Depois do Fim
10 Capítulo 10 - Hold on to what we are
Notas iniciais
– Sam, seu telefone! – O Freddie gritou.
Acordei atordoada, quase caindo da poltrona. Minhas mãos foram direto para o rosto numa tentativa de não cegar. Tinha esquecido de fechar a cortina ontem à noite.
– Merda. Quem é? Atende! – Gritei de volta.
Ele pareceu olhar o visor e atendeu sorridente:
– Carly?
– Coloca no auto-falante. – Falei mais calma.
Escutei uns zumbidos do outro lado da linha, obviamente não dava para entender mas ela estava num lugar movimentado.
Mesmo ainda meio zonza, levantei e fui até a cama.
– Sam, Freddie, vocês estão juntos? – Ela perguntou em voz alta, e na mesma hora uma música começou a tocar.
– Sim, estamos. Onde você tá, Shay?
– Eu tô no aeroporto esperando você há uma quase uma hora, e o Spencer não atende!
– Espera – Olhei para o relógio ao lado da cômoda e meus olhos pularam. Tentei xingar apenas mentalmente –, a gente tá indo aí agora!
Já eram quase 13h30!
– Venham logo antes que eu seja convidada para a festa de boas-vindas de mais alguém.
Eu desliguei o telefone ao passo que me levantava e revirava a gaveta de roupas.
Freddie continuou no mesmo lugar e franziu a sobrancelha, perguntando:
– Não está esquecendo de nada?
– O que? – Tentei pensar e, ah, está certo.
– Ah, celular. – Tentei puxar da mão do Freddie mas ele segurou mais forte.
– Não, eu.
Ah, ele está machucado.
– Você não consegue andar?
– Conseguir eu até consigo, mas não o suficiente para que não pareça que tive um derrame.
– Que drama, Freddward... Vem – Eu comecei a puxá-lo pelos dois braços –, vamos!
– Tá doendo! – Ele gemeu – Calma, eu vou ligar para o Spencer.
– Okay, eu vou me arrumar enquanto isso. – Eu disse.
Escolhi uma roupa e fui direito para o banheiro, então penteei o cabelo e escovei os dentes da forma mais ágil que podia.
Saí do banheiro em menos de cinco minutos e reparei que Freddie tinha saído da cama, e do quarto.
– Freddie?
– Na cozinha. – Ele respondeu – A moto do Spencer quebrou e ele pegou um ônibus.
Andei até a cozinha. Com essa pressa toda, esqueci até de comer.
– Então nós vamos chegar antes dele.
O Freddie estava em pé meio curvado, com as mãos na cintura, tentando ficar ereto.
Eu dei uma risada e ele perguntou meio receoso:
– Eu não lembro muito bem da noite passada. Pode me contar o que aconteceu?
Suspirei fundo. Eu sabia que ele não estava completamente consciente na hora que estapeou o Brad.
– Você e o Brad se atracaram depois que você viu ele e a Candice se beijando e eu tirei você da festa a tempo da polícia não chegar.
Ele riu e me passou uma caixa de leite, assim, peguei e coloquei o leite em dois copos, o entregando um.
– É meio turvo, mas eu consigo lembrar se me esforçar – Ele franziu a testa – Minha cabeça dói.
– Eu não briguei com você ontem mas – Bebi uns goles do leite e sentei na mesa –, quem você pensa que é para voar em cima de alguém por um assunto meu?
– Eu estava bêbado. – Ele falou se defendendo. Mas não era a resposta que eu queria.
Abri um pote de cookies que tinha sobre a mesa e despejei alguns na tampa.
– Você só fez porque estava bêbado? – Minha voz soou um pouco desanimada, mas não foi intencional.
– Não, eu não me arrependi de nada. – Ele disse, certo.
Freddie se sentou ao meu lado e eu ofereci a tampa com os cookies.
Ele pegou um e comeu com dificuldade. Até seus lábios estavam machucados.
Olhei para os seus olhos e o fitei de leve. Mesmo roxeados – e meio esverdeados – por fora, tinham uma cor-de-avelã e um brilho singular.
– Você precisa de um banho e colocar mais gelo.
Ele fez uma análise de si mesmo e sorriu:
– Preciso.
Comemos alguns cookies e bebemos leite.
Logo depois, o Freddie foi ao banheiro. Procurei uma camiseta e qualquer bermuda que servisse para ele e o emprestei.
Mandei uma mensagem para Carly avisando que talvez me atrasasse mais. Ela respondeu no mesmo segundo surtando. Só respondi com uma mensagem: "Desculpa, Carls, já estou quase saindo de casa, depois eu explico tudo, você vai entender quando souber".
Acho que foi pior. Maldita hora em que eu esqueci que a Carly Shay é a pessoa mais curiosa que eu conheço. Ela não parou de me enviar mensagens histéricas – se é que posso chamá-las assim – para o meu celular por um bom tempo.
E quando eu pensei que ela estivesse mais calma, ela me ligou.
– Carly? – Atendi.
– Cadê você? E que história é essa de que eu vou entender? O que aconteceu?
– Tô saindo de casa, espera aí.
Ela bufou e desligou.
Bati na porta do banheiro e perguntei:
– Freddward?
– Calma. – Ele falou do outro lado da porta.
Sentei na cama para esperar mas na mesma hora ele abriu a porta.
– Vamos?
Eu tentei imaginar a Carly o vendo desse jeito.
– Você tá imaginando a Carly me vendo assim. – Ele brincou.
– Ela vai surtar.
Dito e feito.
Pegamos um táxi e em uns minutos chegamos ao nosso destino. Chegando lá, corremos para procurar a Carly no meio daquela bagunça.
Parecia que tava mais cheio do que normalmente.
Por acidente, topei com uma garota e perguntei a ela se ela tinha visto alguma garota com as características da Carly. Ela aparentava estar aturdida, por isso Freddie e eu balançamos as mãos na sua frente, a obrigando a sair do transe. Ela piscou os olhos e pronunciou silaba por silaba:
– Vo-cês são do i-Car-ly – Então nos abraçou da forma mais sufocante possível.
– Éramos... – Falei devagar. – Não nos odeia?
– É claro que não! – Ela respondeu depressa. – Vocês vão voltar, certo?
– Somos. – Alguém falou. Soube imediatamente quem era.
Essa voz eu reconheceria mesmo se passasse trinta anos sem ouvir.
Respirei fundo e me virei.
– Carlotta Shay! – Vibrei e abri os braços. Ela me abraçou forte.
– Sam... Sam... Sam! – E ela repetiu isso por mais umas cinquenta vezes. – Freddie, Freddie! O que é isso? Freddie, você está todo machucado! – Ela gritou ao notar a presença do Freddie atrás de mim e ele veio nos abraçar.
Nosso trio. Ficamos assim por um tempo até que:
– Posso tirar foto com vocês? – Perguntou a menina, interrompendo nosso momento.
Enfim nos soltamos.
– Pode. – Carly sorriu para ela e se dirigiu a nós – Ela me fez companhia enquanto vocês não chegavam – Explicou.
Não que precisasse de explicação mas ela tinha uma cara meio de psicopata. Lembrava levemente a Mandy. Contudo, tiramos foto e ela no mesmo instante postou em todas redes sociais existentes que participava.
– Vamos tomar café? – Freddie perguntou e eu concordei com a cabeça.
– Não, não vamos tomar café. – Carly fez cara de enjoo – Eu tomei todos os tipos de café do cardápio esperando por alguém. – Olhou para mim com cara feia. Me rendi com as duas mãos.
– Ah, isso! – Freddie lembrou: – O taxista tá esperando o dinheiro, Carly.
– Que dinheiro?
– A gente tava sem. – Respondi – Dissemos que você pagaria... Ele tá ali. – Apontei para uma pessoa impaciente, de braços cruzados, distante de nós.
– Você não tem? – Freddie perguntou.
– Não, se eu tivesse não teria esperado vocês. – Carly falou irritada – E o que é isso? – Ela apontou para o rosto do Freddie – Vocês não vão mesmo me contar?
– Primeiro vamos falar para o cara que ele vai ter que esperar o Spencer. – Freddie colocou as mãos nos bolsos.
Uma luz acendeu em minha mente.
– Ei... Ei! – Olhei para a menina que assistia nossa discussão meio abobada – Qual seu nome?
– Esther. – Deu um sorriso que mostrou todos os dentes de sua boca.
– Esther, você tem dinheiro? Quarenta reais?
– Mas Sam... – O Freddie começou a falar mas eu tapei sua boca.
Shhhh!
Ele recuou e eu continuei:
– Você tem?
– Tenho.
– Você se importaria em emprestar? – Fiz carinho no topo da sua cabeça.
Ela sorriu e negou, me entregando o dinheiro.
Nunca achei que fosse tão fácil roubar doce de criança quando se tem um webshow na internet. Ou se tinha, que seja.
– O pagamento pode ser você fazer uma participação no iCarly quando ele voltar. – Carly deu de ombros, entrando na onda.
– Ou dois, ou três. – Freddie sorriu.
Ela começou a chorar de emoção. Quer dizer, espero que tenha sido.
– O Spencer tá me ligando. – Carly atendeu – Alô? Oi! Spencer, cadê você? Okay. Finalmente, né? – Ela tapou o telefone e disse: – Ele está na frente nos esperando.
Paguei o taxista, Spencer e Carly choraram abraçados por quase meia hora, nos despedimos da Esther e andamos nós quatro para fora do aeroporto.
– Vou comprar churros com os dez reais. Alguém quer? – Perguntei. Spencer e Freddie levantaram a mão e Carly revirou os olhos.
– Se eu soubesse que o táxi era trinta, não teria deixado você pedir quarenta! – Reclamou –Mas comecem a me contar... Em que briga você se meteu, Freddie Benson? – A Carly perguntou séria.
Sorrimos.
Ele olhou para mim e eu neguei.
– Ela não sabe de nada. – Eu disse.
– Em resumo, o Brad e eu nos atracamos. – Freddie respondeu.
– Você e o Brad? – Carly arregalou os olhos – Quero de-ta-lhes! – Implorou.
– Eu também quero saber. – Spencer falou, orgulhoso: – Finalmente nosso Freddinho se meteu numa briga de verdade?
Respirei fundo e comecei a contar.
Contei a mentira. Que eu e o Brad começamos a namorar, da festa, que o Freddie ficou bêbado e da pegação descarada dele e da Candice.
Eu não cheguei nem a terminar de falar "Candice" e Carly já a odiava profundamente.
Tínhamos muitas coisas para conversar, fotos para tirar juntos, passar em algumas lojas e voltar para casa.
Mas tinha mais coisas ainda para conversar com a Carly em particular, coisas para explicar, esclarecer, desmentir. E era recíproca essa vontade. Via claramente em sua ansiedade – que ela mal conseguia disfarçar – que ela mais do que nunca contava os minutos para que pudéssemos ficar sozinhas.
O que será que ela tinha de tão importante para me contar? Será que tinha acontecido alguma coisa na Itália?
Será que ela me contaria sobre o beijo dela com o Freddie?
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