Depois do Crepúsculo

21 Capítulo Dez: "PALAVRAS AMARGAS"


Notas iniciais
Sim, estou viva. Muitos anos se passaram, minha escrita mudou um pouco. Portanto, não estranhem as mudanças de linguagem. Este é apenas o meu novo "eu" como autora.

- Edward Cullen -



O mundo era um lugar sombrio daquele lado do muro.

Enquanto o sol se punha e eu ouvia Bella conversando com sua estranha amiga, vários metros abaixo do nível do solo, não podia deixar de prestar atenção à movimentação do castelo.

Já havia experimentado um pouco daquele mundo através das lembranças de Carlisle. Muito mais do que caçar e adorar os seus senhores, a guarda se movia como um grande organismo vivo, um grande formigueiro: cada soldado, cada membro menor, vampiro ou humano, desempenhava uma função vital ali dentro.

O mundo vampiro era monitorado pelos diversos olhos humanos: noticiários, blogs sobre acontecimentos estranhos em lugares mais remotos, redes sociais que cresciam conforme os anos se passavam, sites governamentais. E havia as finanças, o castelo em si, a cidade; os tentáculos dos Volturi estavam estendidos em todas as direções, se adaptando ao novo para valer a velha lei.

Ao meu redor, as paredes eram grossas, mas a vigilância era constante; mais guardas. Eu fingia olhar pela janela o pôr-do-sol, mas estava me controlando. Me controlando para não descer as escadas e os esgotos novamente antes que ela fosse levada para uma noite de caçada.

– Os anciãos irão nos receber agora. – Era Carlisle, parado em minha porta, porém, sem vontade de entrar.

Havia ouvido sua aproximação, mas fingi que não me importava. Precisava parecer calmo, sob controle, talvez até entediado. Depois do fiasco da nossa pequena recepção, estávamos pisando em ovos. O que explicava a tensão de Carlisle de vir até mim e me convidar para ir com Jasper e ele.

– Você teme o meu descontrole. – Não era uma pergunta. Alice e Jasper já o alertaram minutos antes. O futuro não era promissor.

É uma chance em três.

Uma chance de fracasso.

– Posso lidar com isso. – falo, não tão seguro, mas me obrigando a ser confiante, visto que as chances estavam mais a meu favor do que contra.

A verdade é que, além de tenso, eu estava irritado. Uma raiva homicida. – Se os pensamentos de Caius sobre Bella eram injustos, os de Aro eram... obscenos. A obsessão do líder Volturi estava além dos limites do mero sentimento de posse. A existência dela o deixava zonzo, quase apaixonado. Me lembrava do quando James pôs os olhos nela e decidiu que ela seria sua caça. A diferença é que Aro tinha conseguido cravar os dentes nela e ido até o fim. E isso me fazia desejar que seu corpo também virasse cinzas, junto com todo o prédio e a podridão que o cerca e ele chama de “lar”.

Some isso ao medo de que tudo dê errado, muito errado. – Meu humor, antes depressivo, tinha sido substituído por uma granada de mão: o menor dos impactos e tudo poderá ir pelos ares.

Talvez queimar tudo não seja uma ideia tão ruim assim.

Quando foi que eu me tornei tão irado?

A caminhada até a biblioteca foi silenciosa. Jasper monitorava meu humor como um médico no leito de morte de seu paciente e eu queria rosnar para que ele parasse. Uma reação irracional, visto que o homem só estava fazendo o próprio trabalho. Deveria estar agradecido pela atenção.

Passamos por portas duplas de madeira maciça e estávamos cercados por livros velhos com cheiro de couro velho e algum tipo de resina. O lugar era bem iluminado, apesar de ter uma única janela e lá fora já ser noite. – Lâmpadas a gás. Que antiquado!

– Senhores, – A voz de Aro chegou até nós antes de que pudéssemos vê-lo, perto da janela e à beira de uma gigantesca mesa de madeira clara. – chegaram bem na hora!

Era um tom de voz amigável, alegre e pomposo. Seus cabelos negros se mesclavam com perfeição ao manto que usava, como se os dois fossem iguais. Talvez fossem. O homem tinha pensamentos sombrios demais sobre os outros para alguém que tentava ser sempre simpático e refinado. Era mais vampiro do que deixava transparecer.

Carlisle e Jasper sorriram com as boas-vindas, mas decidi permanecer neutro. E isso não passou despercebido pelo ancião. Seus olhos grandes se estreitaram levemente em minha direção, tentando ler algo em meu rosto como fizera mais cedo, no torreão, enquanto aguardava que eu me rendesse aos meus sentimentos. Ainda não havia decidido se era sábio ou covarde, da minha parte, manter distância.

Ele havia descoberto as intenções de Carlisle como as mais honestas possíveis – ajuda –, porém, algo lhe dizia que a chave estava em mim, na minha mente. Me tocar por dois segundos não havia mostrado muito. Precisava de mais, ver até onde meus sentimentos por Bella iam. E o que eu seria capaz de fazer por eles.

Por ela.

Um homem apaixonado era tudo que precisava. A história lembrava um pouco a de Marcus e de sua irmã, e o triste fim do casal. Uma artimanha, um jogo para manter o irmão ao seu lado e lançar fora a pedra que machucou seu pé.

A mulher tinha demonstrado ser um grande fracasso na busca de Aro por mais poder: desprovida de um dom decente, muito questionadora, muito empática, muito... humana. Matá-la foi um grande alívio. Marcus, obstinado em vingar sua amada e muito apaixonado, não contestou a suposta culpa dos romenos e queimou seus castelos com gosto. A vida abandonou seus olhos logo em seguida, mas ele nunca foi embora. Sua nova missão havia se tornado a lei e sua máxima justiça.

Não era à toa que não estava presente na biblioteca para discutir os trâmites: considerava a permanência de Bella e Natalie injustas. “As garotas estarão sob uma nova tutela, uma boa tutela”, ele disse a Aro antes de retornar ao seu escritório e se trancar. Aro não havia ficado nem um pouco feliz com a atitude impertinente do irmão, mas não estava a fim de discutir. Preferiu descer com Caius e fingir normalidade. Afinal, o que ele poderia dizer? Que Marcus estava indisposto?

– Obrigado por esta audiência – Eles trocaram um aperto de mãos rápido. Aro fez uma pequena varredura nas últimas horas e a informação da minha possível instabilidade de humor criou um pequeno rebuliço de deleite dentro de si. Antes que deixasse transparecer, ele o sufocou a uma pequena brisa, retendo apenas a informação, aplacando a emoção.

Aro assentiu, complacente.

— Sempre o admirei por ser tão íntegro às suas convicções, Carlisle — comentou, sem dar pistas de aonde queria chegar -, mas admito que fiquei surpreso quando a menina Isabella disse que vocês permitiram que ela soubesse de nosso segredo. — Esta parte era verdade. Carlisle, “o tão certinho” Carlisle, dando aval a um deslize imperdoável.

— A menina é inteligente. Descobriu por conta própria.

— Mas vocês não negaram.

— Achei que a represália não viria — Interrompeu Jasper, firme e friamente, como uma navalha, desgostando tanto Aro quanto Caius. — O preço foi pago. As jovens não são mais ameaças.

— De fato. — Concordou Aro, com um ar doce, quase inocente. — Não me entendam mal; quero apenas entender as razões de seu clã. Queria testar algo? Atrair uma presa para um jogo? Ver se ela se encaixava como um novo membro? — Os olhos estavam arregalados em curiosidade fingida.

Perguntas tolas para as quais ele sabia as respostas. Um jogo. Para testar meu sentimentalismo e dos demais.

Carlisle suspirou.

— Tratou-se somente de romance adolescente. — falei antes que Carlisle inventasse qualquer coisa menos constrangedora. — Puramente passageiro.

Caius revirou os olhos e Aro piscou, duas vezes, encarando o vazio, como se a informação estivesse se assentando em sua mente. Na verdade, ele repassava mentalmente as palavras de Bella, comparando ao que tinha visto em minhas lembranças e nas de Carlisle, como um filme.

— Uma donzela apaixonada, abandonada e trancada em uma torre para envelhecer ou morrer de tristeza. — Foi a única conclusão que externalizou. — Isso é cruel, até mesmo para mim. Teria sido melhor ter dado cabo dela de uma única vez. Ou a levado convosco, como sua companheira.

— As decisões de meus filhos não fazem parte desta negociação, Aro. — cortou Carlisle, direto.

Os lábios de Aro se esticaram em um sorriso de pedido de desculpas.

— Claro, perdão. Às vezes a curiosidade fala mais alto. Não foi minha intenção ser rude.

— Sem problemas. — Dei de ombros.

— Nossa proposta é um treino árduo de um ano. — começou Jasper, não permitindo que o silêncio perdurasse por mais de um segundo. — Não as ensinarei somente táticas de combate e luta individual, como lhes darei todo o suporte em caso de descontrole emocional. Já lidei com tropas com dezenas de soldados nas mesmas condições de ambas, portanto, não terei problemas em contê-las. — Seu tom de voz era sério e um tanto prepotente. O suficiente para gerar credibilidade e incômodo. — Um bom treino permite que as mentes de ambas não foquem na sede e torna as emoções mais fáceis de gerenciar. Obviamente, não será cem por cento, mas será o bastante para evitar que acidentes aconteçam. — Cruzou os braços, o cenho franzido. — Não estamos oferecendo um milagre, mas uma boa disciplina. E quando digo “boa”, não estou desmerecendo a de vocês. As de vocês funciona, aqui, para aqueles que são daqui. Do outro lado do oceano, a cabeça dos jovens funciona diferente. E por mais que a Srta. Isabella seja distinta da maioria das jovens de sua idade, algumas coisas elas têm em comum, e uma delas é uma certa aversão a figuras de autoridade. É de sua geração. Portanto, tratarei como iguais, como capazes de aprender tanto quanto de ensinar. O que, até certo ponto, é verdadeiro: cada pessoa é diferente. As táticas são adaptadas; o método de ensino, também. A base permanece, sempre.

Aro assentiu.

— Razoável — murmura, analisando a mesa entalhada como se fosse a coisa mais importante do mundo. — Alguém de minha confiança os acompanhará. Queremos saber mais desta tática ocidental de combate.

— Justo.

— E o que irão querer em troca? — Caius me encarava com um olhar assassino.

— Estamos aqui como amigos — afirmou Carlisle, ultrajado.

Caius suspirou.

— Seus filhos têm bastante autonomia, pelo que vi e vejo. Terei que ouvir deles.

Jasper foi o primeiro.

— Sou um instrutor, somente. Têm a minha palavra.

Silêncio.

Edward?

Cerrei o maxilar. — Olhos demais.

— Ficarei fora do caminho.

Aro sorriu, satisfeito.

Carlisle e Aro apertaram as mãos novamente, fechando o acordo. Não era o mais agradável, para nenhum dos lados, porém, era o melhor consenso ao qual conseguiam chegar.

— Espero que com este trato, Carlisle, seu filho realmente não nos cause mais problemas. – Murmurou Aro de forma compassiva, de repente ignorando a minha presença diante dele, como se estivesse discutindo com Carlisle as atitudes de uma criança problemática.

Uma clara provocação. – Alice já havia me alertado de que muitas delas seriam usadas contra mim, portanto, o peso de suas palavras nada me valia. Minha mente só possuía um único objetivo naquele momento. Não seria ele, um velho obcecado por poder, que me faria fraquejar.

Registrei o momento em que o corpo de Carlisle tensionou, incomodado com o comportamento de Aro.

— Edward não irá interferir nos assuntos internos de seu clã, vocês ouviram. Porém, Aro, isso não elimina a possibilidade que ambas queiram partir conosco em algum momento futuro, principalmente, se tratando de Bella. Não por ela ter tido alguma história com meu filho no passado, mas pela própria natureza da menina...

— O que a senhorita Isabella decidir daqui em diante, não é problema de vocês. – Caius o interrompeu, impaciente. – Enquanto recém-criada, sua tutela e a de Natalie nos pertencem. Afinal, que tipo de governantes seríamos se não déssemos o exemplo aos demais? – Ele sorriu, um sorriso seco. Mas, por dentro, ele estava fervilhando de raiva.

A fala de Caius pegou a todos de surpresa. Dos três, ele era quem mais queria se livrar das moças. O que o fez mudar de ideia? Orgulho? Sim, provavelmente. A ideia de ter alguém, além dele, responsável pela disciplina de pessoal o magoava mais do que a ideia de ter que ser a babá de duas jovens insubordinadas.

Ele seria um pé no saco de Jasper, sem sombra de dúvidas.

Carlisle assentiu.

— Apenas solicito que não esqueçam o valor de suas vontades e opiniões.

As narinas de Caius dilataram enquanto ele encarava Carlisle com o mais puro ódio.

— O que está tentando insinuar?

— Não insinuo nada. – Rebateu Carlisle, um pouco ríspido e sustentando o olhar. – Só estou os lembrando os fundamentos básicos deste clã do qual já fiz parte séculos atrás: unidos por lealdade e respeito, e não por coesão.

Caius precisou de toda a sua força de vontade para não rosnar. Em vez disso, riu sem humor algum, as íris completamente negras.

— Vindo de você, é irônico que esteja falando de “lealdade”. – Sua voz era puro veneno. – Quanto tempo levou para nos abandonar? Vinte anos?

O maxilar de Carlisle contraiu. Aro deu um passo à frente e pôs uma mão em seu ombro para acalmá-lo.

— Carlisle sempre foi livre para ir e vir, Caius. – Interveio ele, mantendo o tom de voz cordial para apaziguar os ânimos que se exaltavam. – Nunca falamos que iríamos manter Isabella e Natalie aqui contra a vontade delas. Somente queremos garantir que ambas consigam viver de acordo com as nossas leis. Toda vida vampírica nos é estimada.

Aquilo era uma meia verdade. Aro estimava a vida dos vampiros, sim, mas somente se fossem úteis a ele, e ele ainda busca encontrar uma forma de utilizar Bella. Sua intuição dizia que havia algo de especial nela, não simplesmente uma anomalia que trancava sua mente do restante do mundo. Apesar de considerar todas as possibilidades, sua principal aposta era um escudo. Já havia visto alguns antes e sua própria guarda-costas era um, porém, não pareciam possuir a mesma natureza. Um bloqueava/anulava e outro desviava. Mas precisava de uma confirmação e tinha a pessoa perfeita em mente, bastava apenas que o encontrasse.

Ele já havia encontrado, na mente de Carlisle e suas lembranças. Eleazar Denali. Guardas seriam mandados ainda durante a noite para encontrá-lo no Alasca. Seu segundo melhor rastreador, Abner, estaria chefiando tal incursão.

Se não houvesse tantos ouvidos atentos ao nosso redor, já teria puxado o telefone de meu bolso e ligado para os nossos primos ao norte para alertá-los. Não que eu esperasse que eles fossem fugir, mas que pudessem estar precavidos sobre a natureza daquela convocação e o toda a confusão que encontrariam dentro deste castelo. Estar às cegas é um verdadeiro tormento, sei bem disso.

Bella está tão estranha... mais do que o normal, murmurou uma voz distante. Por seus olhos, vi os pastos sob as estrelas e quem a acompanhava.

— Elas chegaram. – Anuncio, sem emoção na voz. – Estou me retirando. Com licença.

Não irá ficar?, Carlisle questiona.

— Não é o momento adequado – respondo, encarando os anciões.

Aro assente e Caius dá de ombros. Vou embora o mais rápido que posso, tentando não parecer rude à medida que lhes dou as costas.

Em poucos minutos, estou de volta à ala dos convidados, onde Emmett, Esme, Rosalie e Alice aguardam enquanto conversam baixo, aos sussurros. Alice os está mantendo informados sobre o que foi conversado na biblioteca. Seus semblantes são uma mistura de alívio e concentração redobrada. Alice não parece tão otimista, visto que ela sabe dos planos de Aro para contactar os Denali.

Quando chegou ao quarto, ela me mostra o que viu, e a sua visão faz meus ombros tensos relaxarem um pouco. Somente Eleazar viria, sem expor o restante da família a todo aquele estresse. Sem mais reféns.

Esme estendeu a mão em minha direção e eu a segurei, apertando um pouco. A retribuição a fez sorrir.

— Por que não toca um pouco para nós?

A pergunta me surpreende.

— Emmett estava vasculhando os armários deste cômodo e achou um piano embutido dentro de um deles – explicou Rosalie enquanto embaralhava um deck de cartas de baralho nas mãos para que fossem distribuídas. – Não está afinado, mas nada que possa ser considerado horrendo demais. Deve servir.

Permaneço parado e calado. Rosalie me encara e revira os olhos.

Apenas faça o que a mamãe está pedindo. Imagino que o seu orgulho não irá evaporar por fazer algo tão simples.

Olho mais uma vez para Esme, que espera com um brilho de esperança nos olhos que eu aceitei o seu pedido.

— Claro – concordo e ela abre um sorriso alegre e grato.

Emmett me aponta onde está o piano e eu me sento no banquinho. Testo algumas teclas e escalas e percebo que Rosalie não estava mentindo quanto a falta de afinação.

Respiro fundo e começo a tocar a música preferida de Esme, tanto para vê-la feliz quanto para ter algo com que ocupar minhas mãos e minha cabeça desordenada. As notas me fixam em meu lugar, me impedindo de me levantar e andar pelo castelo até encontrá-la.

Me ajudam a digerir o dia longe dela, mesmo sabendo que estava há poucos minutos de distância, no subsolo. Me ajudam a encarar as suas palavras endurecidas que fingi não ouvir pela mente de Abner, Gabriella e Natalie.

Me ajudam a performar normalidade enquanto as ouço falar sobre os mantos e receberem a confirmação de nossa permanência, a qual ela é avessa, para treiná-la, não porque nos odeie, mas porque teme por nossa segurança.

Tão amorosa, mesmo quando tudo está contra ela e sua integridade.

A conversa com Jasper foi a mais difícil de ouvir. — Ela não apenas havia amadurecido nos últimos cinco anos, como também tinha endurecido suas opiniões sobre mim e sobre a família. Mesmo assim, isso não impediu dela aceitar o pedido de desculpas de Jasper, que, no fundo, ainda se sentia culpado por nossa repentina separação, e de ter aceitado falar com Alice. O que, por sinal, deixou minha irmã emocionada.

Continuei tocando, repetindo algumas músicas, estendendo outras, relembrando algumas que há muito tempo eu não performava. — Precisava cumprir minha promessa de não estragar tudo. E eu a faria, até que estivesse tudo resolvido, com todos bem longe daqui e, de preferência, com ela ao meu lado…

O dia veio e eu continuei imerso em pensamentos, bloqueando tudo que vinha de fora. O silêncio era bom. Me fazia esquecer que o mundo desabava conforme os ponteiros do relógio em cima de um criado-mudo giravam.

Já passava do meio-dia quando uma guarda bateu a porta, procurando por Carlisle.

— Temos um problema. — Ele anunciou em uma voz baixa e tensa.

Quando entrei em sua mente e vi Heidi sendo arrastada pelos cabelos através dos corredores do castelo, com uma Bella perplexa e muda logo atrás, meu corpo gelou inteiro.

Minha primeira reação foi me levantar e acompanhar Carlisle, mas fui interceptado por Alice e Jasper. Alice me mostrou as possibilidades, o que aconteceria se eu descesse com eles ou se eu ficasse.

A opção de ficar venceu, ainda que ela não me agradasse o suficiente para ficar tranquilo.

Ela vai ficar bem, não se preocupe.

Franzi o cenho.

“Bem” não era uma boa palavra para definir o estado de espírito de Bella naquele momento; saber que sua família humana não a havia esquecido tinha deixado visivelmente em choque e temerosa.

Sua mente, tão ágil em ligar os pontos, estava enxergando as possibilidades, todas elas, eu sabia disso. Tanto para ela quanto para eles. Ela estava neste mundo agora, sabia o peso da lei e que ninguém estava livre dela, nem os vampiros vivendo no lugares mais remotos do mundo, nem os humanos vivendo suas vidas pacatas, ignorantes das verdades que se escondem nas sombras, prontas para pular seus pescoços.

Só consegui ficar sentado, acompanhando tudo de longe, pois Jasper envolveu a mim e aos demais em um névoa de tranquilidade, permitindo que eu não me abalasse nem quando Bella deu um passo à frente e questionou a decisão de Aro de dar cabo a Heidi, expondo a hipocrisia do ancião, causando um burburinho entre os guardas, um misto de assombro e admiração entre eles.

Fiquei orgulhoso, assim como Esme, Emmett, Alice e Carlisle. Jasper e Rosalie ficaram tão assombrados quanto os próprios guardas Volturi, principalmente Rosalie que ainda a enxergava como uma adolescente emocionada de cidade pequena.

Carlisle puxou Bella para uma conversa a sós, desencadeando uma sucessão de visões em Alice: primeiro, o teor da conversa de ambos; e, logo em seguida, a oportunidade que ela estava esperando. Este futuro era um tanto enevoado, pois dependia das reações de Bella e o quanto Alice estava disposta a ceder, o quanto ela estava disposta a contar. O que a deixava verdadeiramente nervosa. Um nervosismo que beirava o desespero. É, Alice estava desesperada. Todos estávamos, em alguma medida.

O mundo desabaria mais se ela contasse tudo? Era bem provável. Mas eu não me sentia mais seguro sobre as minhas próprias decisões, sobre o que era bom para mim; o que era bom para ela. Estaria sendo cínico em tentar adiar o inevitável, as perguntas e respostas não ditas. — Se Alice achava que deveria falar, era inteiramente de sua responsabilidade. Estava pronto para as consequências, mais do que estava pronto para o seu choro nos braços de meu pai.

— Vá em frente. — falei enquanto ela se dirigia à porta apressadamente.

Eu sei.

A conversa que se seguiu foi exatamente como Alice esperava: muito emotiva e cheia de rancor e confissões de sentimentos reprimidos. Alice esperou pelo ataque, esperou pelo descontrolo, mas ele não veio. Em vez disso, Bella passou por ela como um vendaval: rápido e implacável.

— É melhor vocês saírem. — falei para os demais e para Carlisle, que havia acabado de cruzar a soleira da porta. — Isso é problema só meu.

Jasper, entendo a natureza do meu pedido, arrastou a todos para o mais longe possível, para o quarto disponibilizado mais distante daquela sala e ali ficaram, quietos, porém, com os ouvidos atentos.

Ouvi os passos pesados e a respiração esbaforida de Bella primeiro, quando ela chegou ao topo do último lance de escadas. Era estranho não haver um coração martelando em seu peito ou uma pele suada e corada. — Em vez disso, Bella estava muito pálida e os olhos eram negros como a noite sem estrelas e isso me assustou. Não por temer que ela pudesse avançar em minha direção e me atacar, mas pela escuridão com a qual estava habituado em ver em meus olhos e não nos dela.

Como um espelho da minha própria desgraça.

Bella rosnou assim que me viu, mostrando os dentes.

Qual é a merda do seu problema, seu cretino?! - vociferou enquanto agarrava a mesa diante de mim e a jogava para longe, na parede, espalhando cartas e lascas de madeira por todos os lados.

Bella não deu mais um passo, mas tremia como se estivesse prestes a entrar em colapso.

— Oi. — Foi uma resposta idiota, eu sei, mas foi tudo que consegui dizer naquela momento.

Estava mortificado. Sua beleza imortal era trágica e de tirar o fôlego. Quis tocá-la, para saber se sua pele era tão suave quanto me lembrava. O cheiro eu podia sentir em seu hálito: frutado, como amoras selvagens, mirtilo e laranja; floral, como lírios.

Mas eu não podia mexer. Não apenas porque ela parecia prestes a arrancar a minha cabeça, mas também porque seria invasivo, indelicado, bem fora da minha zona de direitos, tentar uma aproximação.

Bella fez uma careta de dor, ainda com muita raiva.

— Guarde as formalidades pro capeta! — grunhiu, sem paciência. — Cinco anos, cinco malditos anos e você decide que é uma ótima ideia vir atrás de mim? Pôr sua família em risco?

— Alice disse…

— Eu estou pouco me fodendo para o que a Alice disse! Ela é a sua irmã, vai te defender. É da natureza de uma família. — Ela deu um passo a frente, ficando a um metro de mim, meio encurvada, como se estivesse se decidindo me atacar ou não. — Mas, diferente de você, ela teve a decência de me dizer a verdade e não ficar escondida pelo castelo, como uma assombração, ou um covarde!

— Foi escolha dela. — Respondi, porque não havia resposta melhor.

Bella arregalou os olhos.

— E você? Me deixaria no escuro pelo resto da vida? — perguntou, claramente ofendida.

— Se isso fosse garantir que você ficaria segura.

Bella riu, esfregando o rosto com as mãos e me encarando.

— Mas não deixou! — berrou, as mãos fechadas em punhos, pronta para bater em algo. — Esse é o seu problema, Edward: achar o que é melhor para mim! Sempre foi assim. Minhas escolhas nunca foram levadas a sério.

A dor foi como uma agulhada no coração.

— Isso não é verdade! Sempre levei suas decisões muito a sério!

— Mesmo? Porque não foi o que pareceu quando eu disse que queria ficar com você, para sempre!

— Eu jamais a transformaria em um monstro.

— E preferiu arriscar que outra pessoa fizesse isso no seu lugar? — perguntou, sarcástica.

Respirei fundo.

— Está sendo injusta, Bella. O que eu fiz…

— Foi pra me proteger. — me interrompeu. — É, eu ouvi da primeira vez. Mais alguma baboseira moralista pra compartilhar comigo?

Arfei.

— Não aja dessa forma. Você não é desse jeito.

— Tem certeza? — Bella estreitou os olhos, rindo. — Pelo que eu me lembre, vagamente, é que você considera a natureza humana muito volátil. Posso ter mudado por estes anos. Sempre esteve longe, nunca poderia saber.

Bella tinha razão. Mas eu não daria o braço a torcer desta forma, não sobre isso.

— Tem razão, eu não sei o que você se tornou, mas eu sei o que você ainda é. Ouvi a sua conversa com Carlisle.

Bella recuou, o rosto de repente muito sério.

— Não é da sua conta.- grunhiu.

Dei um passo à frente.

— É da minha conta quando não estive por perto para impedir que acontecesse. Perdão. — murmurei, e fui sincero.

Bella percebeu isso, pois sua postura rígida rachou. Um pouquinho.

— Vai se foder. — sussurrou, a voz embargada.

Não pude deixar de rir.

— Onde aprendeu a falar desta forma? Com a Natalie?

— Ela não é tão educada assim. — Bella devolveu a minha provocação. — Mas do que adianta pedir perdão se a merda está feita? Não há nada aqui. Deveriam ir embora. Só temos problemas pra vocês.

Balancei a cabeça negativamente.

— Temos nossas responsabilidades aqui. E já nos comprometemos em ficar por um ano.

Bella arregalou os olhos, alarmada.

— Um ano?!

Dei um outro passo a frente, permitindo que meus dedos avançassem um pouco. O contato repentino a fez despertar de seu choque e rosnar para mim, ameaçadora, e recuar vários metros até quase chegar à porta.

Meu movimento foi totalmente secundário, surpreendendo a nós dois.

Pisquei, atônito.

— Desculpe, foi um impulso. — murmurei, envergonhado.

Bella estreitou os olhos, desconfiada.

— Guarde suas desculpas para quem se importa com elas. — E foi embora, tão veloz e mortífera como quando havia entrado.



- Natalie -



Quando Bella virou no corredor, seus olhos pararam em mim, surpresos. Ela não esperava que eu estivesse tão próxima, evidentemente, mas não podia evitar em me aproximar, ainda mais quando o castelo ficou em polvoroso mais uma vez enquanto ela passava por seus corredores, sem nenhum pingo de misericórdia ou remorso.

— Está tudo bem? — perguntei, mesmo sabendo que não estava tudo bem.

Havia ouvido boa parte da conversa dos dois, principalmente, o ataque venenoso de Bella. O coitado do Edward rapidamente ficou na defensiva, desejando de todo coração que Bella retirasse o que tinha dito. Até mesmo eu, que convivia com ela há três anos, tinha ficado boquiaberta. — De repente, Bella tinha atirado toda a sua gentileza pelo ralo, como se nunca tivesse existido, e isso não era do feitio dela.

O que será que havia a feito mudar de ideia?

— Sim. — respondeu, sem jeito. — Não deveria estar trabalhando? — perguntou e continuou marchando para sabe-se lá onde.

— Já fui dispensada. — Era mentira. Na verdade eu havia fugido de Heidi e seu mal-humor. O estresse dela me dava dores de cabeça, e nem sabia que vampiros eram capazes de sentir dor de cabeça!

— Que bom. — disse Bella, sem olhar para trás e não parecendo estar nada bom.

Passei a seguir em silêncio, por corredores escuros e claros, com cheiro de mofo velho ou secos como as montanhas italianas. Chegamos a um trecho em reforma, na base da torre do relógio. Bella ignorou os tatames, as lonas e os andaimes e começou a subir, tomando cuidado para não pisar em alguma pedra solta pelo caminho.

— Se não se importa, Natalie, — começou ela, um tom de voz frio demais. — gostaria de que me deixasse sozinha.

— Eu me importo. — respondi, seguindo seus passos para não pisar em falso, também. — Você está triste.

Bella riu, sem humor.

— Achei que já estivesse habituada com o meu estado de espírito.

— Estou habituada a não deixar ele permanecer pairando sobre você.

— É claro! A sempre inconveniente Natalie.

Chegamos ao topo. Lá fora, o sol da tarde brilhava forte. Estávamos protegidas apenas por uma lona transparente e empoeirada. Nossas peles reluziam como cristais; uma visão com a qual ainda estava me acostumando. O sino repousava quieto, seu metal oxidado.

— Está sendo cruel de graça, Bells. — Eu a repreendi. — Não estou aqui para ser intrometida. Sou sua amiga. Estamos juntas neste inferno até o fim, lembra?

Bella ficou em silêncio por alguns segundos, encarando o sino como se ele fosse esterco.

— Este inferno sempre foi só meu, Natalie. Você apenas entrou nele sem querer. Um erro de percurso.

— Não pode estar falando sério!

— Estou falando muito sério! — Bella me encarou e eu estremeci. Não havia apenas raiva, mas também uma frieza anormal. Não era a Bells de sempre, nem a Bella vampira estressada. Era pior; era assustador. — Eu não preciso de uma parasita por atenção no meu encalço vinte e quatro horas por dia, só porque não tem nada melhor para fazer.

Aquela não era a Bella. Eu não acreditava nela. Mas nem por isso deixou de doer.

Bells… — murmurei, choramingando.

— Não me chame desse jeito. — Me cortou. — Já tenho preocupações demais para ter que lidar com mais uma. Quando a hora chegar e os Cullen forem embora, faça um favor a si mesma: vá com eles, para o mais longe possível.

— E te deixar pra trás? Onde está a honra nisso?

Bella riu, revirando os olhos.

— Você seduzia e partia de corações de garotos imaturos por puro ego. Até onde eu saiba, “honra” está bem longe do seu vocabulário.

Meu queixo caiu. A raiva subiu primeiro do que o bom senso e controlou a minha língua.

— Você… você está sendo uma grande vaca, egoísta e ingrata, sabia?! - grunhi, nem um pouco amigável e muito chorosa. — Agindo orgulhosa e rancorosa, como se eu fosse desistir de você. Eu não sou tão fraca assim, não. Eu não me abalo por qualquer merdinha de drama mal resolvido! — Me virei para ir embora. — Se quer ficar sozinha, amargurada, pois fique. E espero que pense muito bem sobre suas escolhas, porque elas são bem idiotas, Bella Swan! — gritei por cima do ombro enquanto descia os lances de escadas.

— “Isabella” — Eu a ouvi murmurar atrás de mim, para ninguém em especial. — Somente “Isabella”.

Não parei para perguntar o motivo da mudança e nem para mandá-la tomar naquele lugar. Continuei trotando, soluçando e chorando pateticamente, desejando de todo coração minha Bells de volta, e não aquela versão cruel disposta a queimar pontes e se isolar do mundo, como uma rainha orgulhosa em seu trono e sua torre.

O que te fez mudar de ideia?

Era só a Bella sendo a Bella, lógico. — Sempre pensando nos outros e nunca em si; isso só a machucaria mais. Mas eu sabia que ela era teimosa; recusaria toda ajuda imaginável.

Sempre querendo lidar com tudo sozinha, carregando o mundo nas costas como se fosse a porra do Atlas!

Estava magoada, estava chorosa e estava puta da vida!

Maldição maldição maldição maldição…

Desci até os esgotos por uma passagem por baixo da escada do torreão. As estruturas estavam em frangalhos e seriam trocadas em breve, mas dava para o gasto. Ali ninguém me veria desabar de uma forma tão patética, muito menos fazer fofoca sobre meu descontrole emocional.

Só percebi que tinha companhia quando ouvi seus passos no escuro, bem do meu ladinho.

Dei um pulo e me preparei para me defender do possível invasor, mas quando meus olhos encontraram seu rosto, suspirei de alívio, a mão sobre o coração, mesmo que ele estivesse quieto e morto dentro do meu peito.

— Jesus Cristo, mulher. Que susto!

Gabriela riu, um riso discreto.

— Não quis assustar você, sinto muito. — desculpou-se. — Estava passando e vi você, e que está… consternada. Algum problema?

Gabriela sempre foi uma das guardas mais quietas e discretas daquele lugar. Neutra, a maior parte do tempo. Uma mulher bem decente. E estava genuinamente preocupada comigo e com seja lá o que estivesse acontecendo na minha vidinha caótica.

Outro soluço subiu pela minha garganta e eu comecei a falar: a briga de Bella com Edward e depois comigo, minhas preocupações e minha revolta. — Ela escutou tudo atentamente, em silêncio, respeitosa.

— E agora estou aqui, ficando maluca porque não sei o que fazer para mudar aquela cabeça teimosa da Bella! — Concluí, pondo a cabeça entre as mãos, derrotada.

Gabriela ficou em silêncio por alguns segundos, pensando.

Uma onda de boa e um tanto maliciosa intenção brotou dela, como as ondas suaves de um lago agitado pelo vento do verão.

— E se eu tivesse uma ideia para ajudar você com a sua amiga, — perguntou ela, em um tom doce e cauteloso, como se o que iria me propor fosse delicado; um segredo. — estaria disposta a me ajudar?

Notas finais
Este é o fim do segundo ato. O próximo ato, se Deus quiser!, será o último. Comentem e diga o que acharam do capítulo. Todo comentário é importante.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.