Depois do Clichê
3 Capítulo 3 - Clichê: Descobertas do Acaso
Notas iniciais
Fred ainda estava me abraçando por trás, esperando por uma resposta. Vi o ruivo em minha frente espremer de leve os olhos, a sombra de um sorriso brotou rapidamente em sua boca, ele percebera que eu não havia contado. Respirei fundo. Antes que pudesse me virar para encarar meu namorado e explicar o que acontecera, Oliver falou.
– Ah, então esse é o cara de sexta? – indagou ele – O que não apareceu? – Sua expressão era séria, mas seu olhar o traia. O ruivo estava se divertindo com aquela situação toda. Encarei sua estrutura esguia comparando-a com a de Fred, ele achava mesmo que era seguro comprar com meu namorado? Aliás, por que raios ele faria isso?
Senti Frederick enrijecer atrás de mim, sua respiração se intensificou um pouco e eu sabia que, se o olhasse, veria suas narinas dilatas, levemente rosadas por estar sendo feito de idiota.
– O que ele quer dizer com isso, Minerva? – ele perguntou, cada sílaba saindo pausada e ameaçadora. Mesmo assim, Oliver parecia prestes a rir na cara dele. Respirei fundo novamente.
– Nada além do que eu estava tentando te contar no sábado. – virei-me para encarar meu namorado, sentindo uma leve surpresa por parte de ambos – Lembra de quando tentei conversar sobre isso e você me pediu para esperar até hoje? – Fred balançou a cabeça, concordando devagar, ainda desconfiado – Então… Como você não apareceu no shopping eu acabei doando meus ingressos para um casal, já que os da bilheteria tinham esgotado. Como eu fiquei sem e, aparentemente, a namorada do Oliver também não foi – expliquei, dando ênfase ao “também”, vendo de relance seu rosto se avermelhar -, ele acabou me dando um ingresso e, por falta de lugar, acabamos assistindo ao filme juntos.
Ótimo, eu havia conseguido consertar a situação. Quero dizer, mais ou menos. Parte de mim sabia que Fred não conseguiria lidar com as coisas tão facilmente assim.
– Como?! – Fred perguntou meio alterado – Eu tiro os olhos de você por cinco minutos e você vai para o cinema com outro cara?!
– Na verdade não foi bem assim, colega – Oliver rebateu, mais rápido do que eu – Ela se esqueceu de mencionar que eu a encontrei em prantos, na livraria – completou ele, defendendo-me enquanto encarava Frederick com desprezo, como se estivesse zombando da cara dele.
– Você fica na tua, ruivinho, que o papo aqui é entre eu e ela. – O loiro encarou-o impaciente, voltando sua atenção para mim, em seguida – Então, como é que é, Mi? Cinco minutos de conversa com o cara e já tá indo pra cinema, pedindo pra vir te ver na colégio, qual é em?!
– O quê?! – Senti meu rosto ficar vermelho, as sardas deveriam estar quase saltando para fora da pele. A maneira como ele estava falando comigo me tirou do sério. Aumentei o tom de voz. – Escuta aqui, pra começo de conversa nós não troc…
– Acho que quem deveria ficar na sua é você, colega. Se tem tanto ciúmes da sua namorada, porque não fica perto dela quando ela precisa? – interrompeu-me Oliver, puxando-me para trás dele. Ambos estavam visivelmente com raiva, a tensão no ar era grande e alguns curiosos já haviam se aproximado, ansiosos por uma briga entre o novato e o capitão do time de futebol. É desnecessário dizer em qual dos dois as apostas eram maiores.
– E quem você pensa que é para saber quando ela precisa ou não de mim, novato? – Fred avançava para cima dele, o ruivo permanecia parado, o corpo relaxado – Até onde eu sei você é só um estranho qualquer que, pra começo de conversa, nem deveria estar aqui!
– E você é só um babaca que, além de não merecer a namorada que tem, não possui sequer a capacidade mental suficiente para valorizá-la!
Antes que eles começassem a brigar de verdade, entrei no meio deles, atingindo-os em cheio com um soco na boca do estômago. Meus poucos quilinhos a mais, me conferiam força suficiente para fazê-los ofegar de leve, prestando atenção em mim.
– Já chega! Parem de agir como duas crianças disputando um brinquedo! – gritei com força, meus olhos azuis encarando-os furiosos. – Oliver, honestamente, você me viu apenas uma vez na vida, pare de agir como se soubesse de tudo sobre o meu namoro ou sobre quem eu sou. Você não sabe. – comentei irritada, enfatizando o advérbio de negação. Antes que Frederick sorrisse, voltei meu olhar para ele – E você Fred, deveria para de bancar o ciumento! Eu não fiz nada de errado, nem ao menos trocamos contatos! O fato de Oliver estar aqui é uma surpresa pra mim também… — disse, encarando o ruivo de relance – E, de certa forma, ele tem razão. Se você gostasse de mim na mesma proporção em que tem ciúmes, teria ido, não? Há quanto tempo eu vinha pedindo por isso, custava ter se esforçado um pouquinho?
Nossos olhos não se desgrudavam. Vi a expressão de Frederick ir da raiva para a aceitação e desta para um misto de cansaço e tristeza. Algo me dizia que ele estava escondendo alguma coisa.
– Tem razão, eu errei. – soltou ele, para minha surpresa. Fred era a pessoa mais orgulhosa que eu conhecia, o que estava acontecendo? – Depois a gente se fala, Minerva. – Ele me deu as costas e foi embora.
A mochila nas costas e o ar despreocupado disfarçavam a frustração, mas eu sabia que ele não estava bem. Quase atravessei a pequena plateia que se dissipava para ir até o loiro, mas senti duas mãos segurarem o meu braço direito.
– Acho que ele precisa de um tempo, Mi. – disse Rachel, me encarando de forma compreensiva. Balancei a cabeça concordando, mesmo que incerta. De longe, via-o brincar naturalmente com seus amigos, como se nada houvesse acontecido e, por algum motivo, aquilo era ainda mais doloroso.
– Sinto muito por essa confusão toda – comentou Oliver, cobrindo a boca com as costas da mão, levemente corado.
– Não você não sente! – exclamei irritada – Precisava ter falado todas aquelas coisas?
– Eu menti? – perguntou ele, frio. Eu queria dizer que sim. Não pelo cinema, mas por ele ter falado que Frederick não me merecia, não estava ali quando eu precisava e não me valorizava. Só que na hora as palavras não saíram.
– Não é esse o ponto. – desconversei – Poderia ter levado uma surra, Oliver, eu não quero ser a razão de você ir parar no hospital.
O ruivo soltou uma gargalhada descontraída.
– Então você acha que eu iria apanhar? – ele riu de novo – Sou esgrimista desde os sete anos, atiro com arco e flecha em torneios desde os doze e pratico natação e kung fu desde que aprendi a dar os meus primeiros passos. Posso ser magro, mas sou bem forte, Minerva. Não iria apanhar. – ele afirmou com segurança, embora eu não estivesse muito certa disso.
Algo relampejou por minha mente.
– E como você arranjava tempo para tudo isso? – perguntei com desconfiança. A maioria daquelas aulas era praticada, no geral, duas vezes por semana e os centros especializados nisso não eram próximos, pelo menos não aqui.
– Não sou daqui, meu antigo colégio oferecia. Eu estudava no Instituto J. Eldrick., um internato misto que há na capital.
Eu sabia onde era. Todos sabiam. Rachel me encarava com os olhos arregalados. Esse instituto era conhecido por possuir a maior concentração de gênios do estado. Só estudavam lá pessoas com Q.I. superior a 120. Eu havia sido aprovada nele, apenas não o cursara, porque minha mãe dissera que iria sentir falta de poder me ver sempre que conseguisse uma folga, já que o internato possuía normas bem rígidas – e, acredite, minha mãe sabe ser bem dramática quando quer.
– Então o que você está fazendo aqui? – perguntou Rachel. Ela também havia sido aprovada lá, mas decidiu não ir, pois odiava internatos e só se inscrevera por ordens do pai – Quero dizer, é um dos melhores colégios do país!
– Eu sei – respondeu Oliver, indiferente – Mas meus pais voltaram a morar aqui na região metropolitana e decidiram que me queriam por perto. Então, vim fazer minha matrícula.
Olhei para Oliver. Embora fosse simpático, nunca me passara pela cabeça que ele fosse tão inteligente ou forte como afirmara. “Bem, as aparências enganam”, pensei.
– Nesse caso, seja bem-vindo! – exclamei com um sorriso. Apesar de estar tentando ser simpática, algo me dizia que sua presença ali ainda me traria mais problemas.
Antes que ele me respondesse o sinal tocou e, com Rachel em meu encalço, saímos correndo para a aula de literatura. O senhor Bonnet odiava atrasos. Não me despedi de Oliver, mas imaginei que ele tivesse ido fazer sua matrícula com sua calma singular.
As aulas passavam devagar, os olhos escuros e tristes de Frederick não saiam de minha cabeça. Eu sabia que não era minha culpa, não havia feito nada de errado. Na verdade, meu único erro fora não contar sobre Oliver, mas eu tinha tentado fazer isso, não? Oliver também me irritara, de certa forma, ele sabia que estava provocando Fred, eu só não sabia o porquê de ele decidir fazer algo assim. Como se não fosse o suficiente, as coisas que ele dissera sobre meu namoro com Fred não saíam de minha cabeça. Unindo aquelas palavras ao olhar melancólico do loiro e sua frase final, eu garanti minha própria depressão de momento, que se prolongou pelos quatro primeiros horários inteiros. Enfim, embora eu quisesse entender melhor tudo aquilo, sabia que agora não conseguiria conversar sobre isso decentemente com Frederick, muito menos com Oliver. O loiro estava de cabeça quente, irritado comigo, e eu estava prestes a esganar o ruivo, seu sorriso travesso fazia minha mente dar voltas. Eu odiava quando não entendia algo e, definitivamente, não conseguia entender as atitudes de Oliver.
O sinal para o intervalo tocou. Levei algum tempo arrumando meus materiais de forma metódica na mochila, eu não tinha fome nem pressa de encontrar um dos dois garotos – ou pior: ambos – durante o recreio. Senti o celular vibrar e apanhei o aparelho, era Rachel avisando que sentaria na mesma mesa de sempre. Respondi-a afirmando que estaria lá em breve.
Antes de ir ao refeitório, deixei os materiais da aula anterior no armário, juntamente com a mochila. A próxima aula era educação física, para o meu terror. Como se não bastasse eu ser simplesmente péssima em qualquer tipo de esporte, Frederick também estaria lá. Suspirei. Não podíamos nos evitar para sempre, pelo menos, não por algo tão ridículo. Teríamos que sentar e conversar e seria melhor que fosse logo. Mesmo sabendo disso, meu estomago estava embrulhado.
Apanhei uma maçã na lanchonete e sentei-me junto a Rachel que já conversava animadamente com Nicole. Esta era umas das líderes de torcida também, de cabelos platinados, olhos cor-de-mel e corpo escultural, era bem perseguida pelos garotos, estando sempre junto ao time de futebol. Nunca havia conversado muito com ela, mas – a despeito do que os invejosos espalhavam – Rachel dizia que ela possuía um caráter extremamente correto, apesar de não ser muito inteligente. E eu não podia reclamar dela, Nicole nunca havia me tratado mal, mesmo antes de eu começar a sair com Fred. Apesar disso, não estava muito a fim de conversar com outras pessoas depois do fiasco matinal, então, dirigi-me a ela meio desconfortável.
– Bom dia, Nicole – esbocei um sorriso amarelo.
– Bom dia, Mi! E aí, como foi sexta? – perguntou ela, com seus gigantes olhos caramelados curiosos por trás dos cílios entupidos de rímel.
Encarei Rachel sem entender, mas ela também estava confusa. Ela estava querendo saber sobre Oliver? Era isso? Como se tivesse percebido minha confusão, a loira apressou-se para explicar.
– Ah, é que os caras do time estavam comentando, pareciam bem putos. Pelo que disseram, na metade do caminho para o boliche, o Fred parou o carro, mandou todo mundo descer e disse que tinha que se encontrar contigo. E bem, você sabe que só ele tem carro, então meio que todo mundo teve que ir a pé, porque não tinha ônibus e tudo mais… – Sua voz foi morrendo à medida que suas bochechas coravam. Ela notara que eu não fazia ideia sobre o que ela estava falando.
– Eu não saí com Fred na sexta, Nicole. Ele não foi me ver, porque ia ao boliche. – afirmei categórica, buscando uma explicação lógica para o que ela dizia. Ela pareceu notar meu nervosismo, ficando ainda mais sem graça.
– Bom, foi o que eles disseram, eu não estava lá, então não posso confirmar…
– Só um minuto, Nicole. – pedi, enquanto pegava o telefone móvel afobada, uma pequena faísca brotara em minha mente. Eu não havia lido as várias mensagens que ele me mandara no dia, mas também não as apagara, apenas ignorei. Voltei à conversa até o fatídico aviso e encontrei. Lá estava a confirmação de que precisávamos. Embaixo da carinha triste que se seguira a afirmação de que ele não iria, o display exibia as seguintes mensagens.
“Esquece, tô indo aí, ok? Me espere. Te amo.”
“Mi, você tá aqui? Não consigo te achar…Já foi pra casa?”
“Minerva…?”
“Mi, desculpa! Responde, por favor.”
“Olha, eu sei que fui babaca, mas estou aqui agora. Me deixa consertar isso, por favor.”
“Amor, você tá bem? Me atende, por favor!”
“Minerva, se eu não conseguir falar contigo nos próximos trinta minutos, vou até sua casa.”
E então vinha a minha infeliz resposta.
“Segunda nos falamos. Até lá, me deixe em paz.”
Olhei para Rachel, em choque. Sabia que ela conseguia ler as mensagens tão bem quanto eu. Em seguida, lembrei-me de que ele tinha ligado para ela no dia, perguntando sobre mim.
– Por que não me disse? – perguntei atônita, sem conseguir acreditar no que lia.
– Eu não sabia! – a negra exclamou na defensiva – Ele não me falou que tinha ido ao shopping!
De repente, tudo fazia sentido. O olhar melancólico depois de eu ter afirmado que ele não fora e que, portanto, não gostava tanto assim de mim, a sensação de que ele escondia algo, sua reluta em comentar sobre o cinema, sua disposição para sair comigo no sábado… Fred fora ao nosso encontro. Devia ter chegado cerca de meia hora atrasado, mas fora. Não queria admitir que ficara me esperando, então, omitiu esse fato. Omitiu, porque seu orgulho não permitia que ele assumisse que fizera papel de bobo. Omitiu, porque sabia que eu ficaria frustrada comigo mesma se soubesse daquilo. E, de fato, no momento eu tinha vontade de esfaquear meu cérebro, nunca me sentira tão burra.
Levantei de supetão, guardando o aparelho no bolso.
– Tenho que dar um jeito nisso – afirmei.
Nós dois estávamos chateados um com o outro por coisas que não fizemos e eu simplesmente não podia deixar isso assim. Saber que Frederick havia ido e me esperado por longos minutos, enquanto eu me divertia com Oliver fazia meu peito doer. Mesmo que não fosse minha culpa, eu me sentia arrasada. Machucara Fred. Ele me machucara. Ambos estávamos feridos e se ninguém fizesse alguma coisa, poderíamos nunca nos curarmos. Eu queria costurar aqueles ferimentos, atar nossos laços com tanta força que ninguém pudesse desfazer este nó. O nosso nó. Estava disposta a abandonar meu orgulho pelo nosso namoro e precisava saber se ele seria capaz de fazer o mesmo. Se ele queria que aquilo desse certo tanto quando eu.
Saí correndo pelo refeitório até o campo de futebol, era uma distancia longa e eu não tinha fôlego algum para esse tipo de coisa, mesmo assim, corri como se estivesse prestes a tirar meu pai da forca. Ao deixar a mesa, pude ouvir Rachel murmurando.
– Clichê…– Infelizmente, não pude ouvir o resto.
Atravessei os prédios da instituição com pessoas me olhando torto de todos os lados, além de parecer uma maluca eu estava de saia, não queria imaginar o que viram ou pensaram de mim na hora. Sabia que estava descabelada, suada e ofegante. Minhas pernas e pulmões latejavam, mas eu não podia parar. Quando o avistei, de cima da arquibancada, parei apenas por tempo suficiente para chamá-lo.
– Fred! – gritei para o garoto que arremessava bolas para o outro lado da quadra.
Ele se virou em minha direção, surpreso com meu aparecimento repentino. Desci a longa escadaria correndo, enquanto ele também vinha em minha direção. Quando faltavam apenas cinco degraus, virei o pé e me esborrachei no chão, ralando as pernas descobertas e desfiando o suéter mostarda. Acabei batendo a cabeça em um dos degraus e soube que estava sangrando assim que pus a mão no machucado, ao mesmo tempo em que tentava levantar-me.
– Céus, Minerva! O que você pensa que está fazendo? – perguntou ele, visivelmente irritado, enquanto me forçava a sentar e afastava o cabelo de minha testa, encarando o machucado. Pela cara que ele fez, não estava nada bonito. – Jesus, qualquer criança sabe que não se corre em escadas – Fred sussurrou para ele mesmo, contrariado com minha irresponsabilidade e meus modos desastrados.
Suspirei.
– Desculpe. Por agora. – Senti os olhos marejarem. Eu estava sensível, provavelmente de TPM, e aquelas drogas de machucados doíam – E por antes também. Quer dizer, eu nã…
Fred pôs um dedo sobre minha boca, indicando para que eu fizesse silêncio. Eu sentia algumas lágrimas escorrendo e sabia que seus significados eram diversos. Estava triste pelo modo como sempre acabávamos brigando, frustrada com minhas atitudes, com raiva por ser tão desastrada, com dor graças aos machucados, envergonhada por ter caído e quebrado todo o clima de “cena-romântica-de-filme”…
– Vamos deixar isso para depois, okay? Você tem que ir à enfermaria, talvez precise levar alguns pontos – Meus olhos se arregalaram diante desta perspectiva – Não é tão ruim, tá? Eu te levo até lá.
O sorriso dele era calmo, mas seus olhos estavam cheios de preocupação. Por mais que brigássemos, por mais que machucássemos um ao outro, sempre cuidávamos um do outro também. Frederick fazia eu me sentir amada, plena.
Contra os meus protestos, o loiro sarado me ergueu em seus braços.
– Shhh! Eu sei que você torceu o pé, não quero discussões com relação a isso. Eu vou te levar no colo. – afirmou ele, firme, deixando-me sem escolha.
– Mas, eu não quero ir pra enfermaria agora! Não foi pra isso que eu me esforcei tanto – bufei –, vim para falar com você.
– Minerva, – ele respondeu sério. Eu simplesmente adorava quando ele dizia meu nome desta forma – eu sei que você veio aqui para conversar comigo, ninguém em sã consciência iria até o estádio correndo, só para se jogar da escada e ser levado para a enfermaria. – Sua testa estava franzida de preocupação – Eu não sou tão burro. Tem certeza de que não bateu a cabeça com muita força?
Dei um soco de leve em seu peito e, em seguida, rimos juntos. Realmente, minha afirmação havia sido idiota.
Mesmo sendo forte, eu sabia que Fred estava cansando. Subira todas as escadas comigo no colo e agora atravessava o campus da mesma forma, ainda assim, ele se recusava a me deixar andar. Todos nos encaravam, provavelmente reconhecendo a maluca que passara por ali correndo minutos antes. Atravessamos a secretaria, onde acabamos nos encontrando com Oliver, que deixava o local. Fred apenas ignorou o ruivo, que me encarou com preocupação. Devolvi a ele um olhar e um sorriso que significavam “Está tudo bem, juro” e ele revirou os olhos. Em minha mente pude ouvi-lo dizer “Idiota”, fala que se pudesse ser proferida na vida real, aconteceria enquanto o ruivo acertava minha cabeça com a agenda que trazia em mãos.
Frederick não demonstrou notar nossa conversa silenciosa e apenas continuou me levando até a enfermaria. Ou talvez ele estivesse muito cansado para discutir. Chegando à ala hospitalar, Fred deitou-me em uma maca, explicando à enfermeira o que havia acontecido. Assim que terminou de falar, o sinal que denunciava o fim do intervalo tocou e a mulher magrela foi expulsando-o do recinto, obrigando-o a ir para a aula. Antes que ele me deixasse, segurei sua mão.
– Vamos esquecer tudo, okay? Começar de novo ou, quem sabe, consertar o que já temos… Sei que podemos conseguir isso – pedi baixinho, mordendo o lábio inferior.
– Sim, Minerva. Vamos. – ele deu um beijo na ponta de meu nariz e pudemos ouvir um pigarro de reprovação da enfermeira – Amo você, não vou te perder.
Antes que eu pudesse respondê-lo, Frederick deixou a enfermaria e a moça – que mais tarde descobri se chamar Nancy – cuidou de meus ferimentos. No fim, precisei levar três doloridos pontos na testa, embaixo da franja, e enfaixar o tornozelo, já que eu realmente havia torcido o pé. O resto dos ferimentos eram arranhões superficiais e eu acabei dispensando os band-aids. Não seria necessário usar muleta, mas Nancy insistiu em afirmar que eu poderia pegar uma se quisesse, além de fazer um atestado me livrando das aulas de educação física do trimestre.
Agradeci-a e caminhei devagar até a quadra coberta, onde mostrei o atestado para o professor, que anotou minha presença no livro de chamada em todos os dias do período em que eu não precisaria frequentar as aulas. De longe, Fred acenou para mim após fazer um gol no futebol de salão e eu respondi jogando-lhe um beijo, sentando-me, em seguida, em um banco do pátio para telefonar para minha mãe explicando o ocorrido, antes que ela surtasse com a ligação do colégio. Assim que abri o telefone, recebi uma mensagem de Dorothy, a loirinha do cinema.
“Eu e Roger vamos a uma lanchonete hoje à noite. Por que não vem junto? Traga seu namorado e alguns amigos, vamos em grupo, até meu irmão tirou uma folga! Segunda-feira pede diversão!”
Eu quase podia ver a loirinha implorando por aquilo com seus olhos verdes brilhantes. Respondi-a com um sorriso.
“Vou ver se consigo, em todo caso, nos encontramos aonde e que horas?“
Alguns segundos depois, senti o celular vibrar.
“Nos vemos às 18h no Barbados. YEY!”
Ri de sua empolgação antes mesmo de eu ter confirmado – embora também estivesse empolgada, Barbados era uma franquia de lanchonetes árabes que eu amava – e me aproximei devagar, cautelosa, da grade da quadra coberta. Em seguida, acenei para que Fred se aproximasse e ele pediu um tempo no jogo.
– Está melhor? – ele perguntou, acenei com a cabeça, confirmando, em seguida perguntei.
– Quer ir ao Barbados hoje à noite? Uma amiga minha me convidou, disse que podemos levar alguns amigos…
– Beleza! – ele exclamou, tirando a camisa para limpar o suor do rosto, exibindo o marcado peitoral para o meu deleite – Vou conversar com alguns caras do futebol, chame a Rachel e mais algumas pessoas, okay?
Ele parecia feliz por fazermos um programa entre amigos, assim ele não precisava escolher. Aquilo era bom, talvez estivéssemos aprendendo a conciliar os nossos desejos. Concordei de novo.
– Vamos de metrô? Se eu te conheço bem, não vai caber todo mundo no carro.
Ele gargalhou.
– Quem você quer chamar? Pensei no Jason e no Douggie. O Jason provavelmente vai de moto, então…
– Acho que, então, seria legal se além da Rachel, levássemos a Hellen,… Nós sabemos que ela e o Jason vêm flertando desde que os apresentamos, não há nada de errado em ser cupido às vezes… — ele riu comigo.
– Ela pode ir de moto com o J., ainda temos um lugar — afirmou.
– Nicole? – perguntei – Ela é legal, aposto que vai se divertir com todo mundo.
Ele concordou, acenando para mim enquanto voltava para o jogo que estava parado há um bom tempo por sua causa. Liguei para minha mãe, explicando o ocorrido. Ela ficou bem preocupada, ralhando comigo por eu ter corrido nas escadas e me recomendando diversos cuidados, em seguida, disse-me que ficara fora por cerca de uma semana, pois estaria dando palestras e que papai também não tinha a previsão de outra folga. Assim que desliguei o telefone, mandei algumas mensagens para as garotas e todas confirmaram. Hellen, em particular, parecia muito empolgada. Ela era do tipo tímida, sempre com roupas folgadas e fones no ouvido, cabelos escuros escorridos, cobrindo parte do rosto, e estatura esguia. Mas a verdade é que adorava adrenalina, talvez por isso gostasse de Jason. Ele tinha uma moto, era descolado e fazia o tipo “bad-boy” com seu visual a lá Alex Turner* que combinava completamente com Hellen, por alguma razão desconhecida. Havia boatos de que eles já haviam sido flagrados por outros alunos fazendo coisas feias no banheiro, mas ninguém tinha como confirmar aquilo – não que alguém duvidasse.
Nicole animara-se também e Rachel aparentava estar indo apenas para não ficar em casa, embora eu soubesse que devia estar tão empolgada quanto nós três. Segunda-feira era um daqueles dias em que, se você não fizesse nada, iria ficar entediado e rabugento como uma velhinha solteirona.
Quando a aula terminou, fui deixada em casa por Fred que, como estava de carro, deu carona para mim e para Rachel. Tomei um banho de água fria, já que o dia estava incomumente calor, e escovei os cabelos curtos. Indecisa sobre que roupa usar, acabei optando por um vestido vermelho de alcinhas, cuja saia era bem rodada. Meus saltinhos nude, um relógio e minha bolsa transversal completaram o look. Quase arrisquei um batom vermelho, mas acabei decidindo cobrir os lábios com um gloss de morango e os cílios com uma fina camada de rímel. Coloquei a carteira cuidadosamente dentro da bolsa e desci às escadas, avisando à Anne que não jantaria em casa. Mal havia terminado de explicar o porquê à preocupada senhora, quando ouvi uma buzina que reconheci como sendo a do carro de Fred. Joguei uma das chaves de casa na bolsa e entrei em seu carro alegre, vendo que Rachel e Nicole já estavam ali. Em seguida fomos buscar o Douggie – Jason e Hellen se arranjariam sozinhos – e rumamos para o Barbados, algo em mim dizia que aquele seria um dia importante.
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