Depois do Fim
2 1 - Hurricane
Notas iniciais
Hurricane (Name): a violent wind that has a circular movement.
PRESENTE — 10 ANOS DEPOIS
Quando ela ficou naquele cemitério, a minha vida acabou. O que me vale mesmo é que não no sentido literal. Logo que olho para o calendário velho da cozinha sinto as lágrimas a tentarem fugir pela minha cara abaixo. Como ela adorava as manhãs de segunda-feira.
Parece que tudo neste Mundo me parece querer lembrar que ela morreu e não vai voltar. Para ser sincero, ainda mal me conformei de que Callie nunca mais vai entrar pela porta deste estúpido apartamento e dar-me os bons dias, chamar-me de chato por não gostar das bandas estranhas dela e beijar-me com fogo como mais nenhuma outra faz.
Com ela tudo era diferente. Callie preferia acampar a ir para a praia assar, ouvir puro rock em vez de pop, ver futebol em vez de séries ou filmes. Um vazio enorme preenche-me desde que ela se foi, e até agora não consegui cumprir nenhuma das promessas que lhe fiz.
— Bom dia, flores do dia!
Tento não revirar os olhos. Todas as segundas eu venho assistir a um Grupo de Apoio a que os membros gostam de chamar "Amigos do Cancro". Como se fosse possível serem amigos da doença que os mata, falam sobre os seus problemas e a zona que está a ser destruída pela doença.
Sento-me numa cadeira no canto da sala ampla, na esperança de que o chefe desta porra toda não me chame como faz todas as semanas e me deixe ouvir apenas os testemunhos destes pobres diabos.
Se havia coisa que Callie odiava, era a pena. Ela chegava a perguntar-me cinquenta vezes ao dia se o nosso namoro tinha base na sua doença e condição de "coitadinha". Deveria saber que é mentira, no entanto fingia não acreditar para me ouvir dizer que a amava.
— Vocês estão tão calados... Meus amigos, estamos de bem com o Cancro, certo? — Pergunta Sam, sem tirar o seu sorriso, com o olhar fixo em mim. — Reparo que há vários de vocês nesta sala que nunca proferiram uma palavra sequer desde o início.
Sam é o co-criador do grupo, e ele orienta todas as sessões de segunda. Ele insiste que o criador principal dá sessões uma vez por mês, mas qualquer um pode perceber que ele está-se pouco lixando para toda esta treta. Sam é um dos tipos a que eu chamo pobre diabo no meio destas tristes reuniões.
Há 10 anos, Sam teve um cancro nos testículos, ao qual sobreviveu por um triz. Um triz realmente muito pequeno. Depois de lhe cortarem as bolas e as substituírem por um belo monte de fios e sacos, o tipo ainda hoje se gaba das aventuras que teve antes de lhe tirarem o material. E a pior parte é que ele lhes dá números por ordem cronológica: por vezes prefiro pensar que a doença lhe consumiu um bocado do cérebro, também.
— Como dizia a Dois, Ava Hamptons, hoje é o vosso dia. Algum de vocês está disponível para desabafar um pouco? Lembrem-se de que aqui somos amigos, não há que ter medo de falar o que nos vai na alma... — Sam não para de olhar para mim, como se fosse uma aberração no meio de toda aquela gente.
Silêncio. Uma rapariga que me recordo de se chamar Viviane começou a falar sobre como se sentia com a doença e, pouco a pouco, toda a gente vai falando alguma coisa, como se a timidez tivesse desaparecido.
No fim da sessão, levanto-me repentinamente é só já ouço um grande barulho de algo a partir-se no chão. Baixo os olhos e vejo o meu telemóvel destruído. Não pode ser. Tudo menos isso. O telemóvel que ela comprou com as poupanças de anos, por poucas que fossem, o telemóvel que ela tocou e colocou no seu ouvido para atender uma chamada.
Porra. Tudo menos isto que acabou de acontecer. Pego nele e passo os dedos pelo ecrã rachado, na esperança de sentir a sua mão a encaixar-se na minha. Nós parecíamos ter sido feitos à medida um para o outro, e a forma como nos abraçávamos perfeitamente era quase mágica.
Tento ligar o aparelho, mas ele não dá nenhum sinal de vida. As fotos, as músicas, os textos que Callie escrevia, as cópias do seu diário e da lista estavam todos naquele telemóvel. Tudo perdido.
Todos saem da sala, com um olhar de pena nos olhos. Deve ser porque estou a chorar. Sam é o único que fica ali, estático, a olhar para mim e para o ecrã rachado do telemóvel que já não ligaria mais ao mesmo tempo.
— Todos temos cicatrizes . — Diz ele, pondo uma mão no meu ombro em sinal de apoio.
— Pois eu não tenho. — Murmuro secamente, sacudindo a mão de Sam, que ele enfia no bolso do casaco.
— Porque é que não desabafas? Há gente boa aqui, com histórias se calhar parecidas com a tua. — Incentiva ele, passando-me uma foto que tinha no bolso. — Este sou eu no Hospital, a lutar pela vida em coma. É uma história, e eu quero saber qual é a tua.
— Eu... Não acho boa ideia. — Gaguejo. — Aliás, eu nem sequer tenho uma história.
— Tu vens aqui há várias sessões e nunca proferiste uma palavra sequer. É óbvio que tens algo para contar. Todos têm. — Suspira Sam, passando a mão pelo cabelo de frustração. — Porque razão assistes às nossas reuniões?
— Eu preciso de saber como é que ela se sentia. — Apenas digo, enxugando as lágrimas que escorrem pela minha faces. Sam olhou para mim, com uma cara interrogativa. — É uma história muito longa.
— Temos todo o tempo do mundo. — Diz ele, e sinto à vontade de contar tudo o que se passou para alguém pela primeira vez em dez anos. — Os segredos intensos matam-nos, devias saber isso. Há que os soltar de vez em quando. Afinal, quem és tu?
— Harry. Harry Van Der Washington, vindo de Nova Iorque. — Respiro fundo, quase a poder ouvir os meus batimentos cardíacos no silêncio.
— Eu sou o... — Começou ele.
— Sam Díaz, 32 anos, solteiro, cancro dos testículos. — Corto, sem tirar os olhos do chão. O chefe do Grupo de Apoio olha-me com uma sobrancelha erguida. — Lá por estar calado não significa que não ouça o que vocês dizem.
— Ainda bem. — Murmura ele, e então levanta a voz para mim: — E então, Harry, quanto tempo tens ainda?
— Nenhum. O Tempo é um vilão mau e sem escrúpulos, que anda sempre de mão dada com a Morte. É impossível ter Tempo. — Digo, tentando desviar-me das perguntas de Sam com respostas filosóficas de postal.
Ele tenta abrir a boca para explicar.
— Eu entendi a tua ideia, Sam. Mas, se não tiver qualquer acidente, ainda tenho muitos anos pela frente. Não tenho cancro nem lutei contra nenhum. — Resmungo, e ele parece estar cada vez mais confuso.
Eu vim para o Grupo de Apoio para ouvir testemunhos. Se pesquisarmos "guerreira" no Google, a resposta vai ser "Callie Adams", de certeza. Ela nunca demonstrava tristeza, ódio, ou sequer chorava: vivia a vida ao máximo para não desperdiçar qualquer segundo em coisas vãs.
Chorar nunca me vai dar mais vida. A sua voz é clara e límpida na minha mente, tal como a sua imagem angelical. É impossível esquecer-me dela por uma única fração de segundo, já que Callie me tem. Logo que a vi lhe pertenci, e ela teve de partir. Partir para sempre.
— Estás pronto para desabafar?
Eu só preciso de 5 segundos de coragem para fazer algo. Saltar de uma ponte, acelerar num carro, dizer "sim" a algo que me pode mudar a vida. Esta frase vem à minha mente. Com a voz dela. Aquela voz maravilhosa que, quando cantava ou falava, me lembrava algo doce. Sentia-me feliz quando ela estava comigo, sem a pressão do dinheiro, como se estivesse numa ilha tropical a beber um batido de manga e baunilha. Isto não faz grande sentido. Mas era assim que eu me sentia e é a melhor sensação do mundo.
— Sim. Eu estou pronto.
Flashes de memórias começam a atravessar a minha mente e contenho-me para não chorar. E assim, começo a contar a minha história a Sam, que olha para mim com pena. Ela odiava pena. Mas, neste momento, acho que aquele olhar me faz sentir que tudo valeu a pena. E que ela foi real.
Continua...
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