entender nada, apenas correndo para um lugar muito estranho que eu não conhecia, no entanto antes de entrarmos ela me parou, ainda segurando o meu braço e olhou nos meus olhos e então começou a falar:
–Esse alarme... –ela parou tentando recuperar o fôlego. –Não te explicaram? Para mim falavam com todos os novatos? E eu não sabia que estávamos tão avançados? Você ficou sabendo? Eu não fiquei sabendo! –ela apertou um botão e uma porta se abriu, não consegui ver o que tinha atrás dela, estava muito escuro e eu estava mais concentrada nas palavras de Lindy.
–Tem como você falar a minha língua? O quê significa esse alarme? No que estamos tão avançados?
–A guerra Sophie, a guerra, caramba! Em que mundo você vive?
Sabia que o mundo estava em conflito, mas eu não sabia que já resultara nisso? Quer dizer, faz tanto tempo que a Segunda Guerra mundial acontecera, e para mim não estávamos tão mau. Meu pai não me contara. Ninguém me contara, mais que raiva!
Depois que entramos, vi uma escada e então descemos e me dei de cara com tantas pessoas que cheguei a pensar que só nós duas estávamos faltando. A primeira pessoa que eu vi foi ele, seus lindos olhos olhando no meu e um certo alívio de vê-lo ali me preencheu e eu percebi que ele também estava aliviado em me ver.
A diretora chegou próxima a nós e perguntou se estávamos bem, disse que sim, menti. Sentei onde queria sentar, aquele era o pior momento para conversar com ele, mas se não fosse agora não seria nunca mais.
–Você já sabia que estava acontecendo tudo isso? –perguntei tentando começar uma conversa.
–Não. –disse secamente e sem olhar para mim.
–Eu também não. –tentei sorrir, mas achei que não era hora para dar sorrisos.
–Fala sério, gente! Isso lá é conversa? Pede desculpa logo um de vocês dois e parem de dar uma de idiotas. –Lindy não consegue segurar uma palavra na boca, olhei para minha direita onde ela estava sentada e mandei-a calar a boca. Nenhum de nós dois falou nada então eu virei em sua direção e juntei coragem:
–Me desculpe tá legal, não quero que a coisa fique estranha entre nós. Não que tenha alguma coisa entre nós além da amizade. –me aprecei a dizer.
–OK.
Fiquei em silêncio mais um tempo e então perguntei a Lindy quando poderíamos sair dali. Descobri que não sairia tão cedo.
Uma bomba explodiu, ouvi muito bem, poderia ter ouvido mesmo que eu tivesse no Brasil agora, as luzes de emergência se apagaram por um longo tempo e eu fui lançada para o outro lado da grande sala subterrânea e ouvi outro estrondo, mas dessa vez não tive certeza se era outra bomba ou se era a minha cabeça colidindo com a parede. Pousei a minha mão no meu nariz e senti que um líquido saía dele e uma dor estrondosa ardia em meu braço. Então as luzes voltaram, e com toda certeza aquela foi a pior visão de todas.
Olhos abertos por todo lado e outros fechados, mas o que mais tinha era sangue, tinha sangue por toda parte, e eu via o brilho dos olhos abertos se esvaindo, a cor da pele das pessoas se perdendo e o som deles respirando, eu tinha parado de ouvir.
Lindy estava ao meu lado. Seus cabelos sujos de sangue, e seu pé estavam de uma forma que tive certeza que estava quebrado. Eduardo estava de olhos abertos, seus lindos olhos azuis estavam perdendo todo o brilho e a vida, assim como muitos, havia um corte enorme em seu braço que sangrava sem cessar, em sua cabeça havia outro corte enorme então ele abriu mais os olhos e se virou para mim:
–Eu te odeio –disse ele fazendo força para pronunciar suas últimas palavras. –e me odeio por um dia ter gostado de você. –então seus olhos fecharam e eu tive certeza de que não se abririam mais.
A porta se abriu e alguém desceu as escadas correndo, olhou para os lados e veio em minha direção.
–Sophie! Que bom que você está viva! Não sei o que eu faria se você tivesse me deixado. –suspirou aliviado.
–Logan, todo mundo morreu. –disse olhando para as pessoas ali caídas. -O quê houve? Eu não sei o que está acontecendo, eu nunca sei o que está acontecendo! Quero ver meu pai, onde está o resto das pessoas?
–Todos morreram, só sobramos nós dois.
–Da cidade toda? –perguntei aflita.
–Do mundo todo. As armas destruíram o Planeta, não sei como sobrevivemos. –disse ele me puxando através da minha mão.
–Você está bem? –aquela voz me fez respirar novamente. –Você estava suando frio!
–Não foi nada não, acho que foi só um pesadelo.
Eduardo me tocou, sua mão encostou no meu ombro e eu virei, seu pulso estava sangrando, então aquelas imagens vieram na minha cabeça.
–O quê aconteceu com o seu pulso?
Lindy me puxou e cochichou no meu ouvido algo que me deixou apavorada “Foi você!”, a voz dela ainda soava em minha cabeça, virei em sua direção.
–Fui eu? Mas... Eduardo foi mal, foi sem querer.
–Você está bem? Eu levei um susto quando você começou a me agred... esquece, foi só um sonho não foi?
–Sim. –eu espero, quis dizer, mas não o fiz.
–Por que você não me contou que a qualquer momento poderia cair uma bomba na minha cabeça? Então é por isso que você me proíbe de ver os noticiários? Ainda não sei como não fiquei sabendo mesmo tendo a internet ao meu dispor, quer dizer, acho que nenhuma pessoa em sã consciência coloca “Está acontecendo a terceira guerra mundial?” no Google sem saber que está prestes a acontecer o maio desastre de todos. -disse gritando enquanto meu pai me olhava com os olhos arregalados. –Pensei que tivéssemos um elo aqui, uma regra, de sempre contar a verdade, acho que você não está cumprindo essa regra, está?
Então ele começou a rir o que me deixou mais furiosa:
–Você é um pouco exagerada não acha? E até parece que eu não sei que você me esconde muitas coisas. –senti meu rosto queimando.
–Isso não vem ao caso!
Subi para o meu quarto e peguei o livro em cima da cama, porém nesse mesmo instante vi o Eduardo saído da porta da frente. Fui correndo, parei na frente do espelho, ajeitei o cabelo:
–Não tá tão ruim, já teve dias em ele estava pior. –disse enquanto olhava meu reflexo no espelho.
E saí correndo, desci as escadas de dois em dois degraus e abri a porta da frente, antes de saí respirei umas duas vezes para não parecer que eu estava correndo e saí. Esperei ele me chamar, mas como não aconteceu, eu comecei:
–Eduardo. –ele me olhou e atravessou a rua. –Foi mal mesmo pelo seu... –me distraí em seus olhos. –ham, pelo seu pulso. Acho que eu sou mais forte quando estou dormindo. –que horrível, eu não nasci para ser comediante nem nada do tipo, mas esbocei um sorriso e como ele não retribuiu então parei de sorrir.
–Sophie, para de tentar concertar isso, eu já entendi que você e meu irmão estão juntos, tá legal? Não precisa sentir pena de mim, não vou tentar me aproximar de você e nem tentar destruir o seu relacionamento, eu estou bem, juro e podemos até ser amigos de novo, tipo conversar e voltar da escola juntos.
–OK. –não consegui dizer nenhuma outra palavra, não de imediato, até que percebi que já estava falando. –Ela é sua amiga, a novata?
–Quem? A Shara? É. Ela é filha da amiga da minha mãe, e até que ela é legal.
–Você a convidou para o baile? –por que eu não consigo ficar calada?
–Por que você quer saber? Você vai com o Logan. –Ui! Eu não devia ter perguntado nada.
–Nada não, na verdade não estou interessada, não dou a mínima para o que você faz ou deixa de fazer, só estava tentando puxar conversa já que você não faz isso e eu tenho coisa melhor para fazer ao invés de ficar conversando com um babaca que por algum acaso está na minha frente nesse momento!
Virei-me antes dele falar qualquer coisa, saí correndo e atravessei a rua, meus olhos semicerrados de raiva, não me deixaram ver que estava vindo um carro prata em minha direção. Só percebi momentos depois quando estava caída no chão e com os meus olhos se fechando.
Sua mão pousou na minha o seus olhos nos meus, seus dedos estavam gélidos, mas o brilho em seu olhar era o mesmo, sentia a mesma sensação todas as vezes que ele me tocava, ele estava deitado naquele chão sujo, suas roubas rasgadas e manchadas e de sua boca jorrava sangue.
–Eu vou sentir sua falta. –dizia ele com esforço. –Vai ser melhor assim. –seus olhos se fecharam e eu pude ouvir seu coração parar de bater, no mesmo momento em que Logan chegou.
–O quê você está fazendo aí? Vamos, corre! –ele mal olhava para o corpo do irmão que estava caído em um dos cantos, naquele momento não tive noção para saber se era direita ou esquerda, minha cabeça girava como se eu tivesse usado algum tipo de droga.
–Ele morreu! Ele morreu. Ele... –estava apoiada em seus braços enquanto algumas lágrimas caiam dos meus olhos.
Quando acordei, minha perna doía como se um elefante estivesse em cima dela, enxergava tudo borrado, como quando acabo de acordar, mas não passou com o tempo, apertei os olhos e consegui ver meu pai, uma pessoa loira, meu avô, outra pessoa loira e um cara ruivo. Do meu lado tinha uma moça de roupa branca.
–Você me ouviu? –disse ela calmamente.
–Ham?
Ela voltou a falar alguma coisa, acho que dizia sobre a minha perna ou algo assim. Então ela saiu e eu encostei novamente no travesseiro e fechei os olhos, meu pai entrou no quarto e me encarou, Logan veio logo atrás, depois de todo o trabalho que eu tive para me esconder dele, e então Eduardo entrou acompanhado pelo cara ruivo que eu ainda não fazia ideia de quem era.
Meu pai e eu voltamos para casa depois de mais ou menos meia hora. O tal cara ruivo era o motorista do carro, depois de dizer “desculpa” umas cinquenta vezes, fomos embora. Eduardo não falou nada, ao contrário do Logan que me deu minha bronca por não olhar antes de atravessar, ele agora tinha dado uma de meu pai, o que foi estranho.
–O quê você acha? –de volta a escola, quando eu passava perto do lugar em que ficamos durante o suposto ataque, meu coração batia mais forte, Lindy estava ao meu lado sentada, algumas vezes olhava para o gesso em minha perna e depois voltava a olhar para mim.
–De você sonhar com um garoto? Normal. Ou no caso dois garotos? Um pouco pervertida e sonhadora demais, mas não deixa de ser normal.
–É sério Lindy! Quer dizer, já é o meu segundo sonho com o Eduardo que ele morre. Isso quer dizer que eu quero que ele morra?
–Depende. Quando temos sonhos, às vezes são com coisas que queremos que aconteça, e outras vezes, quando temos pesadelos, são porque tememos que aquilo, aconteça. Então ou você quer muito que o Eduardo morra, ou você tem medo que isso se torne realidade.
Não respondi nada, porque na verdade, não sabia o que falar. Seus olhos ainda estavam olhando para mim, provavelmente me esperando dizer alguma coisa. No entanto, quando Lindy percebeu que eu não ia falar nada, ela virou para outra direção.
–Afinal, com quem você vai ao baile, falamos tanto sobre o meu... ham... parceiro? É isso mesmo? Tá, mas voltando ao assunto, falamos tanto o cara com quem eu vou que me esqueci de perguntar com quem você vai.
–Com o Josh. A princípio eu tinha falado não, mas como os garotos, bom a maioria, já estava acompanhado, eu voltei atrás.
–Quem sabe ele pode ser um cara legal. –ela deu de ombros e eu dei por assunto encerrado.
Todas as vezes que eu olhava pela janela e o meu olhar ia de encontro ao lugar em que ficamos durante ao ataque, meus sonhos se projetavam em minha mente e senti que eu começara a suar frio. Durante toda a aula de geografia, fiquei olhando pela janela. O suor e o frio na barriga me preencheram até o momento que decidi sair de sala.
Corri para o banheiro, quer dizer, o máximo que eu consegui com aquela bota idiota, meu estomago se revirava mais a cada passo, meus olhos semicerrados deixavam minha visão embaçada e quando eu achei que não podia ficar pior, além de eu estar com uma cara de quem acabou de fugir de um hospital, avistei aqueles cabelos loiros que me deixaram com raiva.
Quando me olhei no espelho, logo depois de entrar no banheiro e me esconder dela, fiquei com medo de mim mesma. Nunca fui daquelas meninas que faziam maquiagem para ir para a escola, porém acho que eu nunca estive tão acabada. Minha pressão abaixara e parecia que eu ia vomitar, lembrei-me que não tinha comido nada, minha visão embaçou e de repente tudo ficou escuro.
Podia ver tudo destruído, carros em todos os lugares, casas vazias, um silêncio que consumia o resto de esperança que eu ainda tinha. Caminhava a alguns passos a sua frente, mas a distancia que havia entre nós era curta.
Sentia seus olhos em mim, sua respiração rápida e seu coração batendo mais forte. Tive certeza que o medo também o consumia. Em um momento, tudo estava lá, mas agora, esse vazio, essa solidão, era a realidade. Sua mão segurou a minha, seus olhos olhavam os meus. Nenhuma palavra saia da minha boca. Desviei meu olhar de Logan, por um breve momento olhei para frente, e vi mais uma pessoa caminhando em nossa direção. Ele chegou mais perto, podia ver algumas coisas em sua aparência, não o suficiente para reconhecê-lo, mais alguns passos e poderia ver quem era, então...
–Sophie? Esse é o seu nome não é? –aqueles olhos claros nos meus me deixou com raiva, não sabia se o pesadelo acabara ou se aquele rosto fazia parte dele. –Eu sou a Shara, não fomos apresentadas ainda. –tinham sido bons os momentos em que não tínhamos nos falado ainda. –Não sei exatamente o que ocorreu com você enquanto estava no banheiro, no entanto quando entrei você estava caída lá e eu...
–Onde eu estou?
–Na enfermaria, achei melhor chamar alguém quando eu te vi...
–Tudo bem, não importa, eu tenho que voltar para aula.
–Quer que eu te acompanhe?
–Não. Eu vou sozinha.
Era só o que me faltava, aquela garota querer ser boa comigo, era como se depois de tudo o que aconteceu, depois de tudo que ela me tirou, aquela menina insolente quisesse apenas “conversar” comigo. A raiva preenchia cada centímetro quadrado, cada pensamento, tudo. Acabei entrando na sala errada. Tinha que ir para a aula de inglês, acabei entrando na sala de ciências contáveis. Todos os olhos em mim, olhando e pensando “quem é aquela maluca?”, mas nada me importava mais, seus olhos estavam nos meu e senti falta de ouvir sua voz, de sentir seu cheiro de perfume masculino, mas nesse momento meus pensamentos foram interrompidos.
–Senhorita Sophie, você gostaria de alguma coisa?
–Eu... ham...
–Se me permite, senhora Gonzalez, gostaria de acompanhá-la, creio que Sophie não esteja passando muito bem. –ela concordou com a cabeça e ele veio em minha direção. Saímos da sala.
–Logan, desde quando você fala assim?
–Assim como?
–Sei lá, sem os “meu” ou “tá ligado”. Gostei mais assim, se me permite dizer.
–Não sabia que preferia assim.
–Como? De forma educada e gentil, meiga e adorável? É, eu prefiro.
Fomos andando até a diretoria, a diretora não queria me deixar ir, não sei como, porém Logan falou com ela e no segundo depois, estávamos indo embora.
–Tem como você me contar o que aconteceu com você?
–Já falei, não foi nada, agora quem faz as perguntas sou eu, primeiro, como você consegui que saíssemos mais cedo?
–É que eu ganhei alguns prêmios e por isso a diretora me adora, ou pelo menos eu penso que é isso, no entanto já faz um tempo.
–Prêmio, tipo campeonatos de basquete?
–Tipo isso, mas isso não vem ao caso, afinal o que você tem?
–Você está mudando de assunto! É algum prêmio que você tenha vergonha tipo clube de xadrez ou algo assim? Me fala!
–Clube de matemática e física.
–Oi?
–Pois é.
Eu tentei não rir, tentei mesmo, mas não fui capaz, definitivamente, naquele momento, tive certeza que o Logan estava brincando comigo, não que ele não fosse inteligente nem nada, mas ele não era.
–Eu sei o que você está pensando, acredite ou não, um dia eu já liguei para minhas notas. Eu era como aqueles garotos que sentam na primeira carteira e estudam para as provas.
–Quando a gente pensa que conhece uma pessoa... –disse baixinho.
–Não é tão difícil de acreditar assim, é?
Concordei com a cabeça, estávamos chegando em frente a minha casa, mais alguns passos e eu já estaria no meu quintal, peguei a chave e fui andando em direção a porta da frente, mas Logan segurou minha mão fazendo com que eu me virasse para ele.
–Você não gostaria de entrar, tipo conversar, ver um filme, serie...
Eu ia dizer não, com todas as letras eu ia pronunciar um sonoro “não”, porém percebi que eu estava e afastando dele, afinal, não era tão ruim sentar no sofá, assistir um filme e ficar na sua companhia, além do mais, eu queria isso, ansiava por isso, e não poderia esquecer-me de imaginar a cara do Eduardo quando ele chegasse. Não que eu estivesse pensando nele.
Quando entramos, ele subiu para o quarto me puxando junto, provavelmente ele ia escolher o filme. Subimos as escadas e ele abriu a porta. Seu quarto tinha paredes azul-marinho bem escuras, muitas fotos coladas na parede, um cachorro, uma banda de rock, ele o irmão e a mãe e muitas outras que eu não pude ver. Meus olhos foram atraídos pela estante de DVDs, tinha todas as series que eu conhecia e outras que eu não fazia a menor ideia de sua existência. Sua cama era de casal, o que me deixou um pouco com raiva por causa de pensamentos aleatórios que vieram na minha cabeça, tinha uma escrivaninha com um computador e...
–Ham, eu acho que vou esperar na sala enquanto você troca de roupa. –senti meu rosto queimando de vergonha.
–Não seja ridícula. –ele estava sem camisa, e no momento que ele falou, não sabia se prestava atenção em suas palavras ou no seu físico. Ele me segurou pela cintura e meus olhos fecharam, seus lábios nos meus eram como duas peças de um quebra-cabeça, ficamos ali, não sei por quanto tempo exatamente, mas quando acabou, parecia que a felicidade também me abandonara.
Estávamos assistindo um filme, era triste e romântico ao mesmo tempo era engraçado. Minha cabeça estava encostada em seu ombro e aquela era uma das cenas mais românticas que eu podia imaginar, no entanto quando ele chegou e seus olhos começaram a nos observar e a dor preencher seu corpo, percebi que seus sentimentos em relação a mim ainda existiam, Eduardo ainda sentia alguma coisa por mim, e aquele olhar podia confirmar tudo isso.
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