Depois de tanto tempo.
1 Capítulo Único. — Irmãzinha.
Diziam que a casa era assombrada. Há alguns anos, o casal que vivia nela morreu de repente, e um dos dois filhos desapareceu. O filho restante acabou por morrer num acidente doméstico, mas dizem que isso é apenas para esconder que se matou de tristeza.
Em parte, aquilo havia sido verdade. Porém, como as pessoas de fora não podem ter certeza do que aconteceu dentro de uma casa que não conheciam, elas exageram e falham em alguns pontos.
...
A sala estava vazia de gente viva. Todos os móveis estavam empoeirados. Não havia muita luz nem vento, já que as janelas haviam sido fechadas com tábuas. Um cenário terrível para alérgicos a poeira. Sorte que a única moradora dali não tinha essa alergia. Na verdade, tinha nenhuma alergia, já que era um fantasma.
Flutuava pela casa vazia com tédio. Os longos cabelos loiros e cacheados quase encostariam o chão se não estivessem amarrados por um laço preto. Não era possível ver os braços, já que estavam cobertos de uma longa manga de um vestido que se mesclava com a pele, já que ambos eram brancos. Uma cauda fantasmagórica que estava no lugar das pernas seguia mantida em forma espiral enquanto a dona da mesma "andava". O olhar preocupado e solitário era às vezes atrapalhado por um dos grandes cachos loiros que formavam a franja que cobria a testa.
O fantasma da casa, o segundo filho, era uma menina. Vivia esperando que o irmão, que havia se tornado um aprendiz de um homem de areia, dono e controlador de sonhos.
Sentou-se em uma poltrona empoeirada, suspirando. Não conseguia sair daquela casa, nem ver o lá fora mudando. Não descansava e nem se cansava. Que saco! Naquela espera eterna, a única entediada era ela. Até havia esquecido-se de seu nome nesse meio tempo.
Quando ouviu um barulho vindo de fora, a menina se preparou para espantar mais um dos "caça-fantasmas" com aspiradores de pó da tia, e celulares com aplicativos para ver fantasmas. Porém, quando abriram a porta, ela percebeu que não era mais uma daquelas crianças.
...
Parecia que havia passado milhares de anos desde que tinha visto aquele rosto pela última vez. Os olhos da cor do céu e os cabelos feitos dos raios do sol. Seu irmão mais velho havia voltado para uma visita.
— Ângelo. — a menina se aproximou do rapaz. — Por que demorou tanto?
— Negócios. Passei no teste. Consegui transformar um sonho em realidade. Estou livre, de verdade.
— Oh... Então... você consegue me tirar dessa forma?
— Sim. — ele sorriu.
Ele tirou as partes de uma flauta tranversal do bolso, e a montou na frente da irmã. Pôs o instrumento nos lábios e tocou uma melodia bonita. A cauda fantasmagórica da irmã foi se dividindo em dois e tomando a forma humana. Parou de flutuar e sentiu o chão finalmente. O longo vestido branco continuava, do mesmo jeito que o enorme cabelo loiro. Quando a transformação terminou, a menina abraçou o irmão, depois de tanto tempo.
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